O amor e o corte

A- A A+

http://www.anovademocracia.com.br/49/21b.jpgEle chegou no acampamento, estava frio, era maio. Procurava um lugar pra ficar, tinha vindo de longe, onde a questão da terra estava complicada.

Seu Marim fez um barraco organizado, cada coisa no seu lugar, chegou com feira e capricho, seu velho conhecido Pricho, o cachorro, mas com um vazio no peito.

Ele esperava naquele lugar conquistar a sua terra e encontrar uma companheira. Assim como a terra, a mulher não poderia ser qualquer uma e por isso o tempo foi passando... Passou a primavera e chegou o verão. Tivera duas oportunidades, mas não deu certo: uma era casamento arranjado, a mulher muito nova, só ficava rindo ou brigando; a outra, ele não agradou, parece que chegou atrasada no encontro combinado, ele todo arrumado, barraco ajeitado, Pricho na ordem e acabou não dando certo. Os amigos chamavam pra festa na Vila e nada.

Passado um tempo começou o Corte Popular da terra, onde cada um dos que lutaram ali pra conquistá-la receberia seu pedaço. O grande dia do sorteio chegou e Seu Marim tirou lote na quadra 6, bem longe, lá na mata, de terra muito boa. Mas, sozinho tudo seria mais difícil. E agora a Vila ficaria pra trás.

Ele tentou mais uma vez, já tinha mais de 40 e pensava que não tinha mais tempo de fazer galanteios. Então resolveu mandar uma foto 3x4 pra cidade pelo companheiro Luizinho, que iria mostrar pra uma viúva. De sorte, esqueceu a foto sobre a mesa quando Leínha, uma amiga da família, chegou e viu aquela imagem. Muito animada, perguntou de quem se tratava, fez cara de gracejo com sorriso no canto da boca. Gostara de ver!

Mas, Luizinho, que já tinha combinado com a outra e voltou pra buscar a foto topou com Leínha, que não queria devolvêla de jeito nenhum.

Enfim, depois de muita confusão Luizinho levou a foto, mas graças ao Senhor do Bom Jesus da Lapa, a viúva não agradou dos bigodes de Seu Marim.

Enquanto isso, Seu Marim que não sabia por onde andava sua foto e sua sorte, seguia na sua labuta e preparava a mudança pro seu sonhado lote. A quadra 6 não saía da cabeça. Lote 133, repetia sem parar pra si mesmo.

Interessada, Leínha resolveu então visitar o acampamento e conhecer Seu Marim. Foi sozi nha, era sábado, pegou a lotação e foi pra cidade, embarcou na chalana no Velho Chico rumo à Vila. De lá pegou moto e foi pro acampamento. Era dia de Assembléia, todo mundo tava reunido lá. Aí ela pensou:

— Como vou achar Luizinho e o tal do Seu Marim no meio de tanta gente?

Desceu da moto fazendo conta e dispensou o motoqueiro, concluindo logo:

— É! Vou demorar!

A Assembléia já estava por terminar e ela procurou pelo Luizinho e por Seu Marim na fila que se formou para assinar a ata, mas não os encontrou.

Seu Marim, com dor de cabeça, já tinha ido embora pro barraco. Luizinho, que ficara sabendo que Leínha tinha vindo pra Vila, foi pra lá se encontrar com ela e por lá ficara de espera.

Não encontrando ninguém que queria, Leínha resolveu ir embora. Andou um pouco, parou num dos barracos pra pedir um copo d’água e perguntou logo se ali eles conheciam o Seu Marim. Apontaram o barraco bem ali à frente.

Ela nem acreditou, resolveu ir até lá, bateu palmas, Pricho latiu, ela recuou, surgiu um homem na porta. Notou que o homem não tinha bigodes e perguntou:

— Por favor, sabe onde mora (ficou na dúvida se usava ou não o "senhor" antes do nome, vacilou e disse) o Senhor Marinho?

Ele respondeu:

— Sou eu mesmo, pois não?

Ela pegou a foto colocou na palma da mão e estendeu o braço. Ele entendeu o gesto, pegou a foto e explicou que havia feito promessa que tiraria os bigodes quando conseguisse a terra. Leínha adorou, também não gostava muito dos bigodes.

Eles almoçaram juntos. Seu Marim colocou na cama aquela colcha bonita de 50 reais que já tinha tentado vender pra pagar sua cota dos gastos do Corte Popular.

A notícia correu logo: Seu Marim casou. Todo mundo muito curioso arrumou desculpas pra ir visitar no mesmo dia. Afinal, ele vendia cabo pra machado e neste dia todos queriam apreçar um. Foi tanta gente que os dois não tiveram tempo de conversar.

No outro dia, tudo esclarecido, Seu Marim virou Marim, o homem mais feliz do mundo e Leínha a mulher mais sortuda da terra.

Eles colocaram os pingos nos "is", conversaram sobre o novo barraco, sobre a roça, sobre a terra e sobre o futuro.

Pra celebrar o novo amor e pra alegria dos camponeses dali, neste dia choveu, caiu água sobre aquele chão de secura depois de seis meses de estiagem prolongada. Mas, nenhum coração batia mais forte que o do Seu Marim: aos 46 anos recebia nova pulsação com a divisão da terra e a união de dois corações sertanejos.

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja