Europa do capital monopolista empenhada no anticomunismo

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Ao mesmo tempo em que o fascismo volta a mostrar a cara na Europa — e os partidos e organizações da direita ganham espaço político — a propaganda fascitizante se esmera em elaborar argumentos invertidos para justificar a campanha anticomunista posta em prática desde as instituições européias supranacionais até os governos locais, passando pelos meios de comunicação e certa literatice histórica pseudo-científica.

Lisboa - A lógica que respalda perante o público a perseguição às organizações comunistas é a da sua equiparação com o nazi-fascismo, omitindo a verdade histórica de que os primeiros, na verdade, foram as principais vítimas dos segundos, e rejeitando o fato de que a União Soviética comunista foi a principal responsável pela libertação de uma Europa que se encontrava sob o jugo da Alemanha nazi. Outra verdade histórica: à semelhança dos tempos da Segunda Guerra Mundial, o ódio de classe aos comunistas se intensifica quando o acirramento da ofensiva imperialista representa a maior ameaça para a liberdade dos povos.

A direita européia mais reacionária começou o ano de 2007 reeditando no Parlamento Europeu uma agremiação de eurodeputados extinta desde 1989. Herdeiros diretos do fascismo hitleriano, os integrantes do grupo parlamentar Identidade, Tradição e Soberania têm agora acesso direto a financiamentos, maior tempo de tribuna e cargos de responsabilidade em comissões. Esses agentes da extrema direita aguardavam ansiosos a adesão da Romênia e da Bulgária à União Européia para somar a si próprios os eurodeputados do Partido da Grande Romênia e os búlgaros do partido Ataka, a fim de conseguir o número mínimo de 20 eurodeputados necessários para a formalização de um grupo parlamentar de "pleno direito".

Romênia e Bulgária aderiram oficialmente à UE no dia 1º de janeiro, e já no dia 15 o euro-deputado francês Bruno Gollnish formalizava a constituição do novo grupo, quase vinte anos depois de dissolvida a frente parlamentar liderada pelo líder fascista francês Jean Marie Le Pen.

Gollnish é tido como o braço direito do próprio Le Pen no partido francês Frente Nacional. No âmbito do Parlamento Europeu os papéis se invertem para manter as aparências: Gollnish lidera o Identidade, Tradição e Soberania. Lidera o próprio Le Pen, sua filha Marina, e outros quatro membros da FN. Tem ainda sob sua orientação formal o austríaco George Haider, Alessandra Mussolini — neta do Benito Mussolini — e três belgas do partido nacionalista xenófobo Vlams Belang.

O cenário é anunciador de um acirramento da ofensiva anticomunista que se observa hoje no âmbito da União Européia. Uma ofensiva que foi desencadeada a partir do Conselho da Europa, um ano antes de a extrema direita se reunir formalmente no grupo Identidade, Tradição e Soberania, no Parlamento Europeu.

No dia 25 de janeiro de 2006, os parlamentares da direita conseguiram aprovar no Conselho uma resolução que associa o comunismo, os comunistas e a ideologia que orienta seu pensamento e suas ações a toda sorte de crimes contra a humanidade e violações dos direitos humanos. Em síntese, a resolução aprovada há cerca de um ano reivindicava para o comunismo e para os comunistas as mesmas condenações internacionais recebidas pelo nazi-fascismo ao longo dos últimos cinquenta anos.

Mas os objetivos do documento aprovado na assembléia parlamentar do Conselho da Europa — documento preparado pelo sueco Göran Lindblad e intitulado "Necessidade de uma condenação internacional dos crimes dos regimes comunistas totalitários" — iam além do evidente teor provocativo ou mesmo da mal forjada campanha de desmerecimento: tentou-se criminalizar a resistência comunista atual através da deturpação de complexos processos históricos do passado.

Em primeiro lugar, os parlamentares do Conselho negam o papel fundamental que as lutas comunistas desempenharam e desempenham para o combate à dominação dos povos e na busca incessante pela abolição de todas as formas de opressão humana. Fingem desconhecer a grandiosidade das realizações comunistas e refutam a contribuição ímpar que seu ideário ofereceu e oferece à busca pela liberdade. Em segundo lugar, esses parlamentares da direita tentam desqualificar o protagonismo comunista na vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, o que leva a crer — vindo o falseamento de quem vem — que além de provocação e campanha de caça às bruxas, trata-se também de revanchismo.

