Arte e ciência a serviço da tortura

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O cinema ianque sempre serviu de apoio às iniciativas bélicas daquele país. Legitimou o quase extermínio de seus povos indígenas que, exprimidos na costa oeste, impediam o progresso da nova nação. A televisão e o cinema mostraram-nos que ao sul do país tinha bandos de pistoleiros, preguiçosos e bebedores de tequila, o que seria um bom motivo para dizimá-los e se apoderar de um terço do território mexicano.

http://www.anovademocracia.com.br/48/22a.jpgDa Segunda Guerra Mundial existe uma enorme quantidade de filmes nos quais são exaltados os valores dos seus soldados em contraposição aos da Alemanha e do Japão. Contra Coréia também. Durante a Guerra Fria seus espiões cheios de charme salvavam o mundo da ameaça vermelha. Só num breve período se permitiram auto-críticas sobre a guerra do Vietnã. Mas isto foi superado. O imperialismo renovado precisa do apoio patriótico de seus cineastas. O objetivo agora parece ser defender a tortura como ferramenta legítima e mostrar o torturador como alguém humano que sofre ao realizar essa tarefa justificada.

Neste mês estreou nos cinemas do país Busca implacável (Taken) com Liam Neeson. Aqui, um agente da inteligência ianque aposentado tem sua filha sequestrada na França. Para salvá-la viaja até Paris onde em seus subúrbios, além de matar dezenas de imigrantes albaneses, dá choques elétricos até a morte em um deles, tudo isso plenamente justificado, uma vez que se trata de uma justiceiro caçando bandidos.

Enquanto comete seu ato, conta que em outros países, do terceiro mundo, tinha problemas porque a eletricidade às vezes caía, mas que na França não teria esses inconvenientes. Este homem que dedicou sua existência a seu país "evitando males" sofreu muito em sua vida porque devia ausentar-se para trabalhar pelo mundo e assim acabou perdendo a sua esposa e se distanciando da sua filha. Mas agora sabendo do que é capaz, todos o valorizam.

Outro lançamento deste ano é Torturados (Tortured) com Lawrence Fishburne. Um agente ianque volta da guerra do Afeganistão e passa a trabalhar dentro de USA. Sua missão é infiltrar-se numa organização criminosa para poder desbaratá-la. Quando consegue entrar, a primeira tarefa que os mafiosos lhe dão é torturar o contador da mesma por que desconfiam que desviou U$S 10 milhões. Ele, como agente, tira de letra esta tarefa, pois foi treinado para isto. Com a maior naturalidade extrai unhas e dentes. Ao final de cada dia o chefe dos delinquentes, que não se sabe quem é, lhe telefona, diz que viu as filmagens da tortura e lhe ordena para continuar no dia seguinte. Após um tempo o agente começa a pensar que sua vítima talvez seja inocente. Implorou por sua vida e disse ter família.

Aí se inicia seu drama de consciência. Sonha torturando toda uma família. Deve sacrificar-se continuando nessa missão que sua pátria pede ou desistir? Sua vida pessoal é abalada, como dizer à namorada qual é o seu trabalho? Pede ajuda a seus superiores que lhe indicam um psicólogo com experiência nestas fraquezas. Agora, com apoio profissional, consegue ir adiante. Ao final, ficamos sabendo que o torturado era o chefe da organização. Sim, é isso mesmo. O torturado fisicamente, na realidade estava torturando psicologicamente o agente obrigando-o a torturar.

O objetivo destes filmes é convencer-nos que os agentes ianques torturadores são as vítimas da maldade deste mundo.

Em meio a este disparate fascista há algo real. O engajamento de psicólogos apoiando torturadores.

Psicólogos da tortura

Durante a guerra da Coréia foi criado o programa de treinamento militar secreto SERE "Sobrevivência, Evasão, Resistência e Escape" que preparava os soldados para suportar em caso de ser presos pelo inimigo. A este método foi-lhe aplicado o que se chama de engenharia reversa. Ou seja, se nasceu com o objetivo de que seus soldados resistissem a casos de tortura agora o SERE é para torturar a quem eles definam como inimigos.

Com este propósito os psicólogos James Elmer Mitchell e Bruce Jessen elaboraram uma nova técnica baseada na tortura psicológica, repassando-a aos novos aprendizes do SERE.

Paralelamente, outros doutores ligados a universidade de Yale, ajudaram a escrever o manual Kubark, uma obra indispensável para o torturador moderno. Nele se trata tão cientificamente a matéria que o pobre infeliz que cai nas garras deles é denominado de "fonte resistente de informação".

As novas técnicas não abrem mão totalmente do sofrimento físico, mas enfatizam o mental. Após anos experimentando eletro choque, LSD, mescalina, pentotal de sódio (soro da verdade) e outras drogas sem conseguir quebrar a vontade sob interrogatório, estudos milionários levaram a um novo caminho: privando os sentidos de uma pessoa ao cabo de 48 horas é possível induzir um estado de psicose e alucinações; obrigando a vítima a permanecer em pé seus fluidos corporais se acumulam nas pernas, os rins entram em colapso e sofre alucinações. Partindo destes conceitos gerais aplicados em diferentes formas e somados a uma análise individualizada aonde se estudam características como religião, princípios morais, medos de cada um, os cientistas da tortura chegam a um tratamento personalizado.

Quando a imprensa, em 2005, denunciou estes profissionais trabalhando para a CIA, a Associação de Psicólogos Americanos (APA) montou uma comissão para examinar o caso: o Grupo de Ética e Segurança Nacional (PENS). Este grupo que em sua maioria era formado por profissionais vinculados a agências militares ou de inteligência, chegou à conclusão de que esses psicólogos desempenhavam "um papel valioso e ético" e que "dentro de um papel consultivo na interrogação e recolhimento de informações para fins relacionados à segurança nacional, é consistente com o Código de Ética da APA".

Até 1984 dezenas de milhares de militares e polícias das Américas foram treinados na tristemente famosa Escola das Américas no Panamá de onde saiu o material "humano" que cometeu as maiores atrocidades das ditaduras latino-americanas. Em seguida a Escola se instalou no Forte Bening, no USA.

Agora em tempos de novos desafios "democráticos" os profissionais da repressão precisam ser atualizados. Em 2001, a Escola das Américas mudou seu nome para Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação e Segurança (Whinsec), que teve entre seus alunos alguns dos envolvidos em assassinatos, sequestros e torturas na Bolívia, El Salvador, Venezuela, entre outros. Atualmente há uma delegação do Exército "Brasileiro" no Whinsec, certamente aprimorando métodos que já conhece bem.

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