Faixa Livre: uma exigência do povo

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Sandra Priori, assistente de produção, Paulo Passarinho, apresentador e Sônia Toledo, produtora: equipe vitoriosa

O rádio brasileiro retoma seu espaço popular e democrático através do Programa Faixa Livre, que vai ao ar de segunda à sexta-feira, das 7:30 às 9:00, pela Rádio Bandeirante (1.360 khz), Rio de Janeiro. Composto de informações extraídas das melhores e mais diferentes fontes, dinâmico e atualizado, Faixa Livre assume as características de um veículo popular de comunicação de massa. Imprescindível, pode-se dizer, para as classes e setores que constituem o povo brasileiro, no rigor da expressão.

São mais de 50 ouvintes, por programa, de todos os bairros da cidade do Rio de Janeiro, outros municípios do estado e algumas regiões de Minas Gerais, que dialogam com o apresentador, enviando consultas, solicitando e trazendo informações. “É um contra-ponto da mídia convencional”, diz a diretora, produtora e jornalista Sônia Toledo, sobre as características do programa. O apresentador, radialista Paulo Passarinho, enfatiza que o “Faixa Livre é uma trincheira radiofônica”. Formado em economia, Paulo assumiu essa função há três anos, depois de participar como comentarista em assuntos de administração pública. A iniciativa do “Faixa Livre” partiu da professora de Ciências Sociais, Zuleide Faria de Mello e dos dirigentes de algumas entidades de classe. O programa foi ao ar pela primeira vez no dia 5 de dezembro de 1994, e desde então, vem mantendo a linha e o objetivo originais. Ou seja, radiojornalismo interpretativo da realidade do Brasil e do mundo, resume o texto da vinheta de abertura do programa.

Engajado

Os estúdios da Rede Bandeirante de Rádio (antiga Rádio Guanabara), onde é transmitido o programa “Faixa Livre”, estão localizados no sexto andar de um prédio no centro da cidade do Rio de Janeiro, próximo à Cinelândia. A iniciativa do grupo, que há oito anos mantém no ar o programa, simboliza o pioneirismo na radiodifusão carioca, berço dos momentos mais importantes do rádio brasileiro. Como a “Fase de Ouro” dos anos 40 e 50, as grandes coberturas ao vivo de marcantes fatos políticos da história contemporânea do Brasil. A imensa contribuição que os radialistas mais conseqüentes forneceram para o desenvolvimento da música, da cultura e dos esportes durante a resistência contra o gerenciamento militar e a mobilização das massas pelas lutas democráticas no País.

Historicamente, o rádio foi o veículo de comunicação de massa que mais se aproximou dos interesses nacionais, nos mais importantes movimentos de massa. Na década de 30, já era usado para os acontecimentos que deram início a uma nova fase da história do Brasil, o Tenentismo. A mobilização das massas para pôr fim à ditadura Vargas, teve o rádio como um forte aliado. O rádio abriu caminho para o desenvolvimento de toda a cultura nacional na música e nas artes, principalmente na divulgação da maior parte dos gêneros musicais regionais.

Durante a resistência ao regime militar, o rádio foi o veículo de comunicação mais atingido pela censura prévia, prova do grande temor que ele inspirava aos gerentes fascistas. Inúmeras emissoras foram lacradas, radialistas e artistas presos, torturados e submetidos à interdição profissional por muitos anos. Programas radiofônicos, tradicionalmente preferidos pela população, simplesmente saíam do ar. Outros, foram abolidos. A prova de que o povo não poderia estabelecer uma linha de divulgação de notícias, de emissões culturais e políticas que atendessem às suas necessidades.

Com o fim do gerenciamento militar, a partir dos anos 80, o rádio foi, sem dúvida, inseparável para a retomada dos movimentos de massa, para a reorganização das entidades de classe e dos movimentos correspondentes, entre operários, estudantes e na criação de associações de bairros e de favelas. As campanhas pró Anistia Ampla Geral e Irrestrita, Constituinte, Diretas Já e, mais recentemente, Fora Collor — independente das manobras que os oportunistas fizeram para desvirtuá-las — ganharam as ruas, tendo o rádio como a expressão maior entre os veículos de comunicação que mais contribuíram para divulgar a vontade das massas.

