Resenha de filme: Ventos da Liberdade

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A história do movimento republicano irlandês, particularmente a organização guerrilheira IRA (Irish Republican Army) já foi retratada em diversos filmes e geralmente seus temas mais abordados são o conflito religioso entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte e sua atividade bélica. Ventos da Liberdade (Wind That Shakes the Barley), ao contrário, dá ênfase aos conflitos ideológicos e políticos que emergem no interior do movimento nacionalista irlandês.

Ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2006, o filme inicia com uma brutal repressão do Black and Tan — o esquadrão inglês formado para reprimir o movimento de independência — contra jovens do interior irlandês. O protagonista principal, Damien (Cillian Murphy), revoltado com a brutalidade do assassinato de um amigo pelos ingleses, abandona a carreira de medicina em Londres e filia-se a luta armada nacionalista. Durante a década de 1920, a luta pela independência abarcava uma grande heterogeneidade ideológica entre os nacionalistas. Nas fileiras do recém formado IRA conviviam diversos ideais ligados à tradição socialista, ao movimento operário e comunista, além de diversas tendências nacionalistas. Contemporâneo à Revolução Russa de 1917 e ao ascenso do movimento operário na Europa pós-guerra, não é de se espantar que os socialistas estivessem presentes na luta contra a dominação britânica.

Logo nos primeiros momentos da narrativa um condutor ferroviário, por orientação do sindicato, se nega a transportar soldados ingleses em território irlandês, demonstrando a articulação da resistência nacionalista armada com o movimento operário.

Depois de algumas cenas de treinamento em ações de guerrilha, ações contra as forças de ocupação e a repressão, o filme concentra-se no debate político-ideológico acerca do caráter social da Irlanda pós-independência. Na prisão, o protagonista cita as palavras do famoso líder socialista James Connolly (1868-1916) em um significativo diálogo, marcando as tensões ideológicas do movimento:

"Se retirarem o exército britânico amanhã e hastearem a bandeira verde no castelo de Dublin, a não ser que organizem uma república socialista, todos os seus esforços terão sido em vão e a Inglaterra ainda os governará por meio dos donos de terra, dos capitalistas e das instituições comerciais".

Em outra cena, após diversas vitórias republicanas, com um recém formado Tribunal Republicano Independente, uma das autoridades revolucionárias com inspirações igualitárias decide a favor de uma pobre mulher contra um burguês que lhe emprestara dinheiro. Alguns membros do IRA, em particular o principal dirigente republicano da região, Teddy O'Donovan (Padraic Delaney) interfere na decisão em prol do pequeno capitalista, desautorizando a decisão do tribunal.

A cena é emblemática por demonstrar os conflitos entre membros do IRA que se apoiaram em camadas sociais mais abastadas para organizar a resistência e os socialistas que participaram da luta pela independência.

Em 1921 o acordo Anglo-Irlandês acertou o reconhecimento parcial da soberania irlandesa, estabelecendo um denominado "Estado Livre Irlandês" (Saorstát Éireann), semelhante ao Canadá, onde um Governador Geral representaria a Coroa Britânica no novo Estado, o Parlamento (Dáil Éireann) juraria lealdade à monarquia britânica e o norte do território irlandês continuaria como parte da Inglaterra.

Opondo-se aos acordos e à posição de Michael Collins — uma legendária figura republicana — os socialistas falam pela voz do protagonista:

"Se ratificarmos esse tratado estaremos destruindo dois bens mais preciosos que conseguimos com a ultima eleição. Primeiro um mandato pela total liberdade, não parcial. E segundo: um programa democrático com o qual o bem da nação vem antes do bem privado. Esse tratado vai intensificar o poder do rico sobre o pobre, pois um governador geral que transformará o nosso parlamento em fantoche. E será como sempre foi; com os trabalhadores presos a empregos em fábricas e os companheiros implorando emprego".

O debate e a tônica que o filme explora tem um clímax nas palavras de outro socialista mais velho que se opõe ao tratado: "Se ratificarmos esse tratado, só estaremos mudando o sotaque dos poderosos e as cores da bandeira".

Ao final, o filme mostra o conflito armado entre os membros do IRA que não aceitaram o tratado e o novo governo da Irlanda, iniciando um novo período de Guerra Civil (1922-1923) e introduzindo os temas que serão motivo da conflagração do cenário político do país durante todo século 20.

Griffith e Collins — os principais líderes da luta republicana — aceitaram o tratado e iniciaram um processo de recomposição das instituições no país, parte do IRA e do Sinn Fein seguiram a luta contra a dominação britânica no norte da ilha e foram perseguidos pelas forças da nova ordem.

Durante a Guerra Civil Collins e Griffith foram mortos, mas os favoráveis ao tratado venceram. Os membros do IRA, liderados por Éamon de Valera, seguiram lutando através de táticas guerrilheiras, sabotagens e fustigamentos contra a dominação britânica no norte. O Sinn Fein seguiu como um braço político do IRA, atuando em defesa da independência total da ilha através dos mecanismos institucionais. Éamon de Valera sairia do Sinn Fein e fundaria o partido Fianna Fail, com o qual seria eleito para o parlamento irlandês e contribuiria para a conquista da soberania plena do país em 1937 e a saída definitiva da Irlanda da Comunidade Britânica das Nações (Commonwealth) em 1949.

O mérito do diretor Loach foi aprofundar em sua narrativa outros temas relacionados ao conflito na Irlanda e ao IRA, que diferem das abordagens que reduzem o conflito a uma pugna religiosa,   particularmente ao enfocar a participação socialista na independência irlandesa e as motivações ideológicas da Guerra Civil.

O filme, mais que uma obra de qualidade cinematográfica, ajuda a entender um momento fundamental da luta pela soberania irlandesa e suas tensões políticas atuais.

Ventos da Liberdade

Título Original: Wind That Shakes the Barley
Elenco: Cillian Murphy, Padraic Delaney Teddy, Liam Cunningham  Dan, Gerard Kearney  Donnacha, William Ruane  Gogan, Orla Fitzgerald  Sinead, Frank Bourke Leo, Máirtín de Cógáin Sean, John Crean Chris, Roger Allam, Sir John Hamilton
Direção: Ken Loach
Roteiro: Paul Laverty
Alemanha/Espanha/França/Irlanda/Reino Unido, 127 min.

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