Caipira, sim sinhô

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Juraildes da Cruz é cantor e compositor. Sertanejo, caipira, popular e com orgulho dessa condição. Ganhou mais de cem festivais de música, desde 1976. Atualmente, além de compor, está na estrada com o show infantil Os meninos, título homônimo de seu último CD.



Ele nasceu em Aurora do Tocantins, quando ainda se chamava Aurora do Norte, então estado de Goiás. Cresceu no pé da Serra Geral, onde a família possuía um pedaço de chão. Lá, como ocorre em várias regiões de Goiás e Tocantins, quase todos os moradores eram parentes entre si.

Aos nove anos, Juraildes chegou em Goiânia com seus pais buscando um tratamento contra lombrigas. Pilheriando, ele conta que estava quase morrendo. A família gastou os únicos recursos que tinha. O pai queria voltar a todo custo, mas finalmente a mãe fincou o pé na capital. Ela também desejava dar um futuro melhor aos filhos, queria que estudassem.

Juraildes conta que não chegou a realizar o sonho da mãe, tampouco desistiu de realizá-lo. Depois de mais de 30 anos fora da escola, ele retornou e concluiu o ensino médio, e agora mira a faculdade de Letras.

Com carinho, Juraíldes guarda as lembranças da vida no campo:

— Eu vim para Goiânia aos nove anos, mas eu acho que o tempo que passei no campo foi a fase mais importante da minha vida. Foi uma época fértil na minha vida. Então eu tenho isso marcado profundamente na alma.

Festival de música

O compositor não esquece suas raízes nem as influências musicais recebidas ainda na infância:

— Até hoje, o que me motiva a tocar é o que eu escutava quando menino. No Pé da Serra Geral eu ouvia as cantigas de roda, as músicas da cultura popular brasileira, algumas trazidas de Portugal, músicas de São Gonçalo que geraram as cantigas e sambas de roda. Elas tocavam nas festas de fazendas, com sanfona e pandeiro. Meu pai era tocador de pandeiro. Então as músicas que me influenciaram foram as de Luiz Gonzaga e as sertanejas autênticas, que eu ouvia muito meus tios tocarem.

A primeira música considerada popular — mas da cidade — que o cantor ouviu foi Das Terras de Benvirá, de Geraldo Vandré. Ele conta que gostou muito da música e comprou o disco. Depois, aos poucos, foi conhecendo outros gêneros musicais, pouco divulgados em Goiás.

A história de Juraildes com a música começou como a de muitos grandes artistas anônimos, segundo o compositor:

— Eu tinha um vizinho que tocava violão e senti vontade de aprender. Logicamente eu já trazia na alma uma sensibilidade que tinha de se manifestar através de alguma coisa, da arte, da música. Aprendi a tocar mais para fazer serenata paras as moças que achávamos bonitas, mas não tinha a intenção de compor.

Depois vieram outras letras, como a Pai João, com a qual participou do Gremi de Inhumas (GO). Juraildes conta que participou deste Festival, em 1976, meio por acaso:

— Uma pessoa que ia tocar violão para um amigo meu, cortou o dedo e ficou impossibilitado de ir. Então fui convidado para substituí-lo. Como ainda era eliminatória, havia tempo para inscrever trabalhos. Esse amigo me perguntou, ainda na estrada, se eu não tinha nenhuma composição. Eu disse que tinha e ele me estimulou a inscrevê-la. E eu que tinha ido lá para acompanhá-lo, inscrevi a música e acabei ganhando.

O compositor, que na época tinha cerca de vinte anos, ficou muito animado com a vitória. Ele conta que, após receber o prêmio, resolveu dedicar-se integralmente à música.

Antes de se profissionalizar — e ainda hoje — Juraildes levava uma vida bastante simples. Como qualquer homem do povo, trabalhava. Ele trabalhou em lanchonete, vendia alho e cebola na rua e foi operário da construção civil.

— Quando começaram os festivais, eu ganhava um dinheirinho aqui, outro acolá, e assim as coisas foram acontecendo, até eu gravar meu primeiro CD. Foi quando começou minha carreira, em 1991. Mas desde que comecei a participar de festivais, passei a viver deles. Ganhei mais de cem festivais. Alguns dão ajuda de custo, hospedagem. Outros, a gente ia com a cara e a coragem. Se ganhasse voltava, se não ganhasse dava um jeito.

Juraildes da Cruz fez uma parceria com seu conterrâneo Genésio Tocantins e eles viajaram o Brasil todo participando de festivais de música.

Participaram de mais de cem festivais, entre eles o Festival Tupi (1979), onde estiveram Caetano Veloso, Elba Ramalho, Fagner, Oswaldo Montenegro e Alceu Valença, entre outros, ficando no quarto lugar com a composição Dodói. Juraildes também foi classificado em vários concursos, inclusive obtendo um segundo lugar em um concurso de televisão.

