LCP desmascara farsa no covil do latifúndio

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Uma série de reportagens veiculadas na revista IstoÉ foia motivação para uma nova campanha de criminalização contra o movimento camponês na região amazônica. Seis meses após a operação de terror no campo desatada no estado do Pará contra a luta dos camponeses pobres, os ataques voltaram-se contra os camponeses de Rondônia.

Tenente-coronel Enedy, da polícia militar de Rondônia; Jeferson Cristi, Juiz da Comarca de Buritis; Dep.Onix Lorenzoni, presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Secretário de segurança pública de Rondônia, Cesar Pisano; Marcelo Sálvio Rezende Vieira, Delegado reginal da PF; Tenente-coronel Jozenildo e Nilo Hallack, representante das Ligas dos Camponeses Pobres
As reportagens da revista IstoÉ foram o mote para a ocupação da estrada de acesso a Jacinópolis por tropas do 6º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército e para o ataque de mais de 80 pistoleiros contra o acampamento Conquista da União, no município de Campo Novo, em abril último. As matérias assinadas por Alan Rodrigues, devido aos interesses mercadológicos da revista ou por outra razão velada, noticiou que "O Brasil tem guerrilha" estampando a foto de um pistoleiro que posou especialmente por detrás de um arbusto com sua espingarda de cano serrado.

A revista divulgou fotos de camponeses desarmados ao lado de militares armados de fuzis e pistolas, mas diz que os camponeses são os guerrilheiros perigosos. Esconde a identidade dos policiais e pistoleiros, gentilmente chamados de "funcionários das fazendas", enquanto estampou a foto de Wenderson Francisco dos Santos, o "Ruço", que foi absolvido em júri popular após cumprir injustamente uma pena de 4 anos na penitenciária Urso Branco, ao lado do corpo de uma pessoa, insinuando a ligação de Ruço com esta morte (ver AND 35, julho de 2007: Camponeses são absolvidos em júri popular).

O vazio de conteúdo das reportagens de Alan Rodrigues, publicadas em IstoÉ, foram compensadas pelo requentar de acusações contra a luta popular e insinuações sem quaisquer provas. IstoÉ inaugurou a nova modalidade de "Guerrilha de salão", fazendo estardalhaço sobre "As fotos secretas da guerrilha" obtidas através de "imagens feitas pela Abin". Essas imagens e a guerrilha da LCP não passavam de fotos feitas pelos próprios camponeses em uma encenação, no salão de uma escola, de uma peça teatral sobre Ernesto Che Guevara, apreendidas pela Polícia Militar durante a busca em um acampamento na cidade de Machadinho D'oeste em 2002.

Desmontando a farsa

Uma audiência foi convocada pela Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados e inicialmente a Liga dos Camponeses Pobres não havia sido convidada, mas solicitou a sua presença e compareceu à audiência no dia 24 de abril.

O representante da Liga dos Camponeses Pobres, Nilo Hallack, acusado pela maioria dos deputados e pelos comandantes da Polícia Militar e Polícia Ambiental, foi o primeiro a falar. Nilo rechaçou as acusações, denunciou a grave situação que atravessa a luta camponesa em Rondônia com as constantes ameaças de morte e assassinatos de camponeses. Sobre as acusações da revista, o representante da LCP destacou:

— O próprio Exército negou a existência de guerrilha por diversas vezes, o exército está lá e já esteve outras vezes. O que os companheiros de Jacinópolis reivindicam é a regularização imediata de suas terras, o que já vinha sendo reivindicado há muito tempo. O que a Liga dos Camponeses Pobres tem a pedir é o fim da criminalização do movimento camponês.

Na sequência o que houve foi uma sucessão de acusações e ataques raivosos por parte dos deputados da bancada ruralista, todos grandes latifundiários como Giovanni Queiroz (PDT-PA), Ernandes Amorim (PTB-RO) e Moreira Mendes (PPS-RO), que, fazendo coro com a revista IstoÉ, pediam mais repressão sobre o movimento camponês e a expulsão dos camponeses das terras.

