O galo e o samba não param de cantar

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O samba é, sem dúvida, um dos principais ritmos musicais brasileiros. No entanto, poucos conjuntos do genuíno samba conseguem projeção através das rádios e emissoras de televisão. O Brasil está cheio de exemplos de pessoas dedicadas a preservar a cultura nacional e criar arte de acordo com o desenvolvimento de nosso povo e com os mais legítimos interesses das classes populares de nosso país. Entre esses exemplos se encontra o conjunto Galocantô, que junto com outros grupos, promove o samba, do mais clássico ao melhor do mais moderno na cidade do Rio de Janeiro.

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O que no começo eram eventuais encontros nas rodas de samba da Rua Joaquim Silva — coração da Lapa — tornou-se um conjunto da nova safra do samba, preocupado em manter viva a chama de bambas como Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Candeia, Cartola, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho e o grupo Fundo de Quintal.

Prova do sucesso está no CD Fina Batucada. Lançado em outubro de 2006, o disco tem 18 faixas, sendo 11 de autoria dos integrantes do grupo, cuja formação atual é de Rodrigo Carvalho (voz e percussão), Pedro Áreas, Léo Costinha, Edson Cortes e Lula Matos (percussão), Pablo Amaral (cavaco) e Marcelo Correia (violão de sete cordas).

Nas sete músicas restantes encontram-se participações valiosíssimas: Beth Carvalho na faixa Elo da Corrente; Arlindo Cruz, banjo e voz em Pra lá de legal/Para você voltar; Rildo Hora, gaita em Sempre marcou e Diogo Nogueira em Eminência Negra, além Velha Guarda do Império Serrano em Apesar do Tempo.

O grupo explica como conseguiu chegar ao patamar atual:

— Nos conhecemos na Lapa, mais exatamente no pagode do Ivan Milanez, em que o Pablo (cavaquinista) e o Léo Costinha, o surdista, faziam parte do grupo que tocava lá. O Ivan Milanez pertence à Velha guarda do Império Serrano, é compositor, instrumentista e percucionista (um dos melhores do mundo), já tendo tocado com Zeca Pagodinho. As outras pessoas foram se aproximando e nós começamos a formar o grupo que foi crescendo e, consequentemente, gravamos um disco. Vale lembrar que algumas pessoas do grupo inicial tiveram que nos deixar por motivos profissionais — relata Rodrigo Carvalho, vocalista e percussionista.

Lapa: o começo de tudo

O grupo começou a despontar em uma época em que a Lapa passava por mudanças estruturais. Mesmo que esta modificação viesse de uma forma ou de outra padronizar alguns serviços, encarecendo o consumo de lazer e cultura, para o Galocantô o reduto foi crucial para o processo de aproximação de novos admiradores para o samba. O bairro virou ponto de encontro e em grande parte das casas o samba tem lugar de honra:

— Evidentemente no subúrbio tem muito mais lugar tocando samba, mas a Lapa está sendo uma vitrine para novos sambistas, porque traz uma estrutura melhor e influencia pessoas novas a ouvir e tocar. Nós somos exemplo de um movimento de pessoas incentivado por essa transformação da região — Afirma o vocalista.

O samba sempre existirá

Viver exclusivamente de samba não é a tarefa das mais fáceis. As rádios, dominadas por interesses estrangeiros, disseminam incansavelmente músicas "globalizadas", jargão que define o caráter concentrador desses grupos monopolistas. Quando não estão enquadradas às estrangeiras, estão em gêneros como o pagode e o sertanejo. A partir da década de 80 o Brasil passou por uma invasão do que foi denominado por pagode, um suposto subgênero do samba, modelado com arranjos que caíram bem para o gosto comercial:

— A título de exemplo, temos o Tonico e Tinoco, personagens ilustres da música caipira, e o Chitãozinho e Chororó, do sertanejo. O samba tem o Cartola e o Jeito Moleque — grupo de pagode. Não consideramos o pagode como um mecanismo para ofuscar o samba pois achamos que este sempre existirá independente de qualquer circunstância. Logo, o pagode até o divulga, mas modelado pela conveniencia dos poderosos da música — opinam os integrantes

Censura ao popular

É diante desse contexto que os sambistas verificam uma censura — não só no samba, mas em tudo que desperta a consciência das massas — intimamente ligada às classes desprivilegiadas. No caso do monopólio dos meios de comunicação, gêneros populares são tratados como algo esporádico em vez de permanente.

— O samba não pára de tocar, mas recebe uma censura velada. Na verdade, tudo ligado à verdadeira cultura corre paralelo ao veiculado para a grande maioria através do rádio e TV, salvo raríssimas exceções. Uma pessoa que queira absorver cultura não utilizará rádio nem TV, mas sim a internet através de sites e mecanismos para ‘baixar’ músicas e para comprar CDs, entre outros. No rádio e na TV, a avassaladora maioria é jabá e o que sobra recebe apoio ínfimo. Não divulgam cultura popular e sim "créu". É um artifício advindo dos poderosos. Portanto, a grande mídia não tem compromisso com a cultura do povo — desabafa.

O conjunto não titubeia ao afirmar que o samba tem um contexto cultural forte e eles citam as músicas de Cartola como exemplo. Segundo o grupo, onde estiver tocando samba, seu ritmo inconfundível irá despertar interesse, na favela ou na Zona sul — área nobre do Rio de Janeiro:

— O xis da questão é colocar pra tocar. O que toca apenas é o artista ou grupo assediado pelas multinacionais da música, como Zeca Pagodinho (Universal Music). O ser humano aprende a gostar de música pelo que ouve, especialmente na infância — conclui.

O "galo" canta

Em 2008, o conjunto traz um novo show aos fãs. De terreiro em terreiro tem o propósito de passear pela história do samba e homenagear um dos grandes estudiosos do gênero: o historiador e jornalista Roberto M. Moura (1947-2005). O nome do show é inspirado no livro publicado por Roberto em 2004 — No princípio era a roda — sobre a influência das rodas de jongo, choro e samba como fator determinante para a preservação do gênero. No começo de junho, o Galo cantou em São Paulo pela primeira vez no show que presta homenagem a Roberto Moura.

No decorrer do ano, Galocantô se apresenta todo sábado, às 22 horas no Trapiche — uma casa de shows na Gamboa, Centro do Rio. E todo domingo o grupo faz a tradicional roda de samba — O Terreiro do Galo — ao reunir centenas de pessoas numa descontraída roda de samba no Grajaú Tênis Clube, no Grajaú, Bairro da Zona Norte do Rio. Lá não há microfone, o que permite uma roda de samba mais interativa com o público presente, predominantemente composto por artistas, músicos, compositores e pessoas de todas as idades.

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