O polivalente das artes

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Cantor, compositor, instrumentista, escritor, poeta e também pintor, o mineiro Paulinho Pedra Azul começou sua carreira ainda menino nos festivais de colégio, na cidade de Pedra Azul, onde nasceu, no Vale do Jequitinhonha. Aos quinze anos já fazia parte de um conjunto que se apresentava em vários locais e em festivais do Vale. Considerado um dos artistas mais importantes de Minas Gerais, Paulinho é um brasileiro consciente e crítico diante da censura do monopólio dos meios de comunicação contra a verdadeira música popular brasileira e em tudo que faz está sua luta em defesa da cultura nacional.

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Paulinho teve influência do mundo à sua volta no Vale do Jequitinhonha, músicos nordestinos como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro e instrumentistas fantásticos como o violonista Guilhermano Reis e o flautista Altamiro Carrilho. Além da influência dentro de sua própria casa.

— Meu pai sempre gostou de poesia e de escrever, minha mãe cantava e tinha uma voz bonita, e meu irmão tocava violão e cantava bem. Além disso, a nossa região é muito rica culturalmente, com manifestações importantíssimas e enriquecedoras, e pela proximidade com a Bahia recebe muita influência de lá, e também de outras partes do nordeste — conta.

Paulinho é autodidata em todos os setores que desenvolve, como muitos outros brasileiros que fazem arte popular.

— Essa coisa de aprender pela intuição, tocar 'de ouvido', é bem brasileira, e aconteceu com vários artistas da minha geração e principalmente da minha região, já que não tínhamos uma escola de música na cidade. No começo da minha carreira compunha, tocava violão, cantava e pintava muito, porque tinha esse tempo, com o tempo fui me dedicando profissionalmente à música, vamos dizer que escolhi a música para me dedicar um pouco mais — diz.

— Minha inspiração para compor e escrever poesias vem do acúmulo de informações que tenho, em viagens, no dia-a-dia, quando vou me deparando com relações humanas, encontros e desencontros, amores, a vida das cidades por onde passo, e das pessoas que conheço em cada uma, e o encontro com manifestações culturais diversas pelos interiores do Brasil. Considero meu trabalho como se fosse um diário — declara.

A música de Paulinho é bem diversificada, e essa variação faz seu trabalho ficar melhor, sempre procurando prezar pela qualidade ao compor.

— Ultimamente tenho composto com parceiros instrumentistas, que me fornecem a música, entre outras: xote, baião, choro, samba, e isso ajuda a diversificar minha forma de compor, apesar de que a letra fica sempre com a característica do autor.

— A música brasileira é pra lá de diversificada, com ritmos maravilhosos. Mas sabemos que a mídia está aí fazendo a pior qualidade de divulgação de música no Brasil, e não tem respeito pelo ouvinte. E tenho percebido que quanto pior for o trabalho mais ele é tocado nas rádios e aparece na televisão  e isso é algo difícil de aceitar. Alguns compositores novos, sem compromisso com o povo, por ouvir o ruim que está tocando, acham que essa é a única coisa que existe e o que dá dinheiro, e faz algo pior ainda para poder concorrer com o péssimo que está sendo tocado — observa.

A melhor música do mundo

Paulinho não se cansa de afirmar que a música brasileira é a melhor do mundo, com uma variedade de ritmos, extremamente ricos musicalmente, que são respeitados em toda a parte.

— Nos EUA, Canadá, Cuba, Suíça, Itália e outros países que visitei, pude ver o quanto nossa música é querida. Na China e Japão, por exemplo, as pessoas amam o choro, a MPB e querem aprender a tocar. Valorizam porque ela é realmente a melhor música do mundo. A melodia é a mais bonita, a letra, a poesia, tudo é melhor. É a mais rica em termos de ritmos, diversidade, e creio que tem espaço para todos, e não somente para a música descartável, que empobrece culturalmente o povo — comenta.

