Latifundiários declaram guerra aos camponeses em Rondônia

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A Nova Democracia por duas oportunidades esteve em contato com dirigentes da Liga de Camponeses Pobres de Rondônia. Trazemos agora uma entrevista com José Fonseca de Souza, o Pelé, um dos dirigentes da LCP. Nos últimos meses as ameaças de morte e tentativas de assassinato contra camponeses movidas por pistoleiros, além da perseguição policial só tem aumentado. No mês de setembro passado Pelé foi vítima de uma emboscada em que dispararam contra ele quatro tiros, escapou por sorte. No mês de abril deste ano Pelé foi preso dentro do Fórum de Machadinho d'Oeste, onde compareceu para uma audiência sobre a tomada de fazenda na região de Cujubim. Foi uma operação de guerra, tinha lá todo tipo de polícia. Na transferência dele para Jarú, foi ameaçado de morte várias vezes pelos policiais que o escoltavam, inclusive elementos do Ibama. Uma tentativa pelo menos foi cumprida. Segundo nos informaram os dirigentes da Liga as ameaças de morte continuam e o movimento de pistoleiros é grande à luz do dia e às vistas da polícia. Pelé esteve em Brasília com advogados para denunciar o fato.

O clima é muito tenso, mas os camponeses resistem com muita coragem A sede da Liga, em Jarú, é um local de grande movimentação de camponeses todos os dias. Todos ficam alertas com os estranhos que rondam a área. Pistoleiros circulam nas áreas rurais em motos e toyotas, nas linhas onde moram os ativistas e dirigentes da Liga e nas proximidades dos acampamentos. Os ataques noturnos com tiroteios sobre os barracos são freqüentes. Parentes de pessoas que estão sendo contratadas como pistoleiros já fizeram chegar aos dirigentes da Liga o rumor de uma lista com o nome dos seus principais dirigentes, que os latifundiários ordenaram a eliminação. Segundo eles, não é raro nas reuniões de latifundiários para tratar destes assuntos e nas investidas de pistoleiros, a participação de policiais.

O estado de Rondônia se destaca por manter relações de trabalho atrasadas, principalmente no campo, encobertas pela grande quantidade de pequenas propriedades e os sucessos do chamado agro negócio. Essas relações atrasadas se caracterizam, além da concentração de terras, pela sobrevivência de relações como meia, terça, pequeno e grande arrendos, trabalho semi-escravo e escravo, tudo encoberto com o nome de assalariamento, além das diárias aviltantes. Estas relações são asseguradas pelos jagunços, prontos para "defender" os "direitos" do patrão. Na região persiste o extrativismo, sendo a terra altamente concentrada nas mãos de grandes latifundiários que produzem gado de corte no modo extensivo, enquanto os pequenos proprietários se dedicam à produção de leite, café e lavouras de subsistência. O estado também faz parte da rota do tráfico de drogas com a participação dos latifundiários e outros grandes empresários.

Os grupos ou famílias que dominam economica e politicamente o estado, monopolizam o comércio varejista, o transporte de passageiros, os meios de comunicação, a agroindústria, etc, tudo isso assentado na grande propriedade de terras. Pelé como é mais conhecido José Fonseca de Souza, tem 34 anos e nasceu em Santa Maria da Vitória - BA. Chegou em Rondônia em 1975, passando antes por Redenção, no Pará, e pelo estado de Mato Grosso, com toda sua família, buscando uma vida melhor. Trajetória semelhante tiveram dezenas de milhares de migrantes atraídos nos anos 70, pelas promessas de terras abundantes na região.

Participou da luta pelas terras da Fazenda Dimba, em Pimenta Bueno - RO, no ano de 1988. Participou também na tomada das terras da Fazenda Santa Luzia no município de Rondolândia, após o que participou de uma série de lutas na Cidade de Cacoal, seguindo-se a tomada da Fazenda Primavera, em Theobroma, Fazenda Lorenzetti, em Vilhena, Santa Bárbara e outras na região de Machadinho d'Oeste.

Foi agente da Pastoral da Saúde e membro da Comissão Pastoral da Terra. Coordenou a Pastoral da Juventude de Rondolândia e o Sindicato de Trabalhadores Rurais da cidade de Ministro Andreaza.

Pelé no dia de sua libertação da cadeia com sua esposa (E) e sua mãe (D)

AND — Como você vê a situação do povo e das famílias camponesas?