Os festivais, ele explica, são um instrumento importante para o início de carreira:

— Os festivais eram uma vitrine para quem não nascia dentro dos holofotes, com padrinhos. Por algum tempo, quando havia festivais, a grande oportunidade de mostrar seu trabalho era subindo no palco e cantando. Mostrar seu trabalho numa atividade competitiva, no fundo, não é muito bom como resultado. A arte como competição não cresce. A tendência é se atrofiar com o passar do tempo. Mas não tinha outra forma. O festival servia como um ponto de apoio para um salto maior. O artista não pode é conviver com ele eternamente.

Cantor, compositor

Juraildes é um dos melhores compositores de música regional, caipira e popular do país. Suas composições são cantadas por Pena Branca e Xavantinho, Margareth Menezes, Xangai, Rolando Boldrin, Rubinho do Vale, Titane e até por artistas do que ele chama de "meio comercial". Juraildes conta que não tem nenhum segredo para compor:

— Eu componho aqui nesse barulho da cidade. Eu saí do mato, mas o mato não saiu de mim. Isso tudo é a influência que trago desde menino.

Além de excelente compositor, Juraildes é também cantor. Mas, muito modesto. Afirma que tem muita dificuldade em dizer que é cantor porque, segundo ele, ainda está estudando para desenvolver a melhor maneira de expressar o que compõe.

— Eu toco o básico do violão. Toco do meu jeito [ele toca violão pelo lado direito e pelo esquerdo], diferente dos outros. Tenho um estilo de tocar, uma forma diferente, uma levada para tocar, se a gente examinar. O violão, para quem faz música se apoiando nele, tem uma importância fundamental, no sentido de dar uma característica diferente para o trabalho. Ele é tão importante quanto a letra. Mas no meio industrial, essa arte não tem importância. Neste meio o que importa é uma melodia fácil e uma letra legível.

Música comercial

Ele faz questão de deixar bem claro que, na verdade, existem dois tipos de música sertaneja:

— Existe a música sertaneja da moda de viola e a música da indústria do entretenimento. A "sertaneja" hoje é resultado da mistura de rock; "jovem guarda" [yê-yê-yê, versão embaixada dos ianques no Brasil] com músicas de duplo sentido. A música sertaneja é a moda de viola, com um assunto legal, com uma letra boa. Isso é muito bonito. A música boa é independente do estilo. Agora, que têm uns estilos meio esquisitos, isso tem.

E continua distinguindo:

— Normalmente a música sertaneja do entretenimento não tem muita reflexão, pega a pessoa pela descontração. Mistura álcool com um monte de coisas e assuntos que se identificam com o dia a dia de cada um. Isso parece que gera um processo de ebulição e uma alegria que eu não sei se é verdadeira, mas que vai ajudando o "nego" a morrer mais ligeiro.

O cantor pensa que o ideal para a evolução do ser humano é encontrar uma maneira de tirá-lo desta situação deplorável de miséria, desemprego e promiscuidade.

Hoje no mercado fonográfico há uma grande pressão pelo lançamento de novos álbuns. As músicas são efêmeras, não há mais arte, apenas jingles que rapidamente se perdem, saem da moda. Esse tipo de música, que não pode ser chamado de arte, tem como objetivos gerar lucro para as gravadoras e alienar as massas.

As composições de Juraildes são de profundo caráter reflexivo. Algumas falam da natureza e da necessidade de preservação do planeta, da força e união do povo, da necessidade do caipira se impor, etc. Ele acredita que atualmente o papel de suas composições é contribuir para elevar a consciência política do povo e libertar o mundo em que vivemos.

Nóis é jeca

A defesa do caipira está presente em uma das composições mais conhecidas de Juraildes, Nóis é jeca, mas é jóia.

Juraildes conta que essa música é, ao mesmo tempo, regional, nacional e internacional. Primeiramente ele questiona o "falar correto". Para ele, somente a gramática não é relativa, o falar é relativo:

— Em Nóis é jeca, mas é jóia, eu estou falando da forma de comunicação do caipira, quando ele, como caipira, toma posição frente à sociedade como gente de valor. Ele não conhece a robótica, a farmacêutica, mas conhece das plantas medicinais, que é onde o farmacêutico vai buscar conhecimento para fazer os remédios.

Exclusão, jabá

— Hoje, a exclusão é profunda. Até podemos interpretar isso como censura. É a exclusão do belo, do natural, do original. Isso tudo está sendo excluído porque não faz parte do artificial e é o artificial que vende. Produto de mercado não pode ter durabilidade nem ser bom, igual a essa "tecnologia" que temos hoje, feita para ser frágil porque senão o mercado não tem rotatividade. O que é sério e original não tem valor no mercado porque vai vender uma vez e não vai vender mais — defende Juraildes.

