A cultura do Vale no som da viola

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Nascido em uma pequena cidade no alto do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, e envolvido desde bem pequeno com as riquíssimas manifestações artísticas populares da região, o violeiro Wilson Dias mantém o seu jeito caipira, do qual se orgulha, e as tradições da sua terra. Lançando seu terceiro CD, Picuá, por todo o Brasil, ele se considera o próprio picuá: um homem guardador de histórias, tradições, causos e riquezas culturais.

http://anovademocracia.com.br/46/23.jpgPicuá, entre outras definições, é o nome que se dá a um pequeno recipiente onde se guarda ouro em pó e pedras preciosas, sendo muito usado pelos garimpeiros. No caso do terceiro disco de Wilson Dias, é o local onde se encontram preciosidades da cultura brasileira, as manifestações existentes no Vale do Jequitinhonha, ao mesmo tempo em que o próprio Vale também é um picuá, guardador das tradições.

— A cultura popular do Vale do Jequitinhonha é uma espécie de fermento de bolo que me movimenta, faz crescer e circular. O ponto de partida da minha identidade cultural, muito presente em minha vida — conta.

— Apesar de viver há 27 anos em Belo Horizonte, estou em sintonia com as manifestações do Vale, indo todos os anos para lá 'espiar' de perto. Costumo dizer que faço música popular brasileira, tendo como fio condutor a cultura popular do Vale — continua.

Wilson nasceu na cidade de Olhos D'água (MG) e ainda bem jovem mudou-se para a capital mineira. Na ocasião não pensava em ser músico, apesar de já ter aprendido os primeiros acordes na viola de seu pai, e mesmo sem ter planejado acabou trabalhando nas noites de Belo Horizonte.

— Vim por causa de um sonho que grande parte dos interioranos têm, que é o de conseguir emprego, melhorar de vida na cidade grande. Fui morar com um primo, que também tocava, e acabamos indo tocar em bailes, festinhas de amigos. Inclusive, esse primo, Itamar Lima, é hoje um parceiro. Gravamos composições que fizemos naquela época — diz Wilson, que mais tarde estudou teoria musical.

— Conhecemos também naquela época uma parceira, a poetisa piauiense Socorro Pinho, que assina praticamente onze faixas do meu primeiro disco. São poemas que eu musiquei. Também têm canções de domínio público recolhidas, voltando para a herança da família, dos momentos festivos de reuniões do povo. Gravo muitas músicas recolhidas de domínio público e costumo dizer que, quando componho uma canção, ela também tem essa característica, porque a minha fonte é a cultura popular. Não fui para a faculdade estudar esse universo e fiz pesquisas, simplesmente vivi e isso acontece com os artistas do Vale — acrescenta.

Wilson morava em uma comunidade rural, cercado de parentes, que se reuniam todas as noites no final de um dia de trabalho, juntamente com outros vizinhos, para fazer uma brincadeira comum na região.

— Como ninguém tinha televisão em casa, nos juntávamos para brincar de jogar versos, cantar, de improviso, uma espécie de desafio de repente nordestino, só que em uma roda. Quem não tinha mais versos ia saindo até se chegar ao vencedor. Uma brincadeira extremamente cultural, e que me influenciou muito, tanto que muitas das canções que componho são feitas de improviso, letra e música. Essa brincadeira é tão boa que costumo usar quando faço alguma oficina de música — comenta com alegria.

E essas brincadeiras também geraram muitos causos, namoros e casamentos, já que os moços as usavam para declararem seus interesses e vice-versa.

— Quando tinha alguém 'doido' para conquistar uma menininha, jogava um verso para ela nesse sentido, e geralmente ela já sabia, e respondia. E tinha que ter muito cuidado, porque o pai da moça, às vezes, estava por perto e, se descobrisse aquilo, marcava o casamento para daí quinze dias (risos) — conta.

— Também era fácil quando alguém queria dar um fora no outro. Era um negócio muito interessante e ingênuo também, os dois davam aquelas 'rabiscadas' de olhos e já sabiam que queriam namorar. Hoje as pessoas estão mais dispersas, preferindo ficar horas vendo televisão, nem sempre bons programas, do que conversar, jogar versos, discutir assuntos diversos — comenta.

Mas em sua casa Wilson ainda preserva esse hábito das conversas em volta da mesa, além de conseguir reunir praticamente toda a família em torno do seu trabalho, com exceção da filha caçula de 5 anos de idade.

— O mais velho, de 18 anos, é meu violonista e toca flauta também; o outro tem 14 e já é meu baixista, toca caixa de folia e canta a folia do norte no meu novo disco; e a minha esposa faz a minha produção — explica.

Orgulho de ser matuto

— Me considero um matuto. Nunca abandonei o meu jeitão caipira, o sotaque, e sinto um orgulho 'danado' disso. As minhas músicas falam de amores, de causos, do cotidiano do interiorano, do matuto, e costumo dizer que Belo Horizonte é uma cidade grandiosa, porém meio interiorana, caipira. Aqui ainda se preservam características de pessoas do interior. Saímos nas ruas e encontramos pessoas que vêm lá da sua cidadezinha e nos cumprimentam e gritam, o que é um costume bem do interior — constata.

Em suas músicas também aparece o lado mineiro, como diz, observador de tudo a sua volta.

— Martin Pescador que está no meu novo CD, mostra um pouco desse meu jeito de observar pequenos detalhes à minha volta: Certo dia, depois de ter tido uma pequena discussão com a 'patroa', saí para fazer minha caminhada e acabei parando para observar o Martin Pescador, um pássaro comum por aqui, com a sua martinha, e percebi que ele estava numa situação parecida com a minha, tinha dado uma 'brigada'. Até que ele voou, mergulhou e pegou um peixe e trouxe no bico pra ela, que virou as costas, como que dizendo 'ah, não quero, você me aborreceu'. E ele ficou insistindo. Aí pensei que por muito menos eu estava com raiva e o Martin ali ensinando como 'recolher a pipa na hora certa' para não ficar perdido no vendaval. A música conta isso — continua.

Wilson lembra que nas noites tocou violão, que já foi baixista de banda de baile e acompanhou alguns artistas, mas seu instrumento mesmo é a viola caipira.

— A viola é um instrumento 'danado'. Nós costumamos dizer que ela tem alma feminina, e quando nos pega, toma conta mesmo. O violeiro não costuma largar a viola para tocar outro instrumento, e quando acontece, é por pouco tempo, logo retorna, porque nos prende a nós mesmos. Meus amigos violeiros também falam isso — declara.

— E ela é bem recebida em toda parte. Temos trabalhado bastante, com muitos shows por Minas e pelo Brasil afora. Mas ainda temos pique para trabalhar bem mais — acrescenta.

Os três discos de Wilson foram feitos de forma independente e são vendidos em seus shows e pelo sítio: www.sonsesons.com.br.

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