O realismo de Bernardo Élis

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Uma verdadeira despolitização ocorre no âmbito das letras no Brasil. Ao analisar os catálogos das principais "editoras nacionais" fica-se estarrecido com a reificação1 da recente produção literária brasileira. Os livros esotéricos representam maioria absoluta das vendas e a literatura caiu em lugar comum: da sexualidade, das orgias, do individualismo exacerbado, dos contos policialescos, do grande herói salvador, entre outros temas. Essa reificação é acentuada em um período da profunda crise estrutural do capital que concentra sua principal expressão na contra-ofensiva ao nível ideológico.


Bernardo Elis em aquarela de Amaury de Menezes

A monopolização dos instrumentos culturais de um povo pelos grandes conglomerados imperialistas dos meios de comunicação representa imposições realizadas pelo próprio mercado capitalista, em particular na sua fase imperialista, que transforma a cultura em mercadoria. Esse fato faz com que ocorra um verdadeiro crime com a cultura popular brasileira.

Uma expressão desse fenômeno é quando não se consegue ver, pela quase absoluta falta de divulgação, coisas interessantes e pensantes no país. Os grandes compositores não são ouvidos nem divulgados e acredita-se que toda música brasileira é o "bonde do tigrão". Não se assiste ao cinema nacional, mas aos enlatados ianques na "tela quente". A literatura brasileira não é conhecida, enquanto Paulo Coelho e as novelas da Globo são reverenciadas.

Quando um artista vai gravar um disco, o produtor interfere tanto na obra que se torna o principal integrante do grupo musical. Para uma música chegar às paradas de sucesso têm que pagar o famoso "jabá". Nas artes plásticas existe um padrão de consumo de arte que determina o resultado final. Na gravação de um filme existe a interferência da produtora.

Esse absurdo levou o cantor e compositor Cartola a viver a maior parte de sua vida trabalhando como lavador de carros nas ruas do Rio de Janeiro. Quantos Cartolas e verdadeiros artistas existem no nosso país que passarão a vida no anonimato? A monopolização leva a uma estagnação que não permite o surgimento de novidades porque é melhor a fórmula pronta, a cópia do que há de pior, do que a inovação e a abertura de espaço à cultura popular.

Que literatura?

Indaga-se: qual escola literária surgiu no país nas últimas décadas? Temos alguma obra de peso, ao estilo de Vidas Secas ou Grande Sertão Veredas? Os problemas sociais do Brasil estão sendo tratados pela literatura? Vemos o engajamento de algum escritor em uma causa vital para o país? Exatamente não. Falar do povo, como fez o mestre Rosa, ou pesquisar sobre os problemas sociais do país, como Josué de Castro, é terminantemente proibido pelo monopólio que controla a produção editorial.

A literatura é expressão das forças produtivas e das relações de produção vigentes em determinada época, ou seja, é um produto de um processo histórico e representa as lutas de classes em determinado estágio histórico.

Em nossa época existe a luta entre duas correntes literárias: a realista e a idealista. A corrente realista procura demonstrar os problemas e dilemas do povo, contar sua vida e discutir sobre suas contradições. A corrente idealista representa o mundo através de uma posição irreal, baseada em fantasias e mitos, criando heróis (Superman, Harry Potter, X-Mem, Cinderelas, etc.), ficção científica (Jornada nas Estrelas etc.), entre outros.

Essa expressão literária procura mostrar uma visão da realidade de forma reificada, difundindo uma falsa compreensão sobre a realidade, de como deveria ou como pode ser o mundo.

Realismo brasileiro

O regionalismo da "escola modernista" em suas diversas fases, de mestre Graça, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Érico Veríssimo e Bernardo Élis, foi a mais avançada experiência na construção de uma literatura realista brasileira. É necessário manter essas experiências na memória e como literatura viva, pulsante.

A literatura é um instrumento importante de elevação ideológica do proletariado e do campesinato para se tornar uma classe em si numa classe para si. O processo revolucionário em curso no país exige uma divulgação das obras realistas e apoio engajado aos escritores do povo.

O escritor goiano Bernardo Élis é um exemplo de literato engajado politicamente, comprometido com o seu povo e o seu tempo, que utilizou suas palavras para protestar contra a exploração do homem pelo homem.

