Iraque: Cinco anos de resistência antiimperialista

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Em março de 2003, o Iraque foi invadido pelo USA. Os ianques afirmaram que a guerra seria rápida e que a democracia voltaria a reinar no Iraque. Armas de destruição em massa e terroristas seriam encontrados e o país voltaria à normalidade. Cinco anos depois, nem armas nem terroristas foram encontrados. A resistência segue, dia após dia, golpeando as forças invasoras de Bush e sua corja de assassinos já não têm de onde tirar mentiras para justificar o fracasso da ocupação.

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Após dois anos de intensa contrapropaganda, em 20 de março de 2003, forças de uma "coalizão", formada pelo USA e pela Inglaterra — que segundo eles, tinha 49 países1 —, invadiram o Iraque, a partir do Kuwait. Os invasores levariam a paz, a democracia e a independência ao Iraque, pelo menos na teoria deles.

A campanha difamatória começou após o "11 de setembro de 2001". As organizações estadunidenses sem fins lucrativos, Centro da Integridade Pública e Fundo para a Independência do Jornalismo, realizaram um estudo sobre essa campanha, divulgado em janeiro deste ano. Segundo as organizações, Bush e autoridades de seu governo emitiram 935 declarações falsas sobre a ameaça do Iraque à segurança do USA. Para as organizações, tudo fazia parte de uma campanha para direcionar a opinião pública a aceitar a invasão do Iraque.

Diante da iminência do ataque ao povo iraquiano, milhares de pessoas, em todo o mundo saíram às ruas. Bagdá, Londres, Istambul, Madrid, Islamabad (Paquistão), Roma, dentre outras cidades, reuniram cerca de 10 milhões de pessoas nas ruas, em fevereiro de 2003. No final de março e início de abril, logo após a invasão, grandes manifestações sucederam-se no Brasil, Espanha, Alemanha, Líbia, Paraguai, Argentina, USA, Grécia, etc.

Em abril de 2003, as forças invasoras chegaram a Bagdá. A estátua do presidente Saddam Hussein foi derrubada e os ianques declararam o controle sobre o país. Em maio do mesmo ano, Bush declarou o fim da guerra, apesar de manter cerca de 150 mil soldados ianques e um conselho — escolhido a dedo pelos ianques, em junho — para gerir a situação no país.

A farsa do julgamento de Saddam

No dia 13 de dezembro de 2003, com grande pompa, os ianques anunciaram a prisão de Saddam Hussein. Era o início de uma das maiores farsas já vistas na história.

Saddam, delatado por uma pessoa próxima a sua família, foi encontrado em Tikrit, sua cidade natal. Ele estava dentro de um buraco, em um depósito. O administrador ianque no Iraque, Paul Bremer, afirmou que a prisão de Saddam representaria o início de um novo Iraque. Bremer acreditava que, com a prisão de Saddam, a resistência acabaria. Grande engano.

No dia 19 de outubro de 2005 teve início a farsa montada para julgar Saddam. Diante da alegação da defesa de que não pôde se reunir com os acusados, o julgamento foi adiado para 28 de novembro.

O julgamento foi cercado de terror. No final de outubro de 2005, um dos advogados de defesa de Saddam foi assassinado. Na primeira semana de novembro ocorreu o segundo assassinato. O terceiro assassinato ocorreu em junho de 2006, o corpo foi encontrado com sinais de tortura.

No reinício do julgamento, em dezembro de 2005, Saddam se negou a comparecer, classificando o julgamento de "farsa inventada pelo USA". No final de dezembro, Saddam compareceu ao julgamento e denunciou torturas sofridas na cadeia, além de afirmar em alto e bom som que ainda era presidente do Iraque.

Em janeiro, o juiz responsável pelo caso foi afastado por ser considerado condescendente com Saddam. No mês seguinte, como protesto, a defesa não compareceu às audiências. Ainda em fevereiro, Saddam iniciou uma greve de fome, em protesto ao julgamento.

Todas as vezes nas quais compareceu ao julgamento, Saddam chamou a atenção por sua postura firme e decidida. Ele afirmou veementemente que, mesmo com a invasão, ele ainda era o presidente do Iraque e conclamou todos os iraquianos a resistir de forma armada à ocupação ianque.

Em 05 de novembro de 2006, o tribunal ilegal e ilegítimo que foi instituído para julgar Saddam o condenou à morte na forca. Quase 13 meses depois, terminava o circo montado na tentativa de minar a resistência iraquiana. Saddam comportou-se como um legítimo representante das forças progressistas que lutam no Iraque. Ao receber a sentença, bradou: "Vida longa ao povo! Vida longa à nação árabe! Morte a nossos inimigos".

