Morador de rua defende o povo

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Na fase de ruína total do capitalismo — que tem como base o monopólio da propriedade privada, dos meios de produção e na exploração do trabalho pelo capital, nas colônias e semicolônias como o Brasil — o desabrigo torna-se um componente das condições de vida do povo.
Morar na rua é uma das condições mais ultrajantes de existência. Mas o desprezo das classes dominantes pelo direito à habitação — por aqueles que já não possuem o mais insignificante meio de produção —, torna-se parte da ética da grande burguesia.

Osvaldo Emídio, 47 anos, forte, bem humorado, indigna-se com a condição que lhe é imposta. Ele sabe que roubaram dele o seu direito ao trabalho devidamente remunerado, a tal ponto que é obrigado a morar na rua. Apesar dos percalços que passa, Emídio não se intimida e denuncia, a todo o momento, a exploração contra aqueles que apenas possuem de si as faculdades físicas e intelectuais para produzir. É uma exploração que não cessa, mesmo quando a condição da vítima já evolui para a fase do completo desamparo.

Ainda que desabrigado (e trabalhando duro na coleta de papelões por toda Copacabana), Osvaldo escreveu recentemente um livro Morador de rua, cidadãos em estado de emergência — com apoio de uma produtora independente, TV Bobo [www.tvbobo.com] — onde narra, através da sua experiência, as diferentes situações em que se encontram as pessoas negligenciadas pelo Estado. A produtora, que também não tem sede própria, mesmo sem recursos organizou, revisou e imprimiu em computadores públicos uma matriz, cujas cópias devem ser vendidas por Osvaldo, para arrecadar fundos destinados a publicar o livro no formato definitivo e distribuí-lo nas livrarias da cidade e do país.

Osvaldo explica que não tem ilusões. O que defende é a moradia para todos e que ninguém deve ficar ao relento e sem um trabalho devidamente remunerado. Não pode haver projeto honesto que não parta desses princípios. No entanto, como pode um ser humano esperar por dias e dias sem ter o que comer e totalmente desprotegido? Além de trabalhar, sob o sol e a chuva, de manhã à noite, sob o mais escaldante calor ou frio penetrante, Osvaldo sai em busca de comida para os seus colegas de infortúnio, porque muitos nem força mais têm para isso.

Explica Osvaldo, é totalmente leviana a imagem de que, para manter sua existência a um mínimo necessário, os desabrigados dedicam suas intranqüilas horas à mendicância e ao vício. Os que fazem esse tipo de acusação ignoram até mesmo que, hoje, gente com carteira assinada, por exemplo, dorme na areia porque não pode pagar condução para retornar a casa todos os dias.

Osvaldo, que além de motorista tem várias profissões, vive há oito meses debaixo da marquise de uma loja de materiais de construção na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, após o incêndio da casa onde morava em Campo Grande (Zona Oeste do Rio de Janeiro) promovido por um vizinho viciado em drogas, conforme ele diz. Realidades semelhantes à sua trajetória de vida — falta de trabalho, a perda da casa, rompimento dos laços familiares e outros agravantes sociais — estão presentes no bairro mais famoso da cidade.

Para não ser engolido pelo sistema, Osvaldo tem um carro de mão, com o qual recolhe papelão e material reciclável nas madrugadas de Copacabana, de onde retira algo para comer.

Vindo de Minas Gerais, Osvaldo chegou ao Rio ainda na adolescência. Trabalhou como pedreiro, dono de ferro-velho, dono de bar, vendedor e feirante, motorista de deputado, líder comunitário e até presidente da associação de moradores. A morte bateu em sua porta oito vezes, tendo de dez vezes deixar tudo para trás. Desde cedo, teve que "arregaçar as mangas", enchendo caminhões de pedras, tijolo e cimento. Escola, nem pensar. Em 1990, foi líder comunitário de cinco ocupações de terra em Campo Grande onde sua chapa ganhou a diretoria da associação de moradores por unanimidade. Porém, logo em seguida, retiraram-no da presidência sob a alegação de ser ele um homem sozinho, sem família e ameaçado de morte. O único caminho encontrado foi viver nas ruas de Copacabana.

