Estilo, tradição e alegria de Jorginho do Pandeiro

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Filho de uma família de músicos profissionais, irmão de um dos maiores violonistas do Brasil, o Dino 7 Cordas, e do importante cavaquinista Lino, Jorginho do Pandeiro participou das famosas orquestras do rádio brasileiro e gravou com Canhoto e Jacob do Bandolim. Hoje, aos 77 anos de idade, ele é o diretor do tradicional conjunto Época de Ouro e professor na Escola Portátil de Música, ao lado do filho Celsinho.

http://anovademocracia.com.br/41/20b.jpgCom seis anos de idade Jorginho já tocava o seu pandeiro, instrumento de que gostou a primeira vista. O menino 'levava tanto jeito para a coisa' que acompanhava os músicos do conjunto amador de seu pai, que era violonista. Eram cinco irmãos: Lino, Dino, Nilda, Jorginho e Antônio; somente o caçula não quis saber de música.

— Aos sábados acontecia em minha casa o que chamávamos de baile, algo bem comum naquela época. Era uma espécie de festa de música, onde se tocava e dançava a noite toda— conta Jorginho.

Os muitos parentes músicos, entre eles: Dino e Lino, o primo Tico-tico do Cavaquinho e os seus irmãos violonistas, o primo Carlinhos do pandeiro, e outros, dividiam espaço com famosos nomes das orquestras do rádio.

— Nossa casa era freqüentada por Benedito Lacerda, Jacob do Bandolim, Canhoto, Meira. Morávamos em Santo Cristo, onde nasci, no centro do Rio. A rádio Tupi era ali perto e o pessoal de lá estava sempre nos nossos bailes. O Gilberto, que foi um dos fundadores do Época de Ouro, de tanto frequentar a minha casa acabou casando com a minha prima Arlete (risos) — diz.

Jorginho é considerado pelos amigos professores da Escola Portátil de Música, como alguém que tem um jeito diferente de tocar, um estilo marcante e sensacional.

— Sempre convivi com grandes pandeiristas e observei a maneira de cada um tocar, inclusive aprendi desta forma, e fui criando o meu estilo. Acho que é por isso que dizem que eu tenho um jeito diferente. Mas, creio que cada pessoa tem isso também, por mais que tenha aprendido com alguém. Por exemplo, eu ensinei meu filho Celsinho e ele tem o jeito dele. Ele ensinou meu neto Eduardo que também tem seu estilo próprio — defende.

— Há pouco tempo fui fazer um show com o Paulinho da Viola, e no ensaio ele comentou: 'engraçado o Celso toca igual ao Jorginho, mas tem uma diferença' (risos). Também na Escola Portátil, os garotos que tocam pandeiro aprenderam comigo e com o Celso e tocam bem, mas diferente — acrescenta.

Jorginho começou a tocar profissionalmente aos quatorze anos de idade.

— O Ademar Nunes, violonista do regional do Rogério Guimarães, ligou para meu irmão Lino, em um sábado à noite, procurando ajuda para montar um regional para um programa que começaria no dia seguinte, na rádio Tamoio. Só estava faltando o pandeiro. O Lino disse: 'Essa hora será difícil arranjar alguém, mas tenho um irmão que toca pandeiro com a gente em casa. Posso levá-lo e no outro domingo você consegue alguém'. Ele concordou. Eu fui e fiquei — lembra.

— Depois o Rogério Guimarães me convidou para ir para a rádio Tupi, já como contratado. Oito meses depois o Lino foi para a Nacional e me levou com ele. Nesta época eu estava com 18 anos de idade, lá trabalhei por 29 anos — continua.

Mais tarde, Canhoto assumiu o comando do regional do Benedito Lacerda, e o regional foi tocar na rádio Mayrink Veiga. Jorginho, que já fazia parte do conjunto, passou a trabalhar nessas duas rádios, e por coincidência do lado de seus irmãos, na Nacional com Lino, e na Mayrink com Dino.

O poder e o fim das rádios

Jorginho conta que as rádios tinha uma força e popularidade muito grande nas décadas de 30, 40 e 50. Só a rádio Nacional contava com uma quantidade de músicos que daria para formar umas quatro orquestras.

— Fazíamos programas musicais diversos, acompanhando os cantores, tudo ao vivo. Quatro da madrugada já tinha gente formando fila para comprar ingresso e participar dos programas, que ficavam superlotados — diz.

Segundo Jorginho isso tudo acabou quando aconteceu o golpe militar em 1964.

— Praticamente todas as rádios fecharam suas portas e outras sofreram intervenção. A Mayrink Veiga e outras do mesmo porte nunca mais reabriram. A Nacional, que era do governo, ficou funcionando, mas acabou a sua programação. Eu continuei indo lá todos os dias para assinar o ponto — conta.

— O rádio tinha um grande poder, uma grande força junto ao povo e por isso mesmo foi duramente atacado. Tínhamos várias antenas de ondas curtas, algumas especiais para o exterior, e uma programação que além da boa música, falava bastante da política — acrescenta.

Jorginho diz que a televisão não chegou a prejudicar o rádio, ou ser a responsável pela sua queda.

— Creio que haveria uma grande interação entre os dois veículos. Posso dizer que fomos nós da rádio Nacional que inauguramos a televisão no Brasil, porque em 1950 filmaram um dia inteiro de programação da rádio e essas imagens foram exibidas em aparelhos colocados em casas de pessoas importantes, no centro do Rio. Uma espécie de teste — diz.

— Depois a rádio Nacional ganhou de Juscelino Kubitschek, então presidente, uma estação de televisão. Toda a aparelhagem estava no cais do porto quando houve o golpe e ficou presa por lá por muitos anos. Há algum tempo foi para Brasília e hoje a nossa aparelhagem se transformou na TV Nacional de Brasília — continua.

— Acredito que a Nacional tinha tudo para fazer uma televisão sensacional, tanto que quando a Globo começou, justamente na época do golpe, pegou artistas e músicos da Nacional para sua programação. Cheguei a tocar na Globo, mas sem contrato. Também toquei na Tupi e Excelsior. Mas as televisões não mantiveram o estilo do rádio, com orquestras ao vivo — acrescenta.

Depois que o rádio acabou e os regionais começaram a não encontrar espaço na televisão, Jorginho passou a se dedicar a tocar em shows no tradicional conjunto Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim em 1964.

— Com a morte de Jacob em 1969 o conjunto parou suas atividades e voltou novamente em 1972, quando entrei. De lá para cá temos nos apresentado pelo Brasil e exterior, e gravado discos. Outros também estão para sair. Um já está prontinho esperando somente acertarmos uma distribuidora. É um disco ainda com a participação do Dino e do César Faria, pai do Paulinho da Vila, que fizeram parte do conjunto e já faleceram — conta.

A formação atual do Época é: Jorginho, o diretor, seu filho Jorge Filho, no cavaquinho, André no violão, Toni no violão de 7 cordas, Ronaldo no Bandolim e Antônio Rocha na flauta.

— Tínhamos três violões, com a saída do César Faria ficamos somente com dois. Então resolvi substituir o terceiro por uma flauta. Com isso mudou um pouco o som do conjunto, mas para melhor — declara Jorginho do Pandeiro.

No momento o Época está fazendo um show em homenagem a Jacob do Bandolim. O grupo já fez apresentações em Curitiba, agora em março fará em Brasília e Salvador, e em Abril se apresentará em São Paulo e Rio de Janeiro.

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