A produtora Sônia Toledo, jornalista especializada em economia, com grande experiência profissional, responde o que hoje, graças ao seu trabalho se tornou óbvio: que o “Faixa Livre” é um “programa engajado”. Incomum, se comparado à maioria das produções que circulam nas emissoras. Para ela, “a manutenção desse programa nesses oito anos é uma vitória do ouvinte e que, se dependesse deles, o tempo de veiculação já deveria ter aumentado”, completa Sônia, explicando que basicamente as emissões são pautadas nos acontecimentos econômicos e políticos que estão na ordem do dia. No entanto, cabe frisar, nem por isso deixa de ter um caráter popular e democrático. Não atinge apenas uma faixa de ouvintes, como pensariam os obstinados, mas, em geral, chega ao povo, é respondido pelo povo. Ninguém, além do povo se preocupa — verdadeiramente —com a solução dos problemas nacionais. A intervenção dos ouvintes, mais que isso, revela que nem o rádio, nem ninguém, tem o poder de conscientizar as massas, mas que programas assim contribuem para popularizar as questões de maior peso e elevar o nível de consciência das massas.

O programa não persegue fins lucrativos, comerciais de varejo ou propagandas institucionais e, também, não é um espaço adquirido para satisfazer profissionais ou grupos de outros interesses. É claro que, seja no Rio , São Paulo, capitais do Nordeste ou no interior, o povo se ressente, hoje, de uma rádio autêntica, popular e democrática. E é uma das vontades do povo não só aumentar o horário, mas ter outros programas como o “Faixa Livre”.

Os ouvintes, segundo Sônia, colaboram com a manutenção do programa. Outras entidades se oferecem para participar. Quem, hoje, não sente o irrefreável desejo de se expressar, de dar opinião sem temor de sair do ar, ou ser censurado como acontece, atualmente, na radiodifusão comercial?

Os dois primeiros comunicadores do programa foram Ricardo Bueno e Álvaro Queiroz. Tecnicamente, a locução era realizada por dois apresentadores. Exceção feita somente agora, que conta apenas com o profissional Paulo Passarinho. Sônia faz questão de afirmar que o programa não tem ídolos: “é um núcleo de produção”, e seu único objetivo é “a informação verdadeira, de comprovado interesse público”. Sobre Ricardo Bueno, Fernando Siqueira, presidente da Aepet, diz que “era um homem sério, ético e bem-humorado. Sabia dar as melhores e as piores notícias, mas de maneira que o ouvinte assimilasse o melhor possível delas”. Ricardo Bueno foi apresentador do programa desde o início. Atuou durante cinco anos, só deixando o comando do Faixa Livre há três, quando faleceu.

A participação

“O programa surgiu no momento em que o projeto neoliberal se afirmava com mais ênfase no Brasil, no governo de Fernando Henrique Cardoso.” A explicação é do comunicador Paulo Passarinho, provando que, apesar da crise e da ascensão da burguesia, o rádio encontrou fórmulas de se afirmar — como sempre aconteceu nos momentos mais críticos da luta do povo. Ele se renova à medida que o povo se reafirma. Mesmo em uma década, como a de 90, em que o rádio sofreu muitas restrições econômicas, o “Faixa Livre” conseguiu ocupar um valioso espaço na mídia. Em 1994, a crise econômica era cruel. Mesmo assim, experiências como essa apontavam em alguma área da imprensa.

No estúdio, numa mesa com seis microfones, Passarinho faz a ponte entre entrevistados, comentaristas e ouvintes. Uma intensa movimentação é coordenada pela produção — assistência de Sandra Priori, que fica repassando as informações e as opiniões de um público surpreendentemente atento, politizado (ao contrário do que oficialmente falam do povo), que chegam através de telefonemas. Depois de anunciar alguns temas que serão levados ao ar durante a hora e meia de programa, o comunicador faz desencadear um verdadeiro show de notícias e informações, com comentários, críticas, análises profundas (nem por isso enfadonhas) e interpretação dos fatos.

No dia 18 de novembro, Passarinho entrevistou, ao vivo, direto do Pontal do Paranapanema, a esposa do líder do MST, José Rainha, senhora Deolinda Alves. O programa, também no mesmo dia, ouviu Ricardo Maranhão, professor da UFRJ e vereador do Rio de Janeiro, entrevistado no estúdio. O comunicador leu uma notícia sobre a política belicista do presidente dos Estados Unidos, enquanto um ouvinte diz que “é preciso romper com eles e mandá-los embora”.

Em meio às opiniões dos ouvintes, passadas através de notas, pela produção, ou mesmo ao vivo, pelo telefone, o comunicador explica, comenta e debate: “Esse conceito de superávit primário é um conceito fajuto. Esconde o real, ou seja, as despesas financeiras dos governos”. Ainda assim, um ouvinte, implacável, lamenta que o comunicador não tenha indagado “sobre o que fará no futuro a mulher do líder do MST”.

