"Tem que haver um Partido Comunista de respeito"

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Clóvis Bueno, antigo militante comunista, conta sua história. Em meio a muitas passagens marcantes de sua vida, destaca-se a participação no levante antifascista de 1935. Também participaram da conversa, a esposa de Clóvis, Absínia Bueno, e o poeta Paulo Nunes Batista.

Pintura de Juliu Korzhev
A reportagem de AND foi recebida por Clóvis e Abísinia Bueno em sua residência, em Anápolis, GO. Vestindo uma camiseta com o rosto de Lênin, Clóvis nos recebeu calorosamente. Logo na sala, uma réplica do quadro ll Quarto Stato, de Giuseppe Pellizza da Volpedo, representando o operariado. Uma gravura do filho Lenine, em homenagem ao grande Lênin — a segunda filha do casal, mantendo a homenagem, se chama Lenir — e uma foto antiga de uma convenção do Partido na cidade. No quarto, o quadro de Che Guevara. Por todas as partes a revolução se faz presente, principalmente na certeza demonstrada por Clóvis de que o Partido ressurgirá.

No dia 30 de novembro deste ano, ao completar 100 anos, provavelmente Clóvis Bueno se tornará o mais velho comunista do Brasil e um dos únicos militantes vivos a ter participado do glorioso Levante comandado pela Aliança Nacional Libertadora — ANL.

O levante de 35

Na década de 30, o mundo assiste ao avanço da política do imperialismo — o fascismo. Os governos fascistas espalham-se pela Europa. A repressão sobre o povo aumenta. As camadas progressistas da sociedade são reprimidas, pessoas são presas e torturadas.

O Brasil vive a chamada "Revolução de 30" — que não passa de uma reestruturação do Estado brasileiro — com a deposição de Washington Luís e a subida de Vargas ao poder.

Clóvis Bueno conta que é neste cenário conturbado que ele conheceu o Partido Comunista do Brasil P.C.B.:

— Eu entrei para o Partido por volta de 1930, no Rio de Janeiro, com uns 20 anos. Quem me apresentou foi um pessoal da Internacional, especificamente um grande amigo espanhol. Eu era militar e havia muitos militantes no Exército, mas era tudo muito sigiloso, clandestino mesmo.

Nesta época, o P.C.B. cresce entre a média e a baixa oficialidade do Exército.

— Eu fiquei no Exército por um tempo, depois saí. Eu era tenente de Cavalaria. A situação estava dura e muito grande a perseguição. Era difícil fazer reunião. Fazíamos de forma muito reservada porque se soubessem os coronéis nos matavam, mas fazíamos até dentro do Exército. Eles tinham um ódio tremendo dos comunistas. Éramos muitos. Militar e comunista tinham uma disciplina muito severa — relata Bueno.

Esses oficiais foram a base do levante de 1935, uma insurreição democrática e antiimperialista, sob a liderança da Aliança Nacional Libertadora ANL. Eclodiu no Rio de Janeiro, em 27 de novembro, e em Recife e Natal, aonde chegou a tomar o poder. A ANL não conseguiu mobilizar suficientemente as massas e o movimento acabou sufocado:

— Muitos companheiros tombaram, mas nós também derrubamos muita gente. Eu estava dentro do quartel, no 3° Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, que foi bombardeado pela companhia de aviação e artilharia. Foi uma luta enorme. Eu tive um ferimento [mostrando uma cicatriz], não foi grave, pegou só a pele, mas rasgou toda a região lombar.

Ele continua:

— No levante, conseguimos dominar o 3° RI. Levantamos a bandeira do Partido, com a foice e o martelo. Durante a luta, a bandeira ficou lá, tremulando no alto. O combate foi longo. Mas não conseguimos dominar o quartel por muito tempo. Aí eu fui preso.

Após o levante, muitos democratas foram presos. Os militantes da ANL, que chegou a ter 400 mil membros, acabaram cassados e presos pela polícia fascista de Vargas.

