Esporte é fachada para mentiras e agressões ao povo

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Na cidade do Rio de Janeiro que recebeu os XV Jogos Pan-americanos, de 13 a 29 de julho, foram redobrados todos os esforços para ampliar a repressão — antes, durante e depois do evento.

— E um dos mais assanhados instrumentos de repressão é o monopólio dos meios de comunicação que inundou seus veículos com duas de suas conversas moles prediletas. Afinal está a seu cargo o trabalho de histericamente espernear, gritar, ocultar e desviar a atenção sobre impiedosa exploração das massas trabalhadoras, a corrupção imobiliária, a privatização do patrimônio público, a chacina nos bairros proletários e outras ações da repressão, a baderna em que se transformou a cidade nas mãos dos grandes bandidos do capital — assim como o ódio do povo expresso suas manifestações de rua.

A primeira falácia ampliada tentou, mais uma vez, convencer a população de que a "violência urbana" é a responsável exclusiva pelos infortúnios cotidianos das massas empobrecidas, tratando de calar sobre a brutalidade da exploração que atira milhões de brasileiros para uma rotina de miséria e humilhação.

A segunda falácia, revigorada em época de Pan, foi a que avisa aos meninos e meninas pobres do Rio e do país inteiro que só mesmo jogando bola, fazendo ginástica, saltando obstáculos ou arremessando pesos eles podem escapar do destino de pobreza, prisão e execução a eles reservados pelas políticas de exclusão.

Ambas fanfarronices fazem parte da rotina de produção de um nível de falcatruas nunca imaginado.

Nos textos dos jornais impressos e nas reportagens televisivas as corporações da comunicação operantes no Brasil, particularmente da maior delas, a Rede Globo, os esportes costumam ser perversamente manipulados para atentar contra a inteligência e a dignidade do povo. A começar, trata-se de esportes cuja degeneração administrativa os transformou ao longo dos anos em atividades de altíssimo rendimento.

O monopólio dos meios de comunicação martela na cabeça dos filhos do proletariado brasileiro que o seu lugar é aquele que a raquítica e colonizada elite lhes reservou: uma vida de obediência, servidão e silêncio, se aproveitando do apreço que as massas têm pelo esporte em geral, e pelo futebol em particular.

Esse monopólio decreta que, no futuro, crianças e jovens da periferia e das favelas serão criminosos sanguinários ou atletas profissionais.

Suas empresas completam: aqueles que não tiverem talento para o esporte, que se contentem com serviços de office boys, garçons, engraxates e outras profissões desamparadas por lei e salários para as quais os governos oportunistas não precisam garantir qualquer reserva de cotas.

Da mesma forma que é comum ver na TV os repórteres dizendo que a população sai de casa sem saber se volta, por causa da violência, é também comum ver repórteres repe tindo que a criançada pobre não está matando nem roubando porque faz parte de um time mantido por uma ONG qualquer, e que ali estaria garantido um futuro iluminado.

Além de placares, escalações, agendas e entrevistas com atletas famosos, muita manipulação! Essa é a versão decadente que dão ao esporte — uma atividade que tanto poderia servir de confraternização e celebração da solidariedade entre os povos.

O outro lado da mesma moeda desqualifica tudo o que pode e deve ser conquistado por meio da mobilização e luta, como ensina a história das conquistas dos trabalhadores contra seus opressores, os donos do poder econômico.

Quem gosta de acompanhar os esportes, aprecia também ler os jornais esportivos expostos nas bancas das cidades, ou mesmo de folhear os cadernos especializados dos jornais comuns. Desde uma semana antes do início dos jogos pan-americanos do Rio de Janeiro, The Globe (O Globo, como se dizia antes do golpe de 64, "o jornal ianque mais bem dublado do país"), por exemplo, aumentou o tamanho do seu caderno dedicado basicamente ao futebol e ao Pan-americano que estava para começar.

