Israel, Iraque e Estados Unidos

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Os EUA marcham em transe para a guerra. Temos que fazer todo o possível para diminuir e acabar com o chamamento à guerra, que, hoje, não só é mais uma prática. Tornou-se teoria.

A palavra "terrorista" começou a ser empregada sistematicamente desde que, em meados de 1970, Israel se referia a um ato palestino de resistência. Desde então essa foi a regra, especialmente durante a primeira intifada de 1987/93. O que elimina a distinção entre resistência e terror puro e despolitiza, efetivamente, as razões da luta armada.

Durante as décadas de 50 e 60, Ariel Sharon ganhou fama comandando a infame Unidade 101, que assassinou civis árabes e arrasou suas casas, com a aprovação de Bem Gurion. Sharon esteve encarregado da pacificação de Gaza, em 1970 e 1971. Nenhuma dessas campanhas militares, incluindo a de 1982, conseguiu subjugar o povo palestino suficientemente, com a mudança do mapa ou do regime para que assegurar uma total vitória israelense.

A diferença principal entre 1982 e 2002, é que os palestinos, agora, são vitimados e encurralados em seu próprio território, ocupado por eles em 1967, onde até hoje permanecem, apesar da devastação, da ocupação, da deterioração dos fundamentos de sua economia e da total destruição da infra-estrutura civil da vida coletiva. A principal similitude está nos meios desproporcionais empregados: centenas de tanques e buldozers usados para invadir cidades e lugarejos, ou campos de refugiados (como os de Jenin e Deheisheh), para matar, vandalizar, impedir o atendimento das ambulâncias e os primeiros socorros, cortar água e eletricidade, e muito mais. Tudo com o apoio dos EUA, cujo presidente foi tão longe a ponto de ter chamado Sharon um homem de paz durante as piores violências de março e abril 2002. É significativo como a intenção de Sharon está além de "erradicar o terror". Seus soldados destroem cada computador, levam arquivos e memórias do Departamento Central de Estatísticas, do Ministério da Educação, das Finanças, da Saúde, dos centros culturais; vandalizam escritórios e livrarias. Tudo como meio para reduzir a nível pré-moderno a vida coletiva palestina.

Não é necessário enumerar críticas às táticas de Arafat, ou aos fracassos deploráveis de seu regime durante as negociações de Oslo. Além do mais, Arafat esteve com a vida por um fio quando seus desmoronados quartéis em Ramallah foram sitiados e Sharon fez o impossível para feri-lo, ou mesmo matá-lo. O que me interessa é a idéia da mudança de regime, como prospectiva atraente para indivíduos, ideologias e instituições mais poderosas que seus adversários. Que pensamento é esse, que torna mais fácil conceber que um grande poder militar autorize mudança política-social em escala jamais imaginada, e o faça sem a menor consideração para com os danos maciços que tal mudança impõe? Como pensar em não incorrer em riscos de baixas, ao estimular mais e mais fantasias sobre ataques cirúrgicos, guerra limpa, batalhas de alta tecnologia, como forma de mudar totalmente o mapa e criar democracia? Tudo isso com a ascensão de idéias de onipotência, de esquecimento do passado e com controle sobre o que "nos" interessa.

A imagem do Iraque como um povo próspero já não existe

Durante a atual campanha ianque para mudar o regime no Iraque, é o povo iraquiano — essa vasta maioria dos que pagam um terrível preço na pobreza, má-nutrição e doenças, resultante de dez anos de sanções — que é deixado de lado. Tudo para dar continuidade à política dos EUA para o Oriente Médio, construída sobre dois pilares: segurança de Israel e suprimento contínuo e barato do petróleo. O complexo mosaico de tradições, religiões, culturas, etnias e histórias que constituem o mundo árabe, especialmente no Iraque — apesar da existência de nações-estado com sombrios governos despóticos —, é negligenciávelpara os planos estratégicos, tanto dos EUA, como de Israel. Com uma história de 5.000 anos, o Iraque agora é visto, como "ameaça". Tanto para seus vizinhos —o que, na sua condição fragilizada e boicotada, é rematada tolice — como "ameaça" para a liberdade e segurança dos EUA, o que é absurdo maior. Não me deterei, aqui, em afirmar minhas condenações a Saddam Hussein, como personagem incômodo que ele é: considero que merece ser destituído e punido. Pior de tudo: ele está sendo ameaça para seu próprio povo.

