O som do cavaco pelas mãos de um guerreiro

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Nascido e criado no morro da Providência, centro do Rio — palco do episódio onde militares do exército sequestraram três jovens e os venderam a traficantes — Ney ficou cego aos 14 anos e mesmo assim aprendeu a tocar cavaquinho e seguiu com os estudos. Hoje, com 33 e sem o amparo do Estado, ele se diz um revolucionário.

http://anovademocracia.com.br/46/23b.jpgEm 13 de agosto de 1989, Sidney Ferreira saiu de uma festa na praça do Santo Cristo e quando subia o morro voltando para casa, deparou-se com uma viatura da polícia. Mal poderia saber que, a partir de então, sua vida mudaria para sempre. Ele conta que, da abordagem, passando pelo incidente, até o atendimento médico, o descaso foi total.

— Eu subia a ladeira por trás dos prédios, aqui na Gambôa, quando topei com um daqueles Opalas antigos da polícia civil. Quando eles me viram, pediram pra eu encostar e me revistaram, eu perguntei se podia ir embora e eles disseram que não, que eu ficasse sentado. Fiquei um tempo esperando, quando um dos policiais gritou: 'Tão vindo, tão vindo'. Aí que começou um tiroteio e um tiro de calibre 12 bateu perto de mim e alguns projéteis me acertaram, inclusive nos olhos. Mesmo sem enxergar nada, eu saí de lá. Fui descendo o morro me escorando e quando cheguei lá embaixo uma patrulha da PM, um fusca, não quis me levar para o Souza Aguiar. Quando os moradores cercaram a patrulha e ameaçaram quebrar tudo, eles concordaram — recorda.

O descaso do Estado

Ele conta que, depois que perdeu a visão, teve que perambular em busca de ajuda médica por diversos hospitais, com raríssimas ocasiões bem sucedidas.

— Antes do meu aniversário eu ainda estava enxergando, mas, um dia, acordei e minha vista estava meio quebrada, igual à de uma abelha. Daí então eu comecei a peregrinação. Fui a vários hospitais até conseguir algum atendimento: Servidores do Estado, Gafree Guinle, Fundão, Clínica de Santa Beatriz, em Niterói. Lá no Centro Oftalmológico de Botafogo um médico, o Dr. Ivo, me examinou, diagnosticou o meu problema e disse que a cirurgia custaria 15 mil reais. Então eu disse que, pelo visto, ficaria cego para sempre. Ele me orientou a fazer alguns exames e que quando eu estivessem todos prontos, voltasse lá que ele iria me operar de graça. Fiquei cheio de esperanças. Com muito esforço conseguimos fazer os exames no Salgado Filho e quando eu voltei lá, me disseram que o doutor havia voltado para Minas Gerais. Depois eu ainda descobri que, na verdade, ele tinha aberto uma clínica em Niterói — conta Ney indignado.

Na busca pela aposentadoria do INSS, garantida a todos os deficientes visuais, mais decepção.

— Para eu receber esse benefício já rolou de tudo. Na primeira vez eu fui lá e, antes de me examinar, o rapaz falou: 'Olha aí meu irmão, isso aqui é crime federal hein. Você é cego mesmo né?' Eu falei que sim e não passei por nenhuma triagem ou bateria de exames. Quando fui pegar o resultado: indeferido. Tentei outras vezes, inclusive com a ajuda de um amigo, mas sempre indeferido. Na última vez, o médico se justificou dizendo que eu já tinha feito curso lá no Benjamin Constant e que tinha condições de trabalhar. Disse que eu era um privilegiado. Que eu tinha o direito, mas ele não ia me dar. Agora eu entrei na justiça e o juiz deu uma liminar a meu favor — conta Ney.

Violência policial

Ney conta que, mesmo cego, já foi vítima de intimidações e de agressões da polícia.

