A retro-escavadeira da morte

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Governo do Rio anuncia compra de retro-escavadeiras fabricadas por empresa ianque utilizadas para assassinar palestinos pelo Exército de Israel

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A retro-escavadeira, que será usada no Rio de Janeiro, em ação na Palestina

O governo Sérgio Cabral parece não ter limites quanto ao emprego da violência contra o proletariado do Rio de Janeiro. Através de seu jornal oficial — O Globo — ele anuncia a aquisição de retro-escavadeiras blindadas fabricadas pela empresa ianque Caterpillar, com a justificativa de que as máquinas serão usadas para remover "barreiras construídas pelo tráfico". Mais conhecidas como bulldozers, essas retro-escavadeiras podem chegar a custar R$ 3 milhões a unidade, dependendo do modelo — valor quase dez vezes maior que o Caveirão, veículo fabricado pela Ford Motors por R$ 360 mil cada.

O que o governo Cabral não divulga é que os bulldozers estão ligados a todo tipo de violência contra o povo palestino. Em março de 2003 essas retro-escavadeiras blindadas ficaram mundialmente famosas. E não foi à toa. Uma dessas maquininhas, a serviço do Exército Israelense, simplesmente enterrou viva a ativista estadunidense Rachel Corrie, na Faixa de Gaza. Ela tinha apenas 23 anos. O caso ganhou repercussão mundial porque a vítima era do USA, mas milhares estão sendo mortos sem a mesma repercussão.

O fato é que essa máquina de guerra vem sendo utilizada para derrubar casas de palestinos, geralmente em Gaza, e de parentes de quem Israel considera "terrorista". Segundo organizações pacifistas e a resistência palestina, o exército de Israel utiliza os bulldozers para destruir casas de palestinos e continuar anexando territórios e saqueando riquezas naturais. Existe, inclusive, uma campanha internacional contra a fabricante dessas retro-escavadeiras. Sediada na Califórnia, seu slogan é "Caterpillar destrói lares" (www.catdestroyshomes.org).

O artista gráfico Carlos Latuff visitou os territórios ocupados na Palestina. Segundo ele, em Gaza "os palestinos sentem mais medo dos bulldozers do que dos próprios tanques de guerra. Isso porque quando os tanques aparecem nem sempre é para atacar, mas quando os bulldozers chegam, o ataque é certo. E seu poder é tão grande, mas tão grande, que eles vêm na frente dos tanques".

O Grupo Tortura Nunca Mais divulgou um "Alerta Urgente" com duras críticas ao governo Sérgio Cabral:

O governo fluminense em seu furor punitivo, fortalecendo uma política de segurança pública de confronto e extermínio, com tal postura intensifica e implementa, cada vez mais, soluções militarizadas. Entendemos que tal ação governamental encobre, em realidade, o extermínio de enormes parcelas de nossa população, de um modo geral pobres e, por isso, mesmo consideradas descartáveis".

Para a socióloga Vera Malaguti, secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia, trata-se de um aprofundamento da política de criminalização da pobreza:

— É a criminalização da pobreza no padrão bélico do enfrentamento. Como se Palestina, Iraque, Afeganistão, Colômbia e favela do Rio fossem tudo a mesma coisa. Esta é a forma como a política decadente neoliberal lida com os conflitos no mundo. Lembra a capa da revista Época, após a chacina do Alemão? A produção daquele policial que afirma querer servir no Iraque, assim como o capitão Nascimento, é interessante. O trator blindado é mais uma mercadoria que cresce tanto com o neoliberalismo.

A doutora Vera Malaguti lembra ainda da participação de empresários no governo Cabral e da responsabilidade do monopólio da imprensa na construção de um discurso que justifique a cultura da violência:

—  Para comprar um veículo desse para agir na favela tem que acreditar muito que o inimigo está ali. Para isso você tem que construir uma cultura de que esse é o inimigo, o que é passado pela imprensa. E é bom lembrar que existe o Gabinete de Gestão, com empresários e secretários. Eis a Economia da Morte, que precisa de um discurso que faça com que as pessoas acreditem que o inimigo está na favela.

Entre os movimentos sociais do Rio de Janeiro, logo surgiu a desconfiança: será que os bulldozers serão utilizados para destruir as casas previstas no roteiro do PAC das Favelas? Leonardo Chaves, subprocurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, afirmou durante ato público realizado no dia 8 de maio que apenas no Complexo do Ale-mão está prevista a demolição de 3.600 casas — e a reconstrução de apenas 400.

Georges Bourdoukan é jornalista e escritor. Libanês radicado no Brasil, já publicou diversos livros sobre a questão palestina. Em sua opinião, a compra de bulldozers pelo governo Cabral é o reconhecimento da falência desse modelo de Estado:

O governo reconhece que as favelas do Rio estão numa guerra civil. Aí você tem que mudar totalmente a forma de pensar o Estado, pois é o reconhecimento de sua própria falência. Pra você ter uma idéia de como esta arma é poderosa, bastam uma ou duas porradas pra derrubar uma casa. E olha que lá [na Palestina] as casas são fortes, feitas de areia, cimento e ferro. Também já destruíram inúmeras escolas, sempre com o argumento de que algum estudante era terrorista. Aí vão lá e põem a escola inteira abaixo.

Carlos Latuff vai além. Ele chama a atenção para a irresponsabilidade do monopólio da imprensa, que a todo instante insiste em dizer que o Rio de Janeiro está em guerra e usa este argumento para justificar a morte de civis:

Guerra é Estado de Exceção. Os direitos humanos são revogados, há diversos problemas como abastecimento, cortes de energia e etc. A imprensa e o governo tentam colocar a situação como se fosse uma guerra. Dizem isso para justificar a morte de civis e essa política de segurança cretina. Mas não existe guerra no Rio. Isso é uma irresponsabilidade. O que existe são gangues armadas que controlam favelas, mas que só conseguem isso por sua capacidade de corromper as autoridades. O tráfico não quer transformações políticas e sociais ou derrubar o governo; não há disputa ideológica. Eles querem continuar do jeito que está. A imprensa tem utilizado expressões como 'frente de combate' para justificar que ações policiais se transformem em ações militares.

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