Patrões iniciam demissões e sindicatos dão prosseguimento

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Crise no setor automobilístico provoca onda de férias coletivas, flexibilização da jornada de trabalho e demissões.

Os metalúrgicos do setor automobilístico temem uma onda de cortes nos próximos meses. A queda de até 20% das vendas nos primeiros meses de 2002, em comparação ao mesmo período de 2001, está levando empresas como a Volkswagen, General Motors, Fiat, Ford, Scania e Renault a paralisarem a produção, com medidas como férias coletivas, redução da jornada de trabalho e demissões.

Números da Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores) mostram que foram produzidas 147.020 unidades em julho, uma queda de 6,80 % em relação ao mesmo mês de 2001. Nos primeiros sete meses do ano, as vendas no atacado totalizaram 831,4 mil veículos, uma redução de 16,9% em relação ao mesmo período de 2001.

A Volkswagen deu férias coletivas por um período de 20 dias, entre 19 de agosto e 8 de setembro, para 4.500 funcionários. As férias coletivas vão atingir 2.500 dos 16,5 mil funcionários de São Bernardo e 2.000 dos 6.500 da unidade de Taubaté, ambas em São Paulo. Além disso, a montadora aplica a chamada “Semana Volkswagen”, com jornada de quatro dias semanais. Nos seus pátios estão entre 22 mil e 25 mil veículos. A Scania de São Bernardo deu férias coletivas para 660 de seus 2.100 trabalhadores em setembro. Ela pretende diminuir a produção dos atuais 20 caminhões por dia para 12 unidades diárias. A capacidade instalada é de 60 caminhões por dia.

A Ford paralisou a linha de produção da fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, de 29 de julho a 7 de agosto. As férias coletivas foram concedidas a 1,5 mil trabalhadores da linha de montagem dos automóveis Fiesta, Ka e Courier. A unidade da Ford em São Bernardo emprega 4,5 mil funcionários. Metade da produção é exportada, principalmente para a América Latina.

A GM também colocou 7.000 trabalhadores em férias em julho, sendo 4.500 da unidade de São Caetano e 2.500 de São José dos Campos. A empresa reduziu a produção de 38 carros por hora para 28.

A Renault abriu PDV (Programa de Demissão Voluntária) para 140 trabalhadores na fábrica de São José dos Pinhais (região metropolitana de Curitiba), que emprega cerca de 3.000 pessoas. Os cortes são decorrentes do término de um dos dois turnos de trabalho na unidade que produz o Clio e o Scenic. A Renault tem um estoque de 16 mil veículos.

Nos meses de agosto e setembro, os trabalhadores da Daimler Chtysler (ex Mercedez Benz) fizeram paralisações para exigir a suspensão das 650 demissões anunciadas pelas chefias. A mobilização envolveu 400 horistas indiretos e mensalistas da ferramentaria, do setor de projeto de ferramentas e de engenharia de fábrica. As demissões foram substituídas por um PDV (Programa de Demissão Voluntária) com a meta de 570 adesões.

Muita oferta, pouca demanda

A indústria automobilística brasileira triplicou a capacidade instalada num período de dez anos. As empresas abriram novas fábricas, ancoradas em subsídios fiscais e em empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Agora enfrentam uma fase de desaceleração.

A indústria hoje tem capacidade para fabricar 3,2 milhões de unidades, mas não há consumidores suficientes, nem no mercado interno, nem no externo. Para frear a produção e evitar a queda da taxa de lucro, a política das empresas é frear a produção para adequar o estoque à demanda.

Em junho de 97, as montadoras empregavam 114,8 mil funcionários, 21 mil a mais que hoje. Só na região do ABC, 233 mil trabalhadores estão desempregados. Isto é mais que 18,8% da População Economicamente Ativa (PEA).

O acordo automotivo Brasil-México

Os governos do Brasil e do México firmaram um acordo automotivo que permitirá o aumento das exportações do Brasil para aquele país. Com o novo acordo, o Brasil deverá exportar para o México US$ 10 bilhões até 2005, em veículos e autopeças. Em 2001, as exportações do setor automotivo brasileiro para o mercado mexicano foram de US$ 1,2 bilhões.

Segundo a assessoria de imprensa da Anfavea (Associação Nacional dos Veículos Automotores), a alíquota de exportação para o México era de 25%. Nos próximos 12 meses cairão para 1,1% e depois para zero.

A Anfavea acredita que os acordos bilaterais Brasil-México podem neutralizar a atual crise do setor.

A atuação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

A assessoria de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (filiado à CUT), informou que a entidade defende, há pelo menos dois anos, a renovação da frota nacional de veículos, “como uma medida privilegiada para enfrentar a crise do setor”. Apresentada pelos sindicalistas há dois anos, a proposta foi rejeitada pelo governo federal.

A proposta consiste em estimular a troca de veículos com mais de 15 anos de uso por carros mais novos. O consumidor receberia um bônus para fazer a troca. O incentivo seria em parte bancado pelas indústrias, que facilitariam o crédito e reduziriam suas margens de lucro, e, em parte, pelo governo, que diminuiria os impostos cobrados. Na frota brasileira em circulação, cerca de nove milhões têm mais de 10 anos, e 6 milhões têm mais de 15 anos.

“O sindicato deve mobilizar os trabalhadores ao invés de buscar acordos com os patrões e o governo”. Declarou o operário M. S., do setor de ferramentaria da Daimler Chrysler, que pediu para não ser identificado. Ele afirma que o sindicato está negociando a perda de direitos, ao mesmo tempo em que é conivente com as demissões. Está tudo combinado com as diretorias das empresas, o sindicato finge que luta, e os patrões fingem que cedem. Essa turma do Marinho (Luís Marinho, presidente licenciado do sindicato), aceita a redução dos salários e a retirada de direitos. Marinho diz que é o máximo que podemos fazer. Não é verdade. A companheirada quer resistir, mas eles não deixam”.

O metalúrgico M. S. denunciou a prática da diretoria do sindicato de perseguir e punir todos os trabalhadores que lhe fazem oposição. “Nós que somos oposição ao grupo do Marinho, temos que atuar de forma clandestina nas empresas. Se eles descobrem, perdemos o emprego e dificilmente poderemos trabalhar de novo na região”.

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