Ex-astro do futebol sempre um bom brasileiro

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Um dos maiores jogadores do futebol brasileiro, Afonsinho ganhou na Justiça Desportiva o próprio passe, em 1971, depois de ter sido impedido de exercer a profissão no Botafogo. Começava com ele a libertação de mais um tipo de escravidão, que no ano passado deu mais um passo decisivo para que o jogador se tornasse o único dono de sua carreira.

Afonsinho ensina futebol e dá carinho aos menores de rua

Líder, rebelde, inteligente, combativo do regime ditatorial de duas décadas e do sistema atual que levou o país ao caos, Afonso Celso sempre pagou caro por isso. E jamais desistiu da luta, muito menos agora, no seus 55 anos de idade. “Uma frase encontrada numa obra de Ferreira Goulart, tem muita importância nesta nossa luta: ‘não vejo sentido na vida senão lutarmos juntos por um mundo melhor'. Tudo que permanece nesse sistema desigual está apodrecido; é injusto, perverso”, conclui.

Considerado no decorrer de sua carreira um comunista de carteirinha, Afonsinho ficou mais visado e discriminado a partir de 1970, porque cometera o crime de usar barba. “A vontade saiu naturalmente, sem qualquer propósito”. Sem êxito na tentativa de mudar o seu visual, dirigentes do Botafogo o impediram até de treinar (!). E não admitiam negociá-lo, apesar do interesse de outros grandes clubes, como o São Paulo. Tanto pior.

“Por trás de tudo isso, havia a tentativa de se impor uma medida de força também no esporte. A partir daí, juntamente com o meu pai, um ex-ferroviário que se formara em Direito, partimos para garantir o meu direito de trabalhar. Posteriormente, com a ajuda de outro advogado, Rui Piva, e o Rafael de Almeida Magalhães, conseguimos o passe livre no Superior Tribunal de Justiça Desportiva, mas só depois de muita luta”.

Mesmo sendo um dos maiores jogadores do futebol brasileiro, atuando em grandes clubes como Vasco, Flamengo, Santos (com Pelé), Atlético Mineiro e Fluminense, onde encerrou a carreira em 82, aos 35 anos de idade, Afonsinho jamais foi convocado para a seleção brasileira. Até compreensível para quem já nasceu líder e sempre lutou contra os regimes de força e qualquer tipo de autoritarismo. Aliás, os clubes grandes também jamais convidaram homem tão competente para a sua administração, nem mesmo para as divisões de base, ou até para exercer a profissão de médico no futebol...

Não dá para aceitar fome e menino de rua

Três casamentos, cinco filhos, o orgulho de ter sido homenageado em livros, na música e no cinema, Afonso Celso Garcia Reis sente muitas saudades dos grandes amigos que se foram. “Didi e Zizinho, no futebol, João Nogueira, na música, são alguns deles, lamenta. Didi e o mestre Ziza nunca foram lembrados sequer para fazer parte de comissões técnicas de seleções brasileiras. Lamentável”.

Formado em medicina pela UERJ, ainda na época de jogador, Afonsinho exerce a profissão no Hospital Pinel, em Botafogo, no Rio, num trabalho considerado inovador, com pacientes portadores de desequilíbrio mental.

Botafoguense, conforme sugere uma almofada com o escudo do clube, sobre um dos sofás de seu apartamento, em Copacabana, só a aparência mudou, por força do tempo que clareou a barba e os poucos cabelos que ainda restam. Sempre envolvido na luta pelas causas sociais, pelo esporte e o próprio país. Fora isso, não contem com ele. “Hoje, mais do que nunca, não paro de lutar contra a injustiça e a perversidade de um sistema que acabou, que não tem mais como continuar, embora os que se servem dele, acreditem que não seja o fim. Não dá para aceitar fome e menino de rua, principalmente num país de dimensões continentais, muito rico e de um povo com extraordinária capacidade em todas as áreas da produção social, do esporte às atividades culturais, na ciência, na produção de bens materiais propriamente dita; em tudo. A democracia que temos aí é muito sufocante, serve apenas para beneficiar uma minoria que faz o desespero de mais de noventa por cento do povo brasileiro. Não se pensa no todo, na coletividade. Mas é o que digo: transbordou, chegou ao fim. O povo já sabe, faz parte da nossa história, já viu esse filme. É Conselheiro e Lampião”.

“Para os poucos que lucram com o caos, não há como mudar. Mas vai mudar sim, vai mudar”, adverte.

