O vôo de Thereza

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"Há 14 anos, dois anos antes de sua morte, eu lhe prometi que não deixaria que sua história se apagasse". E não se trata de uma história qualquer, mas da brava história de Thereza de Marzo, jovem de 19 anos de idade que, em plena década de vinte, em oposição a uma série de valores retrógrados, tornou-se a primeira mulher a voar sozinha no Brasil, abrindo o caminho que, logo em seguida, seria trilhado por muitas outras.

Tereza de Marzo em sua época de aviadora

Quem conta a história é Lucy Lúpia, mulher que também escreveu seu nome nos anais da aviação, tornando-se a primeira piloto de linha aérea do país. Hoje, Lucy se dedica a divulgar essa história, tendo se empenhado, até agora, na feitura de três livros — verdadeiros documentos que se propõem a registrar o que de mais importante testemunhou em sua carreira: Eu quero voar, Vôo proibido e Sobrevivente.

Assim como Thereza, Lucy desbravou um caminho até então reservado para os homens, e pôde sentir na pele o que significa essa competição. A presença feminina se tornou uma ameaça e qualquer argumento utilizado contra as aviadoras, por mais destituído de fundamentos que fosse, surtia algum efeito.

Em 1976, apesar de ter cumprido todas as exigências para se habilitar à licença de piloto de linha aérea, Lucy não foi contemplada com o brevê. Recebeu sua licença somente no ano de 2000, após 24 anos de luta. Lucy considera que sofreu duplamente, pois, além de ser mulher, competia profissionalmente no mercado. Diferente de Thereza, que praticou o vôo por esporte.

O segundo de seus livros, "Vôo Proibido", relata, dentre outras coisas, os percalços por que passou Thereza, no sentido de dar "asas" a seu sonho, assim como esmiúça a polêmica advinda da dúvida que paira sobre o pioneirismo feminino na aviação.

A história de Thereza

Filha de imigrantes italianos em Nápoles, Thereza de Marzo nasceu em São Paulo, a 4 de agosto de 1903. Já aos 17 anos, enquanto observava os céus da cidade, decidiu se tornar piloto. Determinada, não relutou em partilhar sua decisão com a família, o que causou um grande constrangimento. Era inaceitável, naquela época, que uma mulher se dedicasse a outra tarefa que não fosse o binômio casamento e filhos. E Thereza, sem dúvida, ousou, indo de encontro a uma série de tabus que permeavam a acanhada sociedade dos anos vinte. Sem o auxílio financeiro dos pais, Thereza conseguiu, rifando uma vitrola, levantar fundos para se matricular na escola de aviação dos irmãos João e Enrico Robba, ex-aviadores da 1ª Guerra Mundial. Ali, de posse de um Caudron G-3, começou a pôr em prática tudo aquilo que, no Brasil, ainda estava destinado aos homens. Dessa forma, acabou por conhecer o instrutor Fritz Roeler, alemão com quem mais tarde viria a se casar. Foi ele quem a preparou para seu primeiro vôo solo, em 17 de março de 1922.

"O grande mérito da Thereza é que ela voava sozinha. A outra era uma enganação." — comenta Lucy, se referindo a Anésia Pinheiro Machado, aviadora que, segundo ela, recebeu imerecidamente o título de pioneira em vôo solo. "A Anésia fez um vôo SP-Rio trazendo a bordo, como observador de vôo, seu instrutor, o tenente Reinaldo Gonçalves. Ou seja, ela não voava sozinha. Até Santos Dumont foi enganado."

O dia 8 de abril de 1922 veio comprovar o pioneirismo de Thereza de Marzo na aviação, com a emissão de seu brevê (licença para pilotar). Ela recebeu o diploma de nº 76 da Fédération Aéronautique Intérnationale. Na ocasião, ela foi submetida a um exame no qual se saiu muito bem, apesar de ter operado numa pista bastante pequena, impressionando a todos que assistiram sua performance.

No ano seguinte foi construído o Hangar Thereza de Marzo, no Ypiranga. A fim de erguê-lo, a aviadora ia diariamente a Santos para recolher donativos, enquanto Fritz se encarregava da compra de materiais. Ali, funcionou a Escola de Aviação Ypiranga, que logo depois foi desativada.