Ao contrário do que esperavam os ianques, a resistência não deixou de agir um só dia, durante e após o julgamento e execução de Saddam.

Crimes de guerra

Além de ocupar ilegalmente o Iraque, os invasores seguem cometendo crimes contra a população civil e contra o país.
Após a ocupação, milhares de pessoas, incluindo jovens, idosos e mulheres foram e continuam sendo presos, torturados e executados. É prática habitual nas prisões mantidas pelos invasores vendar os olhos e amarrar as mãos nas costas dos detidos, para juntá-las com os pés durante dias e colocar a pessoa em um cubículo de madeira, dentro de um pequeno buraco escuro. As vendas não são retiradas dos olhos nem para que os presos comam, o que só podem fazer por dez minutos. A comida é pouca e de má qualidade.

Várias pessoas foram torturadas até a morte, principalmente antigas lideranças políticas e membros do governo anterior à invasão. A tortura é cotidiana nos centros de detenção ou cadeias clandestina dos novos corpos de segurança iraquianos. Também não são raras as detenções e torturas em massa. Estima-se que mais de 250 mil iraquianos foram presos sem motivo. O número de mortos, segundo a organização Opinion Research Business, com sede em Londres, é de mais de um milhão de iraquianos.

Milhares de pessoas têm procurado, com muita dificuldade, refugiar-se em outros países. O número de refugiados é desconhecido, mas organizações de direitos humanos iraquianas estimam que este número ultrapasse a cifra dos 500 mil.

Com o estabelecimento dos novos "corpos de segurança" iraquianos se formaram os esquadrões da morte. Eles têm escolhido seletivamente seus alvos, tentando minar a base de apoio da resistência pelo medo. Seus alvos são personalidades civis, professores e, principalmente, profissionais da saúde. Mas também assassinam simples cidadãos e atuam pilhando e destruindo o patrimônio cultural iraquiano.

Mercenários

Mercenários são soldados que lutam junto a um exército regular mediante pagamento. Hoje, estima-se que 10% de todo o efetivo militar que atua no Iraque seja composto por mercenários.

Os mercenários são contratados por empresas ianques que ganham rios de dinheiro com este serviço, que não passa por qualquer tipo de licitação. As empresas escolhem países pobres como destino do recrutamento. Brasil, Chile, El Salvador, Colômbia, Turquia, Nepal, Indonésia estão entre os países preferidos pelos recrutadores. A promessa é sempre a mesma: ganhar cerca de sete mil dólares por mês. A tarefa, vigiar instalações militares, campos de treinamento e fazer a segurança do exército ianque (para quê um exército precisa de seguranças?).

Os recrutadores atuam ilegalmente em todos os países. No Brasil, em 2005, foi descoberta uma rede ilegal de contratação. Eles atuavam sem os registros exigidos. Até mesmo no USA, os recrutadores atuam buscando imigrantes ilegais e a parcela pobre da população, prometendo aos primeiros a legalização no país e aos segundos a chance de uma carreira universitária.

A questão é que o grande número de soldados que têm voltado para o USA em sacos plásticos fez aumentar a repulsa da população à guerra. Famílias inteiras se viram desintegradas por uma guerra injusta. Além do fato de metade do efetivo treinado para atuar no Iraque acabar desertando ou servindo à resistência.

Das empresas alistadoras, destaca-se a Hallyburton — empresa ligada à exploração petrolífera — que é umas das que mais têm lucrado com a guerra no Iraque. As ianques Caci e TitanCorp são outras que atuam no Iraque, fazendo os trabalhos sujos da prisão de Abu Graib.

A resistência

A resistência dos iraquianos à invasão começou muito antes da invasão propriamente dita. Após a Guerra do Golfo, em 1990, o presidente Saddam Hussein, certo de que o país poderia ser alvo de uma nova investida imperialista, realizava treinamentos militares três meses por ano, destinados a toda a população.

Com a iminência da ocupação, milhares de iraquianos contrários ao governo de Saddam retornaram ao país para ajudar na resistência, certos de que não seriam impedidos de lutar pelo presidente. O regime iraquiano relaxou a pena de todos os prisioneiros, exceto àqueles que cometeram crime de sangue. Meses antes da ocupação, o governo abriu todos os depósitos de armas e as distribuiu à população.

