No USA e na Europa, a crise castiga mais os imigrantes

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http://www.anovademocracia.com.br/51/16a.jpgComo se sabe, a economia do México é profundamente dependente das remessas que os mexicanos emigrados para o USA enviam para os familiares que permanecem em seu país de origem. Os dólares remetidos desde o solo ianque já superaram as receitas do forte setor de turismo do país, ficando atrás apenas da riqueza gerada pelo petróleo. Cerca de 30% da população mexicana depende do dinheiro que seus compatriotas ganham nos estaleiros, restaurantes, fábricas e na construção civil do outro lado da fronteira. Em 2003, as remessas cresceram espantosos 35%. Em 2007 o montante atingiu seu ápice, chegando a 24 bilhões de dólares. Entre janeiro e agosto de 2008, no entanto, elas caíram 4,2%. Em outubro, surpresa: o Banco Central mexicano registrou um aumento significativo das transferências de dólares. Mas afinal ficou constatado que não se tratava de uma inversão da tendência de queda; o que estava acontecendo, na verdade, era que grande parte dos imigrantes mexicanos no USA estavam enviando de volta suas poupanças antes de voltarem em definitivo para casa. Com a recessão que se abateu sobre a economia ianque, sobrou principalmente para eles: foram os primeiros a perder seus empregos.

A diminuição das remessas está colocando milhares de mexicanos em situação de pobreza extrema, principalmente os familiares dos emigrados que não puderam ou não conseguiram atravessar a fronteira com o USA, que não acham trabalho nos estados fronteiriços fadados à desertificação econômica, e que dependem exclusivamente do dinheiro que vem de fora. É uma situação à qual foram condenados por sucessivas administrações oportunistas no México, que trataram de enriquecer a fração da grande burguesia que representavam — e que ainda representam, na figura do presidente Felipe Calderón — enquanto entregavam o país e seus habitantes à sanha exploratória do grande capital ianque. Agravaram a situação do povo mexicano, feito refém do vizinho imperialista do norte, na forma de mão de obra barata e descartável, sem direitos, cuja única garantia é que poderão voltar e padecer na miséria sem serem incomodados, desde que o façam ao sul da famigerada fronteira.

Pois é o que os emigrados castigados pela crise financeira vêm tentando fazer agora: voltar para casa e ver o que a vida lhes reserva em um país arruinado pela exploração imperialista e pelas classes dominantes locais. Sejam os que trabalhavam no USA com os documentos em dia, sejam os chamados “ilegais”. Hoje, observa-se uma repentina interrupção de uma tendência que até pouco tempo parecia impossível de ser contida: a imigração ilegal está diminuindo no USA. Nos 12 meses até setembro de 2008, menos 724 mil pessoas foram detidas pela polícia de fronteira ianque quando tentavam entrar no USA pelo México. Foi a contagem anual mais baixa desde a década de 1970. Mas isto não quer dizer que a fronteira esteja mais bem guardada. Na verdade, ela está, mas a principal razão é que menos pessoas estão indo atrás do que os próprios ianques chamam demagogicamente de “sonho americano”. Tudo por causa da recessão, que foi anunciada recentemente, mas que já vinha se configurando desde longa data.

Dispensados, presos e deportados

Muitos imigrantes ilegais costumam trabalhar como jardineiros ou na construção civil. São duas atividades cuja demanda por mão-de-obra diminuiu drasticamente com a crise no mercado ianque de habitação. Porque não são trabalhadores regularizados, é impossível contar ao certo quantos ficaram sem o ganha pão do dia para a noite, mas os números sobre os concorrentes mais próximos dos “ilegais” no mercado de trabalho do USA podem dar uma pista de sua real situação. No último ano, a taxa de desemprego entre os nativos do USA de origem hispânica aumentou de 5,7% para 8,6% — subiu muito mais acentuadamente do que o índice entre negros e brancos. O instituto de pesquisa Pew Hispanic Center calcula que, entre 2007 e 2008, o número de imigrantes ilegais no USA caiu em 500 mil pessoas. Nos últimos três anos tem havido mais imigração legal do que ilegal, o que é uma inversão da tendência anterior, e até o número de imigrantes legais pode estar diminuindo, por causa da deterioração da economia.

Na Europa, agravam-se as tensões em torno da disputa pelos empregos que restam. A decomposição do capital internacional vem fazendo o patronato europeu colocar 10 mil trabalhadores na rua por dia, em média. Isto vem atiçando atitudes xenófobas entre alguns dos europeus nativos que precisam disputar vagas de trabalho com os que vêm de fora. Incidentes vêm sendo registrados com frequência cada vez maior, principalmente entre espanhóis e marroquinos. Na Espanha, milhares de pessoas que perderam seus empregos em setores urbanos da economia, como a construção civil, estão voltando para suas cidades de origem, a maioria no campo, e disputando vagas no setor agrícola com imigrantes africanos. Com a miséria batendo à porta, muitas vezes os trabalhadores sucumbem ao divisionismo que faz parte do pacote de exploração intensificada do qual os patrões lançam mão em tempos de crise. Por um momento se esquecem de que se suas dificuldades comuns remetem a questões de classe, e não de nacionalidade; que a solução para suas agruras passa pela luta contra a burguesia que oprime a ambos, e não por ambos saindo no braço, brigando pela última enxada na lavoura.

Não obstante, as últimas semanas de 2008 foram férteis em revoltas e protestos de imigrantes organizados em diferentes graus, seja nas ruas, nas empresas, ou nos famigerados Centros de Detenção de Imigrantes (ou Centros de Internação e Expulsão, como os próprios imigrantes preferem chamá-los), verdadeiros campos de concentração onde países como França, Itália e a própria Espanha há tempos vem despejando mais e mais africanos e latino-americanos que foram se tornando dispensáveis para o patronato europeu. À medida que a crise avança, corre-se o risco destes centros ficarem superlotados de refugos humanos à espera de serem mandados de volta para seus países de origem, onde poderão padecer na miséria sem serem incomodados. Como os mexicanos que estão voltando do USA.

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