Operação de guerra promove saque, tortura e prisão de camponeses no sul do Pará

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Quatrocentos soldados de tropas regulares e especiais da Polícia Militar do estado do Pará, envolvendo tropa de choque Comando de Missões Especiais (CME), Polícia Civil, Polícia Rodoviária Federal e Exército, 40 viaturas, quatro helicópteros e um avião. Prisões de camponeses e posseiros, mulheres e crianças, tortura e ameaças de morte. Esta é a descrição da atual situação do sul do Pará, mais precisamente na área de mais de 20 mil hectares onde em, 22 de setembro último, camponeses pobres tomaram a fazenda Forkilha. Uma verdadeira operação de guerra ordenada pela governadora Ana Júlia Carepa — PT que resultou na prisão de centenas de camponeses e perseguição de lideranças populares.

Foto: Claudio Santos/Ag. Paráhttp://anovademocracia.com.br/39/8.jpg

Na madrugada de segunda-feira, 19 de novembro, os camponeses foram surpreendidos em seus barracos por uma verdadeira operação de guerra. Muitas famílias ainda dormiam quando as tropas do Exército fecharam a rodovia BR-158, entre Redenção e Santa Maria das Barreiras , no sul do Pará, e os efetivos das Polícias Militar, Civil e Rodoviária e Exército, fortemente armados, de forma truculenta invadiram a área da Fazenda Forkilha.

A operação, que foi cinicamente definida pelo governo como "Paz no Campo", é a aplicação da política de terror contra os pobres do campo promovida pelo Estado burguês-latifundiário no Pará. Os barracos dos camponeses foram invadidos, seus ocupantes tomaram tapas no rosto, coronhadas no peito e foram postos para fora aos empurrões, sob insultos e ameaçados por armas de grosso calibre apontadas para suas cabeças.

Mais de 200 camponeses foram brutalmente agredidos e presos, colocados em uma sinistra fila indiana e conduzidos para um descampado, onde foram mantidos sob guarda de soldados armados de fuzis, escopetas e metralhadoras. Basta observar as fotografias para concluir que se tratavam de trabalhadores, posseiros, tratava-se da gente simples da região que cansada de esperar pelo cumprimento das promessas do governo decidiram conquistar com suas próprias mãos seu sagrado direito à terra.

Desrespeitados e humilhados, agredidos diante de seus filhos, uma cena revoltante. Impossível não recordar Canudos, mil vezes difamada pelas hostes e porta-vozes da semifeudalidade, que com sua gente simples e brava impôs fragorosas derrotas às tropas assassinas do Exército da ainda mais velha república, tratados como bandidos, fanáticos, da mesma forma agredidos e desrespeitados.

Mandantes, porta-vozes e executores

A operação de guerra contra o povo pobre do Pará foi precedida por uma campanha histérica e caluniosa promovida pelo monopólio da imprensa. Particularmente nos editoriais e artigos da Folha de São Paulo e revista Veja, lugar-comum para as proclamações dos grupos de poder desde os gorilas do regime militar até à arqui-reacionária UDR, os latifundiários fizeram transbordar todo o seu ódio e temor da luta das massas camponesas. Uma série de artigos atacou e acusou sem uma prova sequer.

O latifúndio do Pará enviava um recado claro à governadora Ana Júlia Carepa — PT, cuja gerência reprimia insuficientemente o povo do Pará para assegurar a sua tranquilidade. Bastou a primeira série de artigos venais publicados, para a governadora dar a ordem para a execução da operação "paz no campo".

Aplicando à risca a máxima fascista de repetir uma mentira dita 100 vezes pretendendo que ela venha se tornar uma verdade, o latifúndio e seus asseclas tentam imputar à luta pela terra o selo de ato criminoso. Este artifício não é mérito dos serviços de segurança e repressão nacionais. Os mais velhos e reacionários manuais de repressão das classes dominantes já apontavam que para lançar a opinião pública contra os lutadores do povo, devia-se primeiramente descaracterizá-lo, difamá-lo, criminalizá-lo para depois desatar a mais feroz repressão.