O casamento

Se por um lado Fritz Roeler impulsionou a carreira de Thereza ao instruí-la e apóia-la, por outro, foi uma pedra em seu sapato, desestimulando-a. Até os registros de Thereza foram sabotados por Fritz: "Thereza registrou oficialmente 350 horas de vôo. Só que acumulou muito mais. No entanto, Fritz achou tolice registrá-las" — coloca Lucy, ao falar do casamento da aviadora com o seu instrutor, em 25 de setembro de 1926.

Apesar de ter confrontado o preconceito de sua família, especialmente de seu pai, Affonso de Marzo, Tereza acabou caindo nas garras da mesma insensatez patriarcal. Fritz, mostrando-se benevolente num primeiro momento como instrutor, não tardou em revelar a sua verdadeira face de marido conservador. "Quando ele começou a namorá-la, ficou noivo e quis casar, mas não quis mais que ela voasse. Foi preconceito, ciúme e machismo." — conta Lucy, e acrescenta: "À época da revolução de 24, os aviões particulares foram confiscados e, também, a gasolina ficou cara. Thereza foi obrigada a se afastar, ocupando tão somente o lugar de mulher do Fritz". Às voltas com uma série de dificuldades financeiras, Thereza, que já havia estado à frente de seu tempo, se acomodou, adequando-se à imagem típica da mulher dos anos 20.

Fritz Roeler e a VASP

Fritz se destacou em diversos ramos da aviação, tendo contribuído muito para a evolução do vôo no Brasil. Piloto e engenheiro mecânico, construiu os primeiros planadores do país. Projetou oYpiranguinha que, em seguida, deu origem ao CAP-4 (Paulistinha), o avião que mais formou pilotos no país, até hoje.

Em 1933, juntamente com Henrique Santos Dumont (sobrinho de Alberto Santos Dumont) e Jorge Corbisier, fundou a VASP. Sua intenção era criar uma linha aérea que interligasse São Paulo a Ribeirão Preto. Para Lucy, não é dado a Fritz o devido reconhecimento: "Fritz foi o idealizador da VASP, e hoje é contada a história da empresa e não se fala no Fritz,que, com o Henrique Santos Dumont, comprou dois aviões Monospar e fez a primeira linha de integração para o interior". Porém, Roeler não permaneceu por muito tempo na empresa, deixando, após seis meses de fundação, o cargo de diretor técnico insatisfeito com os freqüentes "vôos panorâmicos" de cortesia.

A história contada pela VASP realmente omite o nome de Fritz Roeler. Nenhuma menção é feita a ele. Se Fritz não tivesse projetado os alicerces da empresa, provavelmente ela não teria nascido. Até as intenções que moveram a sua criação foram esquecidas, de modo que, no site da companhia, é comentado que sua fundação foi impulsionada pela expansão dos negócios de executivos paulistas. Vários nomes são mencionados: o do Dr. Vicente de Paula Vicente de Azevedo, Dr. José Manaus de Camargo Aranha e Henrique Santos Dumont. Contudo, à semelhança do que aconteceu com sua esposa, Fritz, após ter assumido tão brilhante empreitada, sem ter colhido todos os frutos que lhe cabiam, foi sumariamente catapultado da história. Hoje, quem a escreve, são aqueles que se aproveitaram do que ele construiu.

O pioneirismo de Anésia

Já há algum tempo, Lucy Lúpia trabalha para esclarecer a polêmica existente no que diz respeito ao pioneirismo na aviação feminina. Basta dar uma navegada pela Internet para verificar que, na maioria das páginas sobre aviação, história ou feminismo, é dado a Anésia o título de primeira aviadora do Brasil, e não à Thereza que, segundo Lucy, é quem de fato merece. Aspectos da história referentes a Thereza são atribuídos aAnésia que, conforme relatos da escritora, forjou um sem número de provas com o intuito de se estabelecer na posição de pioneira. "Pegaram dados de Thereza e incorporaram à biografia de Anésia. Puseram que quem solou no dia 17 de março foi ela. Mas como o número do brevê da Thereza é 76, e o da Anésia é 77, ninguém nada pode contestar." — coloca Lucy. Polêmicas à parte, o que mais importa na história dessas mulheres é que, independentemente da questão do pioneirismo, elas se colocaram numa posição avessa aos valores dominantes da época — foram vanguarda na história da aviação no Brasil.

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A mulher no início do século

Comandante Lucy Lupia, a primeira
piloto PLA do Brasil

Na virada do século, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República pontuavam as mudanças ocorridas no Brasil. O crescimento das cidades, o advento da tecnologia e a industrialização, refletiam, já na década de 20, de maneira profunda no cotidiano da população. Na esfera cultural, a Semana de Arte Moderna de 1922 traçou em São Paulo, com muita ousadia e inventividade, os novos rumos que seguiriam a belle époque tupiniquim.