O que eu vejo é que muitas pessoas vêm de um estado vizinho atrás de melhora, e chegam enfrentando uma grande dificuldade, cada vez mais pobre, porque a terra está na mão de poucas pessoas que dizem serem os donos da terra, os grandes latifundiários, e manobram toda essa terra com apoio das autoridades do governo. Tem também o sistema ambiental, que faz a maior defesa desse grupo de meia dúzia, e é onde o povo está aí prejudicado; morando "de meia", passando crise, ficando cada vez mais pobre. Do outro lado também a gente vê a proposta do governo do estado para o plantio do café. Uns anos atrás acertaram o preço, fizeram promessa, o povo entrou no financiamento. E hoje deu o preço, o valor do café que está aí. Hoje, a maioria do povo que tinha o café, não teve preço.

No início da safra do café, onde o trabalhador começa a vender, a saca é de 30 ou 35 reais, e hoje, depois que o trabalhador vendeu o café, ele subiu para faixa de 60, 65 reais. Tudo isso é para o governo beneficiar o atravessador, enricar mais o atravessador, nas costas do mais pobre.

A questão do leite, nós sabemos que o leite deu a 20 centavos. Em poucos momentos o leite voltou até para 8 centavos, 10 centavos, a gente sabe. O povo dentro do estado luta pelo preço do leite, aonde nós sabemos que o governo que está aí, não sobe o preço do produto do trabalhador rural.

O pequeno produtor, ele tem o leite, ele tem o café, e tudo isso vem do pequeno. Nós sabemos que o latifundiário tem é o grande rebanho de gado. Nós sabemos que grande parte da renda do nosso município, do nosso estado vem do pequeno produtor, que tem o café, que tem o leite e outros cultivos.

Nós sabemos que esse grande latifundiário que está aí não dá renda para o nosso estado. Ele leva isso aí para outro estado e não trás lucro para cá. Quem dá o lucro para o nosso estado é o pequeno produtor rural que está cada vez mais pobre. Outra coisa é a questão do garimpo. Nós sabemos que é o monopólio dos grandes poderosos que está prendendo os garimpeiros. E nós sabemos, eles pegam o ouro e levam para outro estado e aquele que quer trabalhar eles exploram ele, jogam fora. Existe também a questão dos sem casa que tiveram que ir para a "rua" porque não têm terra e agora se vê sem casa dentro da "rua" e trabalhando na terra do latifúndio. A questão dos presidiários também é muito grave. A grande maioria dos presos são camponeses pobres presos por pequenos delitos ou nenhum. Eles estão sendo maltratados dentro das cadeias, vivendo como bichos sem direito a nada. As famílias estão muito preocupadas, pois se acontecer uma rebelião, a polícia vai matar muita gente, como já aconteceu esse ano no presídio Urso Branco, em PortoVelho. Também nós sabemos que essa questão da saúde em Rondônia é péssima. Nós sabemos que quando vai um produtor procurar o médico no hospital, ele fica mais de três, quatro horas na fila do hospital e no final ele sai sem ser atendido. Ele vai procurar uma farmácia sem nem saber qual é a doença que ele tem. A educação no nosso estado é péssima também porque, na zona rural, onde o pequeno produtor tem a sua pequena propriedade, o que acontece? Eles colocam da 1ª a 4ª série. Da 4ª série em diante a pessoa fica lá. Não estuda mais. Aí o que o pai faz? Pega o seu filho ou filha e leva para a "rua" para dar estudo a seu filho e, no dia de amanhã, seu filho começa a entrar numa maloquinha lá, mexer com droga. Ou então o que acontece? Ele pega lá os seus filhos e vende até a terra para mudar para a "rua" e dar estudo a seus filhos. Nós sabemos que a saúde, a educação, o direito a moradia, é necessidade e direito de todo brasileiro.

Em vários assentamentos, hoje, o Incra coloca o povo lá em cima da terra. Não dá condições para o povo. Nem estrada, nem saúde, nem escola. Tem um monte de assentamento que está sem estrada. Não tem transporte para levar a mercadoria e faz vergonha porque o governo federal e estadual, que fazem muitas promessas e propaganda na televisão e no rádio, mas quando chega lá, o povo anda a pé mais de 20 quilômetros para encontrar um local de transporte.

Toda essa situação do nosso povo é por culpa de alguns grupos de latifundiários que dominam as terras, outros que são donos de rádio e televisão, madeireiras e as famílias que disputam a política.

AND — Que grupos e famílias são esses?

