Terra de poetas solidários e guerreiros

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Primeiro país da América Latina a acabar com a escravidão e a se tornar independente após uma revolução popular, o Haiti hoje é vítima de uma invasão liderada pelo Brasil sob a chancela da ONU para defender os interesses do imperialismo. O fato é que nenhum desses países invasores prestam contas ao seu próprio povo do que fazem em terra alheia, como se a vontade da desmoralizada ONU fosse suficiente para substituir um plebiscito popular, permitindo ou não o envio de tropas para um outro país.

A maior favela de Porto Príncipe, capital do Haiti, chama-se Cité Soleil. Cidade do Sol, em português, um batizado que não parece ter sido obra do acaso. É provável que o nome tenha sido escolhido em razão da elevada incidência de luz nesta região entranhada no centro do Caribe, mas convém cogitar outras possíveis motivações, levando-se em consideração, sobretudo, tratar-se de uma terra de poetas. E que poetas.

Jacques Viau Renaud, por exemplo. Homem culto, filho de importante líder político haitiano — Alfred Viau, um professor — que concorreu à presidência com François Duvalier, que fraudou as urnas para se tornar um dos mais sanguinários ditadores da história do Haiti. Alfred perdeu as eleições, mas assistiu com orgulho ao seu filho Jacques pegar em armas para defender a revolução na vizinha República Dominicana contra a invasão imperialista, em abril de 1965.

Haiti, terra de poetas revolucionários. Poetas solidários. Antes de tombar em combate aos 24 anos de idade, Jacques Viau Renaud deixou vasta obra, compreensivelmente não divulgada no Brasil ou em outros países vitimados pela opressão estrangeira. Numa delas, escreveu:

Em que preciso momento nos separamos da vida,
Em que lugar,
Em que canto do caminho?
Em qual de nossas travessias se deteve o amor
Para que disséssemos adeus?
Nada tem sido tão duro quanto permanecer de joelhos.

A agressão contra o Haiti remete a 1492, quando o navegador espanhol Cristóvão Colombo chega à ilha. Em 1697, quando quase todos os índios arauaques haviam sido dizimados, a parte ocidental da ilha é cedida à França, que a renomeia Saint Domingue. O lado oriental viria a se chamar República Dominicana.

No século XVIII, o Haiti se torna a mais próspera das colônias francesas graças aos povos africanos escravizados, que produziam açúcar, cacau e café.

O Haiti foi o primeiro país latino-americano a se tornar independente, e o fez de modo muito especial. A partir de 1791, o povo negro e mulato escravizado promove sucessivas revoltas contra o exército francês, que garantia a permanência da exploração colonialista. Em 1804, o ex-escravo Toussaint Louverture lidera a revolução que tornará o país livre pela força do povo, diferentemente dos processos de independência vistos em outras nações, geralmente comandados pela burguesia.

Hoje, 203 anos após a independência, o povo haitiano sofre com nova invasão. Desta vez é a Organização das Nações Unidas quem a promove. Para tanto, conta com a ajuda das Forças Armadas Brasileiras, à frente da Missão de Estabilização do Haiti (Minustah), que foi aprovada pela Resolução 1.529 do Conselho de Segurança da ONU. No país desde 2004, a Minustah não conseguiu reduzir a miséria que atinge a maioria do povo desse país onde o desemprego alcança assustadores 70% da população economicamente ativa. Além disso, a mortalidade infantil chega a gritantes 74 por mil nascimentos e doenças como tifo, tuberculose e Aids se alastram neste que é considerado o país mais pobre da América Latina.

Protegendo o opressor

O USA sempre acompanhou com atenção os acontecimentos. A partir da década de 1990, o interesse aumentou e o governo ianque chegou a sequestrar o presidente eleito, Jean Bertrand Aristide, e enviar os marines para garantir o presidente títere, Boniface Alexandre. Daí em diante o USA exigiu adequação do Haiti ao receituário neoliberal, subordinado aos organismos dos banqueiros internacionais. O objetivo era garantir o controle de um país estrategicamente situado entre Cuba e Venezuela. Além disso, é interessante para o governo estadunidense a criação de mais um pólo de indústrias maquiladoras, onde corporações como Nike e Adidas possam produzir seus artigos esportivos pagando um salário de fome aos trabalhadores.