Armas de guerra dos latifundiários

Manipulando as informações, as publicações encomendadas pelo latifúndio prosseguem tratando os camponeses e posseiros do sul do Pará por "bandidos" e "bandoleiros". Logo após a operação policial contra os camponeses na Fazenda Forkilha, foi noticiada a apreensão de um arsenal de armas pesadas (fuzis FAL, M-16 e Ruger, pistolas automáticas e escopetas, etc.) encontrado na Fazenda Estrela de Maceió, de propriedade da família de P. C. Farias, onde fazendeiros treinavam jagunços (chamados pela imprensa de ‘seguranças contratados’), mas toda a ligação com este fato, inclusive a foto do arsenal, foi colocada na matéria que falava da Liga dos Camponeses Pobres e da operação "paz no campo".

NAP acusa "Tropa de elite" do latifúndio

Assim que tomaram conhecimento dos fatos, uma comissão de advogados mobilizada pelo Núcleo dos Advogados do Povo deslocou-se para o Pará com o intuito de investigar as agressões contra os camponeses e prestar apoio jurídico aos detidos.

Os advogados colheram depoimentos que vieram sob forma de desabafos revoltantes e denúncias contundentes das torturas aplicadas contra adultos, idosos e crianças. A comissão de advogados foi acompanhada pessoalmente pelo Ouvidor Agrário Nacional, Gercino José da Silva Filho, de um representante regional da Defensoria Pública e de vários membros do INCRA-SR-27 (Marabá), entre eles o representante oficial da superintendência regional daquele órgão.

Após esta primeira missão de investigação e solidariedade aos camponeses, uma nova comissão de advogados retornou ao sul do Pará, desta vez indo a Redenção e Conceição do Araguaia. Os advogados do NAP conseguiram visitar todos 22 camponeses que continuam presos e constatar todas as denúncias de torturas, maus tratos, humilhações e toda sorte de abusos praticados pelos integrantes da operação contra aquelas famílias de trabalhadores. O Núcleo dos Advogados do Povo publicou relatórios sobre as atrocidades cometidas contra o povo pobre do sul do Pará. Reproduzimos alguns trechos destes relatórios na página 9.

Cabeça a prêmio

R$ 120 mil reais. Os relatos de vários camponeses, colhidos por nosso correspondente, dão conta de que foi este o preço fixado pelos latifundiários para que seus jagunços eliminem os dirigentes da Liga dos Camponeses Pobres. Entre estes está o companheiro Luiz Lopes, histórica liderança camponesa da região e um dos coordenadores da LCP (veja entrevista com ele nesta edição). O que não foi obtido à custa da violência contra o povo pobre, das torturas, perseguições e tormento para milhares de famílias, se transformou em um leilão macabro, onde latifundiários dão lances altos para tentar eliminar a organização combativa dos camponeses do Pará.

Há pouco mais de um ano, a Liga dos Camponeses Pobres realizou seu congresso de fundação no estado de Pará e abriu uma modesta sede na cidade de Conceição do Araguaia. Os camponeses organizados na Liga realizaram durante todo o ano dezenas de manifestações públicas, passeatas, panfletagens e encontros.

Através do seu trabalho sério e persistente a Liga adquiriu a confiança e respeito dos camponeses pobres da região. Suas atividades e reuniões realizadas são abertas e públicas, pois correspondem aos interesses da gigantesca massa de camponeses pobres que luta contra o latifúndio e contra toda a sorte de crimes praticados pelo Estado.

A mobilização para a tomada da Forkilha, principalmente em Redenção, foi intensa (ver AND 38: A luta camponesa faz-se ouvir) e contou com a participação e apoio de inúmeras organizações, sindicatos, democratas de toda a região.

