A lágrima de Joana

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Já era tarde da noite, mas Joana não conseguia dormir. Pensava em quanto tempo havia que tinha saído do Norte. Quando saiu de lá, ainda menina, pensou que tudo fosse mudar. Havia acabado de se casar, aos 16 anos, com José, rapaz trabalhador e corajoso. E, para comprar a terrinha deles, ele propôs que fossem trabalhar na colheita de café, no sul. E foi assim que Joana chegou ao sul e de lá nunca mais saiu.

Mesmo com as dificuldades, Joana não podia dizer que era infeliz. Mas ela vivia com uma angústia no peito, a angústia de nunca mais ter voltado ao sertão, não mais ter visto o carcará, a asa-branca e pisar a terra árida. Era uma saudade doída, ardida, temperada, de ver os rios brotando, após as chuvas de verão; de sentar-se à sombra do juazeiro e da maniçoba.

E mesmo quando a morte beirava o sertão, quando os rios secavam e as folhagens desapareciam, o povo parecia nutrir-se de uma coragem rara, uma força que não se via pelas bandas do Sul —  pelo menos assim pensava Joana.
Ela pensou, repensou, uma lágrima caiu. Adormeceu e quando acordou percebeu que já estava quase perdendo a hora. Era reunião de pais na única escola do povoado em que vivia, no interior de Minas Gerais. Mas ela foi sossegada. Apesar de ser nordestina e não renegar sua origem, pegou um pouco do jeito tranquilo e desconfiado do mineiro...

Foi caminhando, matutando, andava pensando muito no Norte. Tinha que dar um jeito de ir para lá. Já tinha mais de 15 anos que não via "mainha", que andava meio adoentada.

No Norte, por mais que a vida fosse sofrida, não tinha isso de plantar pra dividir com quem nunca plantou nada, muito menos de colher para outro. Mas esta era a sorte de Joana quando vivia na terrinha dos pais e não da maioria do povo do sertão, e ela sabia bem disso.

Joana chegou à escola para falar com a professora dos filhos. Os meninos haviam sido aprovados, mas o mais novo ainda precisava melhorar a leitura. A maior surpresa de Joana não foi a aprovação dos filhos, mas o que a professora sussurrou ao seu ouvido. 

Joana foi para casa quase aos saltos. À noite, ao se deitar ao lado do marido, seu semblante ficou sério e ela pareceu ter muito mais do que os 30 e poucos anos que carregava. Passou levemente as mãos pelo cabelo do marido, olhou sua pele queimada de sol, viu que as rugas aumentavam, pensou que poderiam ter uma vida diferente. Contou, sorridente, a novidade ao marido.

Segundo a professora, numa cidade vizinha, havia uma terra abandonada por um latifundiário. Uma liga, a Liga Camponesa, estava chamando todas as pessoas que queriam um pedaço de terra para que a ocupassem. Parece que já havia para mais de mil famílias lá dentro.

Um sorriso brotou no rosto de Joana. Os olhos do marido brilharam, como estrelas em noite escura. Ele imaginou que nunca mais trabalharia para os outros e nem teria que entregar todo o salário para a venda da fazenda; poderia enfim ter uma vida digna e dar um futuro melhor aos dois filhos.

Joana, o marido e os filhos partiram rumo a terra tão sonhada. Ao chegar, foram muito bem recebidos pelos que já estavam lá. Dos  olhos de alguns, caíram lágrimas por ver tanta gente nova e animada chegando.

Tudo corria bem. O barraco estava pronto, a horta plantada, um terreno já havia sido escolhido para a plantação coletiva e pescaria à vontade. Joana já tinha até contado para a família toda do Norte que ia ter uma terrinha.
Mas, é claro, os problemas não deixariam de ocorrer. Joana sabia que a luta não seria fácil. Por muito tempo ela ouviu falar mal dos "sem-terra", mas agora sabia como o movimento era sério e organizado.

E o problema para Joana veio em forma de "reintegração de posse". O latifundiário havia entrado com o pedido judicial para a retirada dos camponeses, mas antes —  era praxe —  eles deveriam reunir-se na presença do juiz.

Os camponeses já haviam decidido que não abaixariam a cabeça diante de latifundiário e de nenhum juiz. O advogado do latifundiário chegou a ir à fazenda. Foi recebido por camponeses de braços erguidos, com foices levantadas, cantando e bradando palavras de ordem. Ele queria entrar na área para falar com os camponeses, mas foi avisado que da porteira para dentro, somente camponeses e convidados.

Alguém precisava falar com o advogado e Joana foi a escolhida. Após ouvir a ladainha, Joana deu o recado dos camponeses:

 —  Diga ao seu patrão, que não vamos sair da Fazenda. Ela é improdutiva, está abandonada  e nós já estamos plantando aqui, estamos transformando este lugar. E, a partir de hoje, estaremos nos mudando para a sede. Não adianta tentar nos iludir ou intimidar, só vamos discutir a posse da terra, amanhã, na audiência com o juiz.
De braços erguidos e cantando os camponeses permaneceram até que o advogado desapareceu na poeira da estrada. Ainda era manhã.

Pela tarde, um camponês que chegava da cidade deu a notícia. O Bunda Larga —  como o latifundiário era conhecido na região —  havia falecido em decorrência de um infarto, ao saber da ocupação da sede da fazenda pelos camponeses.

Os camponeses não festejaram, mas também não ficaram tristes. Bunda Larga era conhecido na região. Possuía terras em várias cidades. Muitas delas não haviam sido compradas, mas tomadas à força de pequenos proprietários. Ele costumava comprar e esperar que  se valorizassem, deixando-as completamente abandonadas.

Algumas das famílias que lá estavam já haviam trabalhado para ele na colheita do café, inclusive Joana. Uma lágrima caiu do rosto da jovem senhora. Podia não ser um sentimento muito nobre, mas ela se sentia satisfeita com a morte do Bunda Larga. Havia trabalhado para o latifundiário, mas na sede de uma de suas fazendas, assim que veio do Norte com o marido.

O latifundiário não contente em sugar até os ossos de seus empregados, tentou abusar de Joana. Fez mil promessas, elogios e galanteios. Não obtendo sucesso, tentou agarrá-la à força. Por sorte, o marido de Joana viu  e partiu para cima do latifundiário, o que quase acabou em morte. Eles tiveram que sair da fazenda, sem nada receber, apesar de terem trabalhado lá por bastante tempo. Por isso tinham um certo ódio do latifundiário. Quando souberam que a terra em que estavam era dele, redobraram o ânimo na luta.

Ainda hoje, alguns anos depois, os camponeses permanecem na sede da fazenda. O pedido de reintegração de posse perdeu a validade e os camponeses seguem produzindo queijo, leite, ovos, farinha e com uma grande lavoura de grãos e frutas. A disputa judicial pelas terras continua e, depois da morte do Bunda Larga, os camponeses tiveram que enfrentar seus filhos — tão reacionários quanto o pai — , mas isto já é outra história...

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