A embriaguez do etanol

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Ao anunciar aos quatro ventos que haveria de fazer do Brasil "a Arábia Saudita do biocombustível", o gerente Luiz Inácio deu razão ao criador do Proálcool, José Walter Bautista Vidal, para quem "o País está despreparado para assumir a liderança que tem hoje no setor". O megapelego também demonstrou total submissão ao imperialismo ianque, cujo único propósito é abocanhar o etanol brasileiro copiando a tecnologia, comprando terras e usinas, degradando os recursos naturais ou pagando preços irrisórios pelo que aqui se produz.

— Ou seremos uma sociedade próspera, que adota um desenvolvimento autônomo, ou um mega-Haiti, que entrega aos investidores externos o controle da produção e da comercialização do maior programa energético renovável do mundo — tem alertado reiteradamente o professor Bautista Vidal, desde a visita do gerente ianque George Bush Maluco ao Brasil, em março.

A intensa propaganda do etanol como panacéia dos problemas ambientais do planeta e da economia brasileira esconde do povo, de um lado, as terríveis conseqüências do desmatamento para aumentar a área de plantio de cana-de-açúcar e atender à demanda das corporações mundiais e, de outro, que a gerência Luiz Inácio atende cada vez mais os ambiciosos interesses ianques, recomendando, inclusive, a outros países que sigam o mesmo caminho, como o fez na visita ao Paraguai em fins de maio.

A produção ianque do etanol com base no milho é menos rentável que a brasileira, com base na cana, e não garante a execução do seu plano de redução do petróleo, o que leva o gerente Luiz Inácio, embriagado pelas perspectivas anunciadas pelas corporações multinacionais para, através de "parcerias", converter o Brasil na "Arábia Saudita dos biocombustíveis", sem que nenhum de seus "aspones" venha soprar-lhe ao ouvido de que esse país, embora seja o maior produtor mundial de petróleo, tem um só dono — a família Sa’ud, intimamente ligada a várias gerações dos Bush.

— Não existe parceria onde o Brasil entra com tudo e os Estados Unidos com nada. Reunimos as quatro condições essenciais para produzir etanol: sol, água, terra e tecnologia. Não precisamos dos americanos. O que eles estão fazendo aqui é uma invasão, semelhante à do Iraque. Só que lá usam bombas e, aqui, dólares — alerta o cientista brasileiro Dr. Bautista Vidal, pai do Proálcool.

Desnacionalização

Numerosos especialistas antevêem que a desnacionalização do etanol, com a entrega às corporações estrangeiras, não só se dará na sua industrialização feita nas usinas, como também — e principalmente — nas terras para o desenfreado cultivo da cana. Um dos mais veementes é o professor Bernardo Kucinski, pesquisador da Universidade de São Paulo, para quem "os governos americanos não são confiáveis para nenhuma parceria porque descumprem sistematicamente as suas promessas depois de obter o que querem".

Para sustentar sua argumentação, o professor Kucinski lembra que, nos anos 50, "levaram nosso urânio e tório com a promessa de compensações específicas em tecnologia nuclear, que nunca vieram; prometeram à Coréia do Norte o petróleo em troca do desmonte de seu programa nuclear, mas o petróleo não foi entregue; até hoje não cumpriram a determinação da OMC (Organização Mundial do Comércio) de desmontar os seus subsídios agrícolas. O USA depende agora de forma determinante de energia importada. Querem o nosso etanol, mas sem anular as sobretaxas que viabilizam a produção do etanol também no USA".

Enquanto a gerência FMI-PT solta a língua, nos bastidores já se trava verdadeira guerra entre vários grupos para comprar usinas. Sem maiores cerimônias, corporações estrangeiras como a Bunge, maior corporação de alimentos do mundo, já disputa com a brasileira Cosan o controle da usina Vale do Rosário, em Morro Agudo (SP). O Noble Group, sediado em Hong Kong, anunciou a compra da Usina Pertibru Paulista, em Sebastianópolis do Sul (SP), por US$ 70 milhões. A ADM, uma das maiores corporações de grãos do planeta, vai operar em junho uma usina em Rondonópolis (MT) e a francesa Dreyfus anunciou um projeto de produção de 150 milhões de litros de álcool e adquiriu cinco usinas do grupo Tavares de Melo, tornando-se a segunda maior produtora de etanol do país.

O impostor e entreguista Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê um acréscimo de 50 usinas às 270 já existentes no país. Recursos financeiros não faltarão, inclusive do banco estatal BNDES, que anunciou há dias a liberação de "até R$ 10 bilhões do montante necessário para a instalação das novas unidades". O restante do dinheiro deverá vir da iniciativa privada nacional e internacional, além das agências multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Japan Bank for International Cooperation.

