A Academia Chinesa de Ciências e Federação Chinesa de Sociedades Científicas

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Edgar Snow foi um dos mais brilhantes jornalistas de seu tempo. Em A China, Ontem e Hoje, escrito na década de 60, Snow tornou-se muito conhecido nos USA por ter sido o primeiro jornalista estrangeiro a romper o bloqueio da guerra civil na China. Entrevistou e fotografou o presidente Mao Tsetung e outros dirigentes, ainda em 1936 – um ano antes da guerra de resistência à invasão japonesa. Suas reportagens foram publicadas no Chicago Tribune, na Life e no Saturday Evening Post, do qual tornou-se correspondente e, depois, diretor associado.
Seu livro Red Star over China (Estrela Vermelha sobre a China), de 1937, é um relato da vida de Mao Tsetung e da revolução chinesa, colhido em longa entrevista com o líder revolucionário.
Desde o final da Segunda Guerra, Edgar Snow tentou regressar à China, mas, somente após longas peripécias, em 1960, conseguiu autorização do governo de seu país, que proibia aos cidadãos estadunidenses visitar, ainda que a serviço ou turismo, a República Popular da China.*

Quando foi estabelecido o novo governo, em 1949, somente 862 indivíduos eram, institucionalmente, considerados cientistas na China. Em 1955, o Governo de Pequim, ao estabelecer, com a colaboração de um grande gabinete de peritos soviéticos, um plano científico para doze anos, enfrentou, pela primeira vez, o problema de formar, em curto prazo, investigadores científicos. Até o fim de 1967, eram necessários 10.500 doutoramentos em ciências e 2 milhões de engenheiros. Até maio de 1957, a China Vermelha tinha 7.705 estudantes freqüentando universidades de 14 países, a maioria na Rússia. A finalidade do Plano era pôr a China a par do mundo "naqueles ramos da ciência e da tecnologia que são essenciais à economia nacional". A investigação no campo da teoria científica ou "ciência pura" era considerada secundária. Calculando que seriam necessários cerca de 500 cientistas dos mais aptos e 800 engenheiros para a realização dos projetos de produção de energia nuclear, a contribuição teórica seria, provavelmente, retardada durante alguns anos.

A China possuía equipamento moderno de pesquisa, importado da Rússia, e estava apta a produzir instrumentos delicados e complexos, incluindo os necessários à investigação nuclear. Foram criadas bibliotecas científicas, com livros adquiridos de outros países. Continuava sendo mais importante a fundação de institutos de investigação ligados à indústria e às comunicações. Em 1958, dizia-se que totalizavam 415, com 14.700 investigadores e técnicos. Em 1959, a Academia Chinesa de Ciências tinha 105 institutos de investigação, enquanto a Rússia tinha apenas 87, mas com 7.000 membros, enquanto na Rússia eram 14.000.

A carência de cientistas de grande envergadura estender-se-ia, ainda, por um largo espaço de tempo, no que diz respeito às exigências da produção de energia nuclear. O Governo tinha estado fortemente dependente do auxílio soviético no campo da ciência. Se os projetos de cooperação sino-soviética fossem anulados, a China ficaria gravemente prejudicada, porque não tinha contatos importantes de trabalho com países não comunistas. Mesmo agora, de 180 cientistas avançados com altas responsabilidades, 150 são educados fora da China, dentre os quais 80 nos EUA. A ciência popular, acessível à grande massa, estava representada pela Federação Chinesa de Sociedades Científicas, que incluía 40 grupos, desde cientistas mais avançados, até à Sociedade de Maquinaria Agrícola, que tinha recentemente admitido 36 "inventores camponeses". Com âmbito maior, havia, ainda, a Associação Chinesa para a Difusão do Conhecimento Científico e Técnico, com 300.000 membros, dentre os quais professores, engenheiros, investigadores e técnicos. A Federação publicava várias revistas científicas de grande circulação e organizou, para citar um exemplo da sua atividade, 160 conferências versando o tema dos satélites espaciais em Xangai, no espaço de um ano.

