80% dos iraquianos apóia a resistência*

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Sem revelar sua identidade, este professor universitário chiita, casado com uma sunita, explica que sua família teve que abandonar o Iraque devido às ameaças das milícias ligadas aos partidos no governo e dos milicianos da Al Qaeda, e que ela trabalha tanto no interior do Iraque como nos países vizinhos. Abu Mohamed — é o pseudônimo que utiliza — analisa pela primeira vez para um jornal ocidental a capacidade da resistência contra a ocupação ianque, diferencia suas ações armadas das terroristas da Al Qaeda e aprofunda a análise sobre o papel do Irã no conflito.

Como você descreve a situação atual do Iraque?

— O Iraque vive sob uma ocupação, submetido a uns elementos externos que colaboram com eles; partidos políticos que vieram com a ocupação, milícias que lhes ajudam e esquadrões da morte que assassinam em nome da ocupação. De outro lado está a Al Qaeda e a influência iraniana. Frente a todos eles, à ocupação, estamos nós, a resistência patriótica, nacionalista, islâmica do Iraque. Nas filas da resistência combatem todos os iraquianos: curdos, árabes e turcomanos; cristãos, sunitas e chiitas, de todas as zonas do país. A maioria do povo apóia a resistência.

Há estatísticas da CNN e do jornal estadunidense Today, que apontam que 80% dos iraquianos ou 8,1 de cada 10 iraquianos apóiam a resistência.

Qual é o objetivo da resistência?

— Expulsar os invasores e todos os elementos que foram introduzidos por eles em nosso país.

Considera que não há terrorismo no Iraque?

— O terrorismo é um produto do USA. Há terrorismo no Iraque desde a invasão, antes a Al Qaeda não existia para nós, não haviam milícias, não havia esquadrões da morte, nem assassinatos, nem sequestros. A atual destruição de infra-estruturas, roubo de dinheiro e das riquezas do país, os enfrentamentos sectários, tudo é produto da ocupação. Há dois tipos de terrorismo no Iraque: o que está ligado às milícias chiitas de partidos pró-iranianos, mas aliados ao USA (que são os que estão no governo), e o da Al Qaeda que chegou com a ocupação e que, por sua vez, está infiltrada pelo Irã.

A resistência nacionalista iraquiana condena os ataques terroristas, rechaça o assassinato dos iraquianos. Nós lutamos pela defesa dos direitos dos iraquianos e pela recuperação da soberania do nosso país.

O povo iraquiano está unido?

— O povo iraquiano sempre esteve unido e se manterá assim.

Há uma guerra civil no Iraque?

— Não. Há uma agenda política imposta ao povo para que pareça um enfrentamento interno. Há chiitas que estão com um partido e outros apóiam a outro, igualmente os sunitas. Entre o povo existe a mescla de sunitas e chiitas, há matrimônios mistos, também há tribos mistas. Além disso, a decisão do Congresso ianque de dividir o Iraque confessionalmente foi rechaçada de sul a norte do país.

Existe um novo Baath?

— O Baath socialista passou de um partido no poder para um partido de resistência. Queremos expulsar a ocupação, terminar com o projeto de invasão e estabelecer um regime pluralista democrático baseado na alternância. Segundo nosso programa político o novo regime será eleito pelo povo e respeitará os direitos humanos e assegurará as liberdades.

Para a visão do novo Baath, que inclui uma série de movimentos nacionalistas e de resistência, o partido único é parte do passado. O Iraque depois da libertação será democrático. Um Iraque livre, soberano e independente.

Não acredita que com esta tese se possa pensar que o Iraque precisou ser ocupado para chegar a um sistema democrático?

— No meu partido sempre aspiramos a um funcionamento democrático, inclusive nos tempos do regime do mártir Saddam Husssein se praticava a democracia internamente. Mas as ameaças e as condições específicas em que vivíamos fizeram com que o partido tomasse outro caminho. Com a ocupação emergiu um movimento nacional resistente fora das fileiras do partido. Respeitando esta nova força, o Baath entende que se deve instaurar um modelo pluripartidista.