Mesmo antes da guerra do Golfo, a imagem do Iraque como um grande, próspero e diferente país árabe já havia desaparecido. O que circulava, tanto na mídia como em discursos políticos, era a imagem de uma terra desértica, povoada por bandos brutais, liderados por Saddam. Que o enfraquecimento do Iraque tenha, por exemplo, quase arruinado a indústria editorial árabe, já que o Iraque fornecia o maior número de leitores no mundo árabe; que o Iraque tenha sido um dos poucos países árabes com ampla, educada e competente classe média; que tenha petróleo, água e terra fértil; que sempre tenha sido o centro cultural do mundo árabe (o império Abbasid com sua grande literatura, filosofia, arquitetura, ciência e medicina, foi contribuição iraquiana, que ainda hoje é base da cultura árabe); que, para outros árabes, a ferida sangrenta do sofrimento iraquiano, bem como o calvário palestino, estão sendo fonte de mágoa para árabes e muçulmanos, tudo isso nunca tem sido mencionado. Suas vastas reservas de petróleo, no entanto, o são. E, como argumentam: "se "nós" as tomássemos de Saddam e "nos" apossássemos delas, não seríamos tão dependentes do petróleo saudita, não é?" Isso, porém, raramente é citado como fator de guerra nos vários debates que sacodem o Congresso dos EUA e a mídia. Mas, segundo a Arábia Saudita, o Iraque possui as maiores reservas de petróleo da terra. Um valor aproximado de 1,100 trilhão de dólares já está comprometido por Saddam com a Rússia, a França e alguns outros poucos países, e são o objetivo crucial da estratégia ianque. Algo que o Congresso Nacional Iraquiano usou como trunfo para com os não-EUA consumidores de petróleo (para maiores detalhes, ver Michael Klare Oiling the Wheels of War, The Nation, 7 out). Um bom item da barganha entre Putin e Bush, diz respeito ao quanto da partilha desse petróleo a Rússia está disposta a conceder às companhias dos EUA. É só lembrar os 3 bilhões de dólares oferecidos por Bush-pai à Rússia. Ambos os Bush são, sobretudo, negociantes de petróleo e se preocupam mais com esse tipo de cálculo do que com os delicados pontos da política para o Oriente Médio, como ‘re-destruir' a infra-estrutura civil iraquiana.

O primeiro passo na desumanização do odiado "outro", é reduzir sua existência a poucas (porém, insistentemente repetidas) simples frases, imagens e conceitos. Isso torna mais fácil bombardear sem escrúpulos o inimigo: depois do "11 de setembro", foi fácil para Israel e para os EUA lidar, respectivamente, com os povos palestino e iraquiano. O que importa notar é que, por esmagadora preponderância, a mesma política e o mesmo cruel plano são levados adiante, principalmente pelos ianques e israelitas. Nos EUA, como escreveu Jason Vest (The Nation, 2 set), membros do ultradireitista Instituto Judeu para a Segurança Nacional (JINSA) e do Centro para a Política de Segurança (CSP) povoam o Pentágono e os Comitês do Departamento de Estado. Incluindo o que é chefiado por Richard Perle (indicado por Wolfowitz e Rumsfeld). A segurança de Israel e a dos EUA são equiparadas e o JINSA gasta a "maioria de seu orçamento, levando um bando de generais e almirantes ianques da reserva para Israel". Quando voltam, eles aparecem na televisão, arvorando a linha do Likud.

A revista Time escreve sobre a direção da Política de Defesa do Pentágono, dizendo que muitos dos seus membros vêm do JINSA e do CPS, em artigo intitulado "Inside the Secret War Council", edição de 23 de agosto.

Por seu lado, Sharon tem repetido e reafirmado que sua campanha contra o terrorismo palestino é idêntica à que os EUA fazem contra o terrorismo em geral, em particular, contra Osama Bin Laden e a Al-Qaeda. E esses, ele afirma, são uma porção do mesmo terrorismo internacional (que inclui muitos muçulmanos), em toda parte: Ásia, África, Europa e América do Norte, ainda que o eixo de Bush para o terrorismo "diabólico" no momento pareça concentrado no Iraque, Irã e Coréia do Norte. Existem, hoje, 132 países onde as coisas vão de mal a pior, com algum tipo de presença militar ianque inteiramente ligada à guerra contra o terror. Questão essa que permanece indefinida e flutuante, de maneira a poder integrar, no plano doméstico, qualquer patriótico frenesi, e fazer respeitar e apoiar ações militares. Cada pedaço das áreas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia está ocupado pelas tropas israelenses que, rotineiramente, matam e detêm palestinos, sob o pretexto de que são terroristas "suspeitos" e militantes. Com freqüência, casas e lojas são demolidas, com a desculpa de que abrigam fábricas de bombas, células terroristas e lugares de reuniões da militância. Sem nenhuma prova. Sem nenhuma pergunta de repórteres, que aceitam a posição unilateral israelense, sem nem mesmo murmurar.

