O terrorismo da OTAN

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Há dois anos um importante estudo vem sendo solenemente ignorado pela elite bem "pensante" européia, convenientemente "esquecido" pelas gerências que governam o continente, e vergonhosamente relegado ao segundo plano pelos barões de um mercado editorial repleto de estudos pseudocientíficos oriundos dos Think Tanks do poder econômico. Trata-se do livro NATO's Secret Armies ("Os Exércitos Secretos da OTAN"), publicado em 2005 pelo pesquisador suíço Daniele Ganser, que leciona História Contemporânea na Universidade da Basiléia.

O detalhado trabalho de Ganser mostra como ao longo de 50 anos o USA preparou e executou na Europa Ocidental diversos atentados que foram sorrateiramente atribuídos à esquerda antiimperialista, a fim de desacreditar a resistência européia perante os próprios europeus no contexto da Guerra-Fria. E mais: segundo Ganser, nada garante que a estratégia tenha ficado para trás. Muito pelo contrário. O estratagema da "guerra contra o terror" está aí, nos dias de hoje, para provar que as empulhações de toda espécie são peças-chave nas ofensivas de exploração e opressão dos povos.

O livro de Daniele Ganser mostra que a Organização do Tratado do Atlântico Norte se articulou com a direita e com os serviços secretos de vários países europeus para criar estruturas militares clandestinas cujo objetivo era desqualificar a esquerda autêntica através da disseminação do terror a ela associado.

Atentados da OTAN

Ganser pesquisou, documentou e provou que esses exércitos secretos eram equipados pela CIA — agência de espionagem do USA — e articulados em torno do MI6 — os serviços secretos de espionagem britânicos. Seus feitos estão longe do glamour de um agente 007 a serviço dos nobres propósitos da rainha da Inglaterra... As milícias clandestinas da OTAN serviam para cometer atos de terrorismo contra os próprios cidadãos europeus e instrumentalizar essas desgraças — as comoções e as revoltas que causavam — a fim de radicalizar a propaganda anticomunista.

Segundo Ganser, não há dúvidas de que a OTAN esteve por trás de órgãos clandestinos multinacionais envolvidos em atentados terroristas obviamente não-reivindicados, como o Clandestine Planning Committee (CPC) e o Allied Clandestine Committee (ACC). Essas organizações ligadas à direita européia estavam inseridas na estratégia do Stay Behind, que consistia na manutenção de exércitos secretos montados e preparados para mover guerrilhas contra uma eventual ocupação soviética, mas que acabaram por se ocupar de cumprir uma agenda sistemática de terror como parte dos esforços para minar as lutas antiimperialistas dos trabalhadores europeus.

A pesquisa do professor suíço conseguiu provar que esses exércitos secretos existiram em diversos países da Europa Ocidental, como França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Turquia, Espanha, Áustria e Portugal. Ele ressalta que nem todos esses exércitos participaram de atentados terroristas em solo europeu, mas afirma que alguns deles "extrapolaram a estratégia do Stay Behind" e partiram mesmo para ações de ataques seguidos de falsas reivindicações.

Ganser relata o mais notável desses ataques, e o que mais repercutiu em mentidos, desmentidos e controvérsias:

— O mais famoso desses ataques terroristas organizados pela OTAN ocorreu em 1972 na Itália, perto da vila de Peteano. Um telefonema anônimo para a polícia reivindicou a autoria do ataque para as Brigadas Vermelhas, organização da esquerda italiana muito ativa naquele tempo. Isso enfraqueceu os comunistas italianos, que eram então muito fortes no parlamento, porque inúmeras pessoas começaram a achar que os comunistas estavam de alguma maneira ligados ao terrorismo.

