Imperialismo vai de mal a pior no Afeganistão

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No dia 5 de Outubro, o general Mark Carleton-Smith, comandante das tropas britânicas no Afeganistão, afirmou a um jornal do seu país que uma vitória militar na Ásia Central é impossível. Desiludido, o militar garantiu que a única saída para a dobradinha entre os ianques e a Otan é a "negociação com os insurgentes". Na Europa e no USA, a burguesia se esmerou em não fazer ecoar demais o desânimo do general. As palavras de capitulação foram relegadas ao fim das páginas menos importantes dos seus veículos de desinformação. Querem que o real estado das coisas na região permaneça enevoado pela versão oficial, a de que tudo corre às mil maravilhas.

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No Iraque, o imperialismo se afunda a olhos vistos. Seu maior algoz no Oriente Médio, o povo iraquiano, não deu ao invasor um minuto sequer de descanso desde que as primeiras bombas explodiram em Bagdá, há mais de cinco anos.

Desde então, a resistência vem impondo sucessivos revezes militares e morais ao USA e seus comparsas, empenhando-se particularmente na defesa dos recursos naturais do país — nomeadamente os campos de petróleo — com a coragem necessária para encarar de frente o alto poderio militar ianque.

O monopólio internacional da imprensa acusa o povo do Iraque de sabotagem, vandalismo, terrorismo e que tais, quando na verdade o que os iraquianos vêm fazendo é impedir que suas riquezas sejam repassadas às grandes empresas internacionais patrocinadas pela administração imperialista.

Ou seja, mentem os jornalões e os canais de TV da burguesia sem fronteiras — atualmente em apuros com a crise do capitalismo —, assim como mentem quando tentam apresentar a situação do imperialismo no Afeganistão como um contraponto à sua derrocada no Iraque.

A ofensiva imperialista transcontinental batizada de "guerra contra o terror" vem encontrando pela frente a barreira intransponível de povos decididos a não se prostrarem diante da truculência e da intimidação. Isto é público e notório, além de ser a razão última da desgraça de George Bush, o filho, perante a nata da burguesia imperialista do USA, sedenta de guerras e rapinagens levadas a cabo com o esperado sucesso.

Sendo assim, os propagandistas da Casa Branca acharam por bem concentrar o palavrório oficial e os discursadores profissionais nas questões do longínquo Afeganistão, a fim de passar a idéia de que os "terroristas" afegãos afinal não são páreos para as tropas do USA e da Otan. Comunicados, estatísticas, entrevistas e discursos a serviço da empulhação.

Tal como ocorre com sua máquina de guerra, a máquina de propaganda do USA também não é capaz de passar por cima da autoridade dos povos trabalhadores que resistem mundo afora às suas campanhas assassinas. Não é diferente no Afeganistão, ainda que lá haja diversas especificidades da luta antiimperialista.

Comparsas se afundam no jogo de empurra

De uns tempos para cá, em meio às notícias de sucessivas derrotas, os aliados na "guerra contra o terror" passaram a ventilar que o problema no Afeganistão seria o pequeno número de soldados destacados para aquelas bandas do planeta, bem como a fraqueza e a corrupção que marcam o governo central de Cabul.

Quanto a esta última desculpa, tenta-se repassar o fardo dos crescentes revezes no Afeganistão a uma administração agora apresentada ao distinto público como "eleita", e não mais encravada na capital do país pelos generais ianques — como de fato foi. Não obstante, o governo do presidente Hamid Karzai, o capacho de Bush "eleito" em 2004, vem assumindo de bom grado o ônus repassado pelo chefe.

O truque consiste em mascarar as derrotas desqualificando uma gerência comprometida com o USA da cabeça aos pés, como se o próprio USA não tivesse nada com isso. A ilusão pretendida é culpar os próprios afegãos pelos infortúnios que chegaram com o exército invasor, uma vez que o povo teria escolhido democraticamente seus próprios governantes.

N o que tange à suposta falta de soldados, os senhores da guerra dizem que sua campanha no Afeganistão conseguiu avanços significativos no campo de batalha, mas alegam que novos progressos requerem um significativo reforço do efetivo invasor.

E para sustentar esta mentira, os governantes dos Estados burgueses aliados do USA empenham as vidas de jovens recrutas sob seu comando. O exemplo mais recente vem da França, onde Nicolas Sarkozy conseguiu da Assembléia Nacional que o serve, a aprovação para manter três mil soldados franceses no Afeganistão, sob o comando de um país estrangeiro. Isto a despeito da vontade do próprio povo francês, que se opõe com veemência à participação de seu país nos esforços imperialistas.