A resistência iraquiana, que combate cotidianamente os invasores, é composta e financiada pelos próprios iraquianos. Sami Alaa, da Aliança Patriótica Iraquiana, em entrevista ao AND (edição 24, abril de 2005), explicou que a resistência dividia-se em três grupos: 1) aqueles ligados a algum partido político: militantes baathistas, pan-árabes, socialistas, comunistas patrióticos; 2) Oficiais e soldados do antigo exército e polícia iraquianos, que não depuseram as armas e continuaram combatendo. Segundo ele, este grupo é o que realiza as ações mais planejadas e com mais recursos; 3) o terceiro grupo é formado por militantes sunitas, xiitas e até cristãos, mas não passam de 10% de toda a resistência, são organizados local ou regionalmente e não são leais a uma pessoa ou partido.

O certo é que a resistência utiliza habilmente todas as armas das quais dispõe. Utiliza a tática de guerra de guerrilhas, fustigando o inimigo e se abastecendo de armas e munições do oponente. Além de atacar pontos estratégicos para os ocupantes, criando um clima de instabilidade permanente. Os alvos preferidos da resistência são redes de oleodutos — para evitar a pilhagem do petróleo iraquiano —, estradas, postos militares, bases e todos os locais de concentração das forças de coalizão.

De acordo com dados do Pentágono, de 2005, as ações da resistência aumentaram 30% em relação ao ano anterior. São cerca de mil ações diárias, sendo que apenas 1% são ataques suicidas ou carros-bomba, que a resistência não reconhece como próprios.

Faluja

Faluja, a 60 km de Bagdá tem sido um bastião da luta contra a ocupação ianque. Uma parte considerável da resistência se concentrava em Faluja e os ocupantes e seus governos fantoches não conseguiam manter instituições na cidade. Os invasores consideravam-na como o centro do "terrorismo" e garantiam que ali estavam entrincheirados membros da resistência.

Em 2003, a cidade foi palco das maiores manifestações e combates contra a ocupação. Em abril, a população da cidade tomou as ruas para lutar contra a ocupação. Após o domínio de Bagdá, outras grandes manifestações e combates foram reprimidos pelos invasores.

Faluja sofreu intensos bombardeios em abril e novembro de 2004. Os ataques destruíram cerca de 80% da cidade e deixaram mais de cinco mil mortos. Em 2004 os ocupantes ameaçaram destruir toda a cidade se os moradores não denunciassem os militantes da resistência. Mas, pelo que tudo indica, ninguém foi delatado. Mesmo após os ataques, a resistência continuou ativa e os ianques não conseguiram dominar por completo a cidade.

Em 2005, o Pentágono afirmou ter usado fósforo branco nos combates de 2004. Ainda hoje mais da metade dos habitantes de Faluja enfrenta problemas com água poluída, falta de eletricidade, fome, frio e desemprego.
Os invasores seguem utilizando fortes medidas de segurança. Por mais que sigam prendendo coletivamente, assassinando, decretando toque de recolher e cortando a água e luz em Faluja, seus moradores não se entregam e seguem como um grande exemplo da heróica resistência iraquiana.

O que todos se perguntam é até quando durará a guerra no Iraque. Pela capacidade de renovação da resistência, pelo desgaste das tropas ianques e pela repulsa mundial à invasão, é certo que a guerra durará até que os ianques retirem suas tropas, suas instituições e todos que chegaram com a ocupação — terroristas, milícias, mercenários, etc — do Iraque. A resistência jamais entregará as armas e desistirá de defender seu povo e seu país dos invasores.

Os números da invasão

  • Mais de um milhão de iraquianos mortos pela ocupação
  • 2,5 milhões de refugiados internos
  • 2,2 milhões de refugiados no exterior, principalmente na Síria
  • 24 mil iraquianos presos sob controle ianque
  • 400 mil iraquianos presos sob controle dos colaboracionistas
  • 43% da população vivendo em extrema pobreza (menos de 1 dólar por dia)
  • 70% dos adultos estão desempregados
  • metade das crianças com menos de 5 anos sofre de algum tipo de subnutrição
  • 70% da população não tem acesso a água potável
  • 80% da população não é servido por sistema de esgoto
  • 800 mil estudantes sem escola primária
  • 220 mil crianças em idade escolar refugiadas e sem escola
  • 300 professores universitários assassinados
  • 2 mil médicos assassinados e outros 17 mil abandonaram o país
  • 2 horas por dia é o período de fornecimento de energia elétrica, incluindo Bagdá

1. Informações do Global Policy Forum — www.globalpolicy.org

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