— E os novos compositores da boa música brasileira estão surgindo, renovando o que já era bom. São músicos cheios de energia e disposição para lutar pela nossa música com seus discos fantásticos, a maioria gravada de forma independente. Posso dizer com certeza que tem muita gente compondo coisas boas por esse Brasil afora — acrescenta.

— Temos compositoras talentosíssimas que estão fazendo músicas maravilhosas, como Teresa Cristina, que gosta muito de samba e compõe bem demais, e Roberta Sá. Aqui em Minas Gerais também tem muita gente nova compondo, fazendo música de qualidade — afirma.

Paulinho costuma rodar por muitas cidades brasileiras e tem visto de perto o amadurecimento e o bom gosto desses novos talentos.

— Creio que essa geração vai ajudar a salvar futuramente a nossa música, mantendo-a viva e passando para as gerações que ainda virão. Ela não morreu até hoje pelo massacre da mídia, a censura da ditadura militar, e quando o povo consegue ouvi-la, ela ganha mais força ainda. Contudo, temos um público fiel, que nos acompanha, e que nunca acreditou que a música de qualidade vai acabar. Ele consome nosso trabalho, assiste aos nossos shows, e ajudam a fazer a nossa divulgação entre amigos, de forma espontânea — diz.

— Há cerca de vinte anos, eu e outros artistas  fazíamos apresentações em universidades, mas desde que a mídia elegeu os 'axés, pagodes e sertanejos da vida', somente aqueles que tocam esse tipo de música podem. E era muito bom o tempo que se ouvia Gonzaguinha, Chico Buarque, Dominguinhos, e outros, nas universidades deste Brasil todo, com cerca de dez mil pessoas assistindo. Creio que houve uma troca de valores e que não foi nada boa para o pessoal universitário — acrescenta.

— É claro que tem o bom pagode como o do Zeca Pagodinho e do Almir Guineto, com qualidade. Também no chamado sertanejo, o próprio Chitãozinho e Xororó, no início da carreira, fizeram algo regional que lembra a verdadeira música sertaneja, que geralmente fala dos problemas do campo, dos causos, do amor caipira. Mas, hoje, tocam o que não tem nada a ver com o sertão, muito pelo contrário, fala de coisas bem urbanas, das traições e motéis, do amor passional, o que não têm na roça. O amor da roça é diferente, é mais bonito, lírico — continua.

Paulinho comenta que se alguém liga a televisão em um domingo para ver um programa de auditório de um canal aberto, que é o que o povo tem acesso, se depara com uma dessas três vertentes, e se muda de canal encontra a mesma coisa, e assim por diante.

— Ninguém consegue ver um Beto Guedes, Chico Buarque, Paulinho da Viola se apresentando. E por conta dessa realidade já foi o tempo que alguém passava perto de uma construção e ouvia os operários assobiando músicas desses artistas — lembra.

— Atualmente as pessoas simples, com pouca instrução, pouco dinheiro, não têm o direito de ouvir coisas boas, e engana-se quem diz que essas pessoas, muitas vezes analfabetas, são burras, muito pelo contrário, são inteligentes e sensíveis, e se ouvirem música boa, vão assimilar e sair cantando. É uma questão de castração do direito de escolha do povo — continua.

Ganhando o adulto de amanhã

Paulinho costuma dizer que escreve livros infantis para renovar seu público e fazer a criança ver um mundo diferente do apresentado pela mídia na televisão. Desta forma, ele está ganhando o adulto de amanhã para a cultura, despertando-as para temas importantes, ou pelo menos fazendo o que pode para que ela possa fugir da massificação da cultura por parte do imperialismo, com os medíocres programas destinados a elas.

— Tenho quinze livros ao todo, sendo cinco de poesia infantil. Simpatizei com essa poesia desde que comecei a escrever, há cerca de vinte anos, quando tinham poucos títulos publicados, geralmente de escritores já famosos nessa área. De um tempo pra cá começou a abrir mais esse leque, até porque não dava para a criançada ficar lendo todos os anos os mesmos textos, a própria educação é uma renovação — afirma.