Élis é um dos maiores escritores de Goiás boicotado pela crítica literária, pelas grandes distribuidoras de livros e pelo monopólio dos meios de comunicação. Um grande exemplo de boicote foi sua morte, sequer noticiada em um desses grandes veículos de comunicação. Enquanto um dos maiores escritores do país deixava a vida, a maioria das pessoas não era informada desse fato.

Quase nenhum livro didático trata da sua obra, além de existirem pouquíssimos trabalhos acadêmicos sobre o autor. Esse fato é um absurdo! A busca do realismo materialista foi bem dinamizada por Élis e significa um marco na literatura nacional. Representa um dos poucos escritores que decidiu o caminho do mais profundo reconhecimento e interpretação de seu tempo.

Guerra no sertão goiano

O Tronco é um ousado e excelente livro; um libelo da luta contra as oligarquias políticas rurais em Goiás no início do século XX. Foi escrito no desenrolar da luta de Trombas e Formoso (ver AND 29). Seu grande diferencial é a análise da estrutura social, política e econômica de Goiás, sempre em busca de apreender a realidade, de ser realista, de ajudar o povo a entender as contradições fundamentais da sociedade brasileira.

Bernardo Élis inicia sua denúncia desde o título do livro. O Tronco era um instrumento de tortura, utilizado na repressão de escravos africanos e indígenas. Esse instrumento de flagelo continuava em pleno funcionamento e reprimia os desafetos dos coronéis. Era a materialização do poder oligárquico, a representação da dor e do sofrimento dos camponeses, das relações de produção semifeudais.

O romance se passa em 1918, na Vila do Duro (local fictício), um lugar esquecido no meio do sertão, dominado pela família Melo, possuidora de grandes extensões de terras onde desenvolvia relações semifeudais de produção e, consequentemente, do poder político na região. A família Melo mantinha uma relação de semi-servidão com os camponeses locais, utilizando algumas variações da renda fundiária 2 na exploração dos camponeses.

Os vaqueiros eram um exemplo, cuidavam do gado sem receber salário ou ajuda de custo, eram obrigados a criar os bovinos com bastante cuidado para evitar a morte dos animais. Apenas na quarta cria o vaqueiro tinha direito ao bezerro. Se algum morresse, não era prejuízo do coronel e sim do trabalhador porque bezerro de coronel não podia morrer.

Esse ponto é interessante, porque uma das características dos sistemas econômicos pré-capitalistas são as coerções extra-econômicas e essas eram as principais formas de extração da renda no Brasil da primeira República. Enquanto o capitalismo vivia sua época imperialista e a queda da bolsa em 1930, no Brasil a principal forma de se adquirir renda era através de um modelo pré-capitalista. Esse é um dos fatores que comprovam a tese do capitalismo burocrático e semifeudal instalado em países semicoloniais como o Brasil.

O poder dos coronéis baseava-se em diversos meios coercitivos: desde os grupos armados de pistoleiros que promoviam o terror local ao terror do tronco por parte dos camponeses. A pistolagem garantia o controle das terras sob o comando do coronel, além de possibilitar novas grilagens. Os coronéis compravam votos e mantinham uma rede de influência política que envolvia outros coronéis, políticos, funcionários públicos, jagunços, camponeses. Essas eram algumas das características do poder político do período que Bernardo Élis nos apresenta em O Tronco.

Os funcionários públicos eram um importante instrumento de apoio dos coronéis. Um deles se revolta contra as ordens do coronel e passa a fazer uma oposição aberta à estrutura coronelística. O autor escolhe o funcionário público como protagonista para demonstrar as contradições no seio do Estado, a relação de poder e a estrutura de classes dessa sociedade.

A mensagem central da obra é que deve ser refletida profundamente. Com todos os desmandos dos coronéis, com toda a violência da luta pelo poder por parte das frações das classes dominantes, o povo não tinha representação e solução dos seus problemas pelas vias tradicionais. A obra revela que a verdadeira política para o povo deve ser feita em função da luta das massas e pelas próprias massas. Para a realização desse projeto político, o povo deve empregar todas as formas de luta e organização.