— Uma vez, quando subia ali pela Pedra Lisa, me escorando no ombro de dois amigos, os policiais abordaram a gente, quando eu retruquei ganhei uma coronhada na cabeça e quando perceberam que eu não enxergava nem me ajudaram a levantar. Fui embora com a cabeça cheia de sangue. Outra vez eu subia com um amigo quando outros dois policiais abordaram a gente dizendo que 'Já sabiam'. Eu perguntei o quê e disseram que eu era o dono do morro e o meu amigo era o meu gerente, é mole? Insisti em ir a delegacia e então nos liberaram. Já tentaram entrar na minha casa e eu não deixei. Só quando eles pediram cordialmente, explicando que havia uma denúncia, eu deixei, mesmo assim só um deles e sem fuzil — lembra.

O cavaquinho surgiu em sua vida em 1995. Quando percebeu que os grupos de samba e pagode que conhecia sofriam com a vaidade de alguns cavaquinistas, Ney resolveu aprender a tocar o instrumento. Daí por diante ele não parou mais.

Música: a solução

— A galera que eu conhecia, sempre teve problema com cavaquinista, porque os caras ficavam de estrelismo. Daí eu pensei: 'vou aprender a tocar pra acabar com o problema'. Lá no Bandolim de Ouro, uma escola de música na Marechal Floriano, um rapaz chamado Julinho, me falou que se eu conseguisse comprar o cavaco, ele me ensinaria de graça. A gente fez uma força, parcelou no cartão e comprou e fui aprendendo. Hoje tenho o sonho de tocar profissionalmente. Não sou o único deficiente visual que tem alguma habilidade. Conheço muitos. Um deles é ótimo estofador. Um dos melhores. Faz tudo sem enxergar — conta orgulhoso.

Entre as suas inspirações musicais — muito variadas, por sinal — o samba está sempre presente.

— Eu me inspiro em todo tipo de música. De samba eu curto tudo. Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Fundo de Quintal, Candeia, Dona Ivone, Monarco, Cartola, etc. Eu gosto de qualquer música que seja boa — revela.

Educação exemplar

Além do cavaquinho, Ney conta que nunca deixou de trabalhar e estudar e, mesmo com todos os obstáculos. — O Estado não liga pra quem mora na favela. Ele não tem dinheiro nem atenção pra gente. Eu sempre falo pro povo daqui ser mais unido, que a união faz a força. Mas o povo está muito alienado por televisão. Eu sempre me achei revolucionário. Sempre trabalhei, independente do meu problema. Sou operário de obras e se tiver que carregar saco de cimento, eu carrego, concerto cano, concerto fiação, ajudo a bater a laje, faço tudo sem enxergar. E ainda estudo. Quando aconteceu isso comigo, eu pensei que tinha que estudar. Estudei em escola normal, com crianças normais, porque não tinha escola pra mim. Estudei no Tia Ciata, antigo colégio de meninos de rua, na praça XI, e também no Rivadávia Correa, no Centro. Através de cursos como Benjamin Constant, na Urca, onde são oferecidas aulas por áudio, e o Ciad Mestre Candeia, no Centro, estudei vários assuntos. Fiz curso de sociologia e gostei muito de estudar marxismo. Parei na aula de materialismo histórico — conta Ney.

Sua esposa Rosana dos Santos, com quem Ney casou-se e teve três filhas, conta que ele não poupa esforços na educação das meninas e é um ótimo pai.

— As nossas meninas só tiram nota boa, são muito estudiosas. O Ney ensina tudo a elas, ele conhece de tudo um pouco, é um pai exemplar — revela com orgulho.

Ney demonstra saber que a maioria de suas dificuldades existem pelo descaso do Estado, corrupto e falido, em assistir, não só aos portadores de deficiência, mas à imensa maioria da população.

— A constituição não diz que a lei deve ser igual pra todos? Que todos devem ter o mesmo direito? Então, se na prática isso não funciona, é porque tem alguma coisa errada. Esses casos recentes, quando morreu gente no asfalto pela polícia. Isso sempre acontece no morro, mas quando pobre morre, ninguém fala nada. Agora que essa violência desceu pro asfalto, eles mostram que existem dois pesos e duas medidas. Aqui pode, lá não — conclui.

O que Ney constata como ineficiência do Estado não é senão a aparência que encobre a ação eficiente e objetiva de Estado reacionário de grandes burgueses e latifundiários a serviço do imperialismo.

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