O esporte tem que ser usado como fator de desenvolvimento social

Menores carentes gostam de trabalhar com o ex-craque

Há 30 anos no serviço público, onde ingressou por concurso, conforme faz questão de registrar aquele que foi menino pobre, nascido em Jaú, interior de São Paulo, Afonsinho está sempre atento a tudo que se passa no país, não apenas aquilo que envolve o esporte, com suas modalidades que “deveriam ser utilizadas como fator de desenvolvimento social”. E foi assim que, ao perceber a ausência do esporte nas discussões da Assembléia Nacional Constituinte, em 86, não perdeu tempo: conseguiu apoio da OAB, reuniu alguns dos maiores atletas da época em vários esportes, tais como Madruga e Jaqueline, e levou as idéias para Brasília. Isto resultou também numa indicação para uma das vagas à Câmara dos Deputados, mas que não deu certo. numa época em que o PMDB ganhou praticamente tudo.

Depois da Assembléia Constituinte, nova frente de luta: a CPI do Futebol. Com outros ex-jogadores, do grupo dos que também querem mudar este país e o esporte, Afonsinho contribuiu com cinco proposições, com destaque para a criação prioritária do sistema nacional de esporte que, na sua versão, deve assentar suas bases na democratização das entidades, clubes, federações, confederações, sindicatos, estabelecidos determinados critérios para a aplicação do dinheiro público, de modo a conduzir o esporte favorecendo os anseios populares.

Feudos e colonizadores vão perder o domínio sobre federações e clubes

“Os clubes passaram a ter muitas fontes de receita. Eles sempre tiveram uma espécie de poder absoluto. Culpa de quem, se o Flamengo não pode nem mudar uma tábua da obra da sede, há muito tempo interropida? Onde estão os milhões de inúmeras transações que tanto se lê e ouve na mídia, diariamente? Ou é excesso de competência?...”

“É assim que eles vivem, principalmente dos clubes, uma meia dúzia, articulando aqui e ali, se aproveitando, em benefício próprio, o que é mais grave, só que agora não têm mais como comer a carne, roer o osso e ainda querer chupar o tutano”. “O problema é estrutural. Os clubes funcionam de forma colonial, as federações, mais atrasadas ainda, são comandadas por feudos”, afirma o ex-jogador.

“Num mundo como o de hoje, há uma contradição muito violenta. Os clubes não podem mais ter um universo restrito a três ou quatro pessoas. O esporte avançou, eles não têm mais condição de disputar com uma multinacional. São tigres de papel, não se sustentam. Não adianta, acabou o tempo deles”.

Eles só se darão conta quando tudo explodir

A citação em um livro, que Afonsinho não recorda o nome, diz que a torcida do Flamengo equivale à população da Espanha.

“Imaginem a Espanha governada por uma dessas diretorias do Flamengo, ou seja, por esse modelo arcaico, superado. Como estaria aquele país, senão no caos? Que poder é esse que confere a dois ou três dirigentes de clubes o direito para negociar à vontade, mexer com milhões, sem levar em conta os milhões de torcedores? Ou às federações e confederações como a CBF, que usam as cores da pátria, o hino nacional, que representam uma nação, mas são manobradas por dois ou três. Pior ainda, conforme ouço dizer, por Ricardo Teixeira que usa como bem entende todo o dinheiro de contratos milionários, produto de uma seleção várias vezes campeã do mundo, e não de sua capacidade administrativa? “

“Além de se submeter à patrocinadora Nike, na marcação de jogos e na convocação de jogadores, o desrespeito da CBF chegou ao cúmulo de fazer apologia do álcool na propaganda de uma cerveja, à frente do caminhão de som que transportou os jogadores campeões mundiais no Japão, durante as comemorações do título mundial, em Brasília.”

“Qual é a relação do poder público com a CBF? Isso é o que queremos saber. Do contrário, falem logo: eles mandam e está acabado. Nesse ponto de vista o próprio sistema está se refletindo. Valem sempre interesses menores, de algumas pessoas. Isso se reflete na violência dos torcedores contra os próprios jogadores, não apenas nas arquibancadas ou em brigas entre eles. O clube é a razão de ser do torcedor. A paixão, o ídolo, a camisa. E qual é a participação do torcedor? Nenhuma”.

No dia-a-dia, essa violência se repete, afirma o ex-júnior do XV de Jaú e Olaria, clube onde começou a carreira no Rio. “A violência de jovens que matam um índio totalmente indefeso ou um garçom em Porto Seguro, nada mais é do que uma série de situações extremas que decretam a falência do processo. A gota d'água transbordou. Não dá mais para se colocar um litro dágua em um copo. Mas tudo indica que eles só se darão conta disso quando tudo explodir”.