Nós sabemos é que esses grupos são os dos grandes fazendeiros, como o Antenor Duarte (mandante do chamado Massacre de Corumbiara), e seu filho Antenorzinho, mais um que é o Antônio Martins (Galo Velho), o Garão Maia (irmão do "famoso" Tião Maia) , tem também o João Carlos Arantes e outras pessoas que hoje comandam Rondônia, que está com a terra na mão, protegidos pelo governo estadual e pelo governo federal. As grandes madeireiras chegam em grandes áreas e começam a explorar madeira, tiram a riqueza que tem em cima da terra, com apoio da política ambiental. É que eles têm a força toda na mão com o Ibama, além do governo estadual e federal. Tem várias empresas, igual a Katana, Madeireira Ipê, a Nicoma, também a Cometa e várias outras que ganharam terra.

O Ibama só persegue os pequenos. Não combate o roubo de madeira coisa alguma. Quando aparece na televisão pegando alguma grande madeireira é porque ela furou os esquemas com os manda-chuvas do Ibama. Você sabe né, a corrupção é muita.Você olha assim pra mata e pensa que ela tá virgem. Mas, as madeireiras já mandaram gente lá dentro e arrastam pra fora toda a madeira de lei.

As famílias que disputam o poder como os Donadon, os Cassol (Ivo Cassol é o governador eleito), tem o Silvernandes Santos — representante dos latifundiários na assembléia legislativa, o Acir Gurgacz (ex-prefeito de Ji-Paraná e candidato derrotado ao governo do estado), o Bianco, que é o atual governador, tem o Amorim, o Assis Canuto, os Furtado, com várias rádio e emissoras de televisão no estado, etc. Todos esses daí são proprietários de latifúndios também.

Há ainda os grupos que monopolizam vários setores da economia, como os Irmãos Gonçalves, que tem os maiores supermercados do estado; a Empresa Cascavel dos Gurgacz , que só ela é que pode transportar passageiros dentro do estado; os frigoríficos, como o Frigovira, o Nova Era e outros, que dependem também dos latifúndios.

Um problema grande é o tráfico de drogas, que dele fazem parte muitos latifundiários e empresários, que tem até pistas de pouso modernas nas suas fazendas. Tudo isso é o grande negócio em Rondônia.

AND — A luta pela terra tem progredido em Rondônia?

A colonização do estado de Rondônia é uma luta travada com a organização dos trabalhadores, devido às terras estarem nas mãos dos latifundiários. A gente toma, os fazendeiros retomam, a gente vai lá e toma de novo. Desde o começo teve violência e guerra dos fazendeiros contra o povo. Teve vários massacres, muita matança. A colonização significou o massacre de milhares de índios. Foram milhares de pessoas, outros trabalhadores morreram na luta pela terra, a exemplo de Corumbiara, que aconteceu em 95 e foi o grande massacre da história de Rondônia. A luta pela terra aqui é briga contra o latifundiário, é briga contra os órgãos do governo, como o Incra, Ibama, que estão do lado do latifúndio. Quando o pequeno produtor vai caçar para alimentar a família eles criam um monte de leis: crime ambiental, num sei o que mais, sobre essas áreas que se encontram dentro do estado.

O Estado protege o latifundiário. Milhares de trabalhadores que estão sem terra hoje, por falta de emprego, vão para cima da terra e, acontecendo ou não acontecendo, eles vão para cima da terra assim mesmo, para plantar porque não tem outro jeito de sobreviver.

Os fazendeiros hoje estão organizando e movimentando muitos pistoleiros para dar tiros nos trabalhadores, para ver se os trabalhadores se intimidam, para ele não ir lutar pelo seu pedaço de chão. Por outro lado tem um grande apoio da tropa policial, que vai dar tiro em trabalhador também, espancar, para ver se faz o serviço de intimidar o povo a não lutar pela terra.

AND — Como surgiu a Liga dos Camponeses Pobres?

A Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia surgiu pela história que aconteceu em Corumbiara. Da resistência camponesa ali. Nossa luta principal é pela terra, por uma reforma agrária com a destruição de todo o latifúndio. Lutamos por uma reforma agrária justa, onde o camponês pode ter o pão de cada dia, onde ele pode ter educação, saúde digna também. E a Liga não é só pela luta pela terra, mas pela luta do campo e da cidade. Até as pessoas que estão trabalhando na cidade e estão ganhando aquele salário de fome, a Liga chega para defender, no campo e na cidade. Resultado da resistência dos camponeses em Corumbiara, apareceu o MCC (Movimento Camponês Corumbiara), que começou uma luta grande no estado. Com o tempo, algumas lideranças se desviaram da luta justa e se corromperam. Enquanto os companheiros estavam em más condições nos acampamentos, as lideranças passeavam de carro novo na "rua". Isso, fora às barbaridades e ameaças de morte que muitos companheiros sofreram por parte dos pelegos que dirigiam o MCC.

