O teatro que fala dos problemas da revolução

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Uma das mais importantes companhias teatrais brasileiras, a Cia do Latão comemora seus dez anos de existência, em 2007, com a apresentação de umas das peças mais dialéticas de Bertolt Brecht*, na opinião do diretor Sérgio de Carvalho, O Círculo de Giz Caucasiano.


A Companhia do Latão apresenta O Círculo de Giz Caucasiano de Bertholt Brecht

São dez anos de luta em favor do teatro que expressa o mundo pela ação das massas trabalhadoras.

O Círculo de Giz Caucasiano promove um retorno do Latão à obra de Brecht, a principal inspiração que originou a companhia, quando encenou peças como: Ensaio Sobre o Latão (1997), escrito a partir da teoria brechtiana e que deu nome ao grupo, e Santa Joana dos Matadouros (1998), um clássico do repertório brechtiano.

Na fase seguinte, a companhia passou a utilizar a obra de Brecht de uma forma indireta, um modelo a partir do qual criou sua própria dramaturgia sobre a realidade atual no Brasil.

Quase dez anos depois O Círculo de Giz Caucasino veio reativando o sentido da pesquisa em teatro dialético e repondo a necessidade de um diálogo com a obra de Brecht, que na opinião da companhia é o autor que mais perto se manteve do uso estético do materialismo produtivo.

Segundo Sérgio de Carvalho, diretor da Cia. Do Latão, O Círculo de Giz Caucasiano foi produzida, desde o princípio, de uma forma bem especial. Por exemplo, para atuar juntamente com seus atores, a companhia convidou alguns artistas de outros grupos como: Cia São Jorge, Argonauta, Teatro dos Pequenos Gestos, Folias, formando um contingente bem animado, divertido, de vários cantos, já que o texto a ser montado era grande e envolvia muitos atores.

Sérgio diz que a peça, além de muito interessante, é uma das mais bonitas de Brecht, contendo um debate sobre a função da terra e um debate sobre a noção de propriedade — uma vez que essa mesma justiça dominante é baseada no conceito do monopólio privado da propriedade dos meios de produção:

— Escrita entre 1944 e 45, durante exílio de Brecht, o texto tem narrativas concêntricas: um prólogo em que dois grupos de camponeses soviéticos discutem o direito à propriedade, e a quem cabe ocupar aquele vale. Após o acordo, começa uma outra encenação em tom de fábula, por um desses grupos, que conta a história da criada de cozinha que cuida de uma criança abandonada durante uma revolução palaciana, e agora briga para saber quem vai ficar com a criança: se ela, ou a mãe verdadeira. Depois entra uma terceira peça, que é a da farsa do beberrão juiz Azdak, que distorce o direito burguês para se aproximar daquilo que ele entende ser a verdadeira justiça. É como se fossem três peças em uma só.

Parece um pouco complicado, mas Sérgio diz que a platéia entende perfeitamente todo esse contexto. Brecht estabelece um paralelo entre o debate sobre a propriedade da terra e o debate sobre a criação de uma criança. São duas histórias que tocam na mesma questão, e a peça encerra com o seguinte conselho: "As coisas devem caber aos que as sabem fazer melhor, aos que as tornam melhor. As crianças para mulheres maternais; os carros aos bons condutores; e os vales aos que os abasteçam a todos de água para que a colheita seja boa".

— É muito interessante a comparação da mãe que vai ficar com a criança, e quem vai ficar com a terra. Na verdade, uma peça não explica a outra. Não é uma alegoria. A mãe não é alegoria da terra, não tem ligação direta, mas o espectador pode pensar na semelhança e na diferença entre essas duas coisas, que não só são diferentes, mas também semelhantes — diz o diretor.

