As poderosas armas do povo

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Era a segunda vez que ocupávamos o latifúndio Fazenda Floresta. Da primeira vez, com mais de 50 famílias havíamos resistido duramente ao despejo policial que resultou em 43 pessoas presas, inclusive a nossa dirigente, que era uma jovem muito corajosa.

As famílias que não foram presas e nós, depois que saímos da cadeia, fomos para uma terra conquistada por outros companheiros do movimento. Segundo a promessa do Estado, em três meses estaríamos numa terra nossa, onde cada família poderia produzir no seu pedaço de chão. Nesta história de três meses, tivemos que esperar um ano. Claro, tendo embates o tempo todo com o Estado, tendo que cobrar, pressionar, exigir nosso direito à terra.

Com toda essa enrolação, passamos muitas dificuldades. Vários companheiros e companheiras tiveram que trabalhar em algum latifúndio para sobreviver. Aos poucos, as famílias eram vencidas pelas dificuldades impostas pelo Estado e iam abandonando a luta. Apenas 12 famílias continuavam firmes.

Mas a nossa reação estava sendo gestada. Não era da nossa prática ficar esperando resposta do Estado. Depois de muito matutar, conversar com os companheiros e companheiras, vimos que o melhor a fazer era ocupar novamente o latifúndio Fazenda Floresta. Quando tomamos esta decisão, tínhamos justamente a "conta do mentiroso": sete famílias. E resolvemos enfrentar talvez até uma situação pior do que a anterior. Estávamos decididos a topar o que viesse pela frente, nem que fosse a morte.

Possuir uma terra era o sonho de cada família. A maioria de nós tinha vindo do Nordeste e vimos como nossos antepassados perdiam suas terras para os coronéis ou morriam de fome explorados pelo latifúndio. Não queríamos a mesma sorte para nossos filhos. Estávamos decididos a lutar por um pedaço de chão e pelo direito de viver da terra. Não queríamos mais derramar nosso suor na terra alheia, terra roubada. Descobrimos isto na luta e ninguém mais nos convenceria do contrário.

Enfrentando o frio da madrugada, fizemos nossas barracas na cerca da fazenda, mas nosso intuito era ocupar a sede. O latifúndio havia preparado uma surpresa para o nosso retorno. Uma guarda da cidade vizinha havia sido contratada para nos impedir de retomar aquela terra. A maioria dos jagunços eram policiais aposentados. Na verdade, era de pistoleiros fardados, alguns tinham sido até expulsos da polícia.

É aí que começa a história do Zoréia. Ele era um traficante viciado que morava numa cidade próxima — eu sabia porque também morava lá — e vivia de conchavo com o investigador de polícia e o investigador, por sua vez, o ajudava a passar as drogas. Aí, o mais incrível é que, com a ajuda do investigador, o Zoréia montou uma empresa de segurança na cidade. E foi justamente a "Zoréia Segurança" a contratada para tentar nos amedrontar.

Fizeram uma barricada perto do acampamento e ficavam nos vigiando o dia todo. Não tínhamos privacidade nem para ir ao banheiro porque tinha jagunço armado olhando.

Aí, nos dirigimos a eles e comunicamos que tinham que tirar a barraca, porque estavam nos incomodando. Ameaçamos buscar mais uma centena de famílias na cidade, dissemos que elas não estavam ali naquela hora porque estavam trabalhando e que eles veriam o que era bom logo, logo. É claro que era mentira, nós só conseguimos sete famílias mesmo.

Mas eles não retiraram a barraca. Precisávamos de uma medida drástica, tínhamos que reverter a situação a nosso favor. Foi quando um companheiro teve a idéia. Estávamos parecendo ator de cinema...

Pegamos nossas armas e nos cobrimos com cobertores. Estava calor, mas um companheiro vestiu um blusão e colocou as mãos para dentro, para segurar melhor seu armamento. Ele suava igual panela de pressão. E lá fomos nós. Queríamos ver se os jagunços tinham mesmo coragem para nos enfrentar.

Como éramos apenas sete famílias, ficaram algumas pessoas fazendo a segurança, vigiando na beira da estrada e no acampamento, para avisar se os cachorros policiais chegassem.

Foi tudo muito bem planejado. Escolhemos o horário do almoço porque eles se sentavam para comer e não davam atenção para mais nada. Além disso, quando eles se sentavam, o plástico da barraca encobria a visão deles para o acampamento. Desta forma, eles não perceberiam nossa aproximação e não teriam tempo para reagir. Tudo foi muito bem pensado para que eles não pudessem supor quantos de nós estávamos realmente armados e qual armamento dispúnhamos. Após repassar com atenção o plano, nos dirigimos ao confronto.

Éramos quatro homens e duas mulheres. Deslocamos-nos com cuidado, evitando fazer barulho. Havia uma certa adrenalina no ar, mas estávamos seguros de nossa ação, nada poderia falhar. Eles não perceberam nossa chegada. Paramos em frente aos dois jagunços que estavam na barraca. Sob a mira das nossas armas, encobertas pelos cobertores, vimos o medo em seus olhos. Percebemos o poder que o povo tem se estiver armado. Eles olharam ao redor e viram que estavam cercados. Não podiam pestanejar, pois isto lhes custaria a vida. Sob nossas ordens, deixaram as armas no chão e retiraram-se. Nenhum camponês se moveu. Eles não viram nenhuma arma, apenas podiam imaginar que estávamos armados.

A maior alegria foi ver as crianças fazendo festa no desmonte da barraca dos jagunços. Avisamos que se eles voltassem a nos incomodar, teriam problemas sérios. E eles foram embora, com o rabo entre as pernas.

Passados 10 minutos, eis que chegam os jagunços oficiais. Acusaram-nos de ameaçar os "trabalhadores da segurança" com armas. Respondemos que eles saíram por vontade própria, nós havíamos pedido educadamente para que eles saíssem porque estavam nos incomodando, prova disso é que não houve confronto nenhum. A polícia procurou as armas em vão. Nada encontrariam porque já havíamos dado-lhes um destino útil em nosso futuro. As armas dos jagunços estavam muito bem guardadas.

Os cachorros oficiais queriam remontar a barraca dos jagunços e disseram ainda que "não era para perturbá-los". Avisamos que se remontassem, ia ter sangue porque iríamos desmontá-la e dessa vez não seria educadamente. Deixamos bem claro "que se eles queriam ganhar o dinheiro do latifundiário, que ganhassem para outro lado, perto da gente é que eles não iriam ficar".

A polícia remontou a barraca para os jagunços mas nem polícia nem latifundiário encontrou material humano que tivesse a audácia de nos enfrentar. Todos sabiam que estávamos armados, apesar da polícia nada ter encontrado em nossas barracas. O que nem os jagunços contratados nem a polícia nunca souberam é como conseguimos desaparecer com as supostas armas que utilizamos na ação. A verdade é que nunca houve nenhuma arma de fogo. Nós utilizamos armas de madeiras que nós fabricamos, especialmente para aquela ação. As nossas "armas" estavam envolvidas em cobertores, de forma que os jagunços não poderiam perceber que não eram reais.

A nossa verdadeira arma sempre foi — continuará sendo mesmo num conflito com armas de fogo reais — a organização do povo e a confiança no coletivo. Naquela ação nenhum companheiro poderia demonstrar insegurança ou se movimentar de forma a deixar descoberta as armas de madeira. Qualquer deslize poderia custar vidas. A vitória da ação demonstrou que nossa arma mais poderosa é a força que podemos ter juntos.


*Baseado em depoimentos reais dos participantes da ação.
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