Mas o ódio dos latifundiários, o temor da organização dos camponeses pobres, e contra a LCP está bem explicado no último manifesto distribuído pela Liga após a operação de terror no campo:

"O que o latifúndio não aceita é a independência da Liga dos Camponeses Pobres. Eles não se conformam de não sermos uma organização do esquema do governo, que dependa e sobreviva das verbas públicas e que por isto pudesse ser chantageada e controlada.

As milhares de famílias que sonham e lutam por um pedaço de terra distinguem quem é quem na luta contra o latifúndio. Separam os combativos dos oportunistas e bandidos."

Bandidos escravocratas

Enquanto o povo pobre do Pará é alvo de perseguições e todo tipo de violência por parte do Estado e camponeses permanecem detidos, os bandidos escravocratas, latifundiários e torturadores permanecem em liberdade e cometendo outra série de crimes.

Após a campanha de perseguições e a operação militar na Forkilha, surgiram na cidade de Redenção dezenas de outdoors encomendados por latifundiários agradecendo a governadora Ana Júlia Carepa — PT pela ação violenta contra os camponeses pobres.

A Governadora Ana Julia Carepa, ao contrário do que brandiram os órgãos do monopólio da imprensa antes da operação militar na Forkilha, governa para o latifúndio e para a grande burguesia. Sua campanha marchou à reboque do populismo de Luiz Inácio e aplicação de suas políticas de "bolsa-esmola" junto à população pobre do interior do país, que garantiu sua vitória eleitoral sobre o desgastado PSDB após 12 anos de gerência no governo do estado.

Mas ela também contou com um importante aliado: o deputado federal Jader Barbalho — PMDB, que além de possuir estreita ligação com os assuntos da "segurança pública" do Pará, é um legítimo representante do latifúndio na região, um autêntico senhor feudal, com extensa folha corrida na justiça por desvio de dinheiro público, e diversas vezes denunciado por beneficiar latifundiários correligionários que cometiam crimes de exploração de trabalho escravo.

Defendendo seu legado, a governadora Ana Júlia ordenou a ação militar na fazenda Forkilha, cujas terras eram reivindicadas como propriedade, mas de fato griladas pelo escravocrata Jairo Andrade, fundador da criminosa e arquireacionária UDR — União Democrática Ruralista.

Jairo Andrade participou da trama da morte do advogado e ex-deputado estadual Paulo Fonteles, executado em 17 de junho de 1987, por sua luta em defesa dos posseiros do sul e sudeste do Pará. Dezenas de vezes denunciado pela prática de trabalho escravo, foi um dos grandes responsáveis pela derrubada da floresta na região para transformá-la em grandes pastagens para gado.

A operação militar contra os camponeses pobres do Pará, a maior após a repressão à Guerrilha do Araguaia, não tinha como objetivo sequer cumprir uma reintegração de posse. Ainda assim, caso tivesse este fim, ela seria conduzida pela Vara de Conflitos Agrários. Esta operação de guerra foi realizada para cumprir "mandados de busca e apreensão".

Irônica e propositalmente, exatamente no mesmo dia em que ordenou a operação militar na fazenda Forkilha, a governadora empossou uma "Comissão de Erradicação do Trabalho Escravo".

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Detalhes da ação repressiva

Relatório das comissões do NAP

A chamada Operação Paz no Campo, chefiada pela DECA — Delegacia de Conflitos Agrários do Sul do Pará, sob responsabilidade do Delegado Alberone Afonso Miranda Lobato que, segundo noticiado na imprensa, estava sendo gestada e executada, em fase de investigação, desde setembro do ano corrente, destinar-se-ia, oficialmente, a impedir a ação de bandos armados na região Sul do Pará, embora se tenha, até o momento, poucas informações sobre os detalhes do seu planejamento.

O real espírito da operação foi de certa forma anunciado e preparado pela Revista Veja, n. 2033, de 07/ 11/2007, com a matéria Faroeste no Pará, de autoria de Leonardo Coutinho, a qual atribuía a violência no campo a movimentos de trabalhadores rurais, destacando-se a Liga dos Camponeses Pobres, e cobrava imediata repressão.