O que é o mando geral das Forças Armadas combatentes?

— Foi criada em 2004 pelos mandos do Baath e do Exército iraquiano e está presente em todas as províncias do Iraque. No início de outubro nos unimos a outras frações nacionalistas e islamitas para formar um mando supremo, o Alto Mando da Yihad e da Libertação, dirigido por Aezt el Duri (ex-vicepresidente do Iraque no regime de Saddam Hussein). Há 22 frações em todo o país e outras 14 anunciarão em breve sua adesão ao Mando.

Como são financiadas?

— Pelos iraquianos.

Os iraquianos que não tem água nem eletricidade?

— Quem tinha dois carros vendeu um; quem tinha animais os vendeu; quem tem dinheiro dá uma parte. A água e a eletricidade não tem nada a ver com a resistência, mas com a ocupação. Os combatentes precisam de armas e temos suficiente para combater os americanos durante dezenas de anos. Há técnicos do Exército iraquiano que estão fabricando armas, especialmente minas.

Que papel desempenham as companhias de segurança privadas no país?

— De forças combatentes, lutam por encomenda dos marines. Uma demonstração foi o que aconteceu na segunda batalha de Faluja: a maior parte das forças eram mercenárias, com um grupo reduzido de marines. Fazem ações militares completas, utilizam seus aviões, seus carros de combate, ajustes de contas, etc.

Vocês apóiam os ataques aos oleodutos?

— Nosso projeto é fechar ao ocupante e impedi-los de explorar qualquer riqueza do povo iraquiano. A estratégia consiste em impedi-los de ter acesso ao que lhes pode dar mais força, porque assim conseguimos sua derrota, sua queda.

Vocês negociarão com o USA?

— O USA deve reconhecer e aplicar nossos direitos patrióticos nacionais. São os seguintes:

a retirada incondicional e total do Iraque;

assumir as consequências da invasão e da ocupação; pagar as indenizações ao Iraque como Estado e como povo aos mais de dois milhões de iraquianos que morreram nesta guerra e durante o embargo por falsos motivos;

anular e abolir todas as leis ilegais, fruto do processo político;

libertar todos os prisioneiros iraquianos, sem exceção;

anular os julgamentos feitos sob a ocupação ilegal;

anular todas as resoluções do Conselho de Segurança amparadas no artigo 7, desde 1991 até agora, baseadas em mentiras.

Além disso, haverá que julgar aos colaboracionistas que tem cometido grande traição contra o país, contra o povo, entregá-los ao governo. Nosso conselho é que reconheçam nossos direitos e se retirem com calma, pelo bem e pela estabilidade da região.

Os membros do atual governo são traidores?

— Sim, os traidores são todos os que tem ajudado ao ocupante na invasão e que colaboram para que se execute o projeto ianque. São os lacaios.

Qual é o papel do Irã no conflito iraquiano?

— Primeiro, criar uma zona de influência na região desde o Iraque, porque os interesses do Irã se estendem a países do Golfo e a outros países próximos. O Irã aproveita a ocupação e conseguiu entrar no nosso território. Agora estão pressionando o USA para levar adiante a segunda direção do projeto: o avanço militar. O Irã acredita que pode alcançar concessões do USA para seu projeto nuclear. A resistência iraquiana sabe que a zona de influencia para o Irã é mais importante que a questão nuclear.

Já se passaram 4 anos desde o início da guerra. Quanto tempo calculam que necessitarão para recuperar seu país?

— Diante de uma ocupação desta natureza é difícil dizer quanto tempo pode durar, mas estamos percebendo indícios sobre o desgaste do Exército ianque. Bush está humilhando o USA no Iraque. Os soldados choram nas ruas de Bagdá e muitos rechaçam o serviço que estão fazendo. Há sinais claros do colapso da ocupação.


*Trechos de entrevista com mesmo título, encontrada em www.eldiariointernacional.com

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