Ao se percorrer todos os dias o caminho da penúria material e intelectual, é fácil verificar que as mínimas e mais prementes necessidades dos desabrigados lhes são inteiramente negadas. Um exemplo é a necessidade fisiológica. A pequena burguesia empobrecida de Copacabana reclama que as calçadas do bairro acham-se cobertas de fezes e urina, responsabilizando os desabrigados. Ninguém, entretanto, movem uma palha para por fim à situação: só sabem pedir a remoção dos desabrigados para longe de seus olhos.

Recorda Osvaldo:

— Essa gente acomodada não tem coragem de defender nem a praia, que vai sendo privatizada pelas redes de hotéis.

Depois explica:

— Os moradores de rua são aqueles que vivem ao desalento e as famílias desagregadas que ainda não podem recuperar a energia agredida. Não possuem casa nem família para reequilibrar suas estruturas e participar do processo produtivo. Devemos tratar a pessoa que vive na rua como se fosse um membro da nossa família, porque essa pessoa tem tudo para trazer resultados surpreendentemente benéficos à sociedade, se permitirem que ela viva condignamente.

O culto à ignorância

Osvaldo passou por dois abrigos, aos quais se refere como presídios disfarçados, pois lá recebia advertências constantemente. O primeiro abrigo era uma casa de "recuperação", onde os monitores, segundo Osvaldo, eram intratáveis:

— Eu fui para essa casa com a intenção de me abrigar, devido à condição degradante a que estava submetido. Eu precisava urgentemente de um teto para tomar fôlego, planejar algo. Mas naquele lugar se concentrava uma instituição religiosa, cujos monitores atuavam como falsos profetas, escravizando pessoas como eu.

Ele permaneceu por cinco dias nessa casa, no quilômetro 32, em Campo Grande, Abrigo Ebenezer. Eram distribuídas tarefas. A dele era a de limpar o salão da igreja:

— Pela parte da manhã, todas as cadeiras tinham que ser colocadas para fora da igreja. Passei pano molhado no chão e depois recoloquei-as dentro, organizadamente. Depois do almoço, ao invés de outras tarefas, mandaram fazer o mesmo trabalho da manhã. Então eu achei um absurdo. Se você já fez e ficou bem feito, por que fazer novamente? Quando houve uma reunião na igreja eles ainda tiveram o cinismo de perguntar se alguém estava gostando do tratamento recebido, dirigindo um sorriso irônico para todos presentes. É uma mentalidade de escravidão, forçando a pessoa a seguir um caminho violento. É um massacre do sistema. Eles ainda zombam da nossa cara.

E acrescenta:

— Diante disso, peguei minhas coisas e abandonei o abrigo sem nenhum recurso para voltar para Copacabana. A sorte minha era um cartão telefônico que vendi pela metade do preço para pegar um ônibus até a Central do Brasil. De lá até Copacabana eu fui a pé. Os funcionários dos abrigos fazem de tudo para os moradores voltarem às ruas.

Quando foi encaminhado ao abrigo da prefeitura, já precavido dos maus tratos recebidos na instituição religiosa, Osvaldo conviveu com os "educadores" da Guarda Municipal, na Cruz Vermelha, e relatou:

— Em um dia de humor alterado, a assistente social da prefeitura disse que mendigo tem que morrer para não dar mais trabalho. Ela disse ainda que o governo deve educar as crianças para que não virem mendigos. Como haverá recuperação para os mendigos se a falta de educação parte dos profissionais educadores? Outro dia, a Guarda me expulsou do calçadão de Copacabana, onde eu estava exibindo meu livro. Se eu não atendesse às ordens, eles me tomariam o carrinho, que é o meu ganha-pão. Tive que engolir a humilhação.