Giovanni Queiroz exaltou o papel da polícia, os "homens responsáveis pela segurança pública", a constituição e o direito à liberdade, além do jornalista que "cumpriu uma grande função para o país". Em seguida o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), de forma arrogante e provocadora pediu que o representante da Liga respondesse se as fotos apresentadas são verdadeiras ou montagens, mas dissesse apenas que sim ou não.

Hallack respondeu com firmeza:

— A interpretação dessas fotos é montagem. A foto que é apresentada como treinamento de guerrilha é de um teatro e eu desafio a quem quiser provar que aqueles fuzis são verdadeiros.

Contra a criminalização

Em meio aos discursos transbordantes de ódio do latifúndio, levantaram-se vozes como as do deputado federal Eduardo Valverde PT/RO, que condenou a tentativa dos membros da comissão de agricultura de criminalizar a luta dos camponeses de Rondônia.

— A luta pela reforma agrária, é uma luta legitima (...) O meu desconforto é o fato de quererem criminalizar só um lado, sem considerar que do outro lado tem gente armada, que não é contestada, e com armamento muito superior ao que a IstoÉ coloca na revista. Quando o outro lado (o dos camponeses) resiste e pratica a autodefesa, é criminalizado. Vim até aqui para colocar uma outra visão. Porque soube que até o momento praticamente crucificaram a luta pela terra.

O deputado federal Ivan Valente PSOL/SP questionou o fato de a Liga dos Camponeses Pobres, o principal depoente, ser a primeira a se pronunciar sendo que na sequência os que tomaram a palavra, em sua grande maioria, a atacaram.

— Ele [o representante da LCP] deveria falar por último para poder responder a grande maioria do que foi dito aqui. Eu estranho que a revista IstoÉ tenha feito a publicação e nenhum outro órgão de imprensa tenha ido atrás. (...) O estado de direito no Brasil é violado todos os dias, pela grilagem de terra, por invasão de terra indígena, pelo desmatamento, pelas madeireiras, pela destruição do meio ambiente e por trabalho escravo nas fazendas. Não se cumpre prisão dessa gente. Os militares que estão aqui, que me desculpem, mas em matéria de direito, as exposições feitas aqui não tem nenhum valor jurídico, o nosso juiz pode dizer. Dizer que vocês apreenderam um livro do Mao Tse-tung, do Lênin, e isto é uma acusação (...) os militares brasileiros no DOI-CODI em 1970 penduraram gente no pau-de-arara porque liam Lênin. Todo mundo aqui já leu Lênin, Marx, Mao, isso não é acusação nenhuma. Temos que parar de brincar com isso, aqui temos é que trazer provas. A Polícia Federal tem um relato, a Policia Militar tem outro. A Polícia Federal investigou e não viu armas, a Polícia Militar diz que viu. E agora se fala que tem guerrilha no Brasil. Não vamos confundir guerrilha com criminalização do movimento social. Queremos saber a causa dos conflitos.

A verdade cala o latifúndio

Sem argumentos nem provas, latifundiários, policiais e pretenso repórter de IstoÉ calaram-se diante do representante da Liga dos Camponeses Pobres, que concluiu exigindo justiça e o fim da criminalização contra o movimento camponês.

— Reafirmo que não existe guerrilha em Rondônia. Nossa luta é pela terra. Nosso país tem a maior concentração de terras do mundo, 1% dos proprietários detém 50% das terras. O major Enedy trouxe um depoimento gravado quando sabe que a pessoa que o concedeu no julgamento dos companheiros Ruço e Joel afirmou perante o juiz que tinha sido obrigada a dar esse depoimento. Os deputados falam sobre o Pará, portanto sabem da fazenda Estrela de Maceió onde foi apreendido um arsenal de guerra e esse arsenal foi apresentado como se fosse da Liga dos Camponeses. Acusam a Liga, mas onde a Liga cresce é porque tem o apoio do povo. Se o povo esconde o rosto e se protege, é porque existem ameaças e matança generalizada e estas pessoas tem que se defender. Gostaríamos realmente que essa comissão nos desse prazo, que fossem chamados outros movimentos. Porque o que se tentou fazer aqui foi lavagem cerebral. Depois dessa reportagem, a não ser pelos interessados em criminalizar a luta em Rondônia, levantaram-se dezenas e centenas de vozes em defesa do movimento camponês. Nós nos sentimos representantes dessas vozes que se levantaram.

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