Para produzir riquezas em troca de silicose

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Nova Lima recebe o nome de "a cidade das viúvas", dado ao grande número de mineiros que morreram ao contraírem, no interior das minas onde trabalharam, a silicose — uma reação crônica e incurável dos pulmões provocada pela inalação de poeira de sílica.
O senhor Juvenal, um sobrevivente da silicose. Homem destemido, trabalhador e honrado, que até para receber uma educação básica a que tinha direito, teve que lutar. Trabalhou pesado numa empresa extratora de ouro e outros metais, que sequer dava satisfação aos operários do que fazia com os minérios, de quantas toneladas dispôs e para quem roubava.
Após a entrevista, fui levado pelo Ademar, um dos filhos do senhor Juvenal, para o lugar onde ficava a entrada da mina. Um pouco mais acima de uma das entradas, Ademar me mostrou, no meio de uma natureza exuberante, o que restou de um lago, agora "morto", porque ali eram despejados os dejetos da mina.

O senhor Juvenal

Homem forte, 66 anos, aposentado, o senhor Juvenal, apesar da sua aparência franzina, vem resistindo à doença contraída já nos dois primeiros anos em que começou a trabalhar nas minas de Morro Velho. Simples, ele relata as dificuldades para estudar em sua pequena cidade chamada Coluna, próxima a Guanhães, norte de Minas, onde os meninos pobres eram preteridos em relação aos mais ricos da região, filhos de fazendeiros e comerciantes.

Corajoso, com apenas 11 anos "botou a boca no trombone" para delatar a professora primária que colocava no fundo da sala os alunos mais empobrecidos. A nova diretora da escola substituiu a professora intolerante, pela Dona Zenaide, homenageada pelo senhor Juvenal que deu a uma de suas filhas o nome da corajosa professora. Promessa cumprida, feita àquela época.

Antes de seguir para as minas, ele trabalhou nos trilhos da Central do Brasil, durante quatro anos de serviço pesado, mas que não o intimidava. E por não poder pagar sequer um aluguel, ele e os companheiros, dormiam nos vagões estacionados na Central do Brasil,

O senhor Juvenal aceitava com serenidade o que a vida lhe impunha. Depois de quatro anos na Central do Brasil, aos 28 foi trabalhar nas minas. Um trabalho mais pesado ainda que o da troca de trilhos e dormentes, mas o salário era um pouco melhor. E é assim que começa toda a sua história de operário das minas.

De resto, nem o trabalhador das minas, nem o Estado e o país — pela importância da atividade de mineração concentrada em Minas Gerais — recebem o status de um operário a quem o país e o mundo tanto devem, nem o povo de Minas, um estado que figura entre os principais pólos de mineração do mundo. Muito menos lhes pagam com um cor respondente progresso.

AND — Como se chamava a mina na qual o senhor trabalhava?

— Mina Grande, uma das minas exploradas pela Morro Velho.

O pátio exterior da mina

AND — Que tipo de trabalho o senhor realizava?

— A princípio, eu enchia os carrinhos [vagões] de minério, utilizando uma pá. Depois eu passei a manobrar as máquinas que puxavam os vagões, ou seja, passei a ser motorneiro. Um tempo depois fui para a função de maquinista de uma ferramenta que furava as paredes da mina. Tanto que me aposentei nessa profissão, maquinista.

AND — A mina fica muito longe daqui, onde o senhor mora?


— Não. Eu ia a pé mesmo. Gastava uns oito minutos daqui de casa até lá, andando mais rápido. O que demorava mais era chegar até o fundo da mina, que demorava umas duas horas.

AND — Por que tão demorado assim?

— Por que a mina era muito profunda. Chegava até 1000 metros embaixo da terra, além do movimento de muitos trabalhadores. A gente trabalhava seis horas, em turnos. Não contando esse tempo que a gente gastava pra chegar ao fundo e para voltar.

AND — Na verdade vocês trabalhavam em média umas oito horas ...

— É, se for contar esse tempo de descida e subida, dava mais ou menos isso. O perigo era lá embaixo ou enquanto estávamos descendo nos shafts [elevadores], porque aconteciam muitos acidentes.

AND — Quantos anos o senhor trabalhou na mina?