A verdadeira máquina de destruição

O monopólio da Rede Globo no esporte é outro problema da maior gravidade, lado a lado com a manipulação, alienação, tudo que existe de ruim, em especial, a destruição da família, concorda Afonsinho. Ela impõe horários absurdos e desumanos de jogos, apenas para atender à grade da sua programação. Ao final, se recusa até a transmitir partidas da própria seleção brasileira; é o “padrão global”.

Afonsinho revela que por pouco, alguns estados do Norte e Nordeste, por força da comercialização, não receberiam a imagem da Copa do Mundo. O interesse do povo que se dane. No mês passado, para preservar o horário do Faustão, a decisão do mundial de vôlei só foi transmitida pela TV por assinatura. Emissoras de TV aberta ficam impedidas de atender o interesse geral por força de um monopólio.

Nada resiste quando não tem sustentação no povo

“O país e o futebol, um problema em comum: apodreceram, acabaram”, enfatiza. “Pela sua população, dimensões continentais, patrimônio natural em relação ao mundo, o Brasil terá de se impor, ter um peso no seu nível de desenvolvimento em todos os sentidos. O futebol vive a mesma situação: não há mais como manter esse nível de submissão. Tem que se impor, do contrário, vem gente de fora e toma conta. O Clube dos 13, que, na verdade, são 20, é de ideal perverso, de exclusão, quando a necessidade é de democratizar, desenvolver. Não se pode impedir o novo, não dá para prender a vida. Querem prender o mundo com um grupo do G-7 mais um. Então não se pode desenvolver mais nada? Que história é essa de ninguém poder crescer mais e ficar submisso a grupinhos, assistir a tudo passivamente, ser explorado o tempo todo? Não funciona mais, não adianta. A beleza da vida está na diversidade. Está aí a nação brasileira comprovando isso, variada, bonita, pluralizada. Viva a pluralidade. A humanidade precisa desabrochar, está prenhe de anseios, não pode continuar assim, não há como. Nada resiste quando não tem sustentação no povo”.

Esporte como auxílio do tratamento psiquiátrico

A rotina na vida de Afonsinho é trabalhar muito e em mais de um local. Preferencialmente, com o futebol , apesar de ter se formado em medicina. “Está no meu sangue. É claro que eu gostaria de trabalhar com o futebol profissional. Amigos dizem que eu deveria estar num grande clube, mas não depende de mim”.

De campo em campo, terreno baldio, quadra ou projeto, dependendo da boa vontade de secretarias de governo ou apoio isolados, Afonso Celso vem pulando como macaco “de galho em galho”, levando com ele meninos de rua e localidades empobrecidas. Campos do antigo Canadá, na Praça 11; do Confiança, que nem existem mais, do 21o. GAC; do Cerâmica (Mangueira); da Fiocruz; dos Metroviários; outro que acabou, foram alguns dos locais onde Afonsinho pôde trabalhar, sempre com auxílio dos ex-companheiros do próprio Botafogo (Nei Conceição, e Osvaldo), há mais de dez anos, após a morte de Djalma Dias. Depois de uma das experiências mais gratificantes, conforme o trio define muito bem, o Projeto Ex-cola, o novo endereço de trabalho (além do Hospital Pinel), é a Escola Tia Ciata, na Praça 11, entre o Terreirão do Samba e o edifício “Balança Mas Não Cai”, no Rio.

“Não tem sido fácil a realização do nosso ideal, apesar do apoio que temos hoje, na escola Tia Ciata, e no Pinel, onde realizamos um trabalho de esporte, recreação e lazer como auxílio e complemento do tratamento psiquiátrico, há quatro anos. É uma forma atual de abordagem, do tratamento psiquátrico hospitalar, dentro da luta antimanicomial, porque visa combater a exclusão e estigmatização dos usuários dos serviços de saúde mental. O esporte faz parte desse tratamento. É altamente gratificante. É uma troca bem equilibrada. Me sinto útil e gratificado. Me completa”, diz emocionado.

“Na Fiocruz, através da associação dos funcionários, havia bandeijão, posto médico, mas não poderíamos continuar assim. Havia a necessidade de um patrocínio, o que é sempre difícil para esses casos. Nas tentativas que fizemos, houve momentos em que nos sentimos humilhados por pessoas que não saem de gabinetes refrigerados. Mas continuamos mantendo o sonho de um trabalho com atividade esportiva e função social. Para isso, precisamos de espaço”, concluiu o combativo Afonsinho.

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