E até o mega-especulador George Soros já adquiriu uma usina em Monte Alegre (MG).

Agora, todos os figurões da gerência estimulam usineiros a comprar terras e a investir no monocultivo da cana, assim como apontam a abertura do capital pelas empresas sucroalcooleiras como a melhor opção para captar recursos estrangeiros. Hoje, sem problemas, esses dirigentes do PT são aberta, e descaradamente, defensores do capital monopolista estrangeiro.

O processo de desnacionalização tende a ser mais acentuado com o feroz apetite das transnacionais que controlam o cultivo dos transgênicos, como a Monsanto, Dupont, Bayer, Basf, Dow e Syngenta. Elas já estão investindo pesado na manipulação genética do milho, cana-de-açúcar e soja, convertendo-os em cultivos não-comestíveis, o que inclusive coloca em risco a segurança alimentar dos brasileiros.

Pouco antes das advertências de Bautista Vidal, o monopólio europeu dos meios de comunicação noticiou que três grandes empresas — ADM, Cargill e Monsanto — estão forjando um império, uma aliança que vai amarrar a produção e a venda de etanol. Além disto, as empresas do agronegócio (deles), aliadas às transnacionais do petróleo e às montadores de automóveis, formaram uma megaquadrilha (parceria) inédita visando grandes lucros com biocombustíveis.

No 1º Simpósio Brasileiro de Mudanças Ambientais Globais — promovido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP), e a Academia Brasileira de Ciências —, cientistas fizeram reiteradas advertências segundo as quais os acordos para o uso da tecnologia do álcool no USA e na Europa podem constituir ótima oportunidade para o Brasil, que irá vender tecnologia, mas não se pode admitir o risco de o país virar uma grande monocultura de cana-de-açúcar por conta disso.

Negócio arriscado

Analisando o simpósio, o engenheiro Eduardo Assad, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), observa que é preciso pensar nos impactos que as culturas vão trazer do ponto de vista econômico, social, e ambiental, além do energético.

O cientista ressalta que o Brasil deve avançar no campo da bioenergia, mas sempre pensando e discutindo o etanol em conjunto com o biodiesel, sem dissociá-los. "Não podemos converter o Brasil num grande canavial" — registrou. "O biodiesel é um combustível produzido a partir de óleos vegetais extraídos de diversas matérias-primas, como palma, mamona, soja, girassol, dendê e algodão, entre outras. O leque de recursos naturais no Brasil é muito grande. Temos que produzir cana-de-açúcar, mas não somente usá-la como uma oportunidade de mercado. É necessário levar em conta os aspectos da adaptabilidade e mitigação. Por que plantar cana-de-açúcar em regiões onde se cultiva o dendê, por exemplo?" [grifo nosso].

O jornal inglês Guardian lembra que "no ano passado, o açúcar e o álcool ficaram em segundo lugar na lista dos produtos agrícolas de exportação do Brasil, com uma receita estimada em US$ 8 bilhões", mas destaca que "os cortadores de cana são efetivamente escravos e reclamam que a indústria brasileira do etanol é, de fato, um mundo obscuro de aliciadores e abusos aos direitos humanos".

Pesquisas do FAO — Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação levam a crer que o mundo deve produzir no corrente ano o seu recorde de cereais. No Brasil, espera-se em 2007 uma produção de 130,7 milhões de toneladas, 11,8% maior à produção obtida em 2006 (117,0 milhões de toneladas). Hoje a área plantada apresenta um acréscimo de 0,2% em relação ao ano anterior, situando-se em 45,6 milhões de hectares. Isto não quer dizer, todavia, que as pessoas vão se alimentar melhor. Os aumentos mais notáveis são de milho e soja, devido à crescente demanda pelo etanol no USA, culturas que abrangem, respectivamente, 20.7 e 9.4 milhões de hectares plantados.

Concentração de terras

Dependendo da forma como os biocombustíveis forem produzidos, corre-se o risco de eles servirem apenas para reforçar a histórica e absurda concentração de terras no país. O ciclo da cana no Brasil, desde o século 18, sempre foi marcado pela escravidão dos trabalhadores e pelo aumento do poder do latifúndio — que hoje concentra 56% das terras agricultáveis. Diante da expectativa do etanol virar uma commodity, já se observa uma intensa movimentação para compra de terras. E esta concentração será agravada pela desnacionalização de imensas faixas do território agrícola brasileiro.

