A escola portátil de brasilidade

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Sete anos de funcionamento. E continua irredutível na sua missão de formar excelentes músicos, de elevar e popularizar um gênero autêntico da música brasileira.
Fosse apenas isso...
Não foi bem um "crescimento acompanhado de qualidade". A Escola Portátil de Música já nasceu imensa na sua essência. Respeitada. Influente. No Brasil e no exterior.



A escola funciona no Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro — UniRio. As aulas são ministradas aos sábados em dois turnos.

Tradicionalmente as duas turmas se encontram ao meio-dia, quando formam uma grande orquestra onde predominam os instrumentos do choro — cavaquinho, bandolim, pandeiro, flauta, violão — , mas também há tuba, trombone, bombardino, saxofone, bateria e percussão, contra-baixo acústico, clarineta, acordeon...

E aí reside o problema.

Sabe lá o que significa 600 alunos tocando choro, de uma vez só?

Parece mentira, mas existe música brasileira, apesar da TV.

Há também cursos de piano, canto de samba-choro — além de harmonia, arranjo e composição para os alunos mais avançados.

De todos os lados

Os alunos vão chegando dos mais diversos bairros. Mas se encontra gente — como Os Matutos, conjunto formado na escola — que vem de Cordeiro, no interior do estado do Rio.

Magno Júlio, o percussionista d'Os Matutos já trabalha como monitor da escola. Antes da imensa banda se apresentar, encontramos Magno auxiliando e apresentando novos instrumentos a Ismael Marcos Ferreira. Ismael é cego e tem uma história de abandono, só conhecendo a vida em sociedade e a música aos 14 anos. Com um talento surpreendente, ele corre para recuperar o tempo.

— Ismael tinha 13 anos quando chegou ao Instituto Benjamin Constant. Vivia como um animal. Quando morreu a mãe, a avó o levou ao Instituto e, depois, minha irmã o adotou. A partir daí ele conheceu a música e descobriu o mundo. O problema dele não era mental, como pensavam, mas de socialização. Agora a música é tudo para ele — resume Marijô Castro, que acompanhava Ismael.

E Ismael se orgulha do que já aprendeu em tão pouco tempo:

— Eu comecei na música há uns 3 anos, tocando piano e bateria. Toco vários instrumentos, agora. Adoro choro, música clássica, samba, maxixe, frevo.

Um certo mestre

Era sábado, 25 de agosto. A um canto, sempre cercado de admiradores, havia um mestre transmitindo uma imensa alegria a quem dele se acercasse. Súbito, seu nome foi anunciado. Prontamente aquela multidão de músicos se colocou de pé e explodiu um entusiasmado aplauso. Era o grande Altamiro Carrilho. Mestre, amigo, personalidade brasileira, expoente de nossa música mais autêntica. Ao lado, outro mestre, o irmão e igualmente estimado, Álvaro Carrilho.

Há mais dois conjuntos na escola.

A Furiosa Portátil é composta na maioria por instrumentos de sopro, ou metais, dirigida pela arranjadora, compositora e produtora musical Bia Paes Leme. Há também a Camerata Portátil, onde preponderam os instrumentos de corda, dirigida pelo bandolinista Marcílio Lopes, a flautista Naomi Kumamoto e o cavaquinista Jayme Vignoli. Esses dois conjuntos já fazem apresentações. Claro, é sucesso garantido por onde passa.

Incansáveis, os responsáveis pelo Instituto Casa do Choro e pela Escola Portátil ainda organizam, há três anos, o Festival Nacional de Choro.

Portátil crescente

O de 2007 é o terceiro festival. Foi realizado em São Pedro, interior de São Paulo, num hotel-fazenda. Durante oito dias, 246 alunos de diversos estados brasileiros, além de músicos da Argentina, França, Estados Unidos, África do Sul, Austrália, Espanha, Japão e Suíça participaram de cursos, palestras, apresentações e respiraram choro em tempo integral.

