Um preocupante retrato da Rússia atual

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É grave a situação do povo russo. Em linhas gerais, o regime burguês que vigora por lá funciona da mesma forma de sempre. Mas, com as peculiaridades acrescentadas pelos gângsters comandados por Vladimir Putin e Dimitri Medvedev, a oligarquia russa está levando as classes populares do país à ruína, em todos os sentidos e a uma velocidade poucas vezes observada na história negra do capitalismo.

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O conjunto habitacional representa bem o abandono

No intervalo de duas décadas, uma dúzia de bandidos pés-de-chinelo foram promovidos do dia para a noite à condição de empresários de sucesso, tudo a custa da dilapidação do patrimônio industrial e natural daquela terra. Milhões de pessoas estão definhando na miséria e pagando com a própria vida pelo fato de o grandioso país ter sido transformado em uma imensa vitrine às avessas dos horrores e castigos que as engrenagens do moderno capitalismo monopolista são capazes de produzir, a fim de multiplicar dinheiro e penalizar as massas.

A Rússia atual foi transformada por uma oligarquia oportunista, corrupta e sanguinária em um lugar aonde as políticas fascistas vêm sendo esticadas ao limite, com intensidade multiplicada se comparadas com as ofensivas anti-povo empreendidas em outras partes do mundo, em especial naqueles países que os papagaios da pirataria financeira costumam chamar de "emergentes". Ali mesmo, onde um dia bateu o coração da União Soviética revolucionária.

Para nós, tomar conhecimento da realidade dos trabalhadores russos é sim uma questão de solidariedade, mas também de saber bem até onde podem chegar os esforços de aniquilação movidos pelos inimigos do povo. Ainda mais agora, que os demagogos do lado de cá do mundo, como Chávez e Lula, estão convidando gente como Dimitri Medvedev e toda a máfia russa para fazer negócios na América do Sul.

Expectativa de apenas 60 anos

Na Rússia, quando se fala em aniquilação do povo, trata-se de aniquilação mesmo, literalmente. À parte o conflito em que se enfiou na Geórgia, há tempos o exército da Rússia não enfrenta as armas de qualquer outra nação, mas, ainda assim, os números de sua demografia são os de um país em guerra. Sua população, que atualmente é de 142 milhões de habitantes, está diminuindo a um ritmo de 700 mil pessoas por ano.

Isso significa que daqui a 50 anos os russos podem ser reduzidos a dois terços do que são hoje. A expectativa de vida dos homens na Rússia é de apenas 60 anos, uma das menores do mundo e a mesma do final do século XIX. Este dado também remete a carnificinas nos campos de batalha, mas são explicados pela desertificação econômica.

Desertificação literalmente. A grande burguesia mafiosa, com seus bilionários monopólios dos setores de petróleo, gás e mineração, produziram o que o povo russo costuma chamar de "buracos negros" no vasto território de mais de 17 milhões de quilômetros quadrados. Tratam-se de extensões de mais ou menos 100 quilômetros quase sem habitantes e nenhuma atividade econômica. São longos trechos que se estendem entre as regiões que circundam as 168 cidades russas que têm mais de 100 mil habitantes.

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Cartazes da época do revisionismo

Os geógrafos falam em "seleção social negativa": os jovens migram para as poucas grandes cidades, os mais velhos e os incapacitados para o trabalho pesado ficam para trás, rodeados pelo nada, definhando, sucumbindo à pobreza, à desilusão e à bebida.

Trinta por cento das mortes de homens na Rússia estão direta ou indiretamente ligadas ao consumo em excesso de bebidas alcoólicas. Entre as mulheres, o índice é de 17%. Acontecem mais de 400 mil mortes evitáveis por ano, em razão de doenças e outros fatores relacionados ao álcool. São desde problemas cardíacos fatais até acidentes, suicídios e assassinatos.

Nas grandes cidades, a precariedade da vida e o medo de perder o emprego praticamente mantêm grande parte das pessoas bêbadas, esforçando-se para manter a sobriedade apenas quando estão no local de trabalho. A vodka é um dos poucos produtos na Rússia que estão relativamente imunes à inflação. Entre os anos de 1990 e 2005, por exemplo, o índice dos preços de produtos alimentares aumentou quase quatro vezes mais rápido do que o índice dos preços do álcool.