Depois disso, nós fizemos uma divisão do movimento e expulsamos os cabras safados e o nosso lado virou a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia que intensificou a luta pela terra no estado. Nas nossas áreas, os companheiros constroem as escolas que irão servir aos seus filhos e a eles também, montam comissões de saúde, realizam trabalhos em cooperação. Por isso nós somos muito perseguidos. Quanto ao MCC, só se ouve falar neles metidos em falcatruas.

AND — Qual o objetivo da LCP? Há um programa de trabalho e de luta? Quais são as formas dessas lutas?

O trabalhador tem que ter uma terra. O governo está fazendo a reforma agrária só em cima do papel e na prática não tem nada mostrado até hoje. A reforma agrária que nós estamos fazendo é a LCP, organizada com o povo do campo e da cidade que está lutando por isso aí. Nós sabemos que organizando os operários e os trabalhadores do campo passa a haver a luta por uma sociedade democrática de verdade, socialista, aonde todo mundo pode ter um direito e viver no Brasil. Carece de organizar todo mundo, defendemos dar atenção à organização das mulheres e jovens.

O programa de luta da LCP é tomar a terra, acabar com o latifúndio; criar mais produção, com mais cooperação, mais desenvolvimento da técnica, da força produtiva do homem; construir o poder do povo, ele poder decidir a escola e a educação que ele quer, o que ele vai plantar e para quem quer vender; isso e outras coisas. Em resumo isso a gente chama de Programa Agrário.

A luta tem que ser muito organizada, é necessário mobilizar a massa e ajudá-la a se organizar em grupos. Aí começa uma nova experiência para o povo de reunião, discussão, debate, estudo para ter uma consciência bastante firme da luta que vai se dar. A forma principal é a tomada da terra e a organização da resistência para ficar nela, também têm outras formas que são as manifestações e concentrações nas cidades para mostrar, para toda a população, a nossa organização e os objetivos da nossa luta. Para mostrar que devemos unir todos os explorados, todos os pobres. A ocupação de prédios do governo, principalmente do Incra e de bancos também é usada. Nós sabemos por experiência que os latifundiários e os governantes querem destruir nosso movimento, por isso precisamos nos defender. Organizamos com toda a massa a nossa auto-defesa. Por exemplo, a gente se trata por apelidos e cobre o rosto durante as lutas, porque sabemos que os nossos inimigos procuram nos marcar para perseguir e matar.

AND — A Liga propõe a propriedade coletiva da terra?

Não, hoje o nosso programa é bem claro. A etapa da luta é para destruir o latifúndio, este é o mal principal. Para destruir o latifúndio só com a força das massas de camponeses pobres, são milhões de famílias, eles querem um pedaço de terra e sua luta imediata é para conseguir isso, o que une a grande força dos camponeses é lutar por um pedaço de terra agora, essa é a forma de destruir os latifúndios. O futuro da terra é ser coletiva, propriedade de todo o povo e não a propriedade privada de cada um. O nosso programa também defende que assim que a terra é distribuída os camponeses não devem continuar a vida no mesmo modo de antes, trabalhando isoladamente feito burro de carga, é preciso ir criando um sistema associativo dos proprietários das parcelas. Isto é, desenvolver o processo de cooperação para produzir, comercializar, etc.

Desde o começo da luta para tomar a terra é preciso de união e a união não se faz com individualismo, cada um pensando só no seu interesse. Então o pensamento já é de trabalhar coletivamente, porém a propriedade da terra ainda é de cada um. Através da organização de Grupos de Ajuda Mútua começamos o trabalho de cooperação. No Grupo de Ajuda Mútua se organiza dez,vinte famílias para unir suas forças e trabalhar juntos, abandonando os modos antigos de trabalhar, buscando utilizar máquinas, tratores para aumentar a produtividade. A produção é distribuída conforme o trabalho de cada componente do grupo.

Os Grupos de Ajuda Mútua devem organizar também escolas e cuidar dos problemas de saúde. Essa é uma luta muito importante, é uma luta o tempo todo contra o individualismo e pela união, pelo coletivo. Então o Grupo de Ajuda Mútua é o broto das novas relações entre os camponeses e ele poderá evoluir de conforme com o avanço da luta no país afora.