Além disso, algumas mulheres se destacavam na luta política. Deolinda Daltro, ainda em 1910, fundava o Partido Republicano Feminino, para, sete anos depois, promover uma passeata na qual exigiu a extensão do voto às mulheres. Em 1918, após um longo período na Europa, Bertha Lutz voltava ao Brasil, fundando, em 1919, a Liga de Emancipação da Mulher, que também previa a concessão de uma série de direitos para constituir, em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. O primeiro passo, no entanto, em direção a esse "progresso", seria dado apenas em 1932, quando foi promulgado, pelo governo Getúlio Vargas, o novo Código Eleitoral, que garantia às mulheres brasileiras o direito de voto.

Outras começavam a exercer algumas profissões nobres nas grandes cidades. Em 1901, Maria Augusta Saraiva se formava advogada na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em 1918, duas médicas se graduavam na Faculdade de Medicina. Dez anos depois, aparecia a primeira engenheira. Com o objetivo de combater o analfabetismo, em 1922, Antonieta de Barros — que viria a ser, em 1934, a primeira mulher negra a ser eleita para a Assembléia Legislativa de seu estado (SC) — fundou o curso "Antonieta de Barros". A primeira prefeita brasileira, Alzira Soriano, foi eleita em 1928 em Lages.

Em meio às Forças Armadas, a insatisfação com a política governamental e as precárias condições do Exército fomentaram diversos levantes militares. O "Tenentismo" foi um dos episódios que evidenciavam — nos acontecimentos dos 18 do Forte, nos levantes de 1924, na Coluna Prestes etc. —, o clamor nacional para as mudanças exigidas na economia e na superestrutura da sociedade brasileira. Vale lembrar que, ainda que não estivesse inscrito no programa revolucionário da Coluna, um considerável contingente de mulheres nela se integrou.

... e de nada valeram?

Apesar do caráter pequeno-burguês das "conquistas citadas", cabe salientar que, cada uma dessas mulheres esteve (havendo ou não consciência precisa de seu papel, e que caráter de classe tinha essa consciência) a serviço das causas de sua época. Ou seja, tiveram seus feitos, grandes ou pequenos, condicionados às relações existentes na sociedade, como cabe ser. Cada grande feito é sempre impulsionado como uma peça intercalada e necessária na história da humanidade, com suas leis objetivas, que indicam o melhor caminho a percorrer. As campanhas de março de 1857, nos USA (que consagraram o Dia da Mulher), tiveram muito mais importância do que os movimentos que conclamavam todas as mulheres a lutarem por interesses que beneficiavam umas poucas e bem aquinhoadas "representantes da sociedade".

O ingresso de uma numerosa massa de trabalhadoras numa nova fase das lutas de emancipação das classes oprimidas superam em qualidade, inevitavelmente, os mais dignos feitos produzidos numa fase imediatamente anterior. E a história de nosso país, desde os seus primórdios, contém bravuras e personalidades femininas que comprovam essas fases e os rumos de sua libertação, nas frentes da produção, da ciência, da cultura, da vida política.

Em São Paulo, muitas fábricas tomavam o espaço urbano. As pessoas se deslumbravam com a velocidade dos meios de comunicação e do transporte. O cinematógrafo surgia, a maquiagem, com o desenvolvimento da indústria farmacêutica, era muito utilizada, e o movimento tenentista, com a Coluna Prestes, começava a desafiar o governo federal. Dessa forma, fica claro que a industrialização efetiva das cidades, bem como o fim da Primeira Guerra Mundial, contribuiu para uma mudança no comportamento feminino, independente de classe. Mudança da qual fizeram parte Thereza de Marzo e tantas outras pioneiras (ou não) do Brasil.

As Teresas, os Fritz, as Lucys e todas as Marias e Josés foram, e são, muito mais que um momento de pioneirismo. Contestado ou não. São mulheres de um determinado momento na vida. Como os homens e as mulheres em cada tempo vivido. Tiveram e criaram as oportunidades possíveis. Percorreram circunstâncias determinadas. Cumpriram, e cumprem, cada uma (a seu modo), o papel do indivíduo na história (a verdadeira, que ainda está para ser contada), da luta de classes, no Brasil e em todos os recantos da Terra.

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