Na última semana de outubro, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, numa sessão à qual compareceram apenas três vereadores, uma senhora — condecorada por reagir a um assalto atingindo o agressor — discursou propondo que a população de rua fosse embarcada em navios e levada para alto-mar. Foi aplaudida por uma platéia constituída por militares da reserva, policiais e moradores da zona sul.

Também na zona sul, outros moradores usam o monopólio dos meios de comunicação (tidos como formadores de opinião) para culpar desabrigados pela desvalorização de seus imóveis.

Governo para quem?

A ganância desenfreada pelo bem material escraviza as pessoas, fisica e espiritualmente, já que orientam seu comportamento para o de consumo, gerando os desvios, a complacência com o erro e o medo. Há moradores de rua que, desesperados, furtam, durante a madrugada, os pertences de pessoas em idêntica situação:

— O verdadeiro caminho da democracia é o poder exercido pelo povo. O poder de definir os destinos da nação e o seu próprio, capaz de fazer com que as pessoas tirem da cabeça a auto-suficiência, quando dizem tolices assim: "Eu já pago meus impostos e não tenho obrigação de dar mais dinheiro para resolver problema social algum. Porque este é o dever do governo — destaca Osvaldo.

Ele aprofunda:

— Nenhum de nós quer que a população pague mais impostos ainda. O que se trata é que um governo tem que cumprir com a sua obrigação e o Estado tem de defender os brasileiros. Eles fazem justamente o contrário, porque protegem os que exploram o povo e desempregam a população trabalhadora.

Uma das realidades que mais revoltam Osvaldo é a de o país estar vivendo 506 anos de exploração, com políticas sociais que são essencialmente paliativas, não resolvendo nada de concreto, com levas e levas de gente sendo arrastadas à miséria:

— O propósito do sistema opressor é massacrar os pobres, o máximo que puder. Quando nos cedem algo, só nos dão um pouquinho, e assim mesmo com muita raiva, nos humilhando. As pessoas passam por mim como se eu fosse um trapo humano, não enxergam a situação minha. Outro dia passou um grupo de cristãos [desses que atuam nas ruas, com trajes medievais] nos sentenciando. Eles afirmavam que vivemos nessas condições porque não queremos encontrar o caminho de Jesus. Como são ignorantes os opresssores! Para só falar da Igreja Católica (as outras são iguais), há 506 anos ela explora e engana o povo brasileiro — revolta-se.

Prossegue Oswaldo Emídio:

— Hoje, essas igrejas todas servem ao chefão dos poderes das trevas, que é o USA, com seus generais totalmente desequilibrados espiritualmente, espalhando a guerra pelo mundo inteiro. Só o povo pobre tem coragem de enfrentar os gringos.

No livro, o autor ressalta a importância do serviço público de qualidade. Para ele, a sociedade precisa ficar alerta e não confundir ação do mercado com a ação do serviço público:

— O serviço público é direito de quem trabalha. Não pode ser motivo de lucro. E o dinheiro usado no serviço público é retirado do próprio beneficiado. Muitos servidores públicos confundem a maneira de expressar o seu comportamento junto ao público, agindo como verdadeiros vendedores de justificativas da própria incompetência, tratando mal o seu verdadeiro chefe, que é o povo.

E prossegue:

— Todos os anos, vigaristas políticos se apresentam para a sociedade com discursos calorosos, oferecendo as soluções dos problemas sociais. Após a eleição só recebemos de volta justificativas que coroam os calotes. A justificativa de que o recurso é pequeno, de que o antecessor gastou onde não devia ou a justificativa que o recurso foi desviado para contas que ninguém sabe achar.

E conclui:

— Precisamos é descobrir do que gostamos de fazer na escala material. Devemos trabalhar para suprirmos nossas necessidades, porém, as necessidades do povo, e não as daqueles que nos exploram. Divisão das 24 horas em três partes de 8 horas. Dormir 8 horas, produzir 8 horas, ter diversão e se dedicar à ajuda ao próximo nas outras 8 horas.

Para adquirir o livro, basta pedi-lo pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou diretamente com o autor nas ruas e calçadas de Copacabana.

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