Elton Medeiros - Um esteio popular do samba

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O administrador de empresas, formado pela Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro, Elto Antônio de Medeiros, é um cidadão (muito) brasileiro, carioca que beira os 80 anos. Como Elton Medeiros, é autor de inúmeras obras que se inserem nas mais brilhantes páginas da música popular brasileira e ele afirma ter soado a hora de o Brasil verdadeiro esco-lher o seu próprio destino, em razão da cultura que o povo construiu ao longo dos séculos, mesmo vivendo sob a destruidora dominação estrangeira.

Elton figura entre os mais importantes compositores do Brasil, respeitado por seu talento, tanto pelos da sua geração quanto pelos jovens que dominam as rodas de samba. Já nem se lembra há quanto tempo ele repudia a herança de violência recebida, primeiro, da Europa, depois, do imperialismo do USA e seus comparsas, sempre denunciando:

— Você liga o rádio e vê o espelho da política cultural do país e da omissão do governo. O rádio brasileiro não transmite, não ensina, não divulga o que o brasileiro criou de mais respeitável da cultura brasileira. Ele tenta ser modelo de cultura estrangeira [o pior da cultura estrangeira], embora todo mundo saiba que na realidade a cultura do mundo inteiro não tem dono. E quem não tiver coragem de se impor diante do que se divulga e do marketing cultural, vai ser engolido. O país atravessa um momento em que o brasileiro tem de ser forte. Ele está decepcionado com esse quadro político em que os corruptos são prestigiados, e forçado a esquecer o passado bem recente das falcatruas. O brasileiro está adquirindo maturidade política, tornando-se capaz de distinguir entre o certo e o errado dentro dos princípios culturais, mas tem que carregar esse negócio de desenvolvimento de 0,5 % em um trimestre. Tudo para dizer que o brasileiro vive preocupado com outras coisas, como depósito bancário, lucro bancário etc., e que despreza a situação dos hospitais e escolas caindo aos pedaços. Essa inversão de valores que nos atribuem é muito preocupante.

Elton teve aulas de música com ninguém menos que Villa Lobos e Pixinguinha. É pioneiro de diversos movimentos importantes para a música brasileira. Pertenceu à formação inicial do conjunto A Voz do Morro, brilhou no histórico show Rosa de Ouro — nas companhias invejáveis de Aracy Cortes, Clementina de Jesus, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Paulinho da Viola e Nelson Sargento, em 1965 — e é criador, juntamente com Cristina Buarque, da Roda de samba e choro, um marco na vida artística e cultural do Rio de Janeiro, a do bar Bip-Bip. Tem, assim, muito conhecimento de causa quando fala no recente evento do “Ano do Brasil na França”:

— Muitos foram para tapear; outros, escolhidos a dedo, enquanto grupos importantes ficavam no Brasil, para que amigos de autoridades fossem lá para fora. Mas a música brasileira, apesar de toda opressão, ainda está viva, assim como os seus criadores honestos que se negam a viver de bajulação, a procura de lucros absurdos ou dinheiro de procedência duvidosa.

Produtos de escritório

Elton Medeiros ressalta que os segmentos sociais de menores recursos “estão à deriva de tudo”:

— O que vende no mercado — aponta — é a cópia mal acabada da cultura verdadeira, que é até considerada pitoresca. Isto não pode continuar saindo do escritório atapetado de um produtor musical que viajou para Europa ou USA e promoveu uma transformação forçada para obter a aceitação comercial daquele produto. A cultura se chama produto; o cantor se chama produto; só falta embalarmos o sujeito com códigos de barra, agora! A cultura não pode ser tratada deste modo, mas de forma absolutamente humana. A divulgação desse produto (cultura) tem que ser feita com certo cuidado, para não violentar a raiz da sua existência. Eu sou testemunha de uma geração que está acabando! Se eu tocar no estilo serenata, hoje em dia, em certos lugares eu sou vaiado. A cultura está desorientada! A cultura musical e coreográfica tem sido toda transplantada.

Parceiro de Cartola, Carlos Cachaça, Zé Kéti, Paulinho da Viola, Mauro Duarte, Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro, Paulo Vanzolini, Eduardo Gudim, Sérgio Ricardo, Délcio Carvalho, Tom Zé e Hermínio Bello de Carvalho, Élton acusa:

— O cara que é mercantilista de cultura pouco se importa com o transplante. Ele pega um molequinho da favela, fantasia de negro do USA e bota na televisão dizendo que a moda é essa, que vão gravar um disco com ele e começa a divulgar. O cara forma um grupo. E a partir daí começa a ganhar dinheiro porque faz marketing e aí começa a vender disco. De repente, nunca viu tanto dinheiro na mão. Depois, ficam pintando de verde e amarelo a lambança que fizeram antes, tentando abrasileirar de todas as formas a “obra” mercantilista.

