O povo de Sucre derrota a Polícia e rechaça a “nova” Constituição

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Os enfrentamentos de 24 e 25 de novembro (sábado e domingo) na cidade de Sucre deixaram quatro mortos e mais de 300 feridos devido à repressão policial. A população da cidade enfrentou os soldados da cidade e rechaçou a "nova" Constituição aprovada em um recinto militar. Este fato gerou um vazio de poder por causa da ausência das forças repressivas do Estado. Por isso a população se organizou para administrar a segurança da cidade.

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Sucre, 25 de novembro
Bolivia - A população de Sucre invadiu os batalhões policiais e expulsou os soldados da cidade, em protesto pelas mortes e ferimentos causados aos manifestantes que haviam questionado a última sessão da Assembléia Constituinte, realizada em um recinto militar. Em represália, os soldados soltaram os presos da prisão de San Roque e abandonaram a cidade com a advertência de que não poderiam proteger a cidade da delinquência.

Nos enfrentamentos de sábado, entre universitários e policiais, uma morte, a do advogado Gonzalo Durán — atingido por um tiro — deixou a população em alerta e preocupada. O governo minimizou o fato e insistiu em "celebrar" a aprovação pela maioria dos constituintes da nova Constituição Política do Estado.

No domingo a repressão continuou e o carpinteiro Juan Carlos Cerrudo — ferido no dia anterior — morreu atingido por uma granada de gás na cabeça, enquanto a população imobilizou um policial e o golpeou até matá-lo, isto segundo fontes policiais, mas o corpo ainda não foi encontrado.

Segundo notícias da imprensa, também faleceu o estudante de Construção Civil da Escola Técnica, José Luis Cardoso. Enquanto isso, o Presidente Evo Morales e seu vice-presidente Álvaro García Linera estavam concentrados em propagandear a entrega do bônus "Juancito Pinto" (Bs.200) em diferentes partes do país. Nenhum deles se referiu às mortes apesar da insistência dos jornalistas.

Às dez da manhã de domingo, o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, disse na rádio Pátria Nova que os soldados já haviam retornado a seus quartéis. Ao mesmo tempo, estudantes denunciaram pela rádio Erbol que os policiais estavam agredindo grupos de jovens nas ruas. Uma enfermeira assegurou que os soldados recolhiam os feridos na praça Zudañes para levá-los a seus quartéis, sem permitir atenção médica e para agredí-los ainda mais. Os jornalistas reportavam, ao vivo, que os policiais estavam dispostos em cinco pontos da cidade, reprimindo a população. A jornalista Adriana Gutiérrez disse que ela e o cinegrafista Pablo Tudela foram jogados contra a parede, agredidos por policiais com socos no rosto e ameaçados de morte com fuzis apontados para eles. Com estes fatos, se desmentia a versão do Ministro.

Esse panorama indignou a população, que decidiu tomar os quartéis e batalhões policiais. Os policiais resistiram à investida popular com gases e balas, mas finalmente foram vencidos no Comando Departamental, no Batalhão de Trânsito, no de Inteligência e no Batalhão de Segurança Física, tomados por completo, segundo o coronel José Galván.

O comandante Geral da Polícia, Miguel Vásquez, disse que sua instituiçao foi "agredida selvagemente", qualificou como "desadaptados" e "delinquentes" aos estudantes, operários, camponeses e população em geral mobilizados e insistiu em dizer que os policiais não usaram armais letais nos enfrentamentos. Com a permissão do Governo, a ordem de retirada dos soldados foi dada. Os policiais não tardaram em sair fugindo da cidade e foram apedrejados pela população postada nos morros.

Mas os policiais não saíram tranquilos, as imagens da televisão mostraram como as tropas "anti-motim" estimulavam os presos da cadeia de São Roque a sair pelas janelas do lugar. As mulheres e homens abandonaram a prisão corrrendo, com mochilas, maletas e carregando seus filhos.

Inicialmente o general Vasquez informou que haviam fugido 102 reclusos, não há uma informação final, mas se sabe que ficaram apenas alguns que estavam a ponto de cumprir a pena. Com sua "missão cumprida", os soldados saíram da cidade gritando para a população que agora estavam sem policiais para resguardá-los da delinquência.

A Defensora do Povo interina opinou que "as ações repressivas da Polícia tem agredido de maneira massiva aos direitos humanos".

A única coisa que o presidente Evo Morales comentou é que esses grupos foram apoiados pela oligarquia e que "não aceitam que um camponês indígena seja Presidente", ao mesmo tempo que agradecia e justificava a brutalidade policial, dizendo que eles somente cumprem a lei.

Mas foi a população que se levantou contra a polícia, com mulheres que levavam alimentos e refrescos em bolsas para os manifestantes, moradores que fizeram vigílias desde a noite anterior, estudantes que estiveram à frente dos enfrentamentos, comerciantes que fecharam os mercados e lojas para se solidarizar, pessoas que socorriam os feridos, anciãos e mulheres que levavam bandeiras com tarjas negras e gente que ia aos hospitais para saber se podiam doar sangue e até medicamentos.
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A "meia lua" organiza sua "resistência"

CEP-Bolívia
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Os funerais de Juan Carlos Duran e Gonzalo Cerrudo
Bolivia - O projeto reformista do Movimento al Socialismo (MAS), introduzido através da Constituinte, e a proposta de "autonomia" da oposição tem o povo como campo de disputa. Em ambos, são das classes exploradas os mortos e feridos, os que marcham quilômetros em situações rigorosas para respaldar um governo que maquia o velho e podre Estado e os que saúdam os "cívicos", pedindo autonomia, quando isso somente consolidará a elite mais reacionária do país.