Além da França, a Grã-Bretanha, Alemanha, Canadá, Holanda e Polônia — entre outros países europeus filiados à Otan — continuam a respaldar as tentativas do USA de instalar no Afeganistão sua base de operações na Ásia Central. O recém escolhido novo gerente da Casa Branca, Barack Obama, prometeu em sua campanha reforçar as tropas que estão por lá em 10 mil homens, quase um terço do efetivo atual.

Mas os sucessivos anúncios de tropas desembarcando em Cabul escondem as profundas divergências no seio da Otan sobre quem deve enviar mais soldados e sobre o manejo dos espólios de guerra pelas empresas de diferentes nacionalidades.

Acima de tudo, as brigas internas esquentam quando se trata de definir de onde vêm, na Europa, e para onde vão, no Afeganistão, os soldados destacados pelos países da aliança transatlântica.

Os governantes europeus não querem que sejam os soldados dos seus exércitos aqueles enviados para as regiões afegãs mais remotas, onde os riscos de seus compatriotas serem mortos é muito maior, obrigando-os a arcarem com as cobranças da opinião pública pelas vidas desperdiçadas em nome da cumplicidade com os ianques.

As potências têm razão em ter medo. Com seus mais de 15 mil guerrilheiros, os talibãs* enfrentam as forças da dita "guerra contra o terror" em quase todas as províncias do Afeganistão. Eles atacam embaixadas dos países invasores e explodem as paredes de prisões para libertar seus correligionários. Em algumas regiões do país chegam mesmo a nomear as autoridades locais. Atualmente a abrangência de seu controle sobre territórios afegãos se aproxima de Cabul.

O número de soldados estrangeiros mortos em território afegão desde a queda do governo talibã, em 2001, já ultrapassou a barreira dos mil.

Aliados em pé de guerra

Para piorar as coisas para o USA, o governo pró-imperialista do Paquistão tem medo de realizar incursões nas regiões tribais próximas ao Afeganistão, onde se refugia boa parte dos insurgentes, que a todo momento atravessam a fronteira para realizar ataques ao exército invasor. Nem uma patrulha ianque sequer consegue voltar das montanhas daquela região. Apesar de aliados, Washington e Islamabad vivem se desentendendo em meio à falência de suas estratégias de dominação da região.

No fim de setembro, soldados ianques e guardas de fronteira paquistaneses chegaram a trocar tiros, e o presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, vociferou na Assembléia Geral das Nações Unidas: "Não permitiremos ameaças à nossa soberania!".

Na ONU, do alto da tribuna, Zardari sem querer deu a dimensão do quanto ele e seus aliados andam confusos: "Da mesma maneira que não deixaremos que os terroristas usem o território paquistanês para atacar nosso povo e nossos vizinhos, não podemos permitir que nosso território e nossa soberania sejam violados por nossos amigos".

Sem saber o que fazer, e acossados pelos generais e gerentes políticos do USA, os títeres do Paquistão e do Afeganistão se reuniram no final de outubro na capital paquistanesa, Islamabad, com o objetivo declarado de buscar formas de combater os cada vez mais fortalecidos talibãs.

O tiro saiu pela culatra. Acabou-se constatando o óbvio. Concluiu-se que a única forma de os talibãs suspenderem os ataques contra o exército invasor seria a retirada das tropas do USA e da Otan instaladas no Afeganistão. Na semana anterior, o parlamento paquistanês havia aprovado uma resolução no mesmo sentido das declarações do general britânico, boicotadas pelo monopólio da imprensa, afirmando que, hoje, a situação na Ásia Central só tem saída caso haja diálogo com os insurgentes.

Pouco a pouco, o alardeado sucesso no Afeganistão vai sendo desmentido pela realidade da derrocada completa, cada vez mais próxima e evidente.

O imperialismo, derrotado no Iraque, ingressa no atoleiro também na Ásia Central, e nem mesmo as mentiras que eles contam continuam as mesmas. Assim, o que antes se dizia ir de vento em popa, agora já se diz que vai razoavelmente bem. O que antes estava sob controle, agora vive um "impasse".

Os ianques não chegam a admitir sua humilhação, mas o abrandamento daquela veemência triunfalista que se via há pouco pode dizer mais do que qualquer bandeira branca.

Enquanto isso, no Iraque e arredores...