— Primeiramente nos levaram para a Rua da Relação, depois no presídio da Ilha Grande. A verdade é que estivemos em vários locais. Por fim, ficamos na Casa de Detenção, na Rua Frei Caneca. Havia muitas mulheres presas, inclusive a Olga Benário. Também foram presas cerca de 40 professoras. Nós ficamos na parte térrea, chamada de "Sarreu" dos militares. As mulheres ficavam na enfermaria, que era na parte de cima, e a gente se comunicava. O Marighela foi tão espancado que só fazia piscar o olho, ficou muitos dias imobilizado com dificuldade de respirar — conta Bueno.

— Havia outros companheiros nas mesmas condições do Marighela porque a polícia batia para matar. Muitos companheiros foram assassinados. Eu fui torturado dia e noite, mas isso acontecia com vários. Passei um ano preso e sem direito à visita. Eu era casado, tinha mulher e filho. Minha mulher também era do Partido, só que não estava presa. Quando saí da cadeia fui para São Paulo.

Em 1937, Vargas dá um golpe de Estado, aumentado ainda mais a violência contra o povo, através da instituição do Estado Novo. Ele determina o fechamento do Congresso Nacional, a extinção dos partidos políticos e outorgou uma nova constituição, lhe conferindo o controle total do poder executivo. Getúlio também cria o Departamento de Imprensa e Propaganda, DIP, responsável por fazer a propaganda do governo e atuar como uma agência de espionagem e repressão aos movimentos populares progressistas.

Nesta época, Clóvis Bueno viveu na cidade de São Paulo, onde a atuação do DIP era intensa e ele teve que enfrentar novamente a repressão:

— Em São Paulo, comecei a trabalhar no jornal "O Advogado", do Justo Seabra, que também era da organização. Nesta época, mandei um exemplar para uma pessoa que estava no Partido, mas nos traiu, levou o jornal para a polícia. A partir desse momento, a polícia de São Paulo grampeou todo mundo. Nós ficamos sabendo que tinham invadido o escritório do Justo e estavam me esperando. Eu fui para o bairro da Lapa, me encontrei com o pessoal do Partido e eles me mandaram para Campinas. De lá, para a divisa com Minas, onde fiquei até começarem a me perseguir de novo. Aí fui para Uberaba, Araguari e cheguei a Goiás, onde entrei por Corumbaíba e de lá eu fui para Pires do Rio.

Em Goiás

Em 1940, as forças de ocupação nazistas chegaram à França, à Inglaterra e à Bélgica. Em 1941, os nazistas marcham sobre a União Soviética. É grande o clamor mundial contra a guerra de agressão imperialista e a favor da resistência heróica dos povos oprimidos. No Brasil, o Partido Comunista, organiza comícios para discutir estes acontecimentos com o povo. Clóvis Bueno foi um dos militantes revolucionários a organizar estes comícios.

— Por volta de 1940, o Clóvis esteve num comício contra a ocupação alemã na Europa, contra o nazismo, na minha cidade e convidou vários amigos para participar. Eu me lembro bem de um padre que falou que não ia participar porque nas veias dele corria o sangue alemão — afirma Absínia Bueno, esposa de Clóvis.

Em Goiás, Clóvis ajudou a organizar o P.C.B. como um instrumento da luta do povo por liberdade:

— Eu participei da fundação do Partido em Pires do Rio, Anápolis e Goiânia. Também participei da fundação em Ipameri, Catalão e Goianira. Era tudo secreto.

Trombas e Formoso

Na década de 50 eclode uma revolta camponesa no estado de Goiás, conhecida como Guerrilha de Trombas e Formoso (ver AND 29, Trombas e Formoso: o triunfo camponês). Foi uma luta entre posseiros e grileiros por uma grande parcela de terras, localizadas atualmente no norte do estado. O P.C.B. apoiou e ajudou a organizar a resistência armada vitoriosa dos camponeses. Lá estava Clóvis Bueno apoiando o movimento:

— Eu arranjava armas e munição para a guerrilha. Quem levava era um companheiro do qual não me lembro mais o nome. Mandei carabina, revólver, etc. Nós conseguíamos as armas em Anápolis e Goiânia, muitas vezes através das boas relações que cada companheiro possuía.

