A moça do cabelo azul

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Leitor contumaz e costumeiro da coluna de Marcelo Rios, meu anti-stress das manhãs, deparo, oh, sim, deparo com a fotografia da moça do cabelo azul. É uma bela moça, de nome Maria Antônia Calmon, e vê-la na fotografia de um mago do "click", Lincoln Continentino, melhora o astral.

Ah, leitores, diante da foto da moça de cabelo azul, eu vos digo: Belo Horizonte tem jeito, Minas tem jeito, o Brasil tem jeito, a América do Sul tem jeito.

Revogam-se queixas e lamúrias, solidões e pessimismos, que Maria Antônia Calmon exibe sua cabeleira azul — que nada tem a ver, suponho e espero, com paixão clubística.

Otimismo, irmãos!

Da moça do cabelo azul eu me transfiro para o noticiário sobre os sem-casa de Betim. Fico pensando no tempo em que cheguei a Belo Horizonte. Alberico Souza já era bravo militante político da União Colegial de Estudantes. Naquela época — há de recordar-se de outro líder estudantil de então, João Bosco Murta Lages — Belo Horizonte não tinha uma moça de cabelo azul, e nem em suas vizinhanças, os sem-casa de Betim.

Pergunto a Wilson Frade, que viveu a época:

— Ali pelos anos 50 ou 60, circulava pelos salões e pela noite elegante uma moça de cabelo azul?

A resposta há de ser não. Como não existiam jornais a cores, mesmo que Ângela Diniz ou Lilian Sônia (duas lembranças queridas) quisessem usar perucas coloridas, a fotografia delas apareceria nas colunas com uma tonalidade, quando muito, cor de cinza. De qualquer forma, para quem, como este escrevinhador de quimeras, veio acompanhando o exercício da liberdade em Belo Horizonte e adjacências, é muito bom ver Maria Antônia Calmon com o cabelo azul.

A liberdade, minhas irmãs, é muito mais complicada e, muitas vezes, moça do cabelo azul, é a sua bandeira.

Mas o que dizer dos sem-casa de Betim, que se apresentam, mexicanamente, zapatistamente, encapuzados? Tal como o cabelo de Maria Antônia Calmon, eles são o sinal da liberdade?

Pois eu custo dizer: sim.

Poderia ficar calado, mas eu penso, como diria Milton Campos, que os sem-casa, os sem-terra, os sem-esperança, não são um caso de polícia. Antes de mandar a polícia, é preciso conversar.

Alguém dirá:

— Mas os sem pertencem a uma perigosa facção que segue os ensinamentos de Stalin e de Mao, e estavam treinando guerrilha no Serro.

Ora, desde a Revolução Cubana que existe uma Sierra Maestra no coração do mundo, e, em particular, no coração da América Latina. Eu mesmo já escrevi a respeito em meu romance "Hilda Furacão" (e setenta e seis milhões de brasileiros viram as cenas na minissérie na Globo), já treinei guerrilha em Belo Horizonte. Já quis transformar a Serra do Curral em Sierra Maestra.

Pensar em guerrilha é uma doença infantil do esquerdismo. Longe de mim apoiar invasões. Longe de mim apoiar guerrilhas. Mas, não vamos nos esquecer que mataram dois sem-casa de Betim. Até aqui eles são vítimas. Querer transformá-los em vilões é desviar o assunto, é querer esquecer que dois sem-casa foram assassinados. Invoco o governador Milton Campos, que era udenista e conservador: ele preferiu mandar o trem pagador, em vez da polícia, para acabar com a greve dos ferroviários da Rede Mineira de Viação em Divinópolis. É preciso saber conviver com o cabelo azul de Maria Antônia Calmon e com os encapuzados de Betim, pois tanto um quanto os outros são um sinal dos novos tempos.

 

*Roberto Drummond

Um dos mais lidos, estudados, e comentados autores brasileiros, Roberto Drummond nasceu na Fazenda do Salto, município de Santana dos Ferros, no Vale do Rio Doce, uma das mais violentas regiões de Minas Gerais. Terra de pistoleiros, lobisomens, almas do outro mundo e de grandes contadores de histórias, seus primeiros mestres literários. Romancista, cronista e jornalista, Drummond morreu aos 68 anos de um infarto pouco depois da meia-noite do dia 21 de junho de 2002, em sua casa.

Jornalista nos anos 60 e, mais tarde, cronista de futebol — destino inevitável aos que eram classificados como subversivos pela ditadura militar — , estreou na literatura ganhando, em 1971, com A Morte de D.J. em Paris, o maior prêmio literário brasileiro da época: o Concurso de Contos do Paraná, que antes havia premiado Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Garcia de Paiva. Transformado em livro de contos e editado pela Ática, recebeu o prêmio Jabuti, como autor revelação, em 1975.

Mestre de um gênero que pode ser chamado de realismo sobrenatural, Drummond utiliza-se do imaginário popular comum em sua terra natal — em Minas o natural e o sobrenatural convivem harmonicamente através de histórias que passam de geração a geração. Muitas vezes perde-se a fronteira entre o real e o irreal . Drummond foi o único a se sensibilizar com os heróicos acontecimentos do Bandeirinha, bairro de Betim, cujos moradores travaram batalha campal com a polícia pelo direito à moradia, descrita neste número, nas páginas 14 e 15.

Lançou seu último romance no ano passado, O cheiro de Deus, depois de 11 anos e 23 versões escritas à mão, cuja narrativa nos mostra a história de uma dinastia inquieta e poderosa, que tem como matriarca Inácia Micaela, mulher que, armada com um rifle, aguarda o ataque de seu grande inimigo político, Coronel Bim Bim, seu único e inconfessável amor, que se dirige à sua casa, na Belo Horizonte dos anos 50, com alguns jagunços, com a promessa de levar a cabeça da adversária para a cidade de Cruz dos Homens e pendurá-la no casarão de 28 janelas. Aos 65 anos, Inácia está cega e teme morrer sem ter tempo de realizar seu sonho — apurar o olfato para sentir o cheiro de Deus.

O leitor é conduzido ao universo de fatos políticos dos anos 50 e de personagens como a jovem que muda a cor da pele com a chegada de frente fria; a mula sem cabeça que enxerga e um médium que psicografa Dostoievsky.

Para a publicação do romance, Roberto Drummond fechou com a Editora Objetiva um contrato que prevê o relançamento de sua obra completa, com um tratamento editorial de coleção: o selo Biblioteca Drummond. Em breve, estarão de volta às livrarias títulos como A morte de D. J. em Paris, contos; O Dia em que Ernest Hemingway morreu crucificado, romance; Sangue de coca-cola, romance; Quando fui morto em Cuba, contos; Hitler manda lembranças, romance, Ontem à noite era Sexta-feira, romance, Hilda Furacão, romance, Inês é morta, romance e O Homem que subornou a morte, coletânea de contos publicados em revistas e jornais.

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