O moralismo dos submissos

Para o compositor, este fenômeno recrudesce nos períodos de ditadura sem máscaras, de fascismo escancarado. Recorda que, na época de Getúlio Vargas, não se podia criticar o sistema por ele implantado. A ditadura admitia, no máximo, exaltar de forma humorística a sagacidade e a malandragem do ditador:

— Se ele fosse politicamente atacado — lembra — aí o bicho pegava. Em 1952, quando Getúlio foi novamente eleito, o Brasil perdoou as dívidas de guerra do Paraguai. E eu fui detido porque estava namorando debaixo de uma árvore no momento em que a caravana do presidente do Paraguai passava por perto. Olha só o tamanho do falso moralismo da ditadura! E se cria a imagem que, depois, o brasileiro acaba passando a mão pela cabeça de quem se proclama protetor dos pobres. Mas o brasileiro, de fato, precisa se instruir politicamente. O povo precisa defender mais fortemente sua cultura; lutar realmente pela sua melhoria de vida. De tanto sofrer, esse constante mal-estar do brasileiro faz com que ele não se realize com os recursos devidos; com apoios devidos, inclusive com a prática da arte, tão necessária ao ser humano. Por outro lado, colegas meus famosos, realmente excelentes criadores, fazem discos maravilhosos, mas não têm suas músicas divulgadas nas emissoras de rádio. No lugar delas, nos impõem essas coisas empacotadas, que encontram acesso em todos os canais de divulgação, do rádio até à televisão com suas novelas.

Élton denuncia que

— Atrás disso, emissoras criam programas falando de bairros e periferias. Lá, eles colocam músicas que aparentemente representam a localidade, mas são músicas transplantadas para ali e que já tem até um respaldo da indústria fonográfica. Há mancomunação e subordinação. Não há um discurso legítimo a respeito dessa relação, mas um discurso muito superficial. Quem cria uma cultura popular e democrática de fato tem que matar um leão por dia. Vai trabalhando como pode, sem a menor proteção. Eu prefiro me cercar de pessoas que comunguem esse pensamento e vou lutando.

O compositor recorda que nasceu na Glória, uma região de muitos ranchos carnavalescos em época que não havia televisão, em que o rádio era emergente.

— Meu pai saiu na Corbeille de Flores. Uma de minhas irmãs, ainda viva, com 90 anos, também saiu na Corbeille, fantasiada de borboleta. Os ranchos foram os precursores das escolas de samba. As escolas de samba copiaram dos ranchos algumas coisas e as adaptaram como, por exemplo o mestre sala e a porta bandeira. No rancho era o mestre sala e a porta estandarte. Ninguém saía dançando com a bandeira, mas com o estandarte. O pavilhão ficava na sede, geralmente nas sacadas das sedes, hasteado.

Ela quebra barreiras

O compositor brasileiro nunca dispôs do espaço que lhe cabe por direito para se realizar como tal. Em décadas passadas, as grandes casas de espetáculos eram reservadas para os astros estrangeiros e as produções de luxo colonizadas, imitações da Broadway, Moulin Rouge etc. Para os artistas brasileiros sobravam os auditórios das censuradas emissoras de rádio e os cabarés. Mas, é certo que mesmo assim, ainda havia emprego para os músicos.

— Por outro lado, era o que havia para ser chamado de bom mercado de trabalho para músicos. Todos com música ao vivo, das 6 horas da tarde que ia até 6 horas da manhã do outro dia. Grupo, orquestra e conjunto. A banda tinha outro significado. Não esse, atual, que é estrangeiro. Hoje, quando eu vejo a Lapa promovendo apenas a preocupação financeira dos artistas e dos empresários, percebo que as pessoas que trabalham e atuam na área cultural do Rio de Janeiro não sabem [e querem saber?] da verdadeira história da Lapa, não sabem das tradições da Lapa, não respeitam as tradições da Lapa. O clima é revivido pelos artistas e os empresários que estão restaurando prédios; alguns artistas foram para lá cantando debaixo dos Arcos.