O canto de sereia do cartel petista e de outras quadrilhas para alastrar pelo país a febre do etanol derivado da cana não leva em conta, segundo a pesquisadora Maria Cristina Gonzaga, da Fundacentro, do Ministério do Trabalho, que "o açúcar e o álcool estão banhados de sangue, suor e morte. Os trabalhadores são massacrados e ficam doentes o tempo todo".

Em São Paulo, que concentra 59,5% da produção brasileira de cana e emprega cerca de 400 mil cortadores, não faltam exemplos do suplício a que são submetidos os trabalhadores, fundamentando a denúncia do professor Pedro Ramos, da Universidade de Campinas: "Muitos deles são trabalhadores em regime de escravidão disfarçada, mal alimentados e com poucas horas de sono, o que provoca inúmeras doenças e o envelhecimento precoce.".

Por que não vão produzir etanol nos seus países de origem? Porque há outras leis, entreguistas e principalmente fascistas, que tornam a exploração da força de trabalho e a apropriação da renda da terra no Brasil, em mais um "negócio do século".

Na Folha de S.Paulo, domingo, 27 de maio de 2007, página A3, o professor Francisco de Oliveira, em O pós-moderno, lembra que 19 cortadores de cana morreram de exaustão, desde 2004, na "região eldorada do açúcar", em São Paulo. Ele cita Francisco Alves, um pesquisador de Universidade Federal de São Carlos que, ao remeter-se à questão da produtividade dos mesmos trabalhadores naquela região, conclui que em dez anos ela passou de 6 para 12 toneladas, que os trabalhadores perdem em média "dez litros de água por dia", percorrem "dez quilômetros diários, dão 66 mil foiçadas" (...) por dia para obter as "12 toneladas diárias, trabalham no mínimo 12 horas por dia". Ao final de cada jornada os trabalhadores são encontrados tomando soro nos postos de saúde para recuperar um pouco dos sais que o sistema de produção roubou. Eles "morrem por esgotamento, câimbras que podem provocar paradas cardíacas. Têm hoje vida média inferior à dos escravos coloniais" (!!)

Situação semelhante se verifica na Amazônia. O jornal britânico Times, em recente edição dominical, diz que estrangeiros estabelecidos da Amazônia não estão apenas destruindo o meio-ambiente, mas também os brasileiros pobres "para fazer seu trabalho sujo, deixando-os endividados, presos em cativeiro e abandonados. São turnos de 12 horas sob o calor escaldante. Ganham apenas cerca de 2 reais pela tonelada de cana cortada, antes de regressarem aos abrigos superlotados alugados para eles a preços extorsivos por proprietários de terra inescrupulosos, muitas vezes eles mesmos ex-cortadores de cana. Diante de um trabalho exaustivo em temperaturas de mais de 30º C, alguns deles morrem. Mas o êxodo anual do Nordeste continua, e conforme aumenta o investimento estrangeiro na indústria do etanol, os números devem subir ainda mais".

E tudo isso para enriquecer aqueles que o senhor Luiz Inácio — o operário padrão do imperialismo — chama de heróis, os grandes usineiros nativos ligados ao capital monopolista mundial.

Esse mesmo megapelego, discursando na cidade goiana de Mineiros, ainda em 21 de março, enfatizava: "Os usineiros de cana, que há dez anos eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais, porque todo mundo está de olho no álcool. E por quê? Porque eles têm políticas sérias".

Não é de hoje, porém, que a gerência FMI-PT favorece os reis da cana. Negociações realizadas no final do ano passado entre o Banco do Brasil e cerca de 20 dos maiores usineiros do País resultaram no perdão de uma dívida de mais de 1 bilhão de reais.

Esta cifra, segundo o Instituto de Estudos Socioeconômicos — Inesc, é 2,5 milhões por cento maior do que os recursos orçamentários destinados para a mediação dos conflitos agrários; 277 mil por cento maior do que os recursos para implantação de Ouvidorias Agrárias; 222 mil por cento maior do que os da assistência técnica rural em terras indígenas; 349 mil por cento maior do que o valor designado para a implantação do Cadastro Nacional de Imóveis Rurais; 50 mil por cento maior do que os destinados para promoção de igualdade de raça, gênero e etnia no campo; 33 mil por cento maior do que os recursos aprovados para a implantação de bibliotecas rurais do Programa Nacional de Alfabetização na Reforma Agrária (Pronera); 30 mil por cento superior aos recursos para a prevenção de tensão social no campo e quase 6 mil por cento maior do que os recursos do orçamento de 2007 para ações preparatórias para obtenção de imóveis rurais destinadas à metafórica reforma agrária, prometida desde o golpe de estado contra-revolucionário de 1964 até hoje.

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