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AND — Fale um pouco mais sobre a questão da produção. Nós vivemos debaixo de sistema de monopólios, ou seja, poucos grupos poderosos controlam tudo. Como a Liga propõe a produção junto aos camponeses?

É como eu dizia, a base para organizar a produção é a cooperação. Mas não pode ser essa cooperativa capitalista onde os mais espertos viram logo exploradores do trabalho dos outros. Essa é uma grande discussão que estamos tendo no movimento e com todas as massas. Só através da discussão, do estudo e da experiência prática, que todos chegarão à mesma conclusão de que a cooperação é a única salvação para o camponês pobre. Existem companheiros que não acreditam na cooperação eles falam que não dá certo, que sempre tem os "escorão", aqueles que se aproveitam dos outros e também os camponeses já têm, cada um, modo seu de fazer as coisas, é muito familiar. Então os debates e o estudo são muito importantes para esclarecer.

Por exemplo, nós temos que pegar uma experiência de um Grupo de Ajuda Mútua e levar outros companheiros, para ver como ele funciona e também levar os companheiros que estão desenvolvendo um Grupo de Ajuda Mútua, para fazer palestras em outras áreas, explicando como a coisa funciona. Por isso é muito importante a organização de escolas da família camponesa para alfabetizar e estudar os problemas da produção de organização e outras coisas. Quando um grupo adquire um trator, todos percebem que a situação tem uma grande melhora, então através da prática todos podem entender. A organização dos camponeses tem que desenvolver muito ainda e vai ser no meio da luta contra o latifúndio que ela vai se formando. Nós precisamos de organizar a produção, produzir os alimentos que necessitamos, produzir também para podermos comprar tudo aquilo que necessitamos e que ainda não podemos fazer.

O outro problema é a comercialização, de nada adianta produzir muito se não podemos vender a produção. Os atravessadores também são garras do latifúndio, estão aí para roubar o nosso suor e dos nossos filhos, hoje somos obrigados a vender a nossa produção abaixo do que custou para produzir. Por isso, com a cooperação nós teremos força para enfrentar esses sanguessugas. Mas essa luta não é só econômica, ela depende da organização e capacidade dos camponeses, unidos fazer valer os seus interesses é o problema de ter o poder de governar nas nossas áreas. Pra isso todo mundo tem que se organizar. A Liga, as Comissões pra todo tipo de assunto, a Escola da Família Camponesa, os Grupos de Ajuda Mútua, o Movimento de Mulheres, os jovens e as crianças também.

AND — E quanto à participação dos camponeses, tem crescido?

Cada dia aumenta mais, e não adianta os latifundiários fazer ameaças de morte, não adianta o governo mandar a polícia nos perseguir, isto só está atiçando mais ainda a luta. A imprensa fica escondendo tudo, o povo tá invadindo terra pra tudo quanto é banda. A Liga não tem como acudir pra todo lado, mas nós estamos satisfeitos, isso é muito bom. A nossa palavra de ordem é "camponeses do Brasil, tomem todas as terras dos latifúndios". Agora, tem que organizar bem e isto é o trabalho mais difícil. O povo é que tem que se organizar ele mesmo, as coordenações da Liga só podem ajudar na orientação, no esclarecimento de algumas coisas. A massa organizada tem mais força que qualquer tormenta da natureza, é só ela começar a se organizar e os poderosos tremem. Você já arreparou isso?

O trabalho de organização não é fácil, demanda muita gente e muitos braços e a gente não dá conta. É uma luta danada, porque você constrói aqui e a coisa desanda ali, e assim vai. Não adianta perder a paciência, a coisa é assim mesmo. Vai balangando pra um lado e pro outro, ora ganha força, ora o movimento mingua e logo começa a ter força. Acho que de repente isso desata que não tem nada pra parar o movimento. Temos que persistir, persistir o tempo inteiro e não desanimar. O trabalho de organização é tudo, tem que organizar todo mundo, e como falei antes, temos de dar atenção especial a organização das mulheres, elas são uma força medonha que fica meio parada. Quando a mulherada começa a movimentar sacode tudo. As mulheres do campo são as pessoas que mais sofrem e são as mais oprimidas. A luta da Liga defende que as mulheres tem que tomar a frente das coisas e aí só organizando o movimento delas. ADN — Então a Liga defende uma organização à parte das mulheres do campo? Defendemos porque sem uma organização delas mesmo, não tem como as mulheres participar de nada. As mulheres são mandadas por todo mundo, são as que mais trabalham e as últimas a ser lembradas. Não é assim em casa? Elas faz a comida, serve todo mundo, as crianças, o marido e só depois ela come. Logo sai correndo pra lavar e arrumar tudo. Isso é todo dia. Também a maioria dos companheiros ficam, travam elas de participar. Uns fala que é importante ela participar, mas exige tudo delas na hora certa. As mulheres se juntando com as outras fica mais fácil de se entender, são as mesmas sofredoras que vive o mesmo drama da dificuldade, da fome, da falta de tudo, dos problemas das crianças, de tudo. A mulher no campo trabalha muito e quer decidir, então temos que ajudar abrir uma brecha que elas fazem o resto.