Na operação não havia mandados de reintegração de posse a serem cumpridos. Até porque, quando são planejadas ações policiais de cumprimento de liminar de reintegração de posse, são feitos vários procedimentos processuais e de mediação de conflito, entre eles a intimação pelo oficial de justiça, com prazo para desocupação; reuniões de negociação para busca de solução pacífica e definição do local para onde as famílias irão; mediação no local do conflito com a presença de representantes do Ministério Público, INCRA, IBAMA, ITERPA, e outros. Nada disso foi feito.

Participaram da ação repressiva tropas regulares e especiais da Polícia Militar do Estado do Pará, entre eles a tropa de choque Comando de Missões Especiais (CME); a Polícia Civil e o Exército Brasileiro. Grande parte dos (supostos) policiais estavam encapuzados, parte deles usava uniformes com desenhos de caveiras e faziam os tradicionais gritos de intimidação ‘vamos beber sangue’, entre outros.

Os carros da polícia invadiam as áreas camponesas e perseguiam homens, mulheres e crianças, visando causar-lhes pânico e terror. Quando queriam agredir alguém de forma direcionada, chamavam o ‘caveira’, sendo conhecidos por ‘caveiras’ os mais bárbaros e brutais agressores. Os camponeses foram gravemente agredidos. Os policiais envolvidos na operação não eram identificados e utilizavam máscaras e camisetas com o símbolo da caveira.

As famílias inteiras foram despejadas apenas com a roupa do corpo, e até a presente data (o relatório foi publicado no dia 1º de dezembro) não lhes foi permitido retornar ao local para retomar seus pertences. Muitas pessoas desapareceram e continuam desaparecidas.

Denúncias de torturas

Mais de 200 pessoas foram presas e torturadas durante a operação. 22 delas, entre homens e mulheres, permanecem detidas em presídios e delegacias de Redenção e Conceição do Araguaia.

Os mandados de prisão preventiva existentes foram expedidos com apelidos como "Azulão", "Pé de Ferro", "Buchada", sem nenhuma outra identificação, de modo que qualquer um dentre as centenas de famílias que se encontravam no acampamento poderiam se enquadrar dentre os nomes e características do mandado de prisão.

Os Advogados do Povo colheram depoimentos de dezenas de homens e mulheres torturados. Os relatos de vários deles foram gravados. Tivemos acesso a algumas gravações que relatam o tratamento bárbaro e as torturas morais e físicas aplicadas pelos policiais.

Um velho camponês, após ser desrespeitado e ofendido pelos seus agressores, não identificando as lideranças do acampamento, foi obrigado a ingerir um frasco de pimenta com sal e cebola, causando danos graves ao sistema digestivo. Os camponeses também contaram que entre as sessões de espancamento, os policiais introduziam cassetetes no ânus dos torturados.

Uma mulher conta que pediu para os policiais deixarem sua mãe ir ao banheiro e recebeu um chute nas costelas.

Um homem relata que sofreu várias sessões de enforcamento e afogamento e que os policiais utilizaram um saco plástico para asfixiá-lo. Este fato demonstra ainda para que servem de fato filmes fascistas como Tropa de Elite.

Foram várias as denúncias de camponeses sobre o tratamento entre os policiais de "caveira", o uso de sacos plásticos para asfixiar camponeses. Há denúncia de que pelo menos dois camponeses foram brutalmente espancados enquanto seguravam uma granada sem o pino, com os torturadores gritando e insultando, dizendo que iriam explodir caso eles não entregassem as supostas lideranças do acampamento.

— O SBT filmou tudo — conta revoltado um velho camponês — mas não divulgou nada. No primeiro dia até circulou alguma coisa nos jornais de Redenção, mas quando o assunto começou a se espalhar, policiais não permitiram mais a imprensa de se aproximar.