Clóvis Bueno participou de muitas outras lutas. Foi vereador pelo PTB em Anápolis e atuou junto ao jornal do P.C.B da cidade:

— Aqui nós tínhamos o jornal "Frente Popular", em Goiânia havia o "Estado de Goiás". O Frente Popular era um jornal vibrante, a gente vendia até nas bancas. O Partido em Anápolis era muito organizado. A gente fazia pichação na cidade inteira e a policia não conseguia nos prender. Tínhamos uma gráfica, advogados e juízes ligados ao Partido.

Absínia Bueno, segunda esposa de Clóvis Bueno, conta que também foi militante da causa da libertação nacional:

— Eu entrei no Partido, acompanhando a vida do Clóvis. Quando a gente se casou, eu não sabia de nada. Era muita reação naquele tempo. Aí só depois é que eu pude saber da existência do Partido e entrei na luta.

E prossegue orgulhosa:

— Nós organizávamos a União Feminina do Brasil. Era uma organização do Partido. A gente fazia abaixo-assinado contra a chantagem atômica, a guerra e a carestia. Promovia reuniões, campanhas pela paz, pela defesa do nosso petróleo, festas como campanhas de finanças, etc. — explica Absínia.

Paulo Nunes Batista relata que as atividades de massa do Partido eram intensas:

— Havia muitas atividades de massa nesta época, reunindo os operários. Fazíamos teatrinhos relâmpagos. Aproveitávamos todas essas atividades para a politização. Hoje eu não vejo nada disso.

Absínia Bueno relembra aquele tempo com nostalgia:

— Naquele tempo era muito animado. Hoje não tem nada. O povo organizava porque acreditava na causa.

A ditadura fascista

Com o golpe contra-revolucionário de 1964, o povo brasileiro e, consequentemente, o P.C.B., voltam a viver momentos difíceis.

— Eles ficaram muito tempo tentando prender o Clóvis e não conseguiam. Para prendê-lo, a policia contou com o apoio de um vizinho. Nós morávamos nesta mesma casa de hoje. Ele passou a nos vigiar e disse à polícia: "vocês ficam esperando por volta de 5h da manhã, nessas imediações, que ele sai para trabalhar". Ele era muito esperto para fugir da policia, mas acabaram pegando ele — relata Absínia.

Ela continua explicando:

— Quando foi solto, o Clóvis foi de Brasília para Goiânia. Se ele viesse para Anápolis, o prendiam de novo. Ele foi morar na casa de um amigo lá. Ele foi condenado a 3 anos. Mandaram ele para o Cepaigo — Centro Penitenciário de Atividades Industriais de Goiás, atual Casa de Prisão Provisória.

Clóvis retoma o diálogo:

— Depois que saí levei uma vida normal. O Partido não acabou, mas as coisas ficaram muito devagar — afirma Bueno.

Mesmo sob a direção de Prestes, tendo renunciado à luta armada como forma legítima de resistência, o P.C.B. viveu momentos de grande perseguição.

— Depois da prisão do Clovis, o Partido ficou esfacelado, todo mundo disperso. O povo estava com muito medo. As pessoas nem conversavam conosco com medo de serem presas. Então, nós ficamos numa situação muito difícil.

Clóvis Bueno, no alto de seus 99 anos de experiência, tem a certeza de que só a direção revolucionária de um verdadeiro Partido Comunista pode livrar o homem da exploração:

— O Partido aqui desapareceu, mas o futuro da humanidade é o Partido Comunista. Tem que existir um Partido Comunista, e isso em todo o mundo.



*Agradecimento especial ao poeta Paulo Nunes Batista, sem o qual esta entrevista não teria sido realizada.

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