Silenciar e criminalizar

Assim os herdeiros do nazi-fascismo tentam escrever, apregoar e inculcar na consciência dos povos uma versão falsa sobre sua própria derrota na Segunda Guerra Mundial. Esmeram-se em escamotear a natureza capitalista e imperialista da guerra e calam-se sobre o fato de ser o ódio nazi aos comunistas uma manifestação do ódio de classe burguês.

Segundo essa versão calcada em mentiras e omissões, não importa o papel preponderante desempenhado pela União Soviética para a vitória sobre a Alemanha nazista. Para eles, não basta não lembrar, nem sequer basta fazer esquecer: é preciso que se invertam os papéis, e dessa forma o Exército Vermelho, que libertou os europeus do pesadelo nazi, se transforma, num passe de embromação, no cruel algoz dos países por onde marchou.

A artimanha não é nova. Em maio de 2005 o então vice-presidente do mesmo Conselho da Europa, o alemão Gunter Verheugen, exigiu que o governo da Rússia reconhecesse publicamente que a União Soviética havia ocupado os países bálticos de forma ilegal. Para apresentar como invasores os libertadores, as grandes burguesias dos Estados-membros e os meios de comunicação por elas controlados juntam-se de bom grado aos setores mais reacionários do Parlamento Europeu e da Comissão Européia. E não apenas. Falsos representantes das forças populares no Parlamento e na Comissão por vezes fazem pouco mais do que anunciarem seus votos contrários.

Todos farejam mais uma oportunidade para silenciar, desqualificar e criminalizar aqueles que hoje insistem em resistir à força do capital. Foi o que ressaltou o deputado sueco Mats Einarsson, do Partido da Esquerda da Suécia, numa intervenção na sessão de janeiro de 2006 em que os fascistas de agora aprovaram o relatório anticomunista:

— Em nome do anticomunismo muitas pessoas foram presas, torturadas e privadas dos seus direitos democráticos. Os alvos do anticomunismo nunca são as ditaduras, mas a esquerda, os movimentos dos trabalhadores e todos os que põem em causa o capitalismo. Aqueles que se opuseram à ditadura do proletariado não o fizeram porque se tratava de uma ditadura, mas porque se tratava do proletariado que encarnava o pesadelo para as classes dirigentes.


O cenário é anunciador de um acirramento da ofensiva anticomunista
que se observa hoje no âmbito da União Européia


O documento foi aprovado, e nele é possível ler trechos como "a consciência pública dos crimes cometidos pelos regimes comunistas totalitários é muito pobre", ou "os partidos comunistas estão sempre legais e em atividade em qualquer país, mesmo se em certos casos eles não estejam dissociados de crimes".

O músico comunista grego Mikis Theodorakis divulgou um comunicado no qual invocou seus camaradas mortos nos campos de concentração para desabafar contra os que chamou de gentlemen do Conselho da Europa: "Tenham vergonha!". No mesmo texto, Theodorakis escrevia:

"O Conselho da Europa anuncia doravante a perseguição futura dos comunistas europeus que não se tenham ainda retratado. Talvez porque amanhã vão decidir proibir os partidos comunistas, abrindo dessa forma a porta aos fantasmas de Hitler e Himmler, que, como se sabe, começaram a sua carreira proibindo os partidos comunistas e colocando comunistas nos campos de concentração".

O que ele apresentava como uma possibilidade sombria é hoje uma realidade concreta.

Cronologia da truculência

A campanha anticomunista posta em prática na Europa visa sobretudo os jovens e é empreendida principalmente pelas classes dirigentes encarregadas da gestão da restauração capitalista no Leste Europeu. Na Ucrânia, membros da Liga da Juventude Comunista Leninista vêm sendo presos e torturados. Na Bielorrússia, os dirigentes da União da Juventude Republicana — de caráter comunista — vêm sendo impedidos de viajar para alguns países da Europa. Mas o empenho do governo da República Tcheca para lançar à clandestinidade os jovens comunistas daquele país foi o caso que ganhou maior repercussão e suscitou grandes manifestações de solidariedade, talvez pela magnitude das lutas contra a privatização do ensino superior que se pretende implementar nas universidades tchecas.

