Revolta popular marca o fim de ano na França

A revolta popular, envolvendo todo tipo de repúdio ao governo antipovo de Nicolas Sarkozy, foi a marca dos últimos dias de 2007 na França. Entre as ações mais relevantes desenvolvidas em novembro e dezembro destacam-se as manifestações de vários setores da população francesa contra as reformas fascistas propostas por Sarkozy e a nova explosão dos jovens nos subúrbios de Paris.

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Jovens nas ruas de Villiers-le-Bel depredam carro de polícia que atropelou dois jovens;
no alto, ao centro, a moto que eles dirigiam
O "regime especial" de Sarkozy exige do funcionalismo maior tempo de contribuição, suprimindo direitos conquistados ao longo dos anos pelos trabalhadores franceses. Pretende-se aumentar o tempo de contribuição de 37 anos e meio para 40, extinguindo-se aposentadorias especiais de maquinistas e funcionários das estatais de gás e energia, entre outros.

Isso, no entanto, é apenas o princípio. Sarkozy já determinou a demissão de mais de 20 mil trabalhadores no início de 2008, notadamente na área da educação. No que tange ao ensino público, quem sairá mais prejudicado, assim como aqui no Brasil com o Reuni, é o estudante, que vê a iminência da transformação da universidade pública em conjunto de escolas-empresas.

Insensibilidade

Na primeira quinzena de novembro, centenas de milhares de servidores se juntaram aos maquinistas ferroviários. De repente, o repúdio à administração pública levava às ruas 700 mil pessoas, sendo 70 mil apenas em Paris. Exigia-se melhorias salariais, emprego e mais serviços públicos de qualidade.

Sarkozy, apesar de intensas reivindicações, declarou que não cederá a nenhuma delas, embora o povo francês, reclamando perda de 6% no poder aquisitivo desde 2000, apóie os grevistas.

Os professores revoltados correspondiam quase a 65% de todo o magistério do país. Temendo a anunciada eliminação de 22.900 postos de trabalho em 2008, trataram de exigir para já um reajuste salarial. O mesmo fizeram os funcionários dos correios e do sistema de controle de tráfego aéreo.

Falsas informações

Durante a greve, os trens da rede nacional de ferrovias — SNCF — principalmente os TGVs, de alta velocidade, operaram abaixo da média, assim como os demais meios de transporte. O monopólio dos meios de comunicação, no entanto, limitou-se a denunciar o caos no trânsito e as dificuldades de ir-e-vir dos franceses aos seus locais de trabalho, contabilizando os engarrafamentos e o caos aéreo. A televisão não dava a palavra aos trabalhadores. Reproduzia em todos os programas jornalísticos as imagens de setores prejudicados e os maus reflexos na economia francesa.

Passeatas em Paris e no interior da França ofereceram uma visão não apenas da solidariedade de todos os servidores do setor público aos ferroviários, como também despertaram atenções para as necessidades de outras categorias, ignoradas por Sarkozy. Tudo em paralelo ao movimento dos estudantes do ensino superior, que ocupam faculdades e universidades pela França inteira.

O movimento estudantil francês repudia um projeto ainda embrionário de privatização do setor pelo governo, mas já com iminentes decisões de cunho fascista no campo educacional.

Mercantilização do ensino

Anuncia-se rompimento da autonomia econômica das univesidades e os estudantes promoveram a ocupação de 15 delas. Em muitas a situação é violenta: confrontos entre grevistas e antigrevistas apoiados pela polícia ocorreram.

Os estudantes mais combativos explicam que as medidas anunciadas para a educação eliminam os últimos resquícios democráticos nos órgãos acadêmicos.

Uma das mudanças mais criticadas é a transformação do reitor em um tipo de gerente, assessorado por um conselho administrativo inteiramente sob seu controle, como nas grandes sociedades financeiras, estabelecendo metas a serem cumpridas incessantemente. Os reitores irão se associar em redes locais a empresas investidoras ou clientes aos quais as universidades oferecerão formação permanente, programas de pesquisa etc.

As universidades sofrerão ingerências de marcas e corporações. Estas marcas serão estampadas nos espaços públicos junto com as corporações que dividirão o mercado de diplomas. O valor do diplomado será medido conforme sua oportunidade e a remuneração conseguida pelos "investimentos educativos" dessas corporações.

As instituições educacionais poderão, ao seu modo, exigir mensalidades infinitamente maiores, a pretexto de recrutar os professores mais renomados. O plano transforma a universidade em mecanismo de circulação financeira. O reitor obterá as instalações, poderá manobrar o orçamento sem qualquer regulação, interferir diretamente nas contratações, até mesmo criando empregos sem considerar normas da função pública ou a necessidade de respaldo da comunidade acadêmica.

Truculência policial

A revolta juvenil nas periferias de Paris eclodiu com a morte de dois jovens cuja motocicleta colidiu com uma viatura policial em Villiers-Le-Bel, um vilarejo de 27 mil habitantes. Os dois morreram instantaneamente mas, segundo testemunhas, os policiais não fizeram nenhum movimento para socorrê-los. Disseminou-se a indignação popular e para contê-la a polícia utilizou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Em resposta, os manifestantes construíram barricadas, queimaram automóveis e atiraram coquetéis molotov nas forças da repressão.

Em nenhum momento o monopólio da imprensa abordou as causas históricas das manifestações de repúdio à polícia. Limitou-se a despertar preconceitos contra jovens filhos de imigrantes africanos, que há tempos são apontados pelos fascistas franceses como causa dos problemas do país. Na verdade, porém, os subúrbios franceses são povoados pelos proletários franceses e os descendentes dos imigrantes africanos, todos na miséria e padecendo com a falta de emprego. A tentativa dos reacionários é fazer passar mais um episódio da luta de classes como um problema racial.

Os acontecimentos de novembro relembraram o episódio de 2005 quando jovens incendiaram centenas de carros, casas e edifícios e sacudiram a periferia de Paris e de outras cidades francesas após a morte de dois jovens eletrocutados ao tentarem fugir da polícia.

Na época, Sarkozy, ministro do Interior, chamou os jovens manifestantes de ralé. E esta expressão jamais foi esquecida pelo povo.

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