— Quinze anos, que era o tempo máximo pra trabalhar lá. Quando a gente completava quinze anos de trabalho, tinha que aposentar.

AND — Quantos mineiros, trabalhavam nessas minas?


— Uma média de seis mil.

AND — A área ocupada pela mina era muito grande?

— Para se chegar na boca [da mina] a gente andava bem pouco. Lá embaixo é que era muito grande. Aqui, em Nova Lima, aí por baixo [no interior do solo], está tudo furado pelas escavações. É como se fossem caminhos de formiga, aí por baixo. De vez em quando chega a acontecer afundamentos em alguns bairros. Dizem que em 1973 essas perfurações já tinham passado da Praça 7, lá em Belo Horizonte.

Eles nem eram daqui. Eu nunca os conheci. Nenhum de nós, trabalhadores, chegamos a conhecer os donos

AND — Então é como se existisse uma cidade embaixo de Nova Lima, chegando até lá em Belo Horizonte?

— É isso. De tantos anos de escavação para retirada do minério, ai embaixo só foi crescendo em várias direções.

AND — E a empresa cuidou de criar alguma espécie de proteção, como vigas, ou outras obras para evitar um desabamento nessas Minas?


— Não tem proteção nenhuma, lá. A única coisa que a empresa fazia era pagar indenização às famílias de trabalhadores que morriam soterrados, quando acontecia algum deslizamento. Soube de 85 vítimas pelo tempo que trabalhei lá.

AND — O senhor chegou a presenciar algum desses acidentes?

— Uma vez, quando eu ainda não era classificado [não era profissional em alguma área], depois que eu tinha preparado todo o local para fazer a retirada do minério, chegaram dois colegas classificados e um deles disse: "Hoje eu vou tirar o pão da sua boca". Eu respondi: "Tudo bem, eu sei que vocês são classificados, não tem problema nenhum. Aqui para mim só falta ligar o ar". Aí eles pegaram a máquina para levarem o minério. Quando eles já estavam a uma certa distância, houve um desmoronamento e um choco [pedra de minério muito grande] caiu sobre a máquina matando os dois. Para você ver. Eu cheguei na minha chefia para agradecer o fato de ainda não ter sido classificado. A segurança era precária então ...

[Declaração do filho Ademar, cortando]

— Aconteciam muitos acidentes lá nas minas. Eu lembro que minha mãe ficava em casa rezando durante todo o tempo que meu pai estava lá embaixo, porque frequentemente a cidade ficava sabendo de um acidente grave. Tinha um médico, na época, o Dr. Sebastião Fabiano, que não se intimidava em dar atestado para os trabalhadores da mina, quando era procurado. Ele sabia das condições precárias de segurança e saúde em que os mineiros trabalhavam. Ele chegou até a ser prefeito aqui em Nova Lima, por duas vezes. O sonho dele era fechar a mina do Morro Velho, porque ele via os trabalhadores se acabando no trabalho. Além desses desabamentos, ainda havia o problema da silicose. Nova Lima ficou conhecida como a cidade das viúvas, por causa dessa doença que atacou a grande maioria dos trabalhadores da época de meu pai. Como a doença não tem cura, levou ao óbito centenas, milhares deles. Meu pai é um sobrevivente, por que se cuida muito. Ele tem a doença, mas evita cometer excessos. Quase não bebe, alimenta-se bem, nunca fumou, dorme cedo ...

AND — E quais os sintomas?

— É mais falta de ar. Às vezes a gente tem uma crise e fica puxando o ar pela boca, como se tivesse ofegante. Muito cansaço ... Os meus companheiros daquela época já morreram quase todos.

AND — Antes da mina, qual era o seu trabalho na Central do Brasil?

— Braçal também. Trocava trilhos, dormentes ... Eu saí da Central do Brasil porque eles atrasavam muito o pagamento e na Morro Velho pagavam um pouco melhor e em dia. Na Central eu trabalhei de 1964 a 1968.Eu morava em Guanhães, num lugar chamado Coluna. Depois, Belo Horizonte, no Barreiro. Em 1962 viemos todos, pais, irmãos, para Nova Lima. Tenho quatro filhos. Ademar, Itamar, Zenaide e Adriana.

AND — O salário que o senhor recebia na Morro velho, era suficiente para sustentar a família?