Todo mundo sabe que as mulheres são as que mais defende a terra, quando o desespero bate, o homem esquenta a cabeça e quer vender a terra. É a mulher que impede, que tenta segurar a situação, porque ela sabe se assim tá ruim pior é perder sua terrinha e sua tapera pra ficar sem rumo na vida. Também hoje existe muitas mulheres que são mães solteiras, que os homens abandonou com filho e sem nada. Essas mulheres são muito fortes, elas são linha de frente na luta. As mulheres dão nova força pra nossa luta. Então o movimento de mulheres é uma base da luta e a sua organização é que pode animar todas as mulheres pra lutar com nós todos unidos.

Quanto mais ela mais participa mais forte e independente ela fica e mais respeito ela ganha de todo mundo, ninguém vai abusar dela. Esses poderosos aí tem mais ódio é das mulheres que tão na luta, eles espumam de ódio. Agora mesmo, no mês de junho passado uma companheira de luta foi covardemente assassinada. Foi a companheira Selma, ela estava no acampamento da fazenda Barlati. Todos nós que lutamos ficamos marcados. No dia 22 de junho ela estava na Rodoviária dos Colonos em Jarú e precisou de ir no banheiro, não achou nenhum e correu pro lado do supermercado Triangulina. O vigia apareceu e sem perguntar nada deu vários tiros nela pelas costas. São muitas companheiras que estão na lista dos latifundiários pra ser assassinada.

AND — Como é a relação com o Incra e o Ibama?

Isso é uma grande briga, nós sabemos que o Incra está a favor do latifúndio. Nesse momento nós estamos procurando o Incra tentando alguma negociação porque existem muitas reivindicações das massas e muitos acham que podem conseguir alguma coisa através da pressão. Mas vai chegar o dia de a gente não procurar mais o Incra nem o governo. Vamos entrar em cima da terra, trabalhando e produzindo. Na verdade a gente já vem tentando isto. Tem fazendas aí que o povo tomou e cortou por conta própria. Além do mais, a lei agrária hoje, como sempre, favorece ao latifundiário. O processo para desapropriar uma terra é muito lento e o latifundiário, no fim, acaba saindo da negociação com o bolso cheio de dinheiro, não é de graça que ele entrega ela ao governo. A terra é vendida ao governo e quem paga somos nós. A terra às vezes não tem nenhuma benfeitoria, era lá terra grilada, mas nós temos que pagar pela terra que o fazendeiro grilou. No caso de Rondônia mesmo, a maioria das fazendas é concessão do Incra para os latifundiários e empresários que não pagam nem o imposto (ITR –Imposto Territorial Rural).

Tem também muita corrupção dentro do Incra. Há pouco tempo a polícia prendeu uns traficantes e tinha com eles um cheque do Galvão Modesto (superintendente do Incra no estado). Então, quer dizer, a gente tem que saber com quem está tratando. O Incra tem até um serviço secreto próprio para perseguir os lutadores. Seu objetivo é destruir a organização combativa dos camponeses para poder tapear o povo mais facilmente e o governo fazer propaganda de reforma agrária Nós estamos vendo o Ibama nessa região amazônica defendendo o lado imperialista, ele não está nada defendendo a natureza e sim que a Amazônia pertença ao EUA. Ele está querendo tirar o povo da terra, trazer o povo para a cidade para deixar a área para o imperialismo poder comandar aqui dentro. Nós, da Liga, vemos que é o imperialismo querendo comandar Amazônia.