Em O Tronco, além dessa questão política central, outros três pontos também são importantes:

1 A estrutura de poder coronelística em uma região periférica e afastada das regiões exportadoras de café: a obra analisa Goiás no início do século XX, em plena "República Velha", uma sociedade rural com base na exploração da força de trabalho camponesa. Os lavradores eram oprimidos pelas oligarquias agrárias locais, já que o isolamento geográfico do sertão ampliava os poderes dos coronéis e transformava estes na própria lei e no próprio Estado.

2 A dinâmica entre a política ao nível federal e municipal: muitos historiadores da "República Velha" abordam apenas o velho esquema político do "café com leite", sem estudar a dinâmica do sistema de poder das oligarquias centrais e as periféricas, as relações que dão estabilidade ao sistema e as suas próprias contradições.

3 A vida do povo: o escasso estudo sobre as relações de trabalho, as formas de cultivo, as técnicas, a ideologia e a comum conformação psíquica que se exprime na cultura (entende-se por cultura, no sentido mais restrito, o conjunto da vida espiritual alcançado na instrução, na ciência, na literatura e arte, na moral etc) comum das classes que verdadeiramente compõem o povo brasileiro. Élis aborda também outros temas importantes no sertão do Brasil durante a República dos Coronéis.

O Tronco discute esses três pontos, tornando a obra extremamente atual para todos os que desejam conhecer melhor esse período da história do Brasil e àqueles que anseiam por uma literatura realista, que trate da vida e dos anseios do povo.

O Tronco é um clássico da literatura goiana e brasileira tanto por seu estilo literário, de conseguir unir a linguagem simples do povo com a do poeta, quanto por seu realismo lúcido ao tratar da "República dos Coronéis". O autor situa sua obra como ficção (acredita-se que para evitar represálias dos citados), mas não perde o seu realismo e o seu caráter de denúncia, demonstrando os caminhos seguros e fecundos que a literatura pode seguir se aliada aos anseios do povo.


*Antônio Gonçalves Rocha Júnior é historiador, professor de história da rede pública estadual em Goiás e da rede muncipal em Senador Canedo(GO) e diretor do Sindicato dos trabalhadores municipais de Senador Canedo.

1. Reificação: quando os portugueses conquistaram a África, chamaram a religião nativa de fetichista, por adorar os objetos e considerá-los como deuses. Marx abordou tal ponto no livro I de O Capital. Precisamente sob o capitalismo, o homem passa a conceber o mundo através das coisas, das mercadorias, onde as relações humanas são baseadas na relação com as coisas. É o mesmo que tornar parecido com uma coisa (seres e a consciência humanas reduzidos a tal), coisificação.

2. Renda — Fala de renda fundiária, obtida pelos latifundiários ao expropriarem a terra dos camponeses e concentrarem em suas mãos o monopólio de grandes extensões de terra. É parte da mais-valia que no campo se divide em renda absoluta e diferencial, ampliando o desperdício dos esforços humanos e arrastando milhões à miséria.

Bernardo Élis era natural de Corumbá de Goiás, perto de Pirenópolis, que surgiu com o ciclo minerador. Era proveniente da pequena burguesia, mas oriundo de uma das tradicionais famílias do local, os Fleury Curado, descendentes do segundo Bandeirante e do primeiro Capitão-Mor de Goiás. Nasceu em 15 de novembro de 1915. Estudou em Goiás (antiga capital), onde prestou sua colaboração em jornais literários. Formou-se em direito na cidade de Goiânia (nova capital). Lançou em 1944 o seu primeiro livro, Ermos e Gerais, do qual recebeu cartas "com louvor" de Monteiro Lobato e Mário de Andrade. Entre suas obras estão: Primeira Chuva (1955), O Tronco (1956) e Caminhos e Descaminhos (1965).

Escreveu em diversos periódicos populares de Goiás. Foi militante do Partido Comunista do Brasil (P.C.B.), sempre demonstrou ser um defensor do materialismo histórico e dialético. Mesmo quando se afastou do partido, militou como assessor do deputado José Porfírio (histórico líder camponês da batalha de Trombas e Formoso e desaparecido político no período do gerenciamento militar fascista pró-ianque). Bernardo Élis fez da sua literatura um protesto popular e revolucionário.

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