— Dois desses livros se tornaram musicais infantis, para os quais fiz uma parceria com alguns amigos que musicaram os poemas. Atualmente estamos comemorando a oitava peça infantil, que deverá entrar em cartaz em janeiro próximo, chamada De olho no clima passando para as crianças o dever de cuidar da natureza, da camada de ozônio. É uma peça educativa — acrescenta.

— Tive a sorte de em algumas escolas terem feito trabalhos desses meus livros, redesenhando-os, reescrevendo-os.  E fico emocionado por perceber que estou colaborando com o crescimento, na forma educativa, de alguns seres humanos, eu que não tive a oportunidade de estudar muito, aprendendo mais de forma intuitiva, conseguir passar para a criançada um mundo diferente, uma poesia lúdica, informando sobre temas importantes — continua.

Paulinho já ganhou alguns prêmios educativos e por três vezes consecutivas o maior prêmio do teatro infantil de Minas Gerais, por trilha sonora. As peças são premiadas também em outras áreas como direção, ator e atriz.

— Procuro escrever os meus livros da forma mais simples possível, mas sempre mandando uma mensagem para a criançada, porque irá servir de base para ela, já que não costuma esquecer de um musical que viu, ainda que bem pequeno. Por isso, acho que é uma boa forma de atingi-la, dando a um ser humano desde pequeno uma chance de fugir da massificação da mídia, uma opção — explica.

— Já aconteceu, por exemplo, de pessoas irem a um show meu e me procurar ao acabar para dizer que leu meu livro quando era muito pequeno, a agora passou para o filho. Isso é muito gratificante e deixa claro para nós que vale a pena levar a sério o seu trabalho e esperar o retorno tempos depois — continua.

Paulinho diz que tem mais de duzentas músicas destinadas as crianças e que para o futuro pretende colocá-las em um DVD.

— Geraldo Alvarenga é meu parceiro mais constante nesse trabalho. Sempre procuro fazer um xote, um baião, um choro, um samba, balada, para a criançada ter a oportunidade de conhecer vários ritmos brasileiros — fala.

Paulinho acredita que o artista que tem compromisso com o público e consciência não faz algo ruim para ganhar dinheiro, concorrer com os descartáveis da mídia, porque ele sabe que o caminho não é esse, e continua insistindo em fazer o que é bom, e com esse pensamento já está no seu vigésimo primeiro disco, sendo os últimos vinte gravados de forma independente.

— As gravadoras diziam não acreditar no meu trabalho. Erro deles, com certeza, porque vinte e cinco anos depois de ter gravado meu primeiro disco por uma dessas gravadoras, ele ainda continua no catálogo da empresa, e se fosse ruim não estaria. Mas ela própria não quis renovar o contrato comigo, porque queria que cantasse outro tipo de música, o que não aceitei. E por ser um compositor que gosta de música boa, cheguei a perder muitos espaços, mas não me arrependo — conta.

— Passei a gravar de forma independente, e tem dado muito certo. É claro que gostaria de estar em uma gravadora, que faria todo um trabalho de gravação, divulgação e distribuição por mim, e assim fazendo chegar a muitas pessoas que não tem acesso a ele, mas se para isso preciso ir contra meus princípios, então não vale a pena. Até porque o povo teria acesso sim, mas a uma música fabricada e não verdadeira — continua.

Os discos de Paulinho Pedra Azul são encontrados somente nos seus shows e a aceitação por parte do público tem sido muito boa. Atualmente ele está fazendo shows pelo Brasil e exterior do seu último disco, Lavando a alma.

— É um disco que está me dando muito prazer e vem homenageando Chico Buarque em duas faixas: Chico imortal e O sonho acabou, recordando o período duro de "ditadura" militar, época em que teve grande atuação dentro do cenário musical brasileiro. Outra homenagem é para o Tavinho Moura, que é um compositor excelente, com uma viola maravilhosa. E já estou planejamos meu próximo disco que deverá ser com doze parceiros diferentes — comenta.

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