Combate massivo ao analfabetismo

Antes da revolução, nenhum recenseamento sistemático tinha sido feito e não se conhecia a porcentagem exata de analfabetismo. Os cálculos oficiais oscilavam entre 85 e 95%. É provável que mais de 90% da população rural fosse analfabeta — em algumas cidades é possível que a percentagem fosse de 70%. Estatísticas do Kuomintang, apresentadas pouco antes da invasão japonesa, indicavam 13 milhões de alunos do ensino primário, ou seja, 13 a 15% das crianças em idade escolar. Mesmo este baixo nível desceu abruptamente durante a guerra. Em 1949, talvez em 10 adultos nenhum soubesse ler e escrever.

A multiplicação de estabelecimentos de ensino impressionaria qualquer observador. Depois de ter visitado muitas escolas superiores, médias e primarias concluí que a China conseguira um maior progresso na alfabetização de grandes massas de pessoas e na transmissão de alguns conhecimentos científicos e técnicos do que qualquer outra nação num prazo tão curto. A ênfase fora mais quantitativa do que qualitativa, mas, padrões consideráveis aos russos e ocidentais eram agora impostos em todos os ramos do estudo especializado.

Um dos dias mais profícuos da minha estada em Pequim foi aquele em que entrevistei Tsui Chung-yuan, vice-ministro da Educação. O Sr. Tsui, formado pela Universidade Normal de Pequim, era um homem de uns 50 anos, falava um pouco de inglês e sofria de vista cansada. Disse-me que trabalhava 12 a 14 horas por dia. Quando fui pela primeira vez ao Noroeste ele era ainda um jovem professor em Sian. Depois do incidente de Sian juntou-se às forças guerrilheiras e, durante muitos anos, desenvolveu atividade educacional entre os camponeses.

Como na Rússia, o orçamento de Estado da China agrupava numa só rubrica as despesas em "serviços sociais, cultura, educação e ciência", tendo chegado em 1960 a 8,62 bilhões de yuan, ou seja 12% das despesas totais. Em 1953, o orçamento de educação e ciência atingia 1,864 bilhão de yuan. Em 1960, segundo o Sr. Tsui, 6,40 bilhões de yuan (cerca de 2,60 bilhões de dólares) foram destinados à educação e à ciência, isto é, 50% mais do que as despesas efetuadas pelo Exército. Fábricas, comunas e outros empreendimentos despendiam uma percentagem equivalente dos orçamentos locais destinados à educação (ao que se afirmava), girando a totalidade dos investimentos por volta de 15 a 20% do rendimento nacional.

Em 1960, os Estados Unidos gastaram com a educação em todos os níveis, menos de 4% do rendimento nacional. Ou seja, pouco menos dos 18 bilhões de dólares gastos em bebidas alcoólicas e tabaco. Na China, em 1960, houve um aumento de 47,1% nas despesas com "serviços sociais, cultura, educação e ciência", comparado com as despesas efetuadas em 1959. "Nesta verba, o investimento em construção subiu a 67,7%", segundo o relatório do ministro das Finanças, Li Hsien-nien.

Da alfabetização à generalização do ensino superior

Após um exame geral, o ministro Tsui dividiu os progressos educacionais da última década em três períodos:

Primeiro estágio, 1949-1952: "Foram necessários três anos para reconstruirmos a base econômica do ensino. Tudo, desde os transportes às escolas, estava arruinado. O país chegara à bancarrota. O dinheiro era inútil; estávamos reduzidos a um sistema de permutas. Todas as escolas estavam fechadas. A nossa tarefa era pôr os professores novamente a trabalhar, tanto nas escolas públicas como nas privadas — na maioria, de missionários."

