Nos bancos, exploração sem limites

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Bradesco e Banespa/Santander se destacam pela prática de assédio moral contra funcionários, agressão que lentamente atinge o trabalhador e pode até causar sua morte

O setor bancário tem se destacado nestas últimas duas décadas pela reestruturação do setor, associado a políticas de fusões, privatizações, desregulamentações e redução acentuada dos custos operacionais. Por outro lado, otimizou o uso da informática e partiu para uma política agressiva de transformação das agências em lojas de vendas e negócios, fechamento de contas não rentáveis, demissões estimuladas de antigos funcionários, contratação de estagiários e de ex-funcionários através de empresas terceirizadas.

Com o aprofundamento da aplicação da chamada política neoliberal, os lucros dos bancos ascendem a índices estratosféricos, garantidos pela condição semicolonial do Brasil e pelo serviço de lacaios, como os sucessivos gerentes que se revezam no Palácio do Planalto, que proporcionam a esses bancos as mais altas taxas de juros e extorsivas cobranças pela manutenção das contas dos clientes. Não é por acaso que, semestre após semestre, apresentam lucros bilionários. Só o Bradesco fatura, por ano, R$ 8 bilhões. É o único caso no mundo onde uma empresa de grande porte triplicou seu patrimônio num período de apenas dez anos.

Não satisfeitos com as facilidades proporcionadas pelas condições de exploração dos trabalhadores e clientes, os bancos aprofundam um recurso torpe utilizado desde os primórdios do capitalismo, o assédio moral. Gostaram tanto que o adotaram como filosofia de gestão.

É o que explica a médica do Trabalho Margarida Barreto, pesquisadora do Núcleo de Estudos Psicossociais de Exclusão e Inclusão Social (Nexin-PUC/São Paulo) e assessora técnica do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Plásticas, Farmacêuticas e Similares de São Paulo:

— As mudanças nas formas de produzir e organizar o trabalho marcaram as duas últimas décadas do século passado, trazendo consequências como a quebra de direitos sociais, reformas no contrato laboral, terceirizações e quarteirizações, crescimento do setor informal, aumento do subemprego, precarização do trabalho, desemprego massivo e aumento da miséria urbana. As repercussões na vida dos trabalhadores foram imediatas, passando a exigir mais eficiência técnica, espírito competitivo e agressivo, flexibilidade e polifuncionalidade. A reestruturação, e consequente enxugamento da máquina empresarial, exige trabalhar mais, com menos pessoas. Nesse contexto, aparece o assédio moral que transversa toda a jornada, em íntima relação com os pensamentos, emoções e afetos — explica.

Mas o que é assédio moral? Trata-se de um conjunto de atitudes que visam ao controle absoluto dos trabalhadores pela opressão constante. É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinados, desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego.

O assédio moral caracteriza-se ainda pela degradação deliberada das condições de trabalho, em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e pela vergonha de serem também humilhados — associado ao estímulo constante à competitividade — rompem os laços afetivos com a vítima e, frequentemente, reproduzem ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando uma espécie de pacto de tolerância e de silêncio, enquanto a vítima vai gradativamente se desestabilizando e se fragilizando, 'perdendo' sua auto-estima. Não são raros os casos em que a vítima adoece devido a esta agressão.

A doutora Margarida Barreto vai mais além, e garante que o assediado pode até morrer em função da pressão psicológica:

— Ser assediado moralmente constitui uma experiência subjetiva que interfere em sentimentos e emoções, altera o comportamento, que agrava ou desencadeia doenças podendo, inclusive, culminar com a morte da vítima. O cerco contra um trabalhador ou uma equipe pode ser explícito, ou não, manifestando-se em risos, comentários maldosos, apelidos estigmatizantes, agressões verbais, ameaças, empurrões, humilhações, constrangimentos e coações públicas, que ferem a dignidade e identidade do outro — conta.

Em 2001, a doutora Margarida conduziu uma pesquisa no banco Banespa/Santander e fez um levantamento entre os 1.001 funcionários que responderam ao questionário distribuído. Entre as ameaças mais frequentes figuram as seguintes frases: "Funcionários sendo humilhados direta e indiretamente porque não cumpriu a meta", "Fui apontada com o dedo indicador como a próxima a ser transferida", "Reuniões em que os diretores querem ensinar humilhando as pessoas cobrando produção sem parar. Lema: vender, vender, vender, etc... ou a porta da rua é a serventia da casa".

Um caso concreto de assédio moral foi denunciado por Viviane da Silva Barros que, segundo o Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, vem sendo perseguida pela gerente-geral da agência Nova América do Bradesco, Maria Elizabeth Gonçalves Barbosa. Viviane foi reintegrada judicialmente e transferida contra sua vontade. De acordo com o sindicato, a bancária até hoje não recebeu seu vale-transporte e foi proibida de utilizar o horário de trabalho para se inteirar das normas internas.

"Viviane contou que a perseguição começou antes da sua demissão e se deve ao bom relacionamento profissional que tinha com a ex-gerente-geral. [Ela] questionou o fato de a atual gestora ser esposa do gerente geral da Inspetoria, classificando a situação como um conflito de interesses que contraria as normas do Bradesco, já que ele é o responsável pela fiscalização das agências, inclusive a de Elizabeth", diz a denúncia.

No último dia 27 de maio, o sindicato realizou protesto em frente à agência Santa Clara do Bradesco. Motivo: sucessivas denúncias de assédio moral praticado pelo gerente-geral. Nos discursos e panfletos impressos distribuídos à população, os dirigentes da entidade denunciaram que a agressão vem ocorrendo em diversas outras agências do banco, como forma de pressionar os funcionários a cumprirem metas inatingíveis. Tão inatingíveis, quanto o lucro dos acionistas.

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