Mais de 10 anos depois, o juiz italiano Felice Casson descobriu que o atentado próximo à vila de Peteano não tinha sido conduzido pelas Brigadas Vermelhas, mas pela extrema direita italiana. Esse juiz descobriu que o responsável confesso pelo ataque, Vincenzo Vinci-guerra, pertencia ao grupo italiano de extrema direita Ordine Nuovo. O interessante é que Vinciguerra disse que tinha sido protegido pela inteligência militar italiana, que controlava um exército clandestino que mais tarde se constatou ser de codinome Gladio e coordenado pelas divisões secretas da OTAN. Vinci-guerra expôs o Gladio e as ligações da OTAN com essa milícia secreta.

É muito difícil determinar se a ordem para o ataque partiu diretamente da OTAN. Hoje, a OTAN acusa Vincenzo de ser louco e alega não ter tido controle sobre ele. Vinciguerra diz que pessoas poderosas o protegiam. A verdade é que a OTAN não quer falar sobre o Gladio.

Mais tarde se soube que o codinome Gladio era aplicado ao conjunto de exércitos secretos europeus sob comando da CIA e da OTAN. Ganser conta que a tergiversação foi a posição de praxe quando conseguiu interpelar membros da CIA e da OTAN durante os vários anos de desenvolvimento da sua pesquisa. Limitavam-se a dizer que se trataram de casos de criminosos que escaparam ao seu controle militar.

A lama dos milicos

O professor Daniele Ganser explica que as ações dessas estruturas clandestinas — sempre subestruturas da OTAN — obedeciam à dupla lógica da "estratégia da tensão" e do "terrorismo de bandeira falsa". Ambos os ardis se valem da violência e da difamação para atribuí-las exatamente ao inimigo que se quer rechaçar. Desmascará-los significa provar que qualquer semelhança com outros tempos, situações e locais não é mera coincidência. Ao contrário, pode significar mais do mesmo estratagema, tanto em termos do imperialismo global e sua truculência habitual para minar resistências, quanto em matéria de lutas locais, particulares, contra o poder e a amplificação que suas mentiras encontram nos oligopólios dos meios de comunicação.

A estratégia da tensão é utilizada para assustar pessoas, para chocá-las com ataques terroristas e, então, atribuir a culpa ao inimigo político. Durante a Guerra Fria, esses ini migos primordiais eram os comunistas, hoje são os muçulmanos. A estratégia de tensão conduz à tensão emocional. As pessoas ficam assustadas. Os militares e os serviços secretos pedem mais poder, e os parlamentares dão a eles mais poder e mais dinheiro. Mas algumas vezes, os dados mostram, foram os serviços secretos e os militares que reivindicavam ataques terroristas para chocar a população. Isto é muito complicado e surpreendente para muitas pessoas ao redor do mundo. Mas isto aconteceu. É o chamado "terrorismo de bandeira falsa". Um agente secreto americano realiza um ataque e culpa-se um mulçumano. Fica muito difícil para um muçulmano, ou para um comunista se defender.

"Segredo de Estado"

Surpreende ainda saber que esses exércitos secretos permaneceram secretos durante tantos anos, ou que os governos europeus tenham levado tanto tempo para admitir sua existência. Na verdade, só o fizeram depois que evidências cada vez mais contundentes os deixavam na completa impossibilidade de continuar sustentando suas mentiras.

"Muitas pessoas na esquerda não tinham idéia que esses exércitos secretos existiam. Foi somente em 1990 que este segredo foi levantado pela primeira vez" diz Ganser.

Ele se refere à forma concomitante com que a existência dos exércitos secretos da OTAN finalmente veio a público no começo da última década do século passado.

Na Itália, todas as vezes que o Partido Comunista pediu ao governo explicações sobre a existência de uma estrutura militar clandestina operando livremente no país sob o nome de código Gladio foi negado qualquer esclarecimento, sob a alegação de "segredo de Estado". Em 1990 o então primeiro-ministro Giulio Andreotti, do Partido Democrata-Cristão, admitiu enfim a existência do Gladio e sua ligação à OTAN e à CIA. Isso foi na mesma época em que o juíz Casson conseguiu provar a ligação do atentado da vila de Peteano com a extrema-direita italiana. Um relatório oficial garantiu que o Gladio estava suprimido.