Segundo estágio, 1952-1957: "Este período coincidiu com o Primeiro Plano Quinqüenal. Começávamos, então, a unificar e a sistematizar, preparando a construção socialista. Havia 21 universidades missionárias e outras instituições do ensino superior, mais de 500 escolas médias do ensino particular e 1200 escolas primárias. Muitas utilizavam textos franceses, ingleses e japoneses de pouca importância para a China. Era necessário nacionalizá-los e integrá-los no curriculum das escolas públicas. Durante este período fundamos algumas escolas especializadas de estudos superiores, dando prioridade à ciência e engenharia." "O nosso segundo objetivo era descentralizar e generalizar o ensino superior. Anteriormente, cerca de 70% dos estudantes universitários estavam concentrados nas regiões costeiras da China oriental. Atualmente, há institutos e universidades por toda a parte. Em 1957 cerca de 45% dos estudantes podiam já estudar no interior." "Durante este período conseguimos ainda formar professores e estudantes em filosofia e moralidade socialista — empreendimento importante ainda não levado a cabo, mas em franco progresso."

Terceiro estágio, 1957 até o presente [1960, quando foi escrita esta obra]: "No início do Segundo Plano Qüinqüenal, o ano do Grande Salto à Frente, adotamos o lema: ‘Educar estudantes para um desenvolvimento geral — dando igual importância à preparação mental, moral e física.' Procurávamos fazer de cada estudante um trabalhador, e fazer dos trabalhadores, estudantes. Dávamos importância à teoria aliada à prática."

"Antigamente, só 18% dos nossos estudantes se especializavam em Tecnologia e Engenharia, havendo 36% de estudantes de Arte, Direito, História e Ciências Sociais. Isso estava errado. Atualmente mais de um terço dos estudantes forma-se em Ciências Físicas e Engenharia. Juntamente com os estudantes das escolas normais totalizam 60% da massa estudantil. Criamos muitos ramos novos de ensino da Engenharia — 15 no total. Há 8 ramos de Geologia e Prospecção, em lugar de um só. Temos estudantes em escolas e institutos que se especializaram em cursos de 4 ou 5 anos que antigamente não existiam: dinâmica de mineração, metalurgia, fabricação de instrumentos, eletrônica, aparelhos elétricos, engenharia pesada, industria ligeira, tecidos sintéticos, geodésia, transportes, comunicações, engenharia aeronáutica, engenharia nuclear, técnica de computadores e engenharia matemática avançada. Ninguém pode ser perfeito em todas as matérias. Vivemos numa época de especialização."

No governo do Kuomintang formaram-se 185 mil universitários. Em 10 anos de revolução esse número subiu para 431 mil

Para a organização do seu novo sistema de ensino superior, a China serviu-se de 694 professores e especialistas russos soviéticos, 17 alemães, 10 tchecos e 5 indianos. Em 1960 restavam em toda a Chinas menos de 100 professores estrangeiros — principalmente distribuídos pelos cursos de engenharia e física superior. Em 1960, os estudantes do ensino médio eram 12,90 milhões. Em 1959, os alunos das escolas primárias formavam um grande exército de cerca de 91 milhões de crianças distribuídas por 737 mil escolas, com 2,50 milhões membros do corpo docente. As novas matrículas previstas para 1960-1961 em escolas primárias atingiam 21 milhões de crianças.

Remuneração dos professores e sistema combinado de trabalho e estudo

Como grupo, os professores universitários eram os funcionários melhor remunerados. Em 1960 estavam divididos em 12 graus, com ordenados que iam desde 345 yuan até 62, para os instrutores ainda estudantes. O grau de um professor era determinado pela sua aptidão técnica, anos de serviço e categoria geral, incluindo formação política. Alguns professores podiam manter automóveis particulares a expensas suas. E muitos aumentavam os seus rendimentos escrevendo artigos, fazendo conferências por preços elevados ou publicando livros. Os professores do ensino médio e primário estavam divididos em dez graus, com ordenados de 26,50 yuan para os assistentes principiantes de escolas infantis, até 149 yuan para os professores mais antigos.

O sistema combinado de trabalho e estudo utilizado na China provocara considerável confusão além-fronteiras. "O trabalho experimental significa, de fato, trabalho prático. Os estudantes de Engenharia trabalham na construção de barragens, pontes, centrais elétricas; os estudantes de Geologia fazem prospecções ou trabalhos de análise; os estudantes de Medicina trabalham em clínicas e hospitais; os estudantes de Química podem auxiliar na construção de fábricas de produtos químicos, etc.; algumas universidades têm quintas, vinhas e criação de gado próprias. Outras têm siderurgias.

