Canteiros de Batalha

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Novamente os operários seguiram o chamado do Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte e Região, o Marreta, e paralisaram as obras das principais construtoras da região metropolitana em sua jornada de lutas no mês de novembro último. Mais de 20 mil operários mobilizaram-se durante duas semanas, enfrentando a repressão policial e fazendo tremer os patrões e capatazes. Mais que as conquistas de uma campanha salarial, esta greve deixou importantes lições para as próximas batalhas.

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A manifestação parou a cidade dirigindo-se à praça 7

As grandes empresas do ramo da construção nunca lucraram tanto. Os grupos nacionais e estrangeiros não cansam de comemorar o crescimento astronômico do mercado imobiliário. Manchetes de jornais falam de falta de mão de obra em todo o país.

A Cyrela, maior companhia imobiliária do País, divulgou em novembro um lucro de 187% sobre o terceiro trimestre de 2006. As empresas Metro, Alicerce e Santa Bárbara se uniram no consórcio MASB e estimam um lucro de 700 milhões em 2008. Já a Odebrecht, junto com a mineradora Anglo Gold South América estão recortando e construindo em um terreno de 6 milhões de m², numa antiga reserva ambiental em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, e projetam um lucro de mais de R$ 800 milhões. Nos bairros de luxo os apartamentos são vendidos por até 4 milhões de reais.

Já os operários da construção, únicos responsáveis pela geração de toda essa riqueza, amargam com o arrocho salarial, a alta do custo de vida e dos preços dos alimentos, os acidentes de trabalho e a sucessão de mortes em canteiros de obras, que já ultrapassam 45 somente no estado de Minas Gerais em 2007.

O Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais — Sinduscon (patronal), mesmo diante do exorbitante lucro das construtoras, propõe o discrepante índice de 6% de reajuste salarial e 10% para os trabalhadores que possuem piso salarial, além da imposição de assiduidade para o fornecimento de cesta básica.

Por que lutam

Em 28 de outubro, os operários da construção realizaram uma assembléia geral para debater a proposta do Sinduscon.

— Companheiros, esta proposta dos patrões é um insulto: R$ 42,00 no piso dos serventes e R$ 65,00 no piso dos oficiais — discrimina os mestres de obra, encarregados, almoxarifes, apontadores e todo o pessoal do escritório, com valor menor de reajuste. Todos aqui sabem que está até faltando trabalhador nas obras de tanto canteiro novo que surge todos os dias. Se os patrões têm este lucro fabuloso, é por causa dessa miséria de salário que recebemos. Com a venda de um ou dois apartamentos milionários desses, eles pagam todo o custo e mão de obra, o restante é todo lucro. Por isto nossa proposta é preparar a greve, a partir de hoje, operação tartaruga. Se eles pagam pouco, vamos trabalhar pouco. Se eles não nos atenderem, vamos parar tudo! — declarou Milton Mendes, do Marreta.

Se eles pagam pouco,
vamos trabalhar pouco.
Se eles não nos atenderem,
vamos parar tudo!

A pauta saída desta assembléia exigia 100% de aumento para todos os trabalhadores, incluindo o pessoal da faxina, serventes, administrativo, etc., Alimentação nas obras, uniforme, equipamento completo de segurança, a manutenção de todos os benefícios sociais e o direito à cesta básica conforme o acordado na convenção coletiva.

Os donos das construtoras, claro, não aceitaram as exigências dos operários e a greve foi decidida em 18 de novembro.

Às 4 da madrugada começa a movimentação de operários, que se concentram diante do sindicato, aguardando as orientações da direção. No primeiro dia de mobilizações, piquetes e assembléias, mais de 12 mil trabalhadores paralisaram as obras, atingindo 20 mil no decorrer do movimento.

Por dentro da greve

Grupos de mobilização e agitação da greve saíam pela madrugada para as obras. Era comum encontrar apoiadores da luta pertencentes a outras categorias: rodoviários, comerciários, estudantes, operários de outras cidades, membros da Frente de Defesa dos Direitos do Povo segurando faixas e bandeiras.

No alto do bairro Belvedere concentram-se grandes prédios em construção. Cerca de duzentos operários sobem a rua para trabalhar quando Félix, conhecido por todos pelas agitações no carro de som, dá a ordem:

— Companheiros, o caminho da greve não é por aí. O carro de som está aqui, o café aqui, portanto vamos por aqui! Vamos nos organizar e ajudar a juntar mais companheiros, vamos para a porta das outras obras e convidar todos para aderir à greve! — e todos dirigem-se até o carro de som para ouvir melhor as orientações do sindicato.