— Pagam salários baixíssimos aos funcionários, que trabalham em verdadeiros campos de concentração, extremamente militarizados, para exportar produtos a preços irrisórios para o USA — denuncia Sandra Maria Quintela Lopes. Economista, formada na Universidade Federal de Alagoas e pós-graduada na Universidade de Bremen, na Alemanha, além de mestre pela Coppe (UFRJ), Sandra trabalha na Rede Jubileu Sul, entidade que luta para provar a ilegitimidade das dívidas externas e internas dos países do Hemisfério Sul. Em 2005, ela esteve em Porto Príncipe pela Missão Internacional de Investigação e Solidariedade ao Haiti.


Existem acusações contra as tropas brasileiras de estupros,
violações de direitos humanos e assassinatos


Na entrevista que segue, concedida com exclusividade ao AND, Sandra Quintela relata que a maior parte do povo haitiano rejeita a presença de tropas estrangeiras no país. São muitos os relatos de assassinatos, estupros e outras violações cometidas pelas tropas brasileiras. De acordo com a seção haitiana do Escritório Internacional de Advogados, mais de 400 civis foram mortos ou feridos pela Missão da ONU — que foi renovada por mais seis meses no dia 15 de fevereiro último. A economista também ressalta que o alto comando da Missão da ONU no Haiti está nas mãos de França, Canadá e USA, restando ao Brasil cumprir as ordens impostas por esses três países.

Quando visitou o Haiti, a economista Sandra Quintela ouviu a mesma mensagem de dois interlocutores com perfis bem diferentes. Primeiro, o general brasileiro Augusto Heleno lhe disse que o problema do Haiti não era militar, mas de falta de solidariedade internacional. Depois, ouviu de um garoto de 13 anos que "se o nosso problema fosse militar, a situação já estaria resolvida desde o início do século passado".

Ainda assim — ou por isso mesmo — a solução adotada para resolver os problemas do Haiti por aqueles que se julgam os donos do mundo foi a solução militar. Ou seja, a terra de poetas, solidários e revolucionários, segue pagando um alto preço por ter ousado, um dia, ser livre. E se depender do povo haitiano, não haverá rendição enquanto houver um agressor, como profetizou Jacques Viau Renaud.

Não haverá paz!
Lágrimas para quebrar as lágrimas,
Morte para quebrar a morte!

Segue a entrevista com Sandra Maria Quintela Lopes.

AND: Você participou da visita ao Haiti como representante da Rede Jubileu Sul. O que é essa rede?

Sandra: A Rede Jubileu Sul existe em vários países e luta para demonstrar a ilegitimidade das dívidas externa e interna. Nós defendemos que os países do Sul já pagaram essas dívidas muitas vezes e, na verdade, já somos credores dessa dívida.

AND: Por que a dívida seria ilegal?

Sandra: Principalmente porque em grande parte foi contraída por governos sem representatividade, que não foram eleitos pelo povo.

AND: Como durante a ditadura, no Brasil.

Sandra: Exatamente. Em 2000 fizemos uma grande pesquisa no Brasil que teve a participação de mais de seis milhões de pessoas. A grande maioria considera a dívida ilegal. Nós tentamos localizar os contratos, mas a maioria desapareceu. Dos 800 contratos que deveriam estar no Senado Federal, que é o órgão responsável por aprovar ou não esses empréstimos, foi possível localizar apenas duzentos. Os outros seiscentos desapareceram.

AND: E no Haiti existe uma dívida de US$ 1,5 bilhão.

Sandra: Já está em US$ 2 bilhões. É o que chamamos de dívida odiosa. E, para piorar, os países que se julgam credores exigem uma série de contrapartidas para emprestar mais dinheiro.

AND: E qual foi sua impressão ao chegar ao Haiti? A população local apóia a Minustah (Missão de Estabilização no Haiti)?

Sandra: Não, a esmagadora maioria é contra. Além disso, essa missão está sendo um fracasso. Nos primeiros 18 meses foram gastos US$ 26 milhões e apenas 265 armas foram resgatadas, das dezenas de milhares que a ONU estima estarem nas mãos da população civil. Esta não é uma missão de paz. Cerca de 85% dela é composta por contingentes militares e, do restante, não chega um centavo de ajuda humanitária para a população local. Quando estive lá, o próprio general brasileiro Augusto Heleno disse que o problema do Haiti não era militar, mas de falta de solidariedade. Ele disse que podem colocar 100.000 soldados lá dentro que não vai se resolver o problema. A situação do Haiti é grave, há uma crise institucional, mas não há uma situação que permita uma intervenção militar.