Mas o artista tem que encontrar uma forma de driblar esta situação, permanecendo íntegro, com a consciência tranqüila e sem morrer de fome.

Em Goiás, ele tem o apoio de algumas rádios, mas relata que nas grandes, do meio comercial a coisa é diferente. Ele conta brincando que nunca pagou jabá, até mesmo porque lhe faltam recursos para isso.

Para Juraildes as influências políticas são determinantes no espaço do monopólio dos meios de comunicação:

— Eu falo das oportunidades controladas pelas influências políticas e isso é que faz que uns apareçam mais e outros não. Tem gente com muito talento, mas não tem influência política: não serão conhecidos. Outros, não têm talento, mas influência política, aí tão sempre aparecendo. Há os que têm os dois.

O cantor e compositor argumenta que a ditadura do monopólio dos meios de comunicação está implícita no mercado. Só toca o artista se o produto estiver enquadrado nas regras do monopólio.

Meninos espertos

Juraildes lançou em setembro de 2006 o CD Meninos, que ele considera o melhor trabalho de sua vida. Oportuno, visto que no Brasil não existe exatamente música para determinadas faixas etárias, revela Juraildes:

— As crianças às vezes são obrigadas a ouvir bobagens, coisas da televisão, do rádio, da grande indústria, coisas que agridem a própria idade. Eles ouvem e aprendem aquelas porcarias. Por que você não pode fazer uma coisa que seja construtiva e que tenha um alcance também para o adulto? —diz Juraildes, e completa — Eu sofri algumas críticas neste trabalho, algumas pessoas acharam que eu fiz um trabalho muito rebuscado, por ser realizado para crianças. Eu poderia fazer esse trabalho de uma forma bem singela, bem amena, bem ingênua porque se tratava de crianças, mas eu não quis assim. Eu quis fazer um trabalho com perfil de gente que já pensa, de gente que já tem alguma coisa a dizer.

O Cd foi gravado através de um projeto cultural da Secretaria Municipal de Goiânia e tem 13 canções, todas muito alegres. Além de Juraildes, cantam 13 crianças do coral; os dois filhos do compositor — João Pedro e Gabriela — a cantora goiana Maria Eugênia e Adriana Jacintho, a própria professora do coral. Juraildes explica que o CD mescla músicas populares de domínio público, como cantigas de rodas, e músicas de sua própria autoria. Estas músicas que ele fez especialmente para este CD prezam por uma didática, falando de temas sociais e familiares.

Os shows deste CD começaram em 2006, mas prosseguiram em 2007. Segundo Juraildes, as apresentações tem contado sempre com casa lotada e pais e filhos na platéia, cantando e se divertindo:

— As crianças são muito musicais, e elas gostam de música e de cantar, se envolvem muito mais nas coisas que fazem do que os próprios adultos, com mais emoção, mais vibração. Os shows com as crianças tem tido uma resposta muito boa porque as crianças participam, os pais gostam. É uma coisa que está me surpreendendo.

Juraildes revela que quer investir mais neste tipo de trabalho e que já está até compondo novas músicas. Seu filho João Pedro, de nove anos, que passou a seguir o caminho do pai após participar deste CD, também já compôs uma nova música. Juraildes da Cruz afirma que deseja se aproximar do universo das crianças e aperfeiçoar este trabalho ao máximo.

Sempre, em seus shows, Juraildes gosta de brincar com o público, recitando poemas e ditados populares. Este é um dos que o público mais gosta, recitado, geralmente, após a música Nóis é jeca mas é jóia.

Eu falei pra você não confia no homi
Eu falei pra você não vota no homi
É muito mais fácil confiar num caminhão na banguela
Cheio de buraco na pista
Chofer com a perna só e curto das vista
E um doido gritando atrás:
Atola o pé motorista!

Janelas para o Tocantins
Do CD Hot-dog Latino
Olha aí meus caros amigos
Flores do meu caminho
O trabalho é o abrigo
Que nunca lhes deixa sozinhos
Me dê sua mão num abraço forte
Que o homem é quem faz a história
O homem é quem faz a sorte
E a união é a vitória

Com belezas naturais
E essa gente franca e bela
Quando quer o homem faz
Palmas nossa tela
Admirável mundo novo
Novo homem, nova era
Olha aí o Tocantins
No jardim da sua janela

Os Cds Meninos e Cantão pro mundo podem ser adquiridos pelo telefone (62) 3259 1735 e (62) 9906 3786, com o próprio compositor e custam R$20,00 + frete.

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