E continua:

— Queimaram a minha plantação toda, a roça estava começando a ficar vistosa. Não somos bandidos, não tem bandido no nosso meio! — protestou.

Os Advogados do Povo entrevistaram um grupo de mulheres detidas, elas denunciam que estão em um presídio masculino, em uma cela superlotada:

— Minha mãe tem 70 anos e passa por um grande constrangimento pois é obrigada a passar pela revista para que possamos nos ver durante apenas 15 minutos. Não há nem como dar um abraço — conta uma camponesa e outra emenda:

— Em um dia desses, meu pai veio me visitar e eu estava na enfermaria, fui algemada na cama! Meu pai não aguentou ver aquilo e passou mal, teve de ir embora. É muita humilhação...

As presas relatam que durante a ação policial no acampamento, uma mulher grávida foi brutalmente espancada. Outra grávida abortou pelo esforço na fuga para escapar à violência. Seu marido, preso, escreveu cartas pedindo a ela que cuidasse bem do filho, que ele não sabe ter perdido. Um policial apertou a barriga de uma senhora grávida de oito meses enquanto lhe dizia que a faria "vomitar a criança pela boca".

As mulheres denunciam que várias crianças de 10 a 12 anos ficaram durante horas sob a mira de revólveres enquanto eram interrogados sobre seus pais, e outras tantas, entre 2 e 5 anos, estão traumatizadas devido aos vôos rasantes dos helicópteros sobre o acampamento.

Uma das pessoas teve a orelha esmagada devido às inúmeras pancadas desferidas com pedaços de madeira e um facão em sua cabeça. Pessoas foram amarradas e arrastadas, expostas publicamente semi-nuas e em fila indiana.

Os homens estão detidos em outra carceragem e sofrem ameaças constantes, além de lhes ser negado atendimento médico.

Os camponeses espancados afirmam que no momento da operação policial, um assessor da governadora estava na sede da Fazenda Forki lha e presenciou dezenas de pessoas serem torturadas.

Segundo informações obtidas de coordenadores da LCP, as pessoas que se encontram atualmente detidas não pertencem à coordenação do movimento, são simples trabalhadores em busca de um pedaço de terra.

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Prisão de mulher com homens no Pará não é novidade

Archibaldo Figueira

A denúncia da existência de uma adolescente de 15 anos, L., presa com 20 homens adultos que a estupraram seguidamente na cadeia de Abaetetuba veio desmentir o mito de que as mulheres, com sua "sensibilidade natural" contribuem para humanizar o sistema quando se alçam a altos cargos no Estado.

Afinal, todo o episódio envolveu mulheres: Flávia Verônica Monteiro Pereira, a delegada que encarcerou a menina; Clarice Maria de Andrade, a juíza que concordou com a medida; Ana Júlia Carepa, que o PT elegeu como governadora do Pará.

O crime de que foi vítima a menina L. com a plena conivência das mulheres investidas de autoridade foi tema de manchete nos principais jornais do mundo. As embaixadas, porém, tiveram que se manter caladas, sendo certo de que a gerência FMI-PT, que já tem recebido reiteradas condenações internacionais pelo desrespeito aos direitos humanos, está buscando argumentos para explicar ao mundo mais este inconcebível descalabro.

A tragédia de Abaetetuba tem de ser contada e recontada repetidas vezes, para ninguém — principalmente as mulheres — esquecer: a menor L., de 15 anos passou mais de três semanas na cela com os 20 homens. De acordo com o conselheiro tutelar José Maria Ribeiro, ela relatou a uma assistente social que foi vítima de abusos e violência durante todo o período em que esteve presa.

— Ela confirmou que sofreu não só violência sexual, mas também maus-tratos. Foi espancada e queimada pelos presos. Quando estava dormindo, colocavam papel entre os dedos dos pés dela e acendiam fogo — contou.