É, sem dúvida, um cenário de debate público. De opiniões, sugestões, de um novo rádio que tem tudo para ser marcante nesse prelúdio de um mundo novo. Hoje, o programa é patrocinado pelas seguintes entidades: a Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobrás); AEBT (Associação de Empregados da Embratel do Rio de Janeiro); Afaiterj (Foro Fisco – RJ); Associação dos Auditores Fiscais Trabalhistas, RJ; Corecon (Conselho Regional de Economia 1º Região/RJ); Sincaf (Sindicato Carioca dos Fiscais de Renda); Sindifisp (Sind. dos Auditores Fiscais da Previdência Social do RJ); Sinfrerj (Sind. dos Fiscais de Renda do RJ); Sintect (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Brasileiras de Correios e Telégrafos e Similares do RJ); Sintrasef (Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal do RJ); Unafisco (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal); Sindecon (Sindicato dos Economistas do RJ); Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia); a Afiperj (Associação dos Auditores Fiscais da Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro) e o Sindipetro (Sindicato dos Petroleiros do RJ).

O rádio e a vontade do povo

O rádio no Brasil completou 80 anos. É considerado o veículo mais importante para a comunicação pública, devido às características culturais da nossa gente, não só no interior, como na periferia dos grandes centros urbanos. As chamadas rádios livres, rádios piratas, rádios alternativas e hoje, as rádios comunitárias, no Brasil e no resto do mundo, historicamente tiveram o seu papel revolucionário nos momentos de crises sociais e políticas na Europa e América do Sul. Sempre existiram e continuarão a existir, para atender à necessidade pública de usufruir um veículo livre. Uma rádio liberta da ditadura comercial, independente dos grupos dominantes. Um veículo não dominado pelos interesses econômicos do império. Uma emissora autêntica, sem o controle burocrático do Estado e dos políticos.

Sempre que o rádio é submetido a crises políticas e/ou econômicas, como foi durante o DIP (Departamento de Informação e Propaganda), na ditadura Vargas, no regime dos generais após do golpe de 1964, e, mais recentemente, sob a hegemonia do império dos USA, durante toda a década de 90, várias alternativas surgem para atender o interesse público.

“Em 1980, o rádio no Brasil teve uma boa atuação na cobertura dos movimentos de massa”. Na década de 90, no co-lapso iniciado no governo Collor, o rádio perdeu o pique de audiência, porque já não atendia aos interesses do público-ouvinte, e, foi nesse período, que mais se intensificaram, em todo o Brasil, as rádios comunitárias. O crescimento da crise, no decorrer daqueles anos, gerou, inclusive, quebra de empresas, fazendo com que outras medidas comerciais fossem tentadas para retomar sua viabilidade: inventaram as redes, extinguindo as programações regionais, fizeram ofertas de arredamento a grupos religiosos, mas, nada disso tirou as empresas do prego.

Uma outra iniciativa foi o interesse de entidades classistas, sindicais e políticas no comando de horários no rádio comercial. Esta fase mais recente do veículo está em evidência, aberta ao debate, e não podemos dizer que “não é melhor do que o mando dos grupos que receberam graciosamente a concessão do Governo Federal”. A decadência do modelo comercial dos meios de comunicação no Brasil, determinada pelos grandes grupos, é mais grave no setor rádio: oferta de horários, ou mesmo de emissoras, a preço de galinha morta. No Nordeste existem emissoras que, por falta de recursos, não têm programação total, nem mesmo no horário nobre, no período da manhã.

“No tempo do professor Roquete Pinto, em sua fase inicial, a radiodifusão era mantida por clubes de serviço ou associações e entidades classistas,” como a Academia Brasileira de Ciências, entidade que fundou a primeira rádio no Brasil: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. A exemplo do que fazem hoje os ouvintes do programa “Faixa Livre”, os componentes da sociedade, os seus ouvintes, contribuíam mensalmente para manter o veículo no ar.

Somente vários anos depois, quando Getúlio Vargas autorizou a publicidade no rádio, é que o veículo deixa de ser educativo, programado para promover a arte e a cultura do povo e divulgar a ciência, passando a ser comercial, controlado pelas multinacionais da bebida, do tabaco e dos remédios. Se, nessa nova fase, que pode ganhar corpo com a retomada da organização e poder das entidades populares, o rádio for mesmo participativo, melhor para a sociedade. Senão, certamente, haverá outras medidas, conforme mostra a sua história.

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