A Atualização do feminismo burguês

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A história das lutas femininas é uma longa jornada de heroísmo, dignidade e articulação coletiva. Seus capítulos foram escritos com indignação e insurreição. Ao longo dos séculos recentes, as batalhas se travaram ao mesmo tempo contra as sociedades patriarcais, a burguesia e o latifúndio, sob o entendimento de que a emancipação não era apenas uma questão de gênero, mas acima de tudo uma conquista de homens e mulheres frente à opressão dos exploradores.

Hoje, certo feminismo burguês tenta situar a atualidade dessa história em um mito. Um mito apregoado como algo alheio às questões de classe e matrizes ideológicas — como todo bom mito eminentemente político — mas que serve aos interesses das classes dominantes. O mito da melhor gestão feminina.

A espanhola Edurne Uriarte publicou recentemente um artigo no jornal ABC, de Madrid, no qual relacionou as principais fantasias que sustentam alguns estudos de matriz oportunista — e não científica — sobre a liderança feminina:

O mito da boa dirigente alimenta-se da idéia de que as mulheres privilegiam a integração, a igualdade e a interação, que incentivam a participação, que partilham o poder e a informação e que concedem maior importância à vertente relacional. E, ainda, que se baseiam mais no poder pessoal do que formal, isto é, no poder que não depende da posição ocupada, mas da capacidade de instaurar a confiança, o respeito mútuo e a credibilidade.

Angela Merkel, na Alemanha, e Michelle Bachelet, no Chile, em suas vitoriosas campanhas eleitorais, valeram-se dessa ladainha para alcançarem o topo do poder político de suas nações. Ségolène Royal e Hillary Clinton, aspirantes à presidência da França e do USA, vêm fazendo o mesmo. Seus protagonismos à frente de algumas das gerências partidárias mais badaladas do mundo vêm sendo apresentados pelo oligopólio planetário da comunicação social como a prova de que, hoje, as mulheres enfim conseguiram sua emancipação.

É dessa forma que o mito da melhor gestão feminina deixa de ser mero corolário sobre maior ou menor competência para se transformar em afronta. Segundo a mentira, passado e presente de autênticas lutas das mulheres em defesa da sua dignidade e da dignidade dos seus povos deixa de ter valor; o que vale é o alpinismo partidário em busca de maior proeminência feminina na gestão de políticas que sustentam e agravam a opressão de mulheres, homens, velhos e crianças.

Nessa versão, a solidariedade feminina não está inserida na luta de classes, mas resumida a uma cumplicidade de boca-de-urna, segundo a qual "mulher vota em mulher".

Assim, vitórias eleitorais de mulheres das classes dominantes ou suas nomeações para altos cargos administrativos, de objetivos particulares, pontuais, que nada significam para a libertação feminina em particular ou dos povos em geral, são embrulhadas e vendidas como sucesso de todas as mulheres. Os arautos do feminismo burguês tentam fazer acreditar que, quando uma mulher ligada às classes opressoras chega a um alto posto das gerências nacionais, ela representa a totalidade das mulheres do país ou do mundo.

A ministra da educação de Portugal, por exemplo, "chegou lá", e daqui para frente será mais fácil para um homem do que para uma mulher conquistar o cargo de professor titular numa universidade pública portuguesa. Um dos critérios de promoção na carreira docente é a assiduidade, e a senhora ministra Maria de Lurdes Rodrigues alçou a licença maternidade ao status de falta ao trabalho.

Patroas dos patrões

Aproximam-se as eleições presidenciais francesas, marcadas para o final de abril, e a disputa pela chefia do Palácio do Eliseu está polarizada entre a direita e a esquerda oportunista.

A primeira é formada por representantes diretos do grande capital — patronato e grandes acionistas — seus quadros estão mais à vontade para cumprir o conteúdo programático de sempre: destruição das conquistas do povo trabalhador, polícia no encalço dos pobres e lama na dignidade dos imigrantes.

A esquerda oportunista tenta iludir ao tentar se diferenciar. Seu programa de governo — essencialmente idêntico ao da direita autêntica — é decorado com eufemismos que giram em torno das idéias de "pragmatismo" e das "reformas necessárias".