Não satisfeito em invadir uma nação soberana, destruir sua infra-estrutura, massacrar seu povo, e tentar saquear suas riquezas, o USA ainda utiliza o território usurpado como ponto de partida para ataques a países vizinhos. Foi a partir do Iraque que, no dia 26 de outubro, o exército ianque bombardeou uma aldeia da Síria localizada a 8 quilômetros da fronteira entre os dois países.

Na segunda-feira, a agência de notícias France Press ouviu uma autoridade do alto escalão de Washington, que disse: "A operação foi um sucesso. Quando uma oportunidade se apresenta, é preciso não deixá-la escapar. É o que os norte-americanos esperam, particularmente, quando se trata de atuar contra combatentes estrangeiros que entram no Iraque e ameaçam nossas forças armadas".

Tal como faz em relação à região fronteiriça entre o Paquistão e o Afeganistão, a administração ianque se mostra exasperada com o governo de Damasco no que tange à situação na fronteira entre a Síria e o Iraque. Segundo o comando de guerra do USA, este último bombardeio tinha como alvo milicianos da organização Al-Qaeda. Ocorre que o "sucesso" anunciado pela fonte anônima da France Press consistiu na morte de trabalhadores sírios, entre eles uma família inteira: pai, mãe e três filhos.

O ministro sírio das Relações Exteriores classificou o ataque como uma "agressão criminosa e terrorista", ameaçando retaliar caso algo do tipo volte a acontecer. Assim segue a presença do exército imperialista no Oriente Médio, incitando conflitos e semeando o militarismo.

No mesmo dia, a milhares de quilômetros de distância, o destacamento ianque na Ásia Central repetiu a dose. Enquanto helicópteros chacinavam homens, mulheres e crianças na Síria, mísseis disparados por aviões não tripulados da Otan matavam outras 20 pessoas nas montanhas das regiões tribais do Paquistão. Foi o 12º bombardeio desta natureza na região no intervalo de um mês e meio, todos levados a cabo através destas aeronaves covardemente guiadas por controle remoto, desde a segurança dos quartéis generais ilegítimos construídos em terras griladas pelo imperialismo.

Um dia depois das incursões ilegais nos territórios sírio e paquistanês, soldados a bordo de caças e helicópteros do USA assassinaram oito trabalhadores de uma empresa de construção civil no Afeganistão. Depois do ataque, o comando integrado do USA e da Otan instaurou mais uma investigação predestinada à absolver a si próprios dos recorrentes crimes de guerra.

Também em outubro, duas novas informações sobre a ocupação do Iraque se explicam mutuamente. A primeira é a descoberta de que o USA usou armas nucleares em território iraquiano. A segunda é o anúncio do governo títere de Bagdá de que enfim acontecerão as primeiras licitações de campos de petróleo no país.

Uma investigação empreendida por jornalistas do canal de televisão italiano Rai News 24 revelou que em 1991 — durante a primeira ofensiva movida pelo USA contra o Iraque, nos tempos de George Bush pai — os ianques usaram um armamento chamado mininuk, que tem efeito entre seis e 30 vezes maior que o da bomba de Hiroshima. A descoberta se fundamenta em testemunhos de veteranos de guerra e em dados sismológicos da região entre a cidade de Bossorá, no sul do país, e a fronteira com o Irã. A magnitude da explosão registrada durante a operação Tempestade no Deserto alcançou 4,3 pontos na escala Richter, chegando a ser captada por sismógrafos instalados no Nepal.

Na época, o USA já tentava justificar suas agressões com a mentira das armas de destruição em massa que Saddam Hussein estaria pronto para usar contra o chamado "Ocidente". Pois os ianques não apenas mentiram e voltaram a mentir quando Bush filho voltou à carga, em 2003; eles próprios se valeram do arrasador poder do seu arsenal nuclear para varrer vidas, casas e tudo o mais que estivesse por ali. Desde então, o objetivo final já era este que agora os capachos, colocados pelo imperialismo no poder central de Bagdá, tentam levar adiante: retalhar o subsolo iraquiano e dividi-lo entre as grandes petrolíferas transnacionais, irmãs de sangue e parceiras da máquina de guerra ianque.

*Talibã (em pashtu: os que estudam o livro, o Alcorão) é um grupo fomentado pelo USA para combater a invasão da União Soviética social-imperialista ao Afeganistão em 1979. Após a expulsão dos russos, o Talibã chegou à cabeça do Estado, impondo um rígido regime islâmico ao país. Derrubado pelos ianques, o Talibã passou à resistência. Osama Bin Laden, agora inimigo do USA, é egresso do Talibã.

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