"Ponham-se na rua"

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Especulação imobiliária e controle policial da população pobre estão na agenda do Fórum. Sonho de monopólios com a mercantilização total do espaço urbano é utopia reacionária.

Pelo terceiro ano consecutivo, o Fórum Nacional reservou um de seus painéis a um tema, à primeira vista, inusitado para um evento que sempre teve seu foco em discussões de cunho macroeconômico: o da ocupação do espaço urbano, em especial no Rio de Janeiro. Com diferentes e complementares enfoques e usando a linguagem cifrada e ambígua de sempre — passível até, em alguns casos, de ser confundida com um discurso progressista —, o que os conferencistas do painel Para onde vão as Cidades Brasileiras? Planejamento Urba-no (Desenvolvimento, Infra-estrutura, Segurança, Favelas) e Senso de Comunidade expuseram foi um plano de subordinação total das cidades aos interesses do grande capital.

Após exaltar as "virtudes da mercantilização da cidade", Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro (coordenador do Observatório das Metró-poles da UFRJ) apresentou, de ma-neira sistematizada, todos os argumentos usados habitualmente em favor da remoção, para bairros distantes, das favelas localizadas em áreas valorizadas no Rio de Janeiro. A remoção atende aos interesses da Associação dos Dirigentes de Em-presas do Mercado Imobiliário (ADEMI) — presidida pelo deputado Marcio Fortes (PSDB), que é também presidente do conselho diretor do Fórum — na medida em que abri-ria espaço a empreendimentos imobiliários de alto valor.

Segundo Ribeiro, "a concentra-ção territorial dos segmentos vulnerabilizados no mercado de trabalho e, simultaneamente, vivendo em estruturas sociais fragiliza-das desencadeia uma série de meca-nismos que tendem à reprodução das desigualdades e à pobreza" — isto é, as pessoas não moram em favelas por serem pobres, e sim são pobres porque moram em favelas. Daí porque seria necessário acabar com a "tolerância" a essa forma de moradia.

O despejo maciço das populações faveladas — acompanhado pelo fortalecimento do controle policial sobre a população pobre, defendido pelo coronel reformado da PM paulista, José Vicente da Silva — seria o primeiro passo para a concretização da utopia urbana exposta pelo presidente da Light, José Luiz Alqueres, em sua intervenção. No mundo vislumbrado por Alqueres, "o nível político executivo tenderá a ser substituído por alguma forma de administração contratada" e "as associações, sindicatos e outras formas de agregação de interesses, oriundas de uma ordem de produção ultrapassada, se enfraquecerão enquanto comunidades em rede (como Orkut e similares), academias de desenvolvimento do corpo ou do espírito e novas formas de espi-ritualidade e religiosidade agregarão adeptos".

Nesse admirável mundo novo sem política e sem sindicatos, só haveria duas necessidades a serem atendidas: "liberdade individual e segurança pública", "liberando capacidades e iniciativas que premiem o indivíduo sobre o coletivo". Alqueres adverte, no entanto, que, para chegar lá, é necessário garantir, antes, "um saudável ambiente para a realização de negócios e atividades produtivas, com redução da informalidade", mencionando, explicitamente, as perdas sofridas pela Light em razão de tributos e ligações clandestinas.

As palavras de Ribeiro e Alqueres são coerentes com os propósitos do evento. Afinal, foi com a chegada da corte portuguesa ao Rio, em 1808, que iniciou-se o processo de segregação territorial na cidade, com a "requisição" das melhores casas para abrigá-la. Os funcionários encarregados de expulsar homens do povo de suas moradias traziam a insígina "PR", de príncipe regente, que, na boca do povo, passou logo a ser entendida como "ponha-se na rua". Duzentos anos depois, a mensagem é a mesma.

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