O Fernando Henrique publicou uma medida provisória , a 2166, que limita ainda mais o tamanho da área que cada um pode desmatar. Essa lei, chamada de 20-80, só permite que o proprietário desmate 20% de suas terras. Ora, nós sabemos que se um latifundiário tem 5000 hectares , 20% dá 1000 hectares; se um pequeno proprietário tem 30 hectares, 20% é só 6 hectares. Como é que uma família pode viver com 6 alqueires de terra? E o Ibama está em cima da gente, multando, ameaçando. São os jagunços do imperialismo no campo.

AND — Como a LCP vê o problema da Amazônia?

A Bacia Amazônica é um lugar onde está toda a riqueza, e essa riqueza tem que ser do povo brasileiro, do povo trabalhador, não se pode levar a riqueza para os EUA ou para outro país.

O trabalho que essas Ongs fazem é reservar para os imperialistas, que querem tomar a Amazônia de nós dizendo que não somos capazes de cuidar dela e utilizá-la para o nosso bem. As Ongs dizem que querem preservar a Amazônia, mas elas é que tiram a genética das plantas e dos bichos, para registrar lá fora e a gente para usar os remédios que a gente usou a vida inteira, agora tem que pagar.

Também não adianta o falatório de políticos sobre defesa da Amazônia, isso é conversa fiada. Os "home" já estão aí dentro dominando. Só a luta decidida prá botar os gringos para fora é que vai resolver. E quem pode defender a Amazônia é o povo brasileiro, principalmente são os camponeses com os indígenas que vivem aqui. Também proteger não é preservar cada árvore e cada bicho, não. É entender qual é a importância da Amazônia e saber usar ela para a nossa melhora.

AND — Como é a relação com os outros movimentos, como Fetagro, MST, CPT e outros?

A diferença da liga é que nós não entramos na terra para esperar a vontade do Incra e nem do governo. A proposta da Liga, hoje, é entrar na terra, cortando e entregando, e indo para dentro para plantar de forma organizada e cooperada. A Liga também não depende de político nenhum. A Fetagro, MST, também estão ligados nessa política aí, todos eles estão preocupados com a política eleitoreira. Nós sabemos também que essa política não conserta o nosso Brasil. Por isso nós não seguimos nenhum desses partidos eleitoreiros. E a Fetagro, MST, hoje tem o partido deles aí. Acabam passando todo o tempo de olho nas eleições. Faz tudo de conforme para ganhar as eleições. Isso leva a usar o povo, usar sua miséria para eleger deputados e outros cargos. Agora, é um princípio nosso que toda vez que o governo, a polícia ou o latifúndio atacam eles, nós defendemos. Sempre somos solidários com os que são agredidos. Nossa diferença mesmo é com a direção deles, a base deles é o mesmo povo sofrido e nós apoiamos o povo na sua luta.

Esses movimentos aí ficaram do lado do MCC quando nós separamos deles. Alguns colocaram um monte de coisas nos jornais, mentiras sobre nós. Que a gente é guerrilheiro, que tinha treinamento de guerrilha nos acampamentos da Liga, que a gente ameaçava eles, quando na verdade era eles que ameaçavam nós, e outras coisas. Esses são muito mentirosos e oportunistas e tem dedo-duro também.

AND — Qual é a maior dificuldade que os camponeses enfrentam na luta pela terra?

Aqui tem várias dificuldades, a perseguição dos latifundiários, do próprio governo, a perseguição da polícia também que está é defendendo o grande latifundiário. A perseguição é para todo lado, Corumbiara, na região do Espigão D'Oeste, na região de Jaru, a região de Theobroma, e a Região de Machadinho D'Oeste e Cujubim. Hoje essas ameaças de morte, a própria Liga já denunciou. A gente denunciou. Denunciamos também aos organismos internacionais todas as perseguições, ameaça de morte. E nós estamos nos organizando. Não é a perseguição que vai nos fazer parar. Tanta gente, tantos companheiros já tombaram nessa luta. O sangue ainda vai continuar a correr. Nós estamos conscientes disso e vamos nos defender sem medo nenhum. Nós sabemos também organizar a base que está conhecedora das ameaças. E com isso, a massa está com coragem de lutar pelo seu direito.

O latifúndio também vai perdendo a sua força, na medida que nós vamos crescendo o movimento. Isso leva eles a uma guerra aberta e desesperada contra nós. Tem vários casos de emboscadas, tiroteios que acontecem nas áreas que a gente tomou a terra. Além disso, tem a demora da parte do Incra para liberar a terra e deixar o povo dependente das suas esmolas, que é a cesta básica com alimentos podres, que eles mandam para a gente nos acampamentos, os créditos demoram a sair e obrigam a gente a usar eles no comércio cadastrado, que sempre é dos grandes comerciantes, na hora que sai o dinheiro, aumentam o preço das mercadorias e a gente tem que comprar. E nós queremos negociar com os pequenos. Os pequenos comerciantes sofrem como nós. A liga propõe que nós se une para lutar.