Ditadura da chantagem

Em outros pontos, países como o Brasil já foram colocados por suas classes dirigentes em situação semelhante à da Rússia atual. Lá como cá, o sistema público de saúde é uma ofensa ao povo, a educação é precária, a polícia é corrupta e utilizada como instrumento de repressão ao primeiro sinal de descontentamento popular.

A pequena propina é a moeda que corre no dia-a-dia, paralelamente ao rublo. Paga-se por fora para conseguir até mesmo produtos e serviços básicos, o que significa que o Estado encabeçado por Putin e Medvedev, impôs pela realidade objetiva que grande parte da gente russa se transformasse em corruptores ativos e passivos. Ou isso, ou viver em condições ainda mais aviltantes. Mais ou menos o que sucessivas administrações anti-povo vêm fazendo em território brasileiro.

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Prédios abandonados

O sistema de governo imposto aos russos por Putin é a ditadura da chantagem. O monstrengo se baseia no aumento da renda média dos trabalhadores, mas a partir de um patamar baixíssimo e a um ritmo de crescimento irrisório, principalmente levando em conta a inflação, que fechou 2008 em torno dos 13%.

Não obstante esta relação — que é metade feudal e metade exploração capitalista no estado mais bruto — a miséria que castiga as classes populares do país as deixam ainda mais vulneráveis a sucumbirem ao verdadeiro objetivo de Putin e Medvedev: a passividade do povo comprada com alguns rublos a mais no fim do mês. Na Rússia, a oligarquia que se apoderou do país exacerba a lógica do capital de tentar minar a força da gente simples com as próprias urgências da vida comum.

"Estabilidade", sempre ela...

Pouco antes da farsa eleitoral do dia 2 de março do ano passado, que marcou a transferência do cargo de "presidente" da Rússia, o então mandatário Putin tornou pública a chantagem, declarando a um jornalista estrangeiro: "Os salários estão aumentando 16% ao ano na Rússia. As pessoas querem que isto continue, e elas vêem em Medvedev um garantidor desta tendência". Dito e feito: o candidato oficial, Medvedev, venceu o pleito fraudulento com 70% dos votos.

Por outro lado, pesquisas dão conta de que dois terços da população russa considera que não têm qualquer influência sobre a vida política e econômica do seu próprio país. Enquanto uma burguesia criminosa vai tomando conta da economia e dos recursos naturais, seus representantes na administração nacional tratam de erradicar qualquer possibilidade de cidadania e qualquer traço de uma democracia verdadeira, substituindo ambos por uma retórica econômica vazia, cuja finalidade é a mais reles embromação.

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A desertificação em diversas cidades

Qualquer semelhança não é mera coincidência. A palavra de ordem da gerência Putin-Medvedev é "estabilidade", que é a palavra de ordem dos atuais Estados burgueses, a mesma com a qual há décadas os paus-mandados instalados nas administrações nacionais latino-americanas, africanas e asiáticas vêm enchendo a boca para falar das maravilhas que vêm fazendo pelas classes dominantes locais e pelo capital financeiro sem fronteiras —isto enquanto alegam que na verdade realizam prodígios em nome dos trabalhadores dos quatro cantos do mundo.

"Estabilidade" é a palavra mágica com a qual se leva a cabo toda sorte de ofensivas a favor dos capitalistas e contra o proletariado, sob a mentira recorrente do "governo para todos".

Na Rússia, este e outros estratagemas do capital vêm sendo empregados em seu extremo. Guardadas as especificidades de cada lugar, isto significa que os mecanismos de empulhação e exploração que afinal constituem as próprias engrenagens do capitalismo são basicamente os mesmos no USA, na Rússia, no Brasil e nas demais nações.

Crise e castigo

As diferenças de incisividade e método dos inimigos do povo ficam por conta do papel de cada país na divisão internacional do trabalho, que define como se desenvolverão as ofensivas da burguesia contra os trabalhadores dos diferentes países. Na Rússia, onde os monopólios foram levados ao limite, a exploração e o aniquilamento do povo está chegando ao limite também.

Agora, com a crise econômica corroendo as bases do sistema capitalista global, as perspectivas são de agravamento da situação do povo russo. Mesmo as grandes cidades, onde a realidade dos trabalhadores é relativamente melhor, tendem a ser devastadas pelo desemprego e pela degradação das condições gerais de vida. O patronato nacional, mancomunado com Putin e Medvedev, e as empresas estrangeiras que os dois czares capitalistas deixaram entrar na Rússia estão começando a botar o proletariado na rua, a meter a faca nos salários e a avançar sobre os direitos já muito dilapidados.