Iraque é o maior inimigo de Israel, por causa de seus recursos econômicos

Esse esforço sistemático de desumanização estendeu um imenso manto de mistificação sobre todo o mundo árabe. Tudo que olhos e ouvidos percebem é terror, fanatismo, violência, ódio da liberdade, insegurança e armas de destruição maciça, que, devem ser encontradas não onde sabemos que estão — e onde não as procuram (Israel, Paquistão, Índia e EUA, entre outros) —, mas, no hipotético espaço das fileiras terroristas, nas mãos de Saddam, nos bandos de fanáticos, etc. A imagem constante que aparece nesse manto mistificador é que os árabes odeiam Israel e judeus, sem nenhuma razão, exceto por que odeiam os EUA também.

Potencialmente, o Iraque é o mais terrível inimigo de Israel, por causa de seus recursos econômicos e humanos. Os palestinos são aterradores, porque ficam como uma pedra no caminho da completa hegemonia e ocupação israelense. Direitistas, como Sharon, que representam a Grande Ideologia sionista, afirmam que toda a Palestina histórica pertence aos judeus. Eles têm sido bem sucedidos, especialmente em fazer com que suas opiniões sobre a região predominem entre os que, nos EUA, apoiam Israel. Uzi Landau, Ministro Israelense da Segurança Interna (e membro do Partido Likud), apareceu na televisão estadunidense, neste verão boreal, afirmando que toda essa conversa sobre "ocupação" não tinha sentido: "Nós somos um povo que está de volta para casa." E ele não foi nem mesmo questionado pelo apresentador do programa (Mort Zuckerman, que, além de proprietário do US News and World Report, é líder do Conselho de Presidentes das Maiores Organizações Judaicas), sobre tão extraordinário conceito. Mas, o jornalista israelense Alex Fishman, no Yediot Aharanot de 6 de setembro, descreve as "idéias revolucionárias" de Condoleeza Rice; Rumsfeld (que agora também se refere aos "territórios ocupados"), Cheney, Paul Wolfowitz, Douglas Feith e Richard Perle (que autorizou o notório estudo Rand, designando a Arábia Saudita como inimiga e o Egito como prêmio para os EUA no mundo árabe) como terrivelmente belicosas, já que advogam mudança de regime para todo país árabe. Fishman se refere a Sharon, dizendo que esse grupo, em que muitos são membros do JINSA e do CSP, filia-se ao Instituto de Negócios com o Próximo Oriente de Washington e domina o pensamento de Bush. Diz o jornalista que, "ao lado desses nossos amigos estadunidenses, Effi Eitan (um dos mais sem escrúpulos e linha-dura gabinetes israelenses) é uma perfeita pomba". (...)Um pequeno grupo de não analisadas e auto-inventadas frases, tais como "perempção antecipatória" ou "autodefesa preventiva", são usadas por Donald Rumsfeld e seus colegas, para persuadir o público de que a preparação para a guerra contra o Iraque, ou contra qualquer outro estado que necessite de"mudança de regime" (ou, pelo uso de um eufemismo: "destruição construtiva") estão escoradas pela noção de autodefesa. As pessoas, afligidas por repetidos alertas, são encorajadas a delatar às autoridades comportamentos "suspeitos". Milhares de muçulmanos, árabes e sul asiáticos estão sendo detidos e, até mesmo, encarcerados sob suspeita. Tudo levado a cabo por ordem do presidente, como uma faceta do patriotismo e do amor pela "América". Ainda não consegui entender o que significa amar um país (no discurso político ianque amar Israel é também frase recorrente), mas, parece que significa lealdade cega e inquestionável aos poderes, lealdade que cancela os horrores da destruição do Iraque e do Oriente Médio causados pela política de Bush.