Aliás, é importante ressaltar que o samba, pela sua origem no proletariado urbano, sempre foi relegado aos espaços mais marginalizados, mas isso não impediu que ele ganhasse a rua e caísse no julgamento favorável do povo, com a adaptação dos maxixes, polcas, marchas e lundus, já do agrado da massas daquela época. Herdeiro da tradição de Ismael Silva e da primeira escola de samba, a Deixa Falar, Elton é um orgulhoso membro do time dos mais elegantes compositores de samba do Brasil.

Exemplos disso são as músicas Unha de gato e Arte culinária (ver Box), que mostra uma operária com sonhos de mudança de vida, mas, sem os recursos necessários, acaba falando sozinha.

Desde pequeno

Depois da Glória, o compositor foi residir em Brás de Pina, subúrbio do Rio, para onde seu grupo levou a idéia do bloco de rua.

— Meu irmão fundou um bloco e ali. Naquele bloco eu fiz a primeira música com 8 anos de idade, influência de meu irmão. Eu fiz um samba todo errado, a música era uma colcha de retalhos que não tinha sentido. Aí meu irmão ajeitou. Era a época onde se cantava muito, época onde predominou a serenata em que os cantores eram tenores que passavam pelas ruas cantando músicas românticas.

Elton Medeiros faz questão de registrar que nada tem a ver com as escolas de samba da atualidade:

— Noutro dia fui convidado para ser jurado. Já fui comentarista de carnaval pela TV Cultura e TV Globo, para a rádio Roquette Pinto, para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Nessa época já não se fazia mais samba. O último desfile que eu fiz na escola de samba foi em 1968, pela Unidos de Lucas, minha escola, que está no grupo A, se eu não me engano. Eu sou um dos fundadores dessa escola, que é a fusão da Aprendizes de Lucas com a Unidos da Capela.

Atualmente, o compositor permanece às voltas com um disco, gravado no ano passado pela reputada e brasileiríssima gravadora Acari com o título Bem que mereci. O disco tem parcerias com Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva. A faixa título foi composta a quatro mãos com Paulinho da Viola, que é o mais constante parceiro de Elton.

— É um disco que eu gosto, que está na praça e que eu venho apresentando em shows. Mas não paro de fazer música, jamais apenas por fazer. Só quando tenho necessidade criativa de chamar o meu lado artístico. Então eu fiz esse disco com alguns parceiros. Quase todo disco meu eu coloco, assim como o Paulinho também coloca, uma música de nossa parceria, e eu geralmente regravo uma música nossa e coloco uma música inédita. Eu sou o mais constante parceiro de Paulinho. Ninguém fez mais música com o Paulinho do que eu e nenhum outro parceiro fez mais música comigo do que o Paulinho. Desde os tempos de escola de samba até agora. É o meu mais constante parceiro.

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Unha de gato

Elton Medeiros

Benedito Pereira era um homem comum
Era pobre, dinheiro não tinha nenhum
Era um pobre coitado, apenas mais um
Morador lá do morro
Se amarrava num samba e sem nenhum favor
Era forte nas rimas sofridas do amor
Não fazia arruaça,
Era até boa praça e trabalhador
Todo dia descia no trem da Central
Carregando a marmita embrulhada em jornal
Domingo era visto em pé na geral
Lá no Maracanã
Mais um dia num bar de esquina
Ele foi apanhado sem os documentos
Passou muito tempo entre maus elementos
E o que ele aprendeu nem preciso contar
Hoje ele mudou
Já não é mais aquele sujeito pacato
É mais conhecido por Unha de Gato
E pro morro voltou
É mais um marginal


Arte Culinária

Elton Medeiros

Está aprendendo agora a arte culinária
Já não quer ser mais aquela operária
Que levanta cedo e volta sempre às 6 pra jantar
E quer decididamente abrir academia
Vai botar de lado o nome de Maria
Porque ser madame foi o que ela sempre sonhou

O seu negro vira-lata até foi doado
Ao joão da venda que mora do lado
Diz que um são bernardo pura-raça vai conseguir

Depois que fizer sucesso e ganhar muita grana
Enganando a gente que se diz bacana
Vai correr o mundo e não pretende se despedir

Não sei o que foi que deu na idéia da Maria
Que deseja mesmo abrir academia
E não tem sequer para tomar café da manhã

Eu vou tentar acabar com sua mania
Só para não ver o que vi outro dia
Falando sozinha coitadinha, quase tan-tan

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