Quem viu esse caderno no dia 4 de julho, notou que a capa estampava a foto de uma atleta chamada Cristina Badaró, integrante da seleção brasileira de tiro esportivo. Na foto, Cristina segurava uma carabina apontada para a lente do fotógrafo e, logo, para os leitores do jornal. Ao lado da mira da arma, o enorme título do caderno dizia: "Tiro do bem". A legenda logo abaixo explicava melhor:

"Paz: Nascida na baixada, Cristina Badaró usa sua carabina para atingir medalhas". No texto da matéria, na página 7 do caderno, estava escrito que "Baixada e tiros também podem ser sinônimos de paz".

Preocupado apenas em praticar o mais barato exercício das frases fáceis, o jornal não tem sequer a prudência de disfarçar seus próprios preconceitos. Sendo uma jovem de origem pobre nascida em Nova Iguaçu e criada em Nilópolis, o fato de ser atleta e praticar tiro esportivo foi, para o jornal, tão surpreendente quanto ela não estar perambulando pelas ruas da Baixada Fluminense atirando aleatoriamente nas pessoas.

Aos olhos da "elite", uma "criminosa em potencial" enveredou, por obra e graça do esporte, pelos caminhos virtuosos dos "tiros do bem".

Desrespeito, embuste, farsa cujo único objetivo é difundir uma mentalidade baseada em associações simplórias, trocadilhos com antagonismos moralmente condenáveis, ardilosos. Uma mentalidade alicerçada na ignorância e na alienação.

A ONG Viva Rio (outra que aproveitou a realização do Pan-americano no Rio de Janeiro para voltar a chamar a classe "média" para as ruas levantando bandeiras reacionárias) costuma estar metida em embustes como este.

Dessa vez, a ong promoveu uma farsa chamada "Trilhando pela paz". A idéia foi conduzir meia dúzia de bacanas entre os becos das favelas da Rocinha e do Vidigal, percorrendo através dos morros o trajeto entre a Praça Santos Dumont, na Gávea, e a Praia de São Conrado.

The Globe noticiou o passeio sob o título Favela e asfalto juntos pelo Pan. Um insulto para os moradores de regiões como o Complexo do Alemão. A pretexto da proximidade do Pan, seus habitantes padeceram sob o cerco e fuzilaria policial durante 50 dias cujo resultado foi o extermínio de mais de 40 pessoas, além de centenas de feridos e de toda sorte de abusos e truculências em nome do "Pan do Brasil".

Que cidadania?

E não apenas ONGs e o monopólio dos meios de comunicação resolveram eleger o "esporte" ou a polícia como as soluções possíveis para todos os males criados pelas políticas de exclusão. Não faltam porta-vozes de governos oportunistas prontos a enumerar, uma por uma, as supostas maravilhas que esperam aqueles que, entre encontrar o PM ou o treinador, escolhem o "caminho do bem".

Entre as farsas, dizem que o esporte significa oportunidade de ascensão social; que é o caminho ideal para jovens e crianças não se meterem com o tráfico de drogas; que praticar esportes é a melhor maneira de assimilar valores como disciplina e respeito. Mas na maior das empulhações chegam a afirmar que as aulas de futebol, tênis, judô, atletismo ou ginástica são, via de regra, aulas de cidadania.

O advogado, professor e jurista Nilo Batista certa vez escreveu sobre a "privatização da cidadania", mostrando alguns dos significados rasteiros hoje atribuídos à palavra, "tão em moda numa conjuntura completamente negadora de sua denotação mais radical":

"Dez peruas do society resolvem ensinar uns garotos, que caíram nas malhas da justiça da infância e adolescência, a tornarem-se garçons compenetrados? Cidadania. As cadeiras de rodas com as quais animadores de auditório garantem audiência e patrocínio? Cidadania pura. O Estado reduz sua potência ao clientelismo de distribuir algum dinheiro para os pobres? Criou-se o "cheque-cidadão". Alguém devolveu ao banco dinheiro que caiu do carro-forte? Ganhou o prêmio de cidadania. Uns estudantes de classe "média" foram a uma favela, por qualquer motivo distinto de comprar maconha? É cidadania no Jornal Nacional".