A discussão da política exterior despoja todo outro povo de identidade humana

Tão poderosos são os EUA, comparados com outros maiores países juntos, que não podem, de fato, ser constrangidos ou compelidos a obedecer qualquer sistema internacional de conduta. Afora a abstração da pergunta "será que nós deveríamos ir à guerra contra o Iraque, a 7.000 milhas?", a discussão da política exterior despoja todo outro povo da identidade humana; Iraque e Afeganistão, sob o visor de um míssil inteligente, ou na televisão, são, no máximo, um tabuleiro de xadrez, que "nós" decidimos invadir, destruir e reconstruir à vontade. A palavra "terrorismo", e a guerra contra ele, serve para favorecer esse sentimento, porque a grande maioria dos estadunidenses nunca teve contato ou convivência com terras e povos muçulmanos e não percebem o sentido que possa ter para a vida uma campanha sustentada de bombardeamento.A História e a Política desaparecem. Tudo porque a memória, a verdade e a existência humana vêm sendo, de fato, desvalorizadas. Não podemos falar de sofrimento palestino ou da frustração árabe. A presença de Israel nos EUA impede isso.

Diante de uma fervente demonstração pró-Israel, em maio, Paul Wolfowitz mencionou vagamente o sofrimento palestino, mas foi tão vaiado, que nunca mais ousou fazer menção a ele.

O tema da guerra contra o terrorismo permite que Israel e seus seguidores cometam crimes de guerra

Uma política coerente de Direitos Humanos ou de livre comércio que se atenha às enfatizadas virtudes dos direitos humanos, da democracia e da liberdade econômica, está provavelmente sendo solapada por grupos de interesse especiais (lobby étnico, a indústria do aço e a da defesa, o cartel do petróleo, potentes grupos ruralistas, o lobby dos armamentos, entre outros).

Cada um dos 500 distritos eleitorais representados em Washington, por exemplo, tem uma indústria ligada à defesa, ou a armamentos. Assim, como secretário de Estado, James Baker disse, pouco antes da Guerra do Golfo, que, o verdadeiro resultado da guerra contra o Iraque seria o "emprego". Quando falamos de relações exteriores, vale lembrar que somente algo em torno de 25 ou 30% (a comparar com os 15% de estadunidenses que viajam para o exterior) dos membros do Congresso têm passaportes. O que dizem ou pensam, tem menos a ver com a história, a filosofia ou com idéias do que com quem influencia sua campanha política, quem a financia, etc. Dois membros do Congresso — Earl Hilliard, de Alabama, e Cynthia McKinney, da Geórgia, partidários do direito palestino à autodeterminação, críticos de Israel — foram recentemente derrotados por candidatos relativamente obscuros, financiados pelo que abertamente é conhecido como dinheiro de Nova Iorque (isto é: judeu). O par derrotado foi censurado pela imprensa como extremista e antipatriótico. No que diz respeito à política dos EUA para o Oriente Médio, o lobby sionista transformou o poder legislativo do governo ianque no que o antigo senador Jim Abourezk chamou de território ocupado por Israel. O Senado apresentará, periodicamente, resoluções enviadas ao presidente reiterando o apoio dos EUA a Israel. Tal resolução existiu, em maio, bem no período em que as forças de Israel ocupavam e destruíam todas as maiores cidades da faixa de Gaza e da Cisjordânia. Uma das desvantagens deste endosso às políticas mais extremistas de Israel é que, a longo prazo, será simplesmente ruim para o futuro de Israel como um país do Oriente Médio. Tony Judt argumentou isso, com justeza, sugerindo que o impasse sionista de permanecer nas terras palestinas levará a lugar nenhum e simplesmente protela a inevitável retirada.

O tema da guerra contra o terrorismo tem permitido a Israel e a seus seguidores que cometam crimes de guerra contra toda a população palestina da Faixa de Gaza e da Cisjordânia — 3,4 milhões dela se tornaram prejuízo colateral não-combatente. Terje Roed Larsen, administrador especial da ONU para os territórios ocupados, publicou um relatório que inculpa Israel pela indução de uma catástrofe humana: o desemprego atingiu 65%, 50% da população vive com menos de 2 dólares por dia e a economia está arruinada. Em comparação com esta situação, o sofrimento e a insegurança de Israel são consideravelmente menores: não há nenhum tanque palestino que ocupe qualquer parte de Israel, ou mesmo que desafie assentamentos sionistas. Nos dois últimos anos, Israel matou 75 palestinos, muitos deles crianças. Demoliu casas, deportou, arrasou terra agrícola, impediu a população de sair de casa impondo toque de recolher de 80 horas. Não permitiu, por seus bloqueios de estradas, que civis circulassem ou ambulâncias e ajuda medica passassem, além dos cortes usuais de água e eletricidade. Escolas e universidades não podem funcionar. Enquanto essas são ocorrências quotidianas, a ocupação e dezenas de resoluções do Conselho de Segurança da ONU estão aí há, pelo menos, 35 anos. Mas, não são mencionadas na mídia ianque, senão ocasionalmente, como notas de longos artigos sobre debates no governo israelense, ou os desastrosos suicídios de homens-bomba, que ocorrem. A minúscula frase: "suspeito de terrorismo" funciona tanto como justificativa como epitáfio para quem quer que seja que Sharon tenha escolhido para matar. Os EUA não objetam, exceto nos termos mais brandos, quando dizem que isto tudo não é útil, mas serve para deter a próxima rodada mortífera.