Os opositores do governo de Evo Morales se mostram nesses dias como os defensores da democracia, enquanto governam suas prefeituras de forma autoritária; condenam a repressão policial, mas estão acostumados a usar inclusive a força dos grupos de choque contra o povo. Eles se solidarizam com a população de Sucre, reprimida pela Polícia nos dias 24 e 25 de novembro, ainda que não titubeiem em pisotear o povo em suas regiões. Os empresários e latifundiários levantaram a cabeça e agora anunciam uma série de protestos em defesa de seus interesses.

No dia 24 de novembro (sábado), um grupo de choque obediente aos "cívicos" de Santa Cruz se apresentou como a "guarda de honra" da União Juvenil Cruzenha e partiu para derrubar as portas do Serviço de Impostos Internos da cidade, depois de saber que em Sucre, o governo havia reprimido a população usando a polícia.

No domingo, em Sucre, o resultado da investida policial foi de três mortos e mais de 300 feridos. Em Santa Cruz, os grupos de caráter fascista tentaram tomar outras instalações públicas, frente a uma tímida defesa do governo pela polícia. Os "cívicos" de outras regiões organizaram protestos no resto do país: Cochabamba, Beni, Tarija, Pando e Santa Cruz (autodenominados "meia lua") en "solidaridade" a Sucre.

Na realidade sua luta é contra o MAS e a nova Constituição, aprovada no dia 24 de novembro numa sessão em um recinto militar, na presença apenas dos assembleístas membros dos partidos que apóiam o governo. Os empresários e latifundiários, excluídos do manejo da administração pública desde a chegada de Evo Morales à Presidência, tem sustentado protestos nas regiões em que conseguiram mobilizar o povo, inclusive se valendo de agressões físicas a comerciantes e outros trabalhadores, efetuadas pelos grupos fascitas da União Juvenil Cruzenha.

Na "resistência"

Nesta conjuntura, a denominada "meia lua" — que pretende se lançar como a defensora da democracia, da paz e da não violência — considerando que seu passado está ligado a militares golpistas — tem enviado cartas às Nações Unidas, à Organização dos Estados Americanos, à Comunidade Andina de Nações e à Igreja Católica, denunciando o governo de "promover a passagem para um Estado totalitário, fazendo uso de uma violência somente vista em governos tiranos e fascistas".

Os "cívicos" da meia-lua convocaram, para o dia 27 de novembro, a população para uma paralisação de atividades contra a nova Constituição Política do Estado em suas regiões e anunciaram uma greve de fome para a próxima semana. Com esses protestos, nos quais praticamente obrigaram a população a participar, estes cívicos defendem interesses dos empresários e latifundiários nostálgicos do mais cru neoliberalismo e deliram agora, sentindo-se a vanguarda da "resistência". O texto da nova Constituição é desconhecido de quase todos na Bolívia, porque Evo Morales e seus apoiadores escondem o documento.

O governo não fica atrás e, através de seus dirigentes, tem mobilizado aos setores camponeses e urbanos para cercar o Congresso, onde a "meia-lua" tem seus representantes, para aprovar a Renda Dignidade, que dará uma pensão mensal aos idosos do país e outras leis que não são aprovadas, fato que o governo tem denunciado como obstrução a seu projeto reformista.

*O Centro de Estudos Populares da Bolívia (CEP) é uma organização sem fins lucrativos, que conta com uma equipe multidisciplinar, dedicada ao estudo e análise da realidade boliviana e comprometida com os setores explorados e que lutam permanentemente em defesa de seus direitos democráticos. O objetivo do CEP é lutar junto ao povo boliviano para construir uma verdadeira alternativa transformadora, através do conhecimento da realidade objetiva dos fatos que ocorrem no país.

Para entender os protestos

Semelhante ao que ocorre na Venezuela, com Hugo Chávez se esforçando na estruturação de um sistema que atenda ao imperialismo com cara popular e com o eufemístico nome de "socialismo do século XXI", Evo Morales na Bolívia tenta impulsionar seu projeto batizado de "capitalismo andino-amazônico".

Na verdade, se é correto afirmar que esses dois personagens sofrem duros ataques da extrema-direita de seus países, que recorrem aos mais fétido anticomunismo, os dois projetos não significam melhora nas condições de vida das massas nem a saída da condição de países dominados pelo imperialismo.

Morales ainda tem relativo apoio das massas que o elegeram para a gerência do Estado boliviano, mas dá mostras de que não se prenderá aos compromissos assumidos com elas.

Os incidentes em Sucre demonstram que Evo recorrerá aos mesmos métodos de repressão utilizados pelas velhas oligarquias que sempre dominaram o país e agora se encontram deslocadas do poder.

Assim, manifestações genuinamente populares contra Morales e aquelas convocadas pelos chamados "cívicos" da "meia lua" boliviana podem se confundir, mas revelam que o atual governo boliviano não está satisfazendo aos interesses das massas, nem tampouco os de um setor da grande burguesia. Assim, os reacionários de Santa Cruz de la Sierra reivindicam a democracia das manifestações em Sucre, que nada tinha de interesses semelhantes

A defesa de Morales segue sendo a de impingir a todos que se opõem a ele o rótulo de "direitistas" e atribuindo a si mesmo o título de vanguarda da esquerda latino-americana.

Os setores mais reacionários se mexem e acenam com constituições locais, que lhes dariam grande autonomia e poder de decisão sobre a utilização das terras e recursos naturais dos departamentos (estados) mais ricos do país, já que foram desalojados do centro do Estado.

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