Mas a convergência com os interesses patronais é mesmo indisfarçável: a supressão dos direitos trabalhistas é apresentada como um destino a ser gerido, a noção de política pública é substituída pela própria lógica da gestão empresarial, e a atuação do Estado deve mesmo ficar restrita à proteção regulatória do capital e à proteção policial da propriedade privada — e então as políticas de segurança pública são substituídas pela mera gestão penal da miséria.

Assim, o embuste da diferença entre a direita e esta "esquerda" não resiste às reações das partes à primeira revolta nos subúrbios da capital Paris...

O povo trabalhador francês — um povo mais, uma vez mais — está defrontado com uma escolha eleitoral apenas ilusória, e mostra-se consciente da farsa. Por isso a falsa esquerda francesa, encabeçada pelo Partido Socialista, resolveu apostar num adereço a mais para seu conservadorismo travestido de modernidade progressista: uma candidatura presidencial alicerçada na diferença de gênero.

A candidata, Ségolène Royal tem 53 anos, é bonita e vive com o líder do Partido Socialista, François Hollande. Mas costuma dizer que o casamento é "uma instituição burguesa". É mãe de quatro filhos e tem uma carreira de sucesso como política profissional. Superou uma infância difícil e uma educação católica rígida para se tornar o protótipo da mulher burguesa independente.

Uma imagem que Ségolène gosta de cultivar e levar além. Ela é autora de um livro chamado A verdade de uma mulher, no qual defende que um mundo dirigido por mulheres seria menos violento.

Seu sorriso e sua expressão confiante já foram capa de quase todas as revistas européias ditas "de referência" ou não, que, não obstante, tratam-na como habitualmente a imprensa trata uma mulher. Em meados do ano passado a revista de celebridades Closer publicou uma "reportagem fotográfica" cujo conteúdo trazia Ségolène de biquíni e as palavras: "Quem diria que tem 53 anos e quatro filhos".

Essa imagem de forte apelo sensacionalista foi capitalizada pelos seus companheiros de partido como uma imagem que pudesse explorar a boa fé das pessoas com fins eleitorais, e a isso se resume o histórico da escolha de Ségolène como candidata do PS francês à Presidência da República.

Ségolène se apresenta como símbolo da ascensão e consolidação da liderança das mulheres e da igualdade entre os gêneros, e como tal é louvada por um sem número de representantes do feminismo burguês. Na prática, representa a instrumentalização eleitoral do sexo feminino, reforçando no senso comum o estereótipo segundo o qual as mulheres, na política, têm posições menos ideológicas e mais "concretas". Um mito que veste como uma luva no discurso do "pragmatismo", utilizado como álibi para a destruição de direitos de franceses e francesas, homens e mulheres.

No dia 25 de fevereiro a revista dominical do jornal português Público, trazia Ségolène sorrindo na capa, e perguntava: "A França precisa de uma mamã?". Segundo a revista, num país em que os jovens queixam-se de não serem ouvidos, "Sego, como é conhecida na França, ouve, como uma mãe. Dá atenção a todos, como uma mãe". Não importa que essa "mãe" tenha proposto entregar a tutela de jovens delinquentes aos rigores militares.

Uma mulher no Palácio do Eliseu, ao contrário do que diz ela própria, não seria algo extraordinário; no caso, seria uma presidente da República fazendo o trabalho que aprendeu na École Nationale d'Administration, em Paris, onde, como outros homens e mulheres da direita e da esquerda oportunista, foi bem treinada para a moderna gestão dos interesses do capital assexuado.

Em julho de 2005, a Medef, principal organização patronal da França, elegeu pela primeira vez uma mulher para o seu comando: Laurence Parisot, "a patroa dos patrões". Seu antecessor saiu dizendo que a eleição de uma mulher foi "o símbolo de uma modernidade e uma audácia que não se esperava do patronato francês".

Quando assumiu, Laurence exigiu flores na sede da Medef e elegeu a "flexibilização" das leis do trabalho como sua principal bandeira, dizendo: "A vida, a saúde, o amor são precários. Por que o trabalho escaparia a essa lei?".