Eis alguns exemplos apenas com o que se fala em reportagens de TV: A Organização das Nações Unidas e a Arquidiocese do Rio de Janeiro promovem uma pelada de futebol entre os refugiados que residem na cidade? "Dia de cidadania e esporte". A Defesa Civil carioca leva a garotada das escolas públicas para uma sessão de autógrafos com jogadores de futebol famosos? "Esporte que ensina cidadania". O Serviço Social da Indústria e a Rede Globo patrocinam um evento no qual as crianças caem na piscina e saem com uma medalha de ouro? "Esporte que traz cidadania".

E mais: Atletas que vão competir no Pan-americano acompanham aprendizes de iatistas para catar lixo da baía de Guanabara? "Mutirão da cidadania". Uma ONG resolve ensinar a crianças pobres um esporte praticado exclusivamente pela lumpem-burguesia? "Esporte que forma cidadãos". Um ex-judoca funda uma academia para que jovens pobres possam expressar sua agressividade através do judô? "Golpe de cidadania"...

Falsas maravilhas

Os esportes são mesmo um terreno fértil para a hipocrisia e os vendedores de falsas ilusões.

Muitos jogadores de futebol brasileiros que alcançaram o sucesso internacional têm inúmeras histórias para contar sobre a superação de uma infância pobre e sobre as dificuldades iniciais na carreira. Os relatos soam como contos de fadas para milhares de crianças e jovens do Brasil, talentosos ou não com uma bola no pé.

Mas, entre olhos brilhantes e ouvidos enfeitiçados, para essa meninada sem grandes esperanças pode ser mais difícil do que se imagina constatar o óbvio: Ronaldinhos e Robinhos são personalidades piloto, exceções criadas para que os pobres acreditem na imagem padrão imposta ao povo que, assim, se conformará com a alegria de alguns poucos.

Mas, entre a grande maioria, o sonho de uma carreira profissional vira frustração na velocidade de um plim-plim. E ainda que fosse, no total, dotada de talentos fabulosos, outra constatação óbvia teria que se impor: não há lugar para todos.

E esse tipo de polícia está de olho em quem sobrar das peneiras do futebol e não se enquadrar nos trabalhos precários e mal pagos, nem que tenha sido para selecionar alguns deles para um subemprego no Pan.

Foi o que aconteceu em maio de 2006, quando dois mil filhos do proletariado e da pequena burguesia baixa carioca, de idades entre 14 e 24 anos, começaram um treinamento para que, um ano depois, trabalhassem como guias do público dos Jogos Pan-americanos. Como se tratavam de crianças e jovens pobres, encarados como criminosos em potencial, a tarefa de selecionar a rapaziada coube à Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Para completar o insulto, o manda-chuva da Secretaria recomendou ainda que, no futuro, esses meninos e meninas "construam o dia seguinte e não fiquem esperando ações paternalistas".

Com quem pensam que estão falando?

Quando aconteceu essa seleção da meninada pelas mãos da polícia, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, disse que o principal legado do Pan seria "integrar os moradores de dezenas de comunidades do Rio, aproximá-los das organizações dos Jogos e dar a eles um futuro melhor com a ajuda do esporte". Para isso serve a corrupção no esporte: ser testa de ferro dos poderosos.

A Linha Vermelha, por exemplo, que há anos precisa de um corredor para ônibus, recebeu uma faixa exclusiva para veículos autorizados do Pan, o que aumentou os congestionamentos e tornou a vida do povo ainda mais difícil. Faixas e cartazes, no entanto, denunciam as gerências federal, estadual e municipal, dizendo que o Pan só trouxe para a população do Rio mais repressão aos bairros pobres, aos trabalhadores ambulantes e remoção de comunidades inteiras para o benefício da especulação imobiliária.

Algumas pessoas realmente se favoreceram com a transformação da cidade em uma imensa arena esportiva, como os donos do capital imobiliário, os donos de hotéis, o donos das licenças para fabricar mascotes e camisetas etc.

Já os operários, trabalhando de sol e sol, recebendo salários miseráveis, construíram a Vila do Pan — levantada com dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador — para ser colocada à disposição da especulação imobiliária. Na casa desses vagabundos a polícia não vai. Pelo contrário.

Mas, apesar de toda a ofensiva da propaganda fascista, o povo trabalhador não dá sinais de que está propenso a se orientar por ela.

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