— Tenho 60 anos e moro no Rio de Janeiro há 40. Desde os 20 anos toco violão. Sempre fui autodidata. Agora, estou estudando sistematicamente. Conheci a Escola Portátil através da minha filha, que toca flauta. Ela participou de um festival da escola e vi sua apresentação. Observei a turma e percebi que tinha pessoas de todas as idades. Estou adorando e aprendendo muita coisa — diz Luciano de Oliveira, que se preparava para participar do empolgante "bandão" da Escola Portátil.

O choro tem sua origem nas camadas médias urbanas. Não permite o estrelismo alimentado no meio comercial. Entre os chorões isso não impressiona, mas participantes estrangeiros do III Festival Nacional de Choro se surpreenderam com a proximidade entre os mestres e os demais participantes.

— Eu imaginava que seria como os festivais no USA, onde você assiste a um concerto de uma grande estrela, e depois, se der sorte, pode apertar a mão dela no hotel. Mas aqui não. As grandes estrelas faziam os shows e depois iam para a roda de choro tocar e conversar com os alunos. (...) Agora só penso em juntar dinheiro no USA durante o ano para voltar em 2008 — disse o pandeirista estadunidense Jason Litle em depoimento tomado por Nana Vaz de Castro, da Escola Portátil.

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Figuras e histórias do Festival

Nana Vaz de Castro

O formato não deixa dúvidas. Por se realizar sempre em locais afastados dos grandes centros urbanos, o Festival Nacional de Choro promove a convivência de 24 horas por dia entre alunos e professores, durante sete dias. Comer, dormir, trabalhar, estudar, tocar, tudo no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. Em eventos com essa característica, sempre surgem grandes histórias e inesquecíveis personagens.

Personagens como Eurides Penha, saxofonista amador de Rio Verde, Goiás, que se mostra disposto a comparecer a todas as próximas edições do Festival. "Seu" Eurides, 66 anos, é agricultor, mas sua grande paixão é a música instrumental brasileira. Tanto que, inconformado com o baixo nível da programação das rádios de sua região, resolveu abrir sua própria emissora, para compartilhar com os 130 mil habitantes de sua cidade um pouco da sua discoteca de cerca de dois mil CDs.

Primeiro tentou conseguir uma licença pelas vias oficiais. Mas desanimou, derrotado pela burocracia. Falou então com um amigo engenheiro e, motivado pelo grande número de rádios piratas em atividade na região, comprou um transmissor de baixa potência e montou uma emissora clandestina em seu próprio escritório.

— Todas as rádios só tocavam moda de viola. Eu pensei, isso não está certo. Então fiz um repertório só de música instrumental brasileira. Comecei com meia hora por dia. Não tinha apresentação, não tinha nome, eu não falava nada. Só música. Seis meses depois, ninguém ouvia outra rádio — explica.

A rádio sem nome nem apresentador de Eurides ficou cerca de um ano no ar. Foi um sucesso — que ele credita à simples oportunidade dada às pessoas de ouvirem música de qualidade. Até que um dia...

— Um dia reparei que todas as outras rádios piratas — todas evangélicas — estavam fora do ar. Achei estranho, mas não liguei. Depois é que me dei conta que a Polícia Federal tinha sido acionada, mas todas as outras rádios evangélicas tinham saído naquele dia, e me deixado pra boi de piranha.

Quatorze policiais federais armados com metralhadoras fecharam a rua e entraram na casa de Eurides para prendê-lo por causa de sua rádio pirata.

— Podem me prender. Vocês são pagos para ser brasileiros, mas eu pago para ser patriota — foi a sua reação, estendendo os braços à espera das algemas.

Dentro da casa, sua filha chorava, enquanto Eurides tentava explicar a ela:

— Um cidadão que só toca música brasileira tem que ir preso, não pode ficar solto. É um crime.

No fim das contas o saxofonista de Rio Verde foi à delegacia prestar depoimento (no qual fez constar que sim, tinha uma rádio ilegal, mas que nunca havia tocado nada além de música brasileira, nunca havia feito propaganda e nem mesmo dito o próprio nome) e teve o equipamento apreendido. Não foi o suficiente para fazê-lo desistir. A última de seu Eurides é uma rádio móvel, que funciona dentro de seu carro, com um pequeno transmissor e as músicas em MP3.