A análise política inconseqüente não tardou em classificar as palavras da senhora Laurence Parisot como duras, sim, mas com um toque feminino... Guardadas as proporções, algo parecido aconteceu com Margareth Thatcher quando a então primeira ministra da Inglaterra moveu sua guerra contra os sindicatos e contra as estruturas de seguridade social: Era uma dama, mas de ferro. Recentemente ganhou uma estátua de bronze na frente do parlamento inglês.

"Mulheres que contam"

O USA está em polvorosa com a possibilidade de ter uma mulher a mandar e desmandar desde a Casa Branca — sede e residência oficial da presidência da República. Lá, onde não há indício de que o imperialismo seja coisa de macho, e onde o feminismo burguês mostra sua face mais individual e personalista, nos moldes das revistas de celebridades, as mistificações assumem as formas mais caricatas.

O ex-presidenciável do Partido Democrata Pat Schroeder se disse entusiasmado com a chance de Hillary Clinton ou Condollezza Rice, uma ou outra, assumir a presidência do país. Andou dizendo que a Casa Branca é a última porta com um cartaz escrito: "Proibido para mulheres". Schroeder sugeriu ainda um mote para uma eventual campanha presidencial por elas encabeçada: "Pior não vamos fazer!".

Em 1995, em Pequim, na 4ª Conferência Mundial das Nações Unidas sobre as Mulheres, Hillary Clinton afirmou que os direitos femininos são os direitos humanos. Mas, já como senadora pelo Estado de Nova York, votou a favor do Patriot Act, a violação constitucional através da qual o governo Bush revogou direitos civis do cidadão comum do USA. Também como senadora votou a favor da invasão do Iraque levada a cabo por Bush.

O feminismo burguês — em grande parte ligado à esquerda oportunista — torceu o nariz para a os votos da esposa de Bill Clinton no Senado Federal, mas não se cansa de aplaudir as recorrentes críticas de Hillary à defasagem entre os salários de homens e mulheres. Mesmo que tudo indique que uma futura correção dessa defasagem contribua muito para melhorar os salários de executivas a serviço dos bancos e não contribua nada para melhorar as condições de vida da população mais pobre.

Hillary e Condollezza não são prova de competência, eficiência, ou coisas do mesmo léxico; provam apenas que as diferenças substanciais entre um homem e uma mulher presidindo o USA são tão insignificantes quanto as diferenças relevantes entre um democrata e um republicano.

Na Alemanha, Angela Merkel não é apenas a primeira mulher a assumir a chancelaria no país; é também a primeira mulher à frente de uma coligação de partidos ligados à direita nacionalista. Seu nome encabeça a lista anual das "mulheres que contam no mundo" da revista Forbes — uma das principais publicações da burguesia transnacional — acima das próprias Hillary e Condollezza. Ségolène Royal é forte candidata para a renovação da listagem que afronta as mulheres trabalhadoras de todos os povos — mulheres que para a burguesia não contam, ou contam apenas como inesgotável força de trabalho a serviço do capital.

Esses exemplos de mulheres em destaque nas manobras das classes dirigentes não fazem parte da história das lutas das trabalhadoras de todo o mundo e, se representam alguma coisa, são apenas arremedos de emancipação do gênero feminino, longe de qualquer representação das aspirações da coletividade.

No Brasil, Roseana Sarney, Marta Suplicy, Heloisa Helena e Benedita da Silva são exemplos de mulheres que, de olho nas urnas e oscilando entre a falsa esquerda e a direita — quem diria — patriarcal, não hesitam em alimentar as fantasias em torno do mito da melhor gestão feminina.

Não há indício, prova ou pista de que as mulheres "no poder" reacionário contribuam mais ou menos para a sua libertação tanto como gênero quanto como seres humanos. Essa tese não passa de um artifício para dissimular exatamente a exploração e a opressão que escravizam, e que devem ser objeto de lutas coletivas, de classe, a despeito das tergiversações que tentam substituí-las por uma guerra dos sexos de matriz burguesa.

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