"Nas escolas médias, os estudantes trabalham 8 a 10 horas por semana, onde quer que seja preciso. Começamos cedo. Os alunos das escolas primárias trabalham 4 a 6 horas semanais em oficinas escolares ou em trabalhos domésticos, distribuídos pelos professores.

"Suponho que o estudo de política é permanente — no trabalho ou nas salas de aula?"

"Mais ou menos. Nas aulas, cerca de uma hora em cada dez é dedicada à educação socialista, com estudo de textos marxistas básicos e conferências."

"De um modo geral, qual é a percentagem de tempo que um universitário dedica ao estudo, à parte o trabalho e a política?"

"Cerca de 60 a 70% — nunca menos de 60%."

O ensino é gratuito em todas as escolas, incluindo as superiores, não se pagando alojamento. A maioria dos estudantes universitários recebia certa quantia do Estado que cobria as despesas essenciais de uma alimentação frugal e, ainda, pequena importância para despesas pessoais.

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Em 1959 mais de 50% dos estudantes universitários eram camponeses e operários

Antigamente, eram pouquíssimos os estudantes provenientes de famílias camponesas ou operárias que logravam chegar à universidade; ainda em 1960, só 20% dos membros do Partido tinham freqüentado o liceu ou a faculdade. A participação de camponeses e operários na universidade, entretanto, foi drasticamente alterada: em 1959, pouco mais de 50% dos estudantes universitários eram de origem camponesa ou operária – em oposição aos "trabalhadores intelectuais" e à burguesia. Se isto é certo, tratava-se de uma modificação revolucionária, cujas conseqüências poderiam não ser totalmente entendidas no Ocidente durante dez anos mais. Estimulavam-se os camponeses adultos a aspirar à instrução liceal com ajuda do Estado. Se conseguiam entrar na universidade, todas as despesas passavam a ser pagas pelo Estado, que ainda fornecia um subsídio de 40 yuan por mês. O suficiente para manter as respectivas famílias durante o período de estudo.

Ocupação planificada das vagas nos cursos técnicos e superiores

"O que lhe provoca maiores dores de cabeça, Sr. Tsui — à parte a vista cansada? Quais são, atualmente, para o Ministério, os problemas mais graves?"

"Possivelmente, o maior problema é o da sincronização da produção educacional com as necessidades da ciência, indústria e agricultura. Não logramos acompanhar as modificações na procura. Há poucos anos tivemos grande falta de engenheiros. Por isso precisamos de tantos consultores engenheiros. Começamos agora a ter possibilidades de solução para essas necessidades, mas temos ainda muita falta de pedagogos e de especialistas em ciências naturais.

"Quais serão as nossas necessidades em 1965 e 1966 em relação aos estudantes que se matricularem no ano que vem nas universidades? A Comissão de Planejamento Governamental orienta-nos de perto. Mas, hoje em dia, nenhum plano é válido por mais de um ano. Aparece toda a espécie de carências inesperadas. É preciso que possamos transferir estudantes de um ramo de estudos para outro num ano ou dois, para preenchermos, assim, lacunas que possam surgir subitamente. Fazer isto sem transtornar todo o sistema escolar é muito delicado."

Em dez anos a matrícula anual nas escolas primárias quase quadruplicou. Nas escolas médias aumentou 10 vezes, e nas instituições superiores cerca de 7 vezes. Agora um aluno da escola primária tem uma possibilidade em sete de entrar para o liceu; um estudante liceal cerca de uma possibilidade em dezesseis de entrar na universidade — um grande progresso, de fato, no que diz respeito às oportunidades. Mas, a base alfabetizada da pirâmide da educação expandiu-se de tal maneira, que a competição para lugares nas escolas secundárias e superiores era extremamente acesa. As qualificações escolares, só por si, não eram garantia de êxito. Entre dois estudantes de igual competência acadêmica, a preferência ia para aquele que fosse "politicamente mais avançado", o que está de acordo com o critério oficial:

