O descobridor dos arquivos do Condor

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Em depoimento para AND, o Dr. Martin Almada — professor paraguaio que ao querer melhorar o ensino e as condições de vida dos seus pares foi perseguido, acusado de terrorista intelectual e torturado — e que desde sua prisão definiu que se saísse vivo desmascararia seus verdugos. Esta missão o levou 15 anos depois a revelar ao mundo os mais completos arquivos da operação Condor, fornecendo provas irrefutáveis contra os déspotas da América Latina e seus comparsas.

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A criação da Universidade Popular de Direitos Humanos Carmen de Lara Castro na ex-mansão dos Strossner — em Trinidad, Assunção — é o novo projeto de Almada

De origem humilde, Martin foi obrigado a trabalhar desde menino. Com muita dedicação, conseguiu diplomar-se professor e nos anos 1960, junto a sua esposa Celestina Perez, fundou uma escola primária, secundária e técnica — o Instituto de Educação Juan Bautista Alberti — no interior do Paraguai. Abaixo, seu depoimento:

Martin Almada - Eu era um perfeito diretor, do tipo que convinha ao sistema. Era um preguiçoso.Aplicava a política do menor esforço, não trabalhar, não pensar. Até que um dia um jesuíta me presenteia com um livro que iria mudar minha vida. Este livro chamava-se A Educação do Oprimido de Paulo Freire. Li, gostei e compartilhei-o com os outros professores. Formamos uma equipe de seis professores e aplicamos a democracia na aula. Nesse tempo, como era tão preguiçoso, eu não queria assinar os boletins dos alunos, então mandei fazer um carimbo e minha secretária os carimbava. Quando li Paulo Freire comecei a me inquietar. E li um boletim de um menino de sete anos qualificado com nota dez no estudo, mas com mal comportamento. Perguntei para a professora que estava acontecendo com este menino e ela me disse que ele era muito inteligente, mas muito inquieto. Minha visão das coisas tinha mudado e disse-lhe: quando meu filho está no berço e não se move, eu chamo o médico; quando a água se estanca, apodrece; acredita você que a função de um professor é tornar quieto a um menino inquieto? A professora se levanta irritada e me denuncia à polícia política.

Naquele tempo, Almada foi eleito presidente do sindicato docente e começou a organizar uma cooperativa com o objetivo de melhorar a alimentação e possibilitar a construção de moradias para os professores.

— Convidamos os artistas argentinos Leo Dan, Falú, Horacio Guaraní, para nos ajudar. Naquele tempo era proibido reunir mais de quatro pessoas na rua e nós juntamos 500, mil, duas mil pessoas, muita gente, e isto assustou o regime. Era a época em que foi exibido o filme El Profe de Cantinflas (é um filme simples, mas que mostra a luta de um professor que decide ensinar num povoado do interior onde enfrenta a autoridade local que quer a ignorância). Gostamos muito do filme e enviamos uma nota de felicitações a Cantinflas. Três meses depois o embaixador do México no Paraguai nos chamou e diz que Cantinflas viria ao Paraguai e faria um festival para os professores. Nós ficamos muito contentes. Isso saiu na imprensa e o ministro da educação mandou me chamar. Comprei sapatos e gravata para o encontro. Estava certo de que ia ter uma promoção importante. O ministro, muito sério, pergunta-me: Cantinflas vai vir?

— Sim ministro! Eu contente com minha ascensão, sapatos novos, gravata...

— Quem é Cantinflas para você?

— Ministro, é nosso ídolo.

— Hum, Cantinflas jamais pisará terra paraguaia.

— Por que ministro?

— Cantinflas é comunista! Paulo Freire é comunista! Cuide-se, você está lendo livros comunistas. Horacio Guaraní é comunista! Você está associando-se com a subversão e se não cortar suas relações comunistas vão te cortar a cabeça.

Dias depois o sindicato dos professores que Martin Almada presidia pede 50% de aumento de salários. Os militares instalam-se na esquina da escola, onde ele também vivia com sua esposa, controlando seus passos. Aí decidiu que era preciso sair do país e conseguiu uma bolsa de estudos para fazer sua pós-graduação na Universidade de La Plata na Argentina. Sua tese de doutorado foi Paraguai: educação e dependência, na qual mostrava que a educação nesse país só beneficiava à classe dominante e estava a serviço do subdesenvolvimento e a dependência. O que ele não sabia era que já em 1974, durante o governo de Perón, a inteligência militar estava infiltrada nas universidades preparando uma lista negra para a implementação do terrorismo de Estado.