— No ano que vem, onde quer que seja o próximo Festival de Choro, vocês vão ter oportunidade de ouvir a rádio ambulante.

Os estrangeiros que vão ao Festival (número que aumenta a cada ano, chegando a expressivos 10% do total de alunos em 2007) são uma atração à parte. Eles são japoneses que usam seus pouquíssimos dias de férias anuais para empreender a longa viagem em busca do choro; norte-americanos que descobrem por acaso uma forma de contato entre mestres e alunos totalmente nova, argentinos ávidos por descobrir mais do que o óbvio sobre a música brasileña.

Os amigos Eric Murray (32) e Jason Little (27) vieram da pequena cidade de Akron, no estado norte-americano de Ohio, onde estudam na universidade de música. Habituados a um ambiente musical de "jazz, fusion, funk e pitadas de música afrocubana", eles saíram dos Estados Unidos para o Festival de Choro sem saber muito bem o que esperar. Jason, que fez para o Brasil a sua primeira viagem para fora dos EUA, é percussionista, mas não conhecia muito de música brasileira além de rudimentos de bossa nova e samba, e se interessou quando soube das baterias de escolas de samba, que reúnem centenas de ritmistas.

Estimulado por Eric, que por sua vez ouviu falar de choro e se interessou pelo assunto graças à dica de seu orientador de doutorado em etnomusicologia, Jason chegou ao Brasil com uma vaga noção de que era choro. Ao final do Festival, sua percepção era outra:

— Quando eu vim para o Brasil meu interesse maior era pelas baterias de escola de samba. Choro, para mim, era apenas a música onde eu poderia tocar pandeiro. Agora, estou animado com um novo mundo que se abriu para mim. Posso até ouvir as escolas de samba agora, muitas percussões, num volume muito alto, mas tenho certeza que, quando voltar aos EUA, esta semana que passei aqui, o Festival de Choro, vai ser minha melhor lembrança.

Mais do que tudo, o choro mostra, para os americanos, uma mentalidade diferente no que diz respeito à coletividade da música:

— Nos EUA há, por exemplo, jam sessions de jazz, principalmente. Mas uma jam session é tão focada no indivíduo, cada um está tão preocupado em mostrar o quanto é bom e como toca bem que ninguém parece se preocupar com a música, com o conjunto, com o fato de estarem todos juntos curtindo a música. A experiência de tocar com tantas pessoas diferentes e ver a paixão pela música que até então era estranha para mim é um dos principais aprendizados que vou levar daqui — conta Jason.

Já Eric, que é violonista e há pouco tempo só conhecia os Choros de Villa-Lobos, presentes no repertório clássico de violão, pretende passar uma temporada maior no Brasil. O objeto de estudo de sua tese é o processo de aprendizagem e improvisação no choro. Ele explica:

— Logo que comecei a ouvir as primeiras coisas de choro, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, pensei que havia no choro muita improvisação, e isso me atraiu porque é meu tema de estudo. Na minha primeira viagem ao Brasil fui a lugares como o Bip Bip e o Trapiche Gamboa, e comecei a ver que a improvisação não era como no jazz, era muito diferente. O Festival abriu os olhos para ver o que realmente acontece com essa música. Tenho agora uma nova perspectiva sobre o que é o choro. Descobri que há, sim, muita improvisação no choro, mas de forma muito mais complexa, mais 'social', menos individual. Uma noite, durante o Festival, ouvi o Proveta, o Pedro Paes e o Rui tocando, e eles estavam improvisando harmonicamente. Isso para mim foi absolutamente incrível e impressionante.

Os dois fazem planos para a edição 2008 do Festival.

— Agora eu tenho um pouco de base para estudar mais, por conta própria, e começar a aprender o repertório, o que percebi que é muito importante. Mas pelo menos agora eu sei por onde começar — diz Jason.

 

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