A situação do Oriente Médio vai se tornar muito pior quando os EUA invadirem o Iraque

Por causa dos interesses sionistas nos EUA, a política ianque para o Oriente Médio é israelo-cêntrica. Na conjuntura pós 11 de setembro a direita cristã, o lobby israelense e a beligerância da administração Bush são teoricamente racionalizados pelos neoconservadores falcões, cuja visão do Oriente Médio tem por objetivo a destruição dos inimigos de Israel. O que, às vezes, é apresentado pelo eufemismo de redesenhar o mapa, mudança de regime e instalação da "democracia" nos países árabes que mais ameaçam Israel (veja: "The Dynamics of World Disorder:Which God is on Whose Side?" por Ibrahim Warde, Le Monde Diplomatique, set/2002 e "Born-Again Zionists" por Ken Silverstein e Michael Scherer, Mother Jones, Out/2002). A campanha de Sharon pela reforma palestina é simplesmente a outra face deste esforço para destruir politicamente os palestinos — sua maior e mais duradoura ambição. Egito, Arábia Saudita, Síria e até a Jordânia têm sido ameaçados, embora, por piores regimes que possam ser, tenham sido protegidos e apoiados pelos EUA desde a II Guerra Mundial, como o Iraque. O que parece óbvio para qualquer um que conhece o mundo árabe, é que sua situação lamentável está para se tornar muito pior assim que os EUA começarem a invasão do Iraque. Parceiros da política da administração Bush dizem, ocasionalmente, coisas vagas. Por exemplo, como seria excitante levar a democracia ao Iraque e a outros estados árabes e considerar o que isso significará para os povos que aí vivem. Especialmente depois que os bombardeamentos dos B-52 tenham reduzido a cinzas suas terras e casas. Não posso imaginar que haja um só árabe ou iraquiano que não gostaria de ver Saddam Hussein destituído. Tudo indica que as ações militares EUA/Israel tornaram o quotidiano ainda pior para pessoas comuns, mas isto não é nada em comparação com a terrível ansiedade, distorção psicológica e deformações políticas impostas às suas sociedades.

Hoje, nem mesmo a oposição iraquiana expatriada, que tem sido intermitentemente cortejada por, ao menos, duas administrações estadunidenses, nem vários generais ianques, como Tommy Franks, têm muita credibilidade como comandantes para o Iraque no pós-guerra. Nem parece ter sido dada muita reflexão para o que o Iraque precisará, uma vez mudado o regime, uma vez que seus atores internos comecem a se movimentar, uma vez que o partido Baath tenha se desintoxicado. Pode acontecer que nem mesmo o exército iraquiano levante um dedo na batalha em nome de Saddam. Interessantemente, porém, em recente audição no Congresso, três antigos generais do Comando Central dos EUA, expressaram reservas sérias e, eu diria, inválidas, sobre os riscos desta aventura que está sendo planejada militarmente. Mas, mesmo essas dúvidas não são suficientes para reduzir as alucinações do sectarismo interno e da dinâmica etno-religiosa. Particularmente depois de 30 anos debilitantes sob o domínio do Partido Baath, das sanções da ONU e de duas guerras (três, se e quando os EUA atacarem). Ninguém, nos EUA tem a mínima e real idéia do que poderia acontecer no Iraque, ou na Arábia Saudita, ou no Egito, se uma maciça intervenção militar acontecer (...).


* O texto que A Nova Democracia apresenta nesta oportunidade, constitui trechos do artigo de Edward Said, personalidade acadêmica do mundo árabe e destacado defensor da Palestina. "Israel, Iraque e Estados Unidos" apareceu no Al-Ahram, em outubro deste ano, e sua publicação, cuja tradução se deve a Cléo Vieira-Vernier, foi autorizada pela Embaixada da Palestina em nosso País.

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