Ao voltar a Assunção, em novembro de 1974, é sequestrado, preso e submetido a um tribunal militar composto por agregados militares do Chile, Argentina, Uruguai e do próprio Paraguai. Foram 30 dias de interrogatórios e torturas.

— Depois me transferiram para uma delegacia da Interpol, onde vinham os torturadores todos os sábados para relaxar, jogavam pingue-pongue e futebol. Conhecíamos a todos, mas não seus nomes. Até que num dia cai preso um delegado, porque não tinha denunciado seu filho que tinha estudado também em La Plata e integrou o Centro de Estudantes, o que para a polícia significava ser subversivo. Este delegado conhecia todos os torturadores e me deu os nomes. É o primeiro a me contar sobre a existência da Operação Condor em maio de 1975 e me disse que se quisesse saber tudo o que estava acontecendo, se um dia saísse vivo, que lesse a Revista Policial de Paraguai, que ali encontraria as pistas.

Um delegado da polícia política telefonava para a esposa de Almada diretamente da sala de tormentos para fazer-lhe ouvir os gritos de sofrimento. Dias depois, enviaram roupas ensanguentadas e lhe disseram que estava viúva. Não resistiu e morreu de infarto. Para Almada disseram que sua esposa tinha se suicidado o que foi muito traumático, principalmente para seus filhos.

Então foi transferido ao lugar mais sinistro, onde estava preso o Comitê Central do Partido Comunista Paraguaio, e na cela contígua estava o argentino Amílcar Santucho, irmão do líder do maior grupo guerrilheiro argentino, o ERP (Exército Revolucionário do Povo). Ele não aceitava essa situação, reclamava ser tratado como preso político. Por má conduta o transferiram ao campo de concentração "Emboscada".

— Depois fiz uma greve de fome por 30 dias. A Anistia Internacional me ajuda, sou libertado e vou ao Panamá onde o presidente Torrijos fala com o secretário geral das Nações Unidas e sou contratado como consultor da Unesco para a educação. Me mudo para Paris com meus três filhos e minha mãe. Minha situação mudou totalmente, eu que não comia, vivia pelo chão em condições subumanas, comecei a ter um grande salário e um cargo importante.

Na Unesco realiza importantes projetos educacionais, mas também se depara com a inoperância deste organismo dominado pelo Banco Mundial e políticas que visam estudar a pobreza do terceiro mundo sem intenção de a enfrentar.

O dascismo durou mais quinze longos anos. Na França, seguindo o conselho daquele delegado, tinha lido a Revista Policial encontrando os nomes dos verdugos e onde se reuniam. Regressa ao Paraguai decidido a elucidar aqueles anos negros. Como advogado, e apoiado no prestígio de ter sido alto funcionário da ONU, entra na justiça paraguaia com um pedido de antecedentes criminais. A polícia e o exército declaram que não tem seus antecedentes e que consta que nunca esteve preso. Inconformado, sai em busca dos arquivos secretos. Desconfia de três lugares pelo que leu na revista. Nas proximidades de um deles encontra uma senhora que lhe conta que tinha sido expulsa de sua propriedade na época para a criação de um centro de torturas. Pouco depois recebe o telefonema de uma senhora, ex-esposa de um comissário, que diz saber onde está o que ele procura. Reúne-se com ela, que lhe passa um mapa com a localização dos arquivos. A informação das duas mulheres dá no mesmo ponto. Então se encontra com o jovem juiz José Fernández, conta-lhe a novidade e decidem pela busca e apreensão no local. E assim, no dia 22 de dezembro de 1992, acompanhados de um escrivão, dirigiram-se ao local. O delegado Ismael Aguilera, responsável pela guarda, quis impedi-los, mas o juiz valentemente enfrentou-o e bradou "eu estou investido da autoridade que me outorgam a constituição e a lei e lhe ordeno que abra o lugar". Quando entraram no quarto encontraram cinco toneladas de arquivos referentes à história da repressão no Paraguai desde o ano de 1929 a 1989, conexão nazista, operação Condor, tráfico de armas...