— Não, não era. Era preciso que eu trabalhasse como pedreiro nos dias de folga. Eu me lembro que houve uma manifestação dos mineiros reivindicando melhoria de salário, porque a empresa havia dado aumento para os encarregados e feitores, e nós paralisamos em parte o trabalho na mina para que tivéssemos um aumento também. O tempo que tinha livre, durante esse período da manifestação, trabalhei nas construções e ganhei um dinheirinho a mais.

AND — Vocês tinham alguma vestimenta especial, usavam máscaras ...

— Não, não tínhamos nada. Íamos com nossas próprias roupas e nós mesmos providenciávamos uma flanela e colocávamos no rosto para diminuir a respiração da poeira. A única coisa que a empresa nos dava era um capacete. No mais, era rezar e contar com a sorte. Uns três meses antes de me aposentar, é que a Morro Velho passou a distribuir máscaras de proteção aos trabalhadores. Depois de 15 anos trabalhando sem nenhuma proteção é que a empresa se preocupou em nos dar essas máscaras. Mas aí, quantos já haviam adquirido a silicose e morrido? Centenas foram vítimas dessa doença.

AND — Muitos foram aposentados antes do tempo de serviço por causa da doença?

— Sim, muitos, mas muitos mesmo, por doença foram afastados antes dos 15 anos. Muitos companheiros adquiriram a doença com apenas 1 ano de mina. Trabalharam até ficarem inválidos. Mas os chefes faziam pressão para que os doentes pedissem as contas para a companhia não ter responsabilidade sobre eles. Esses chefes eram carrascos, tão ignorantes, que muitas vezes mandavam companheiros trabalhar em locais bem mais perigosos dentro da mina. E se o companheiro, vendo que ia sofrer algum acidente, se recusasse, os chefes ameaçavam de demissão. Houve vários acidentados devido a essas pressões e ameaças. Houve casos também, como o meu encarregado por exemplo, que protegia alguns companheiros para que esses ganhassem um extra. Certa vez, ele foi com esses protegidos dentro do "bonde", que circulava em trilhos, para o lugar onde iam trabalhar, mas houve um problema na "carretilha". Aí ele tentou consertar o defeito no cabo dessa "carretilha" e levou um choque de 550v. Teve morte instantânea. Outros casos aconteceram, que acabaram levando encarregados e feitores à morte, mas por ganância.

AND — Os donos da empresa não ficavam sabendo dessas atitudes dos seus encarregados, dos acidentes e dos maus tratos?

— Eles nem eram daqui. Eu nunca os conheci. Nenhum de nós, trabalhadores, chegamos a conhecer os donos. Quando eu entrei na mina, no inicio da década de 60, tinha um senhor que já trabalhava lá há 50 anos e ele mesmo nunca chegou a conhecer esses donos.

AND — O que era feito de todo esse minério que vocês recolhiam?

— Era moído e depois fundido para ser transformado em ouro.

AND — Esse ouro, ficava aqui no Brasil?


— Não, era levado para fora.

AND — O senhor, que fazia todo esse trabalho pesado de retirada do minério, chegou alguma vez a ver esse ouro?


— Só quem trabalhava na fundição é que via esse ouro. Nós só víamos mesmo as pedras [minérios]. Eles não permitiam que nós tivéssemos acesso a essa parte da mina que transforma o minério em ouro.

AND — O que havia de pior, em meio a tanto sacrifício?

— O pior na empresa era mesmo os encarregados. Eram homens muito maus. Desumanos mesmo. Por eles eu peguei essa doença.

AND — A mina ainda é ativa?

— Nessa, onde eu trabalhei — a Mina Grande — não. Mas eles abriram uma outra, lá em Sabará, que é a Mina Cuiabá, que agora pertence a Anglo Gold.

AND — Havia outras situações de risco ou insalubridade?

— A temperatura, em determinados pontos da mina chegava a 75°C, sem o ventilador ligado. A gente só podia tomar água em cantil. Se sobrasse alguma água dentro da caneca e a jogássemos contra a parede da mina, por causa do calor, a pedra "estourava", o que era um risco danado. Se você descesse com a casca de uma banana que tivesse comido antes de entrar na mina, na hora do almoço, você podia esfregar essa casca nas mãos que ela esfarelava toda, porque ressecava a esse ponto.