O Kremlin aparelhado pelos mafiosos vem tentando, em vão, acalmar os ânimos das massas, que estão prestes a dizer "chega!" a tanta precariedade. A oligarquia já mandou um recado aos meios de comunicação: a palavra crise não pode aparecer no mesmo texto com a palavra Rússia. E isto vale tanto para os veículos estatais quanto para o oligopólio internacional da imprensa que opera no país.

É bastante provável que, em um futuro próximo, a mão pesada do Estado russo burguês e repressor intensifique os castigos ao povo, recorrendo à farsa nacionalista típica da era Putin como desculpa para evocar questões de segurança e, assim, tratar as massas na rédea curta. Tudo para proteger a ditadura da chantagem e dos oligopólios. A bem da verdade, é um processo que já vem se desenhando nos últimos oito anos, desde que Putin se tornou a principal figura da gangue que comanda o país. O fascismo, que está por toda parte, tende a se intensificar ainda mais, e logo onde já mostra sua cara de forma mais escancarada.

Mesmo massacrado, povo começa reação contra Putin

Grande parte das informações que constam neste relato sobre as atuais condições de vida do povo russo está em um caderno especial sobre o país que a revista britânica Economist publicou no final do ano passado. Esta revista é um dos baluartes do liberalismo burguês e, não fosse a pressa em dar explicações anticomunistas para a tragédia das classes populares de lá, talvez desta vez conseguisse até realizar um bom trabalho informativo.

Tentando explicar os acertos por fora que os russos fazem entre si para tocar a vida, ou seja, tentando explicar a pequena corrupção na verdade incentivada — ou praticamente imposta — por Putin e Medvedev, a Economist chegou a dizer que "setenta anos de União Soviética tornaram a vida inventiva e adaptável". Em outra página, a revista também tenta atribuir à União Soviética a incrivelmente baixa expectativa de vida que os russos têm sob o Estado burguês, mesmo registrando o fato de que em 1964 a expectativa de vida dos homens russos era de 65,1 anos — o mesmo padrão na época observado no chamado "Ocidente".

Da mesma forma, a Economist tentou atribuir ao que chama de "sistema soviético paternalista" o descalabro no sistema de saúde do país. O trabalho de desinformação é quase inacreditável. A revista chega a dizer que os russos de hoje têm a saúde precária porque o Estado soviético tinha por objetivo "lutar contra infecções e epidemias, e não capacitar as pessoas para cuidar de sua própria saúde". Ora, a lógica é torta: tenta-se desqualificar a União Soviética porque a Rússia revolucionária se esmerava para manter o povo longe das doenças. A esquizofrenia do liberalismo burguês realmente não conhece limites.

O povo russo é que sabe de si, e por isso é que, mesmo massacrado em sua vida cotidiana e ferozmente reprimido ao primeiro grito de revolta, ele começa a se rebelar contra o autoritarismo e o capitalismo de Putin. As classes populares da Rússia sabem muito bem que seus infortúnios se devem à máfia de oligarcas que tem no ex-presidente e atual primeiro-ministro do país seu homem de maior confiança. E toda esta confiança se baseia na crença de que Putin, agora assessorado por Medvedev, é capaz de minar a bravura e acabar com a dignidade de um povo historicamente preparado para a luta.

Estão enganados. Ultimamente os russos têm dado exemplos de resistência ao Kremlin capitalista. A situação, no entanto, é muito delicada. Tanto que a Rússia tem um novo e peculiar herói nacional:Evgeny Kolesov, jurado do caso de assassinato da jornalista Anna Politkovskaya — ao que tudo indica morta a mando do Kremlin —, denunciou uma armação entre o governo e um juiz para realizar o julgamento a portas fechadas, sem a presença do povo e dos veículos independentes de comunicação. Esse simples ato fez dele um exemplo para o povo russo.

No dia 29 de novembro do ano passado, centenas de moradores de um subúrbio de Moscou saíram de suas casas para protestar contra o espancamento de um jornalista da região que havia feito uma reportagem sobre corrupção de funcionários da oligarquia russa. Os manifestantes se recusaram a cobrir seus rostos, como vinha sendo comum no país. Ainda que soubessem da presença de agentes da ditadura burguesa à paisana, decidiram por dar a cara à tapa, em nome de uma nova Rússia.

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