A adolescente completou 16 anos pouco depois de ser libertada, exatamente a 10 de dezembro, dia Internacional dos Direitos Humanos. Ressalta-se muito o fato de L. não passar de uma criança, sem cogitar-se em coisa mais grave: com relação às mulheres maiores de idade, é normal deixá-las presas juntamente com homens para serem torturadas e estupradas?

Abaetetuba é uma cidade do nordeste do Pará, próxima a uma zona portuária. Como é corriqueiro, nessas áreas se proliferam as perversidades mais abjetas, como a exploração da prostituição infantil, facilitada pela miséria reinante nos lares da imensa maioria dos habitantes da cidade. Após a denúncia da adolescente se revelaram casos de pelo menos outras seis prisões em condições semelhantes, número que pode ser muito maior nas cadeias de todo o Brasil.

E se tal fato veio à tona, é porque houve quem tivesse a coragem de denunciar, já que essa é uma antiga realidade que acomete as mulheres pobres apanhadas praticando algum delito, por mais leve que seja. Aí, a denúncia é que se torna o escândalo e não o crime, que é banal nos meios policiais. Além disso, não é difícil imaginar como seria tratada uma filha de qualquer das famílias de latifundiários que mandam no Pará que porventura fosse conduzida à presença da delegada.

Bodes expiatórios

As ditas autoridades de todos os níveis informam que L. foi incluída no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte e que a investigação sobre os culpados pelas diversas violações sofridas pela adolescente segue em andamento. Não será muito difícil distribuir pancadas na cadeia e fazer meia dúzia de presos confessarem a autoria do estupro e dos maus tratos àquela criança.

Foi a partir do trabalho do Conselho Tutelar local que o caso da jovem presa e violentada em uma cela masculina começou a ser desvendado. Mas a descrença é geral.

— O que a gente vê é que as pessoas não acreditam mais em Justiça, principalmente na delegacia — diz a conselheira Maria Imaculada dos Santos, integrante do grupo que, após receber a certidão de nascimento da adolescente presa, foi tirá-la da prisão.

Presentinhos do prefeito

Fiel à tradição clientelista das oligarquias políticas do país e sem pensar no ridículo, o prefeito da cidade, Luiz Gonzaga Lopes, logo após a divulgação do caso assinou um ajuste de conduta e enviou ao Conselho Tutelar dois aparelhos de ar condicionado, dois ventiladores, uma geladeira, um fogão, uma televisão e um computador com impressora. Esqueceu-se de mandar um Papai Noel de pelúcia.

— A gente já havia pedido, a gente sempre mandava ofício à prefeitura, à Secretaria de Assistência Social, nós também demos entrada no Ministério Público há muitos meses, antes de acontecer o fato — conta Imaculada, lembrando que a menina estava com uma saia bem curtinha e uma blusa bem curtinha também.

— Ela veio toda envergonhada para o nosso lado e disse: "Que bom que vocês vieram, eu estou dizendo há muito tempo que sou adolescente, mas não acreditam. Então vão à casa do meu pai e falem para ele vir me buscar que eu não quero mais ficar aqui".

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Entrevista com Luiz Lopes de Barros, coordenador da Liga dos Camponeses Pobres do Pará e Tocantins

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AND - Há quantos anos o Sr. está na luta camponesa?

Luiz - Nasci em Itacajá (TO) em 1954 e em 1980 fixei moradia em Conceição do Araguaia (PA). Iniciei minha militância política pela luta pelos direitos sociais e democráticos em 1982 e a partir daí venho lutando junto com os movimentos sociais e venho ajudando a impulsionar a economia da região através da mobilização e organização dos pequenos produtores. Conceição do Araguaia é importante para a luta dos camponeses porque é um dos municípios com mais área de assentamentos do Brasil. Participei da fundação de mais de vinte associações de trabalhadores rurais na região. Participei de associação de moradores e na construção do PT. Fiz parte de diversos movimentos democráticos, sempre confiando que as coisas iam mudar para melhor.

AND - De que forma era a luta pela terra nela época?