Também em 1990 um relatório na Suíça dava conta de que o exército clandestino P26, ligado à direita, não existia mais no país. Relatórios semelhantes surgiram na Bélgica.

Ainda em 1990 os social-democratas alemães acusaram os democrata-cristãos de complacência com a existência das então descobertas dobradinhas entre os serviços secretos da Alemanha e a CIA, sob a égide da OTAN e da direita européia. Os democrata-cristãos responderam que também a social-democracia estava metida na lama da clandestinidade militar. Às vésperas das primeiras eleições na Alemanha reunificada ambos os lados provaram que na verdade são um só, quando ensaiaram justificativas para a existência das milícias clandestinas e trataram de esfriar um assunto que eleitoralmente não convinha a ninguém.

Em novembro desse mesmo ano alguns deputados do Parlamento Europeu ressaltaram a necessidade de investigar inúmeros atentados cujas origens nunca foram precisadas, e conseguiram ainda articular um protesto por escrito junto à OTAN e ao USA. Os esforços por esclarecimentos, porém, não foram adiante.

Em 2004, na França, o chefe dos serviços secretos franceses, Pierre Lacoste, também admitiu a existência passada de milicos clandestinos no país, inclusive com implicações em atentados terroristas falsamente reivindicados.

Estratégias atuais

Daniele Ganser considera que revelações como essas e pesquisas como a sua própria são da maior importância para que o povo europeu conheça os meandros do seu passado recente e fique atento para a atualidade das mentiras, truculências e conivências que tornaram possíveis a existência desses exércitos secretos.

"Os europeus sabem que na América do Sul operações ocultas e ações de guerra secreta conduziram a sérios abusos dos direitos humanos nos últimos 50 anos. A destituição do presidente chileno Salvador Allende e a instalação do entreposto norte-americano na figura do ditador Pinochet, em 1973, as operações dos "Contras", patrocinadas pelos Estados Unidos a fim de derrubar o governo sandinista da Nicarágua, o fracasso da invasão da CIA em Cuba em 1961, e a tentativa de assassinato de Castro. A destituição, pela CIA, do presidente Arbens, na Guatemala, em 1954, e daí por diante. Então os Europeus sabiam que as pessoas da América Latina sofriam com os militares clandestinos, mas acreditavam que na Europa isto não era possível, que nós não tínhamos exércitos secretos da CIA na Europa. Agora minhas pesquisas mostram que nós tínhamos exércitos secretos da CIA em toda a Europa. Isto foi uma grande surpresa para muitos".

Quanto à atualidade da "estratégia da tensão" e do "terrorismo de bandeira falsa", Ganser diz que o seu trabalho é desenvolvido com sustentação em provas. Mas ressalta que se por um lado hoje ainda não é possível provar ao certo a existência desses ardis, por outro nada garante que eles não estejam sendo postos em prática. E lembra que os atentados de 1953, no Irã, inicialmente atribuído aos comunistas iranianos, e os atentados no Egito em 1954, então atribuído aos muçulmanos, para mostrar que a estratégia não foi aplicada apenas em solo europeu, uma vez que mais tarde ficou provado que ambos os ataques obedeceram à lógica da "estratégia da tensão" e do "terrorismo de bandeira falsa".

USA, Grã-Bretanha e Israel teriam usado e abusado dessas mágicas ao longo da história recente. Atualmente o professor e pesquisador se debruça sobre as lacunas e imprecisões dos documentos relativos aos atentados de 11 de setembro de 2001. em Nova York e Washington.

Lembra que os presidentes, primeiros-ministros e governantes em geral dos países agressores não dizem: "Nós iremos agora atacar estes países porque nós queremos o petróleo deles", porque as pessoas escutariam e sairiam protestando nas ruas, alegando que é errado matar mulheres e crianças para conseguir petróleo.

Então a história que se conta é a da caça aos terroristas maus.

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