"Para garantir a qualidade dos novos estudantes, as autoridades e institutos de ensino superior nas várias localidades devem, de acordo com os regulamentos unificados, examinar cuidadosamente a formação política, a situação acadêmica e o estado de saúde dos novos estudantes, dando, com esta base, prioridade à sua admissão. Uma vez admitidos, os institutos superiores devem proceder uma revisão dos respectivos níveis político e físico. Se for verificado que não estão à altura requerida, serão desqualificados e não poderão prosseguir os estudos."

Em 1958-1959, mais de 35% dos estudantes universitários freqüentavam cursos de professorado; seguia-se a Engenharia, com 31%; , em terceiro lugar, a Agricultura e Silvicultura, com 6,9%; e, em quarto, a Medicina e outros ramos da ciência. (Em 1961, os estudantes de Medicina excediam 10%). O último lugar era ocupado pela Belas-Artes, com menos de 0,5%. As inscrições totais em institutos de ensino superior subiram de 65.900, em 1952, para 280 mil, em 1960. Embora os estudantes tivessem de ingressar nas escolas que lhes eram destinadas, podiam, como afirmou o Sr. Tsui, expressar as preferências — 3 no campo de estudo e 5 no de instituições —, que eram tidas em conta.

Integração do sistema de educação de massa com a produção

"Qual considera ter sido o maior erro desta década de nova educação?" — perguntei ao ministro Tsui.

"Cometemos um grande erro e o estamos corrigindo. Tentamos elaborar um sistema de educação de massa sem o integrar suficientemente nas necessidades de produção. Hoje temos 91 milhões de crianças em escolas primárias e, para o ano teremos mais. Logicamente, espera-se que, em 10 anos, 50 milhões ou mais freqüentem os liceus. Mas, é óbvio que a nossa economia não pode tolerar a saída de tanta gente da atividade produtiva.

"De hoje em diante, na nossa construção socialista fundamental, o ensino secundário e superior tem que ser combinado com soluções racionais dos problemas relativos à distribuição de mão-de-obra. Futuramente haverá mais combinações trabalho-estudo, nunca menos. A experiência ensinou-nos que essa é a única via. É esse o conceito fundamental do nosso atual sistema educacional."

"Cinqüenta milhões de estudantes liceais! A freqüência das escolas superiores nos Estados Unidos, em 1960, é quase igual à freqüência das escolas secundárias chinesas. Se o aumento continuar no mesmo ritmo dos anos 50, em 1970 a China terá 5 ou 6 vezes mais estudantes liceais e universitários que os Estados Unidos. Quem os iria alimentar? Era agora perfeitamente evidente que a taxa de crescimento da economia não podia suportar um tal sacrifício maciço de recursos humanos a um sistema educacional que começava por estar dependente das disponibilidades alimentares. O fato da instrução primária se ter tornado obrigatória em 10 anos, apenas acarretou graves contradições entre a procura de ensino superior e a necessidade constante do Estado, de braços para a lavoura e necessidade crescente de mão-de-obra industrial especializada. Antigamente, na China, a instrução primária era tão rara que qualquer diplomado era considerado "intelectual". Atualmente, muitos licenciados descobrem que lhes é necessário voltar aos campos e fábricas."

"Os intelectuais tornam-se trabalhadores e os trabalhadores tornam-se intelectuais"

Provavelmente, nunca nada foi tão mal interpretado ou tão deformado no estrangeiro como a tentativa chinesa de combinar o trabalho prático com a educação e de inserir esta nas necessidades de um país que emergia agora de uma sociedade feudal. Houve erros e atitudes estúpidas ao traduzir-se na prática o slogan: "Os intelectuais tornam-se trabalhadores e os trabalhadores tornam-se intelectuais". Será duvidoso, por exemplo, conseguir-se algum resultado positivo mandando um microbiologista cavar latrinas no campo. Mas, a própria lei da gravidade seria uma diretiva errada nas mãos de alguns burocratas chineses que tive ocasião de conhecer. O respeito pelo trabalho e pela relação conhecimento livresco-trabalho prático era um princípio válido muito necessário na China. Mesmo que mais não fizesse, senão impedir o retorno de uma pequena elite de literatos que consideravam inferior o trabalho manual, o esforço feito valeria a pena. Este desprezo pelo trabalho e pelo campesinato foi a maldição dos governantes de China do Kuomintang bem como dos mandarins confucionistas (e dos brâmanes na Índia) e explica até certo ponto a quase ruína da nação.