AND — Então, quem levasse marmita por exemplo, nem precisava esquentá-la. O senhor levava marmita?

— Eu não, levava era sal ... Beber água e comer sal para evitar a cãibra. Dava cãibra nos braços, nas pernas, nas mãos, a ponto da gente não conseguir segurar as ferramentas. Isso tudo por causa do calor que fazia lá embaixo. A gente suava demais ...

AND — Com quanto tempo na mina o senhor descobriu que tinha silicose?

— Com dois anos de mina, eu fui chamado para fazer a radiografia do pulmão. Então, foi constatado que eu já estava contaminado, mas não se sabia o grau de contaminação, que era a quantidade de comprometimento dos pulmões. O seguro que a gente pagava só nos indenizava acima dos 40 graus. Depois, com quase 10 anos de mina fiz o exame novamente e aí ultrapassou os 40 graus. Então, eu passei a receber a indenização

AND — Mesmo sabendo da ocorrência da doença, os patrões não adotavam nenhuma providência para proteger os trabalhadores? Não distribuíam máscaras, nem criavam condições apropriadas no interior da mina para o trabalho?

— Nenhuma providência. A gente mesmo é que providenciava uma flanela e colocávamos no rosto. Um tempo depois a companhia arrumou uma "proteçãozinha", mas o material de que era feito fedia demais e era impossível usar.

AND — Os homens aptos ao trabalho, na população de Nova Lima, basicamente só tinham como opção o trabalho nas minas?

— Na época era só a mina. Muitos anos depois, com a vinda da FIAT, MBR, é que surgiram outras possibilidades de trabalho. Mas sempre chegava notícia na cidade de que havia ocorrido um desmoronamento na mina, ou uma pedra (choco), que tinha caído em cima de um ... Houve uma época que teve uma enchente aqui e quase inundou a mina. Foi um desespero para bloquear a boca da mina e evitar que a água descesse.

AND — Além do ouro, o que mais se extraia nessas minas?

— Estanho, chumbo, cobre, ferro, alumínio.

AND — E vocês tinham conhecimento do faturamento da empresa? Havia alguma participação dos trabalhadores nos lucros?

— Não tínhamos, não. Uns encarregados que chegavam a dizer que um carrinho daqueles de 1 m², cheio, dava apenas 10 gramas de ouro. Mas eu pensava, como que um carrinho desses podia produzir apenas 10 gramas de ouro, sendo que a empresa tinha que manter toda aquela estrutura com máquinas, milhares de homens trabalhando, trituração, perfuração, etc. Nem que fosse 1 quilo, ela não conseguiria se sustentar. Eles falavam isso, para gente não ter noção do quanto a empresa faturava.

AND — Vocês chegaram a fazer algum movimento para reivindicar melhores salários e condições de trabalho?


— Numa ocasião, em 1981 ou 1982, em que foi dado aumento apenas para os encarregados e feitores, nós nos revoltamos por que a gente era muito "castigado" no trabalho. Então, nós diminuímos o rítmo do trabalho exigindo que nós, que pegávamos no pesado mesmo, também recebessemos aumento. Deu certo. O nosso salário melhorou um pouco.

AND — Com relação à política e os políticos aqui no Brasil, qual a sua opinião a respeito dessa questão?


— Eu me aposentei, mas os meus filhos não têm esperança de aposentarem. Uma pessoa que chega aos 60 anos, não consegue arranjar emprego. É mandada embora e não consegue aposentar, por que não atingiu o tempo exigido pela previdência. Ai ele tem que dar um jeito de contribuir para atingir esse tempo. Parece até que existe um "convênio" entre as empresas e o INSS, para que o trabalhador não chegue à aposentadoria com o salário que recebia. Eu aposentei com três salários mínimos, mas atualmente recebo apenas um. Os reajustes nunca acompanharam a inflação. E com o passar do tempo, o nosso salário de aposentado só foi diminuindo.

AND — Os donos da mina tinham alguma preocupação externa com o meio geográfico? Faziam, ao menos, reflorestamento?

— Não, não reflorestavam não. Antes de eu entrar na mina, eles até plantavam eucalíptos pra fazer escoramento lá dentro, depois pararam de plantar. Ficaram só explorando a mina e extraindo o minério.

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