Imigrantes são equiparados a assassinos

Conhecemos bem a idéia de uma Europa humanitária, acolhedora, balizada no triplo lema da revolução burguesa de 1789: liberdade, igualdade e fraternidade. Sabemos também que um continente europeu verdadeiramente fundamentado nestas belas palavras é algo que não passa de uma mentira, daquelas contadas mil vezes, mas que nem por isto chega a se aproximar da verdade.

O que conhecemos bem é a Europa de Nicolas Sarkozy, Silvio Berlusconi, José Luis Zapatero, Angela Merkel e Gordon Brown. A mesmíssima Europa que ontem foi de Tony Blair, e que anteontem foi de Margaret Thatcher. Em suma, a Europa real é a Europa dos algozes dos seus próprios trabalhadores e dos povos de outros continentes. É a Europa do colaboracionismo com o USA.

Algo em particular vem desmentindo categoricamente toda esta falácia de uma Europa humanista, deitando por terra, particularmente, a idéia de que países como Espanha, França, Inglaterra e Alemanha estão lá, de braços abertos para receber os deserdados da terra, os filhos da miséria que eles próprios ajudaram a plantar nos quatro cantos do planeta.

Trata-se das provas irrefutáveis de que os estrangeiros que hoje procuram a Europa na esperança — e na ilusão de uma vida com um pouco mais de dignidade encontram mesmo é humilhação e morte. Em vez de trabalho decente e respeito, o que os espera são agentes de fronteira armados até os dentes, algemas, processos e os chamados "centros de detenção para imigrantes", verdadeiros campos de concentração — como A Nova Democracia  mostrou na edição 45.

Tudo isto, ou seja, toda esta opção da Europa do dinheiro e do militarismo por tratar os imigrantes como foras-da-lei é algo que AND vem acompanhando e denunciando reiteradamente, em solidariedade aos trabalhadores de vários cantos do mundo, que muitas vezes atravessam o Oceano Atlântico ou o Mar Mediterrâneo à procura de uma luz no fim do túnel. Que os tratam simplesmente como "ilegais" já sabíamos. A novidade são as campanhas que tentam pintá-los como facínoras.

Parece que os burocratas e gerentes da caça generalizada aos imigrantes que se instituiu na Europa estão precisando de uma razão a mais para legitimar o reforço de suas políticas de exceção. O povo trabalhador europeu vem se solidarizando com os seus irmãos da África,  da América Latina,  da Ásia e do Leste Europeu, ora semi-escravizados, ora jogados atrás das grades à espera de serem deportados.

Diante deste enfrentamento às suas políticas, parece que a mais nova tentativa de jogar o povo europeu contra os trabalhadores imigrantes é atribuir aos que vêm de fora uma espécie de natureza criminosa incorrigível. Em poucas palavras, a nova onda entre os capatazes de terno e gravata — e entre os difamadores fantasiados de jornalistas — é transformar os imigrantes da periferia do mundo em criminosos comuns.

Imigrantes e comunistas numa só tacada

A bem da verdade, não é inovação alguma. O que os humanitários europeus estão fazendo não passa de mais uma importação diretamente do USA de mais um ponto central do credo criminológico ianque: se as penitenciárias de Los Angeles há anos estão cheias de mexicanos, as de Paris estão cada vez mais lotadas de argelinos.

 Os tribunais ianques acabam de absolver um policial que assassinou sem qualquer razão um brasileiro que vivia no USA. Para tanto — para o assassinato e para a absolvição — uma das alegações foi que a vítima morava lá ilegalmente.

Na Europa, o mais recente episódio de maior alcance desta nova sanha punitiva misturada com campanha de difamação aconteceu em Lisboa, capital portuguesa.

Em meados de setembro, o jornal lisboeta Correio da Manhã publicou uma reportagem garantindo que jovens brasileiros haviam criado na cidade uma organização criminosa chamada Primeiro Comando de Portugal,  nos moldes do Primeiro Comando da Capital, o PCC, que em 2006 foi responsável por uma série de ataques a policiais na cidade de São Paulo — episódios que na época renderam notícias de destaque nos principais veículos de comunicação de Portugal. 

Ao longo de quatro páginas, a reportagem intitulada A máfia das favelas entra em Portugal tenta provar que o PCP — que é também a sigla do Partido Comunista de Portugal — seria formado por imigrantes brasileiros ilegais com antecedentes criminais, que teriam saído diretamente das favelas brasileiras para pegar a ponte-aérea sobre o Atlântico.

O "PCP" seria responsável ainda pelo assassinato, com dois tiros na cabeça, do dono de uma joalheria na cidade de Setúbal, a 45 quilômetros da capital, entre outros crimes na região. Seriam 13 os brasileiros fundadores da suposta organização criminosa.

Os imigrantes brasileiros e as associações representativas em geral correram para denunciar o que parecia óbvio: a reportagem do Correio da Manhã não passava de uma incitação a uma onda anti-imigrantes entre os portugueses, tudo com a anuência da Polícia Judiciária de Portugal, que teria confirmado a existência do "PCP".

E não passou mesmo disto. Poucos dias depois, confirmou-se que o Primeiro Comando de Portugal na verdade era uma brincadeira de adolescentes. Um dos meninos que participavam de uma comunidade na internet — apontada pelo Correio da Manhã como uma prova cabal — veio a público dizer que se tratava de farra, e não de uma organização criminosa que estava aterrorizando a margem sul do rio Tejo.

De fato o assassino do joalheiro foi um brasileiro, mas as classes dominantes portuguesas, através de seus meios de comunicação, aproveitaram para atribuir o crime aos brasileiros em geral, e para inventar até mesmo uma facção do crime organizado brasileiro em além mar.

Pressionado, o embaixador do Brasil em Portugal precisou ir à RTP — a emissora estatal de Portugal — insistir para que crimes comuns não sejam divulgados pela polícia e pelos meios de comunicação junto com a nacionalidade dos seus praticantes.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu . Em 2005 houve o caso do falso arrastão na praia de Carcavelos, próxima a Lisboa. Falso, mas que foi amplamente noticiado como verdadeiro pelo monopólio dos meios de comunicação que opera por lá. Segundo seus jornais e TVs, jovens imigrantes negros teriam aterrorizado os banhistas numa bela tarde de verão. Não faltaram declarações de políticos picaretas alertando para o perigo que os imigrantes representavam.

Pouco depois, o desmentido: tratava-se do primeiro dia das férias escolares daquele verão e o que houve foi apenas um grande aumento de meninas e meninos negros nas areias da praia.

Na Espanha também

Nos últimos meses a Espanha tem promovido a mais cruel política para a imigração. Especialmente os brasileiros, mas também de outras nacionalidades da América Latina e África estão sendo tratados como lixo mal chegam ao aeroporto de Barajas, em Madri.

Denúncias de brasileiros deportados dão conta de maus tratos, torturas psicológicas, discriminação e agressões diversas por parte dos agentes da imigração espanhola. Outubro foi o mês em que mais brasileiros foram deportados da Espanha.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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