AND: Existem denúncias contra as tropas brasileiras?

Sandra: Sim. Agora mesmo o principal tema do carnaval de lá foi este: a população criticando a presença da Minustah. Existem acusações contra as tropas brasileiras de estupros, violações de direitos humanos e assassinatos.

AND: Então, qual seria o interesse da Minustah?

Sandra: Primeiro, é preciso dizer que o alto comando da missão não pertence ao Brasil, mas ao USA, França e Canadá. São esses países que determinam os objetivos, o Brasil apenas cumpre as ordens. O principal objetivo é geopolítico, em razão da posição estratégica ocupada pelo Haiti, entre Cuba e Venezuela. Para o USA é interessante ter um braço armado nessa região. Outro ponto está ligado à história. Os haitianos são extremamente combativos, determinados. É preciso lembrar que o Haiti foi o primeiro país latino-americano a se tornar independente. E um detalhe muito importante: pelas mãos dos escravos. Não foi uma revolução criolla ou burguesa, foi uma revolução de escravos negros. Então, o imperialismo precisa acabar, destruir, apagar a memória desse povo combativo. Outro ponto que identificamos é o treinamento de soldados no Haiti para depois serem usados nas favelas brasileiras. Nós reparamos que os mesmos soldados que ocuparam os morros da Mangueira e da Providência, em março do ano passado, estiveram servindo no Haiti. As ruas são muito parecidas, são estreitas. Este ponto está de acordo com o que o USA quer para os países do Hemisfério Sul: que as Forças Armadas exerçam apenas a função de polícia...

AND: A visão do inimigo interno.

Sandra: Isso, a visão do inimigo interno. Querem que nossas Forças Armadas deixem de vigiar as fronteiras e passem a reprimir as populações pobres. E o quarto eixo de interesse é com relação à destinação econômica que o USA quer dar ao Haiti. Estão transformando o Haiti num país de fábricas maquiladoras. Pagam salários baixíssimos aos funcionários, que trabalham em verdadeiros campos de concentração, extremamente militarizados, para exportar produtos a preços irrisórios para o USA.

AND: Seriam essas fábricas de tênis e agasalhos? Existe um livro chamado Sem Logo, de uma escritora canadense, Naomi Klein, onde ela denuncia marcas como Nike, Reebok, Adidas, Gap, entre outras, de explorarem mão-de-obra semi-escrava em países do sudeste asiático. Essa exploração estaria chegando aqui na América Latina?

Sandra: Já chegou. Em Honduras, por exemplo, já é assim. E agora estão fazendo o mesmo com o Haiti. O grande problema é que a população brasileira, que poderia se manifestar contra essa ocupação de maneira mais enfática, está sendo manipulada pela imprensa burguesa. Aí termina apoiando essa violência contra os companheiros haitianos.

AND: Com relação ao general brasileiro Urano Teixeira da Matta Bacellar, que apareceu morto em janeiro de 2006. A versão oficial foi de suicídio. Existe alguma versão extra-oficial?

Sandra: Lá no Haiti poucos acreditam nisso. A versão que corre é de que teria sido assassinato, teriam achado duas balas no corpo, uma pelas costas. Enfim, ninguém se suicida com duas balas e nem pelas costas. O Exército brasileiro inclusive alega ter tentado levar adiante as investigações, mas a ONU não permitiu.

AND: Quem poderia estar interessado em seu assasinato?

Sandra: Não sei. Pode ter sido disputa interna.

AND: Se a ocupação continuar, o que pode acontecer, na sua opinião? Quais serão os desdobramentos?

Sandra: Olha, acho que vai haver um desgaste cada vez maior. De um lado, uma força militar que chega sem saber falar a língua local. Poucos falam o francês e menos ainda o dialeto local, creole. De outro lado, um povo que não aceita a dominação. O resultado disso é imprevisível, porque a situação do Haiti é muito complexa, existem vários fatores envolvidos. Não é uma situação simples, embora seja um país pequeno.

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