Assim, pararam o Belvedere, Buritis, Vale dos Cristais na cidade de Nova Lima, Castelo, Cidade Nova, Lourdes, uma série de obras na cidade de Contagem. Em Itabirito, há uma grande obra da construção pesada. Mais de dois mil trabalhadores da construtora Camargo Correa reuniram-se no alojamento da obra e decidiram, mesmo sem a presença física do sindicato no local, aderir à greve. Eles permaneceram mobilizados até o último dia, sustentando as bandeiras e reivindicações da classe, ampliando a agitação política da greve para além de Belo Horizonte.

Rompendo o círculo de ferro

Ao final da sua segunda semana, a greve chegou a uma situação limite. O Marreta realizou uma reunião de sua coordenação para avaliar a luta. A assembléia geral debateu a greve e avaliou que era a hora de negociar nos canteiros as melhores propostas e preparar para uma grande luta. Ficou decidido realizar novas assembléias nos canteiros de obras no dia seguinte quando seria decidido o rumo do movimento.

Nos canteiros, a decisão dos trabalhadores foi manter a mobilização até finalizar as negociações que ocorreriam ao longo do dia e assim que elas fossem encerradas, voltar ao trabalho de forma organizada, cumprindo as decisões das assembléias.

Com a palavra, o Marreta

Osmir Venuto fala sobre o balanço do Marreta:

AND - Como a diretoria do Sindicato avalia a greve?

Osmir - A greve é uma batalha onde milhares de operários lutam contra a ganância de uma meia dúzia de grandes burgueses que recusam-se em cumprir os nossos direitos. Nossa greve calou a boca desses parasitas, que sugam o nosso sangue todos os dias. A greve valeu por isso. Porque ofereceram 10% como se isso fosse uma esmola. A classe operária não quer esmolas, ela quer o poder. Quer educação para seus filhos, quer saúde, quer viver com dignidade e que seu trabalho não seja para enriquecer um bando de patrões. O nosso balanço é que nesse sistema, com este governo que só serve à patronal, precisamos mobilizar mais, unir toda a classe trabalhadora, deflagrar uma greve geral e parar esse país. Somente uma greve geral que mobilize todos os trabalhadores, um grande protesto de todo o povo pode deter os ataques do governo e dos patrões contra os trabalhadores. E esta greve da construção, é uma propaganda para toda a classe operária de que é preciso e possível lutar, resistir e vencer.

AND - E o próximo passo, qual será?


Osmir - Sempre dizemos que é muito mais fácil começar uma greve do que terminá-la. A disposição de muitos trabalhadores é permanecer em greve, mas até quando? Entendemos que a luta reivindicativa tem um limite e que esta luta do sindicato ainda está dentro do círculo deste velho Estado, onde a balança só pesa para o lado do patrão. Nossa luta é para elevar a consciência dos operários para a necessidade de nos prepararmos para uma luta maior, a luta de toda a classe trabalhadora contra este sistema explorador. Nosso próximo passo será avaliar isto com os trabalhadores. A posição do Sindicato é que conseguiremos negociar em algumas obras reajuste acima dos 11%; em outras, o pagamento dos dias não trabalhados. Brigaremos até o fim para que os direitos dos trabalhadores sejam assegurados. Mas uma coisa é fato, vamos nos preparar desde já para deflagrar um grande movimento no ano que vem, um movimento como esta cidade não vê há muito tempo.

AND - Os patrões mostraram-se irredutíveis quanto à concessão de um aumento maior, o sindicato pode conquistar mais?

Osmir - O MARRETA não pratica o "sindicalismo de resultado", tão comum às centrais amarelas e governistas. Esta greve destampou toda a revolta da classe, que não aceitou como não aceitará nunca migalhas dos patrões. Este governo vem aplicando uma série de golpes contra os trabalhadores e contra todo o povo com estas chamadas "reformas". Os tribunais e a justiça fizeram demagogia, chegaram até a fazer discurso dizendo que 'entendem o nosso lado' mas no fim nos impuseram multas se continuássemos com a greve, no fim, acabaram referendando o salário de miséria dos patrões. Mas mesmo assim prosseguimos firmes! Sabemos que diante deste quadro político, seria vender ilusões dizer que conquistaríamos mais. A nossa maior conquista é a elevação da nossa organização. É isso o que consideramos uma vitória política, pois não chegamos a um acordo sem luta.