Em novembro de 2005 a KSM — União da Juventude Comunista da República Tcheca — recebeu uma intimação do governo tcheco exigindo a renúncia aos princípios marxistas-leninistas. A KSM tinha até 31 de dezembro daquele ano para rever o seu programa, sob pena de dissolução por decreto e pela força. Ao longo do prazo, milhares de checos subscreveram um abaixo-assinado contra a atitude do governo, e organizações antifascistas e de estudantes organizaram manifestações de solidariedade dentro da República Tcheca e em diversos países do mundo. Acossado por essas mobilizações, o governo adiou a decisão sobre a ilegalização da KSM para março de 2006.

No dia 27 de fevereiro milhares de estudantes europeus concentraram-se na frente das embaixadas da República Tcheca em vários países da União Européia, evento que recebeu o nome de Dia Internacional de Solidariedade com a KSM, organizado pela Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD).

No dia 25 de abril a tensão aumentou após o vice-presidente do Partido Comunista da Boêmia e Morávia (KSCM) ser espancado em Praga, capital do país. Seis dias depois, no dia 1º de maio, realizou-se uma grande manifestação anticomunista na cidade, tendo à frente os líderes dos três grandes partidos da direita. A provocação foi redobrada porque a marcha da direita acontece exatamente no lugar onde a KCSM realizaria as comemorações do Dia do Trabalhador.


Milhares de estudantes voltaram a se mobilizar
em solidariedade aos jovens comunistas tchecos


Em outubro de 2006 o governo tcheco avança e ilegaliza oficialmente a União da Juventude Comunista da República Tcheca. O decreto é expedido uma semana antes das eleições para o senado e exatamente no momento em que tanto a KSM quanto a KSCM estavam empenhadas em recolher assinaturas da população para impedir a instalação de bases da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no país. Para mostrar força, o governo começa a plantar notícias sobre prisões de jovens militantes, mas a KSM não apenas desmente os boatos. Também resiste ao acolher em Praga a 5ª Reunião Européia das Juventudes Comunistas, sob o lema A luta da juventude européia contra os ataques aos direitos sociais e democráticos — ofensiva militante contra o anticomunismo.

Mas a classe dirigente tcheca não se dá por satisfeita, e em novembro é criada uma comissão parlamentar, tendo como ponto de partida para a perseguição ao próprio Partido Comunista da Boêmia e Morávia, que havia conseguido 15% dos votos nas eleições legislativas. O trabalho desta comissão é avaliar a legalidade dos estatutos da KSCM.

Apesar da truculência e das ameaças, a resistência faz-se ouvir. No dia 13 de dezembro, em vários países europeus, milhares de estudantes voltaram a se mobilizar em solidariedade aos jovens comunistas tchecos, concentrando-se não apenas na frente das embaixadas tchecas, mas também se manifestando nos ministérios das Relações Exteriores, exigindo providências das diplomacias européias.

O resultado é o silêncio oficial. Os partidos no poder recusaram-se até mesmo a assinar moções parlamentares de repúdio à perseguição posta em prática na República Tcheca. Certamente porque a perseguição arranca agora ou está no horizonte nos outros países europeus.

Na Espanha, organizações de jovens comunistas vêm sendo ilegalizadas sob o pretexto do combate ao ETA. O Partido Comunista Espanhol Reconstituído vem sofrendo perseguições. Seus dirigentes históricos comprometidos com a luta antifascista caem presos e são apresentados como terroristas. Significativamente, alguns deles estiveram também nas cadeias franquistas, onde outros tantos foram assassinados durante 40 anos de ditadura fascista.

Na Rússia, o governo Putin acabou com o feriado de 7 de novembro, dia da Revolução Socialista que mudou o curso da história no século XX. A coligação de extrema direita que governa a Polônia colocou em andamento um programa de expurgo de funcionários pú blicos que no passado estiveram ligados ao regime comunista. Em Portugal, os movi mentos estudantis das escolas secundárias ligados à Juventude Comunista Portuguesa são alvo de reiterada repressão. Na Itália, as autoridades estão empenhadas em perseguir os integrantes do Novo Partido Comunista Italiano.

Sob pano de fundo da sanha anticomunista que varre a Europa está o pavor dos dominadores diante dos movimentos e organizações verdadeiramente antiimperialistas, antifascistas e anticapitalistas em geral. À ameaça que elas representam a Europa do capital monopolista é acompanhada de truculência e destruição de direitos democráticos.

Não surpreende que o faça em nome da própria democracia.

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