Alguns dos documentos:

  • Como manter vivos os torturados (manual da CIA).
  • Foto homenagem a Hitler.

  • Curso de preparação de grupo antiguerrilheiro no centro de alistamento da cidade de Manaus (ainda se desconhece a localização).

  • General Figueiredo dá aula sobre serviços de inteligência.

  • Um sindicato de operários metalúrgicos se reúne num colégio religioso católico e o reverendo-diretor os denuncia à polícia política.

  • De quando Videla foi ao Paraguai e voltou. Num segundo avião da comitiva levam presos uruguaios e argentinos que seriam atirados à água.

  • Fotos de estudantes e professores, lista dos primeiros torturadores formados pelo USA no Paraguai em 1956.

  • Ata do nascimento da Operação Condor.

Quando Jimi Carter chega à presidência manda acabar com o Condor, lhe corta recursos e a Cia se retira. Um documento mostra que Strossner e Figueiredo buscam associação e financiamento com a Seita Moon*.

— No instante em que vimos o que tínhamos descoberto chamamos a todos e prontamente chegou a imprensa nacional e internacional e alguns parentes de vítimas da repressão. Corríamos o grande perigo de que a qualquer instante chegasse o exército e nos tirasse tudo. Nós mesmos enchemos um caminhão.

Dias depois o juiz espanhol Baltasar Garzón, avisado das descobertas, chega ao Paraguai, onde Almada lhe fornece os documentos para ajudar a formar processo de indiciamento contra Pinochet. Almada descobre outros depósitos de documentos. Todos os cidadãos, entidades, organizações públicas ou privadas, países que decidiram investigar e fazer justiça aos implicados nos delitos da Operação Condor tiveram um subsídio crucial nessas descobertas. Os arquivos do terror estão disponíveis a pesquisadores e historiadores de todo o mundo na Fundación Celestina Perez de Almada e no Museo de las Memorias, localizado onde funcionava um antigo centro de detenção.

Mas o resultado exitoso das suas buscas, reconhecidas em premiações internacionais como o prêmio Nobel alternativo da paz, outorgado pelo senado da Suécia e muitos outros, não foram o bastante para dar por terminada sua tarefa. Ele antes pensava que o caminho para a liberdade do seu povo passava prioritariamente pela educação e que nela concentraria seus esforços. Mas depois viu que o mais urgente era exercer a advocacia para defender os perseguidos e processar os poderosos e torturadores. Os 25 anos da corrupta gerência de Strossner consolidaram uma casta que continua em postos-chaves, agora dentro do governo do clérigo Lugo. A corte suprema do Paraguai recentemente homenageou o delegado Aguilera, aquele que guardava os arquivos, como se ele os tivesse revelado. Também Almada é frequentemente hostilizado com processos que visam amedrontá-lo e desacreditá-lo. Mas dentro de todas suas atividades, Almada prefere se definir como um "caçador de arquivos" até porque essa tarefa não terminou. De tempos em tempos consegue encontrar novos depósitos em diversos locais do Paraguai. Recentemente insistiu para que o Brasil abrisse seus arquivos da Operação Condor. Outra pendência é a Guerra da Tríplice Aliança mais conhecida como a Guerra do Paraguai. Nela, Argentina, Uruguai e Brasil se uniram sob o comando do império da época, a Inglaterra, para acabar com um governo que se declarava independente. Como resultado da agressão, o Paraguai perdeu boa parte de seu território, morreram 90% dos homens com mais de 15 anos e, entre a pilhagem, seus arquivos nacionais foram trazidos ao Brasil. Almada também reclama estes arquivos que o ministro Nelson Jobin já se negou a entregar.


*A seita Moon é uma organização pseudo-religiosa proprietária de enormes extensões de terras no Brasil, Paraguai e em muitos outros países do mundo. Suas primeiras fontes de ingressos foram os donativos de seus seguidores, passando depois a contar com os lucros de hotéis, empresas pesqueiras, jornais, fábricas de armas, influindo mafiosamente na política mundial.

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