Para construir o espetáculo, o Latão trabalha uma espécie de adaptação do texto à realidade brasileira no que diz respeito a camponeses, não diretamente, mas aludindo a diferença histórica daquele momento para o nosso momento atual brasileiro, como explica Sérgio:

— A primeira parte é uma reinvenção da peça, vamos dizer, a primeira cena. Um novo prólogo. O resto é original. Queríamos mostrar um pouco o quanto o problema do direito à propriedade continua causando impactos fortes, e também o problema da função da terra. Mas, ao mesmo tempo, revelar que o momento histórico é diferente. O debate que aconteceu naquele prólogo soviético é diferente do nosso debate atual, mesmo nas questões semelhantes. Não é que seja uma atualização direta, é uma atualização parcial, indireta. É como se criássemos uma parte que atualiza e uma outra que mostra a diferença histórica.

Prossegue:

— Creio que um bom teatro não atua somente no campo do discurso e do tema. Ele mostra que o debate político está também no desejo de criar formas novas de relação. O bom teatro se opõe às formas dominantes da indústria cultural e do pensamento dominante [o das classes dominantes]. E neste sentido, a atitude inicial do espetáculo, de contar a história em um outro tempo, já é uma atitude que vai contra a lógica do espectador de televisão. Ele tem que entrar em um novo tempo, para poder assistir o espetáculo, e ele entra, com gosto, com prazer, se divertindo.

Uma entre as melhores

Sérgio diz que essa peça é uma das mais dialéticas de Brecht, porque é plena de contradições, até a sua própria construção:

— Essa peça, além dos muitos campos temáticos, tem formas diferentes de contar e nisso Brecht é o artista genial porque ele usa uma constelação de fatores que dialogam com os espectadores. O espectador sai com muitas idéias na cabeça, nos seus ritmos e nas formas de ver as coisas. Ela entra pelos poros.

— É uma das mais belas e onde mais aplica o método dialético. O tempo todo, a construção da peça é dialética, plena de contradições. Um jogo de contradições criando um painel múltiplo que são essas várias histórias concêntricas dentro do espetáculo. Cada personagem em conexão com um problema social maior do que o indivíduo. É uma peça que não tem uma mensagem única. Ela tem muitos campos, porque fala para a sensibilidade, e oferece ritmos diferentes, tempos diferentes de sensação. — explica o diretor.

Continua Sérgio:

— Eu sinto que são muitos níveis, além do nível da mensagem direta, quero dizer, do tema da peça. O tema é: propriedade e a luta pela terra. Mas esse aparece no meio de muitos outros temas da peça: o tema da justiça; das relações em um regime arcaico, pré-burguês; da esperança revolucionária; até do fracasso no campo revolucionário; novamente da crítica ao poder dominante, enfim, inúmeros temas dentro do espetáculo.


Essa peça, além dos muitos campos temáticos,
tem formas diferentes de contar e nisso Brecht é o artista genial


Sobre o momento do "fracasso revolucionário", Sérgio diz tratar-se de uma espécie de análise de quando uma verdadeira revolução do povo não acontece, mas em seu lugar aparece um golpe, onde o poder apenas troca de mãos.

— Isso aparece na pele do personagem juiz Azdak. Ele é alguém que sonhou com a revolução popular. O juiz percebe que a revolução que acontece aqui na peça não é uma revolução do povo, é só uma troca de governo; entrou um novo governo no lugar de outro. Ele acreditou que a queda dos novos senhores traria um tempo novo, enquanto que a queda dos novos senhores trouxe apenas novos senhores.

Estamos diante de novas e profundas lições, de problemas que nos remetem a um nível superior de luta e que, todavia solucionados, nos elevam a condições superiores de vida:

— Eu estou falando daqui, do Brasil. Mas o Brecht estava atento a uma situação dessas, fazendo comentários nesse sentido. Brecht estava sugerindo o perigo de que o povo seja posto de lado em um processo revolucionário.