O objetivo não era reduzir os intelectuais ao nível de trabalhadores, mas antes ensinar-lhes o significado do trabalho. O slogan "os trabalhadores tornam-se intelectuais" pretendia elevar a classe trabalhadora a um nível em que a compreensão do trabalho dos intelectuais e suas aplicações práticas se tornasse possível a todos. Para tanto existia um sistema paralelo de escolas — muito improvisado — designado por Educação em Regime de Horas Livres, de que pouco se sabia no estrangeiro.

Educação em Regime de Horas Livres organizada e dirigida pela Federação dos Sindicatos chineses

Cerca de 25 milhões, ou seja, 60%, recebiam instrução de qualquer tipo em escolas sindicais, reduzindo, assim, o analfabetismo de 85%, em 1949, para 15%, em 1961, entre os trabalhadores urbanos organizados. Nos níveis mais atrasados, os operários aprendiam os 1.500 caracteres básicos necessários para poderem ler um jornal. Muitos tinham que repetir, e, muitas vezes, pessoas com idade superior a 50 anos mostravam-se totalmente incapazes. Os que conseguiam passar seguiam para:

1 Escolas primárias elementares, onde cerca de 13 milhões de alunos faziam cursos intensivos de literatura, matemática, ciências naturais, geografia, história e política (marxismo), num período de 2 a 4 anos perfazendo um mínimo de 240 horas de estudo por ano.

2 Escolas elementares médias e escolas técnicas médias. Aí se ensinava Matemática, Ciência e Engenharia ao nível essencial, junto com Política, a 4 milhões de operários, com duração de 18 a 24 meses. Os alunos que terminavam seguiam para:

3Liceus, durante mais 18 a 24 meses. Os cursos constavam de: matemática, ciências, engenharia, contabilidade, administração oficinal e, ainda, aulas sobre história e marxismo. Aqui, um total de 1,50 milhão de operários se preparava para:

4Universidades em regime de tempo livre, com freqüência permanente de 400 mil alunos, 5 a 6 anos de especialização para aqueles que eram julgados capazes de abranger os currículos ao nível universitário. Daqui saíam técnicos, engenheiros, cientistas, administradores de fábricas, matemáticos, técnicos de planejamento e comunistas amadurecidos.

Seis meses antes da minha entrevista com o Sr. Li, constou que 130 milhões de camponeses tinham se inscrito em escolas primárias, o que foi, em grande medida, possível pelas recentes facilidades comunais de educação em massa.

"Acha realmente que se podem formar cientistas e engenheiros competentes por este sistema educativo?" — perguntei a Li.

"Investigamos a origem social de 50 grandes cientistas e inventores — respondeu. — Dentre eles, 40 — incluindo os vossos Edson e Ford — provieram da classe trabalhadora e eram essencialmente autodidatas ou estudantes em sistema de aproveitamento de horas livres."


* Os relatos do jornalista em A China Ontem e Hoje (Red China Today, 2º Vol. - Publicações Dom Quixote, 1972 - Lisboa — Portugal), acerca do desenvolvimento da revolução chinesa em todos os campos, têm enorme importância. Especialmente, por tratar-se de um intelectual não-comunista, que retrata com profunda admiração e respeito, os enormes avanços conquistados pelo povo chinês, sem esconder suas dúvidas e contradições com a forma de democracia socialista. AND apresenta, neste artigo, trechos do capítulo Ciência e Educação, em que Snow descreve aspectos da política educacional implantada na China até 1960.

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