Operários denunciam repressão

A polícia postou-se diante
dos canteiros de obras,
retirando faixas dos grevistas
e obrigando os operários
a trabalhar com coronhadas

Grande aparato policial foi mobilizado para reprimir os grevistas desde o início do movimento.

Durante toda a greve a polícia postou-se diante dos canteiros de obras, retirando faixas dos grevistas e obrigando os operários a trabalhar com coronhadas. Policiais sacaram armas e fizeram menção de atirar contra os grevistas, em uma obra da Construtora Paranasa. As denúncias abaixo relacionadas foram encaminhadas à Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do estado de Minas Gerais:

21 de novembroO diretor do Sindicato, Joaquim Pereira, foi arbitrariamente preso a pedido do mestre de obras da Construtora Terra Teto, na Rua Passatempo, bairro Sion, que visava desarticular o trabalho de convencimento pacífico dos dirigentes sindicais.

29 de novembro Afonso José do Rosário, diretor do Marreta, também foi arbitrariamente preso na porta da Construtora Valle, no bairro Belvedere, a pedido do engenheiro da empresa, Zilmar Santiago da Silva. O diretor do Sindicato foi conduzido por policiais até a delegacia, onde o engenheiro se retratou das acusações e ele foi imediatamente liberado. No próprio boletim de ocorrência os policiais assumem que cumpriram as ordens do engenheiro Zilmar. Os policiais envolvidos na arbitrariedade foram o tenente Cláudio, comandante do tático móvel, 3º sargento Jorge Luis de Sousa (matrícula 072431) e soldado Dalton Luiz Costa (matrícula 1314517).

30 de novembro Perto das 11hs, uma guarnição da PM pertencente ao 1º pelotão da 1ª Cia — BPE abordou arbitrariamente um ônibus que conduzia operários para a reunião de conciliação no TRT e, de forma truculenta, os policiais invadiram o veículo alegando ter recebido uma denúncia de posse de armas. Inesperadamente o capitão André lançou spray de pimenta contra os trabalhadores. Posteriormente o tenente Nirlando Freitas Neves (matrícula 0841247) teve o descaramento de dizer que "não viu nada", para acobertar o crime cometido pelo capitão André.

Os policiais que invadiram o ônibus são: Sargento Evaldo, Cabo Sergio Rafael da Silva (matrícula 1093293), cabo Aristóteles Alex B. Ferreira (matrícula 1076454) e o cabo Ângelo Lauderino Trindade Silva (matrícula 1240621), além do truculento capitão André.

Os policiais revistaram os trabalhadores e não encontraram absolutamente nada. Ainda assim prenderam ilegalmente o diretor do sindicato, Joaquim Pereira, sob a absurda acusação de "desobediência passiva". Depois de cometida esta arbitrariedade, o diretor do sindicato foi conduzido ao Juizado Especial, onde foi imediatamente liberado por ter sido verificado que a prisão não tinha qualquer fundamento.

3 de dezembro Às 5hs 30min da madrugada, diretores e ativistas sindicais, quando chegavam em frente à obra da Odebrecht, no Vale dos Cristais, em Nova Lima, foram imediatamente abordados com truculência pelo sargento Fernandes da 1ª Cia. BPM Ind. Nova Lima (viatura GTM 6452) e conduzidos ao tenente Tiago Augusto, que lhes deu voz de prisão. Os dirigentes sindicais preparavam-se para comunicar a decisão do TRT aos operários; mas o tenente Tiago e o sargento Fernandes sequer ouviram os sindicalistas e, com auxílio do grande contingente policial postado em frente à obra, foram logo prendendo os trabalhadores, sob alegação de descumprimento de ordem judicial.

Os ativistas sindicais, Felix da Silva, Gerson Lima, Jeferson Tadeu e o presidente do Sindicato, Osmir Venuto, foram ilegalmente presos e conduzidos à 47ª delegacia de Polícia de Nova Lima, onde ficaram arbitrariamente detidos durante mais de cinco horas. Após assinarem termo circunstanciado de ocorrência, foram convocados para audiência judicial no próximo dia 22 de fevereiro de 2008.

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