AND — Qual é a posição da LCP frente às eleições?

A política que está aí, tem vários partidos e toda essa política não melhora o nosso Brasil. Já passou tudo quanto é partido no governo. Vem presidente e mais presidente, governo e mais governo e a situação do povo é de miséria. Uma boa parte do povo, hoje, dentro do Brasil inteiro, acha que a solução para o Brasil é o Lula, que ele pode resolver isso. Não acreditamos nisso. Os problemas do nosso país não podem ser resolvidos por promessa e vontade de político nenhum. Prá consertar qualquer um desses problemas tem que ser de forma revolucionária. Pois isso não é brinquedo, os poderosos não cedem nada assim não. É ilusão ficar esperando que Lula vai mudar as coisas. Vamos ver né! Depois, nós já conhecemos muito bem como que os políticos fazem, o que vão defender lá no Congresso Nacional é o interesse deles. Por quê os interesses deles? Porque ainda tá aí um grupo que defende os interesse dos grandes latifundiários.

Nós vemos aqui a posição, em Rondônia, do PT que foi se aliar aqui à pessoa que é o maior empresário, que é o Acir (Gurgacz) da Cascavel (empresa que monopoliza o transporte de passageiros no estado). Nós sabemos que o PT hoje é aliado do Acir, que é dono de uma grande empresa, que é a Cascavel. Já tinha se aliado com o Raupp, que mandou matar o povo em Corumbiara. Se o PT é de esquerda, como dizem por aí, como ele pôde se aliar a essa grande empresa aqui do estado?

O PC do B, que diz ser comunista, apoiou o Amorim que é também um grande latifundiário, que tem uma grande fazenda aqui no estado e tem uma história cheia de casos feios. Ele é um dos grandes poderosos no estado. Nem o PT, nem o PC do B, podem falar de uma reforma agrária justa, porque eles estão aliados aos grandes latifundiários. Nós vemos, o Acir é um grande empresário e grande latifundiário. No outro lado nós vemos o Amorim, que também é um grande latifundiário. Se acontecer do PT, que diz que é dos trabalhadores, fazer a reforma agrária, vai ter que começar por esses aí que estão no poder. Então nós somos a favor é de boicotar as eleições, não participar dela e aproveitamos o período da política para mostrar ao povo um novo caminho para mudar a situação.

AND — Que caminho é este que a Liga propõe aos camponeses?

A Liga propõe organizar o povo, organizar o campo e a cidade. Nós sabemos que tem três montanhas para a gente derrubar: O latifúndio, a grande burguesia e o imperialismo. Estes são os causadores de todo o mal que o nosso povo padece. Nós da Liga acreditamos que somente um Brasil socialista poderá resolver de verdade os problemas do povo e do país. Para conseguir um Brasil socialista é preciso de muita luta e tem que ser pelo caminho revolucionário, não tem outro remédio. Querer mexer e fazer uma reforminha nisso aí, é como salgar carne podre. Não tem jeito. Só mesmo a revolução vai dar ao povo brasileiro um dia melhor, a sua libertação, capaz de produzir uma grande melhora e uma vida digna.

AND — Pelé, alguma coisa mais que você gostaria de acrescentar?

Eu gostaria de chamar atenção para a gravidade da situação que está se criando no campo e eu acho que é por todo o país. Eu sei também que no sul do Pará a situação está muito séria, mas aqui em Rondônia já parece uma guerra. Nunca se viu tanto pistoleiro por aí, os latifundiários estão se reunindo toda semana e estão contratando bandos de capangas para todo lado. Os companheiros da direção da Liga estão vivendo uma situação muito perigosa, os latifundiários querem matar todos nós. Nós temos denunciado, mas a imprensa aqui no estado está toda na mão dos latifundiários; só publicam mentiras a respeito da luta da Liga e da luta pela terra. Só querem nos difamar para preparar o terreno aos pistoleiros. Nós vamos nos defender e que todo mundo saiba que cada companheiro nosso que morrer, a responsabilidade é das autoridades que acobertam e protegem esses bandidos. Nós agradecemos ao jornal A Nova Democracia por ouvir os camponeses pobres. A grande parte da imprensa está do lado do latifúndio.

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