As pessoas entravam na terra e iam logo trabalhando. Conforme a força do movimento, os trabalhadores conseguiam legalizar as terras. Desde o governo FHC a terra que for ocupada pelos trabalhadores não pode ser dividida pela reforma agrária. Lula prometeu derrubar isto, mas não cumpriu a promessa. Mas com toda lei falando que não pode, os camponeses, mesmo arriscando a vida, querem é entrar na terra, cortar os lotes e já começar a produzir.

AND - Como foi a organização da Liga dos Camponeses Pobres na região?

Tomamos conhecimento do desenvolvimento das Ligas dos Camponeses em outras regiões do país e achamos por bem organizá-la em nossa região. Nós precisamos reerguer o movimento de luta camponesa na região. Em 2006 realizamos o Congresso de fundação da Liga dos Camponeses Pobres do Pará e Tocantins. A fundação da LCP provocou um grande impacto. Os camponeses avançaram na luta, saindo dos velhos acampamentos e partiram direto para as posses, dividindo a terra, produzindo e desenvolvendo a região.

AND - Quais as principais lutas já realizadas pela LCP?

Apoiamos o desenvolvimento de várias áreas já tomadas por camponeses (e já legalizadas) no Tocantins.

Participamos da luta na fazenda Bradesco, ocupando suas melhores terras que, com a desculpa de que eram área de reserva, estavam nas mãos de protegidos do governo. Apoiamos os assentamentos Santa Mariana, São Judas Tadeu e Nazaré. Apoiamos os acampamentos Prainha e Morro Alto. Organizamos a tomada e divisão da fazenda Batente e tomamos e dividimos a área que resultou no Acampamento Gabriel Pimenta, todos em Conceição do Araguaia. Neste ano mobilizamos e tomamos a fazenda Forkilha em Santa Maria das Barreiras.

AND - Os governos se sucedem prometendo reforma agrária e apoio para os trabalhadores rurais. Isto tem acontecido na região?

O que vem acontecendo é o contrário. E quando os camponeses lutam reivindicando seus direitos são perseguidos, espancados, torturados e assassinados. O direito democrático dos camponeses não é respeitado pelas polícias estaduais e Polícia Federal na região. Eu mesmo tenho recebido ameaças de morte de parte de latifundiários que querem ter direito de posse em área de reforma agrária; eles colocam pistoleiros dentro das áreas ameaçando as lideranças da região e principalmente do acampamento. Isto está acontecendo no Assentamento Nazaré, aqui em Conceição do Araguaia. E este mesmo latifundiário comandou um grupo de pistoleiros que atacou o acampamento na fazenda Batente, área tomada pela Liga em 2006. Apesar das denúncias à justiça e órgãos governamentais, a pistolagem continua agindo livremente na região.

Os camponeses estão sendo alvo de perseguição agora na chamada "Operação Paz no Campo" que todos estão chamando de terror no campo. É a governadora Ana Júlia que deu ordem para tudo isto acontecer. Trabalhadores, mulheres, velhos e crianças foram covardemente atacados, torturados e expulsos da fazenda Forkilha. Vários companheiros continuam presos e todos coordenadores da Liga estão com mandado de prisão.

AND - Como o Sr. vê a questão das ameaças de morte que tem sofrido e agora com altas cifras de dinheiro oferecidas pelos latifundiários?

A questão das ameaças só resolveria se houvesse apuração e punição dos culpados. No meu caso sofri ameaças da PM e pistoleiros, que trabalham juntos. Mas as pessoas que escutaram as ameaças temem denunciar pois sentem-se ameaçados também.

Aqui as ameaças só são levadas em conta quando morre. Foi o caso dos advogados Gabriel Pimenta, Paulo Fonteles e João Batista, irmã Dorothy e padre Josino, dentre tantos outros.

E o pior que os ameaçados não podem usar arma para se defender, porque se for pego é preso em flagrante. O pistoleiro ou policial que pode executar tem liberdade de andar armado.

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