O juiz Azdak, após se conscientizar politicamente de que não houve uma revolução do povo e sim troca de poder nas mãos da classe dominante, resolve se tornar egoísta e amoral. Mas dentro de si, vive um sonhador revolucionário. Então se torna numa figura, aparentemente, igual ao que o poder dominante queria que ele fosse: desprezível, torto, sem princípios. Mas no seu interior, ainda existe vivo o ideal revolucionário, que pode ascender a qualquer instante:

— Na peça, ele faz justiça de um modo esquisito e torto. E isso é mostrado, dito, de uma forma muito dialética. Na verdade ele não deixa de acreditar que poderá existir uma verdadeira revolução do povo. Ao contrário, ele tem essa esperança e fica sonhando com ela. Ele percebe também que o espaço entre os dois governos ocasionou um momento em que o povo pôde exercer a sua vontade. Então ele fala assim: 'O tempo da desordem e da confusão acabou, sem que tenham vindo os grandes tempos, mas seria uma época maravilhosa, se durasse mais tempo essa desordem que foi, no fundo, a suspensão da ordem burguesa'.

Viajando pelo Brasil

O público está recebendo muito bem esse espetáculo, e mesmo sendo tão longo, três horas de duração, não se nota cansaço na platéia. A peça estreou no Rio, no Centro Cultural do Banco do Brasil, com preço popular de 10 e 5 reais, e teatro cheio todas as noites, precisando até mesmo fazer seções extras. Depois foi para São Paulo. O Latão pretende apresentá-la Brasil afora.

— Estreamos no Rio, ao invés de São Paulo, onde o grupo nasceu e se desenvolve, porque o CCBB teve interesse em patrocinar esta peça como uma homenagem a Brecht, nos seus 50 anos de falecimento. E para o Latão foi a chance de se fazer algo que, sem condição econômica, não poderíamos. Quero dizer, tanto de reunir vários grupos, de lugares diferentes, quanto de poder ter o processo que tivemos de construção, como o de, por exemplo, mandar traduzir vários textos do Brecht, vários dos seus ensaios.

Sérgio diz que a partir de abril o grupo vai viajar por sete capitais, provavelmente dentro de um projeto chamado Palco Giratório, nacional. E também tentarão montar O Círculo do Giz Caucasiano dentro de algumas comunidades que não têm espaços teatrais — como áreas camponesas, pequenas cidades -, lugares que não têm acesso a teatro.

No Rio e em São Paulo, para o Latão, o público superou tanto as expectativas que Sérgio animou-se em promover os tradicionais debates com a platéia após cada apresentação. O fato de a peça ter duração longa pode parecer prejudicar os debates, mas o público, muitas vezes, revela aceitá-lo, já que a peça mexe muito com quem está assistindo.

— Fizemos um dia de debates, no Rio, que foi muito bom. Mas a peça é muito longa, fica muito cansativa, não dá para continuar fazendo. Só fizemos mesmo porque o espetáculo está tendo uma recepção muito forte. As pessoas ficam comovidas, vem falar conosco no final. Estamos tendo uma boa temporada, diria que excepcional mesmo. E o público é bem heterogêneo, bem diversificado. Observamos que há estudantes, gente de movimentos sociais, enfim, pessoas que estão fora do perfil do "consumidor tradicional de cultura", por não ter poder aquisitivo para isso.

Para comemorar os seus dez anos, que completará em julho próximo, além do espetáculo, o Latão criou uma série de atividades que fazem parte do projeto 'Companhia do Latão 10 anos'. Entre eles estão a organização da sua memória, onde consta uma intensa história de trabalhos, dando continuidade ao estudo do teatro épico-dialético no Brasil, e a retomada do estudo da obra de Bertolt Brecht de uma forma geral. O projeto também inclui o lançamento de livros, DVDs, CDs e a remontagem do espetáculo O Nome do Sujeito.

Toda programação do grupo, em seu ano de comemorações, está disponível no sítio: www.companhiadolatao.com.br e informações pelos telefones: (11) 3814-1905, (11) 8516-4325 e (11) 8516-4323.


*Eugen Bertolt Friederich Brecht (10 de fevereiro de 1898, Augsburg, na Baviera — 14 de agosto de 1956, em Berlim na República Democrática da Alemanha)

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