Talento ao som de cavaquinho e bandolim

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Ela toca bandolim e cavaquinho maravilhosamente bem, tem uma voz igualmente bela e, como brinca: 'nenhuma ruga apesar de trinta anos de carreira'. Essa carioca bem humorada gravou seu primeiro vinil aos onze anos de idade, numa série de quatro, intitulados 'Choro de menina'. Depois de rodar vários países mostrando a cultura brasileira, Nilze Carvalho faz parte do circuito da Lapa, com apresentações solo e com o Sururu na Roda, grupo que começou a se formar na universidade de música.

http://www.anovademocracia.com.br/53/23b.JPGFilha de uma família muito pobre, mas bem musical, Nilze conta que faltavam muitos móveis em sua casa, só não faltava um pequeno toca-discos e os Lps de Jacob do Bandolim, Valdir Azevedo, Abel Ferreira e outros que seu pai, Cristino Ricardo, fez questão de passar para os filhos.

Ele tocava trompete em bailes e eventos diversos e, paralelo a isso, trabalhava em outra profissão para poder sustentar os cinco filhos. Atualmente apenas leciona música — conta Nilze com orgulho.

Certo dia ele chegou em casa com um cavaquinho bem pequeno, parecendo um brinquedo, que havia ganhado de um amigo, e era uma festa quando ele saía para trabalhar, com todos querendo pegar o instrumento para brincar (risos) — lembra.

Na época eu tinha cinco anos de idade, e segundo contam meus irmãos, comecei a ficar muito com o instrumento e a conseguir tocar Acorda Maria Bonita,  que meu pai sempre cantava para nós. E foram logo contar para ele, que passou a me dar uma atenção musical maior — conta.

'Seu' Cristino, como um bom 'pai coruja', conseguiu um violão para poder acompanhar a pequena filha nos estudos de cordas, já que era especializado em um instrumento de sopro.

Juntos tivemos o aprendizado de cordas. Morávamos no bairro de Anchieta, bem distante do Centro do Rio, e a nossa diversão era ouvir música e tentar tocar. Como não tinha dificuldades em tocar 'de ouvido', e com a ajuda do meu pai para identificar as notas, fui me aprimorando rapidamente — explica.

Ganhei meu primeiro cachê aos 6 anos de idade, me apresentando em um clube onde meu pai fazia bailes de carnaval. Ele me levava para que eu aprendesse mais e me 'soltasse', e eu não tinha medo, ia errando e acertando, e isso é um aprendizado muito bom, e bem comum em rodas de choro, quando alguém chega com seu instrumento e entra na roda, independente de tocar bem ou não, aprendendo com os outros. Costumo dizer que a roda de choro é um espaço bem democrático — defende.

Quando comecei a tocar Jacob do Bandolim esbarramos na questão do limite do instrumento, já que o bandolim tem uma afinação mais ampla que o cavaquinho. Por não poder comprar um bandolim, meu pai afinou o cavaquinho para bandolim, e eu comecei a tocar os dois instrumentos em um só (risos), isso lá pelos 9 anos de idade — lembra Nilze que atualmente usa o bandolim para tocar choro e o cavaquinho samba, e ainda pega num violão também.

Nesta época 'seu' Cristino montou um grupo de samba com amigos e Nilze foi parar na Portela.

Nos finais de semana acontecia uma espécie de gafieira infantil. A tia Vicentina, figura respeitada na escola, fazia a comida, e tinha a orquestra do mestre Cipó. Então o Carlinhos Maracanã, que era o presidente da escola, me convidou para fazer micro-apresentações nos intervalos da orquestra, e por conta disso conheci o Adelson Alves — que lançou a Clara Nunes — e o Rubem Confete, ambos radialistas da Rádio Nacional, e fui convidada para gravar o  Choro de Menina — conta.

Na gravação do disco eu tive o privilégio de tocar com o grupo Época de Ouro, que acompanhou Jacob. Nesta época já tínhamos conseguido comprar um bandolim, mas ele era tudo de ruim, duro, uma coisa horrorosa (risos), então o Ronaldo do Bandolim me emprestou o dele, que era maravilhoso. Depois o Chiquinho, irmão do Paulinho da Viola me deu um de presente — diz bem humorada.

Rodando o mundo com o Brasil

Por intermédio desses discos, aos 15 anos de idade foi para a Itália, a convite do italiano Franco Fontana.

Ele é um apaixonado por música brasileira e tinha inclusive uma gravadora na Itália chamada Maracanã. Levou um grupo de cinquenta pessoas, sendo o artista principal o Jair Rodrigues, para fazermos um show de teatro de revista brasileiro por lá. Entre outros, era choro, samba, xaxado, frevo, forró, bossa nova, capoeira — explica.

A princípio eu apresentava choro, depois o Fontana me colocou para cantar e tocar violão, em um quadro de bossa nova. Mas o que mais me chamou a atenção foi quando me apresentei pela primeira vez no teatro Sistina, em Roma, tocando o baião 'Delicado', de Valdir Azevedo, que aqui no Brasil muitas pessoas nem conhecem, e todo o teatro vibrou, mostrando conhecer muito bem a música — acrescenta.

Nilze foi mais duas vezes para fora do país com o grupo de Fontana, em uma temporada de seis meses pela Austrália e um ano pelo USA. Também mostrou a cultura brasileira no Japão, a convite de uma japonesa que morou no Brasil muitos anos, e que, voltando ao seu país, estava abrindo uma churrascaria brasileira com música ao vivo.

Fui para ficar seis meses e acabei ficando seis anos. Tocava choro, samba... Todos os funcionários eram brasileiros, e o negócio deu tão certo que ficamos famosos por lá, aparecendo na televisão e tudo (risos). Depois ela abriu franquias, e fui para a China onde trabalhei quatro meses em uma filial. Aprendi com esse trabalho a 'canja' de tocar nas noites, e gravei até discos — conta alegremente.

De volta ao Brasil Nilze foi cursar licenciatura em música na Unirio.

— Na universidade conheci a Camila Costa e acabamos formando, juntamente com meu irmão Sílvio e Fabiano Saleque, o grupo Sururu na roda. Nesta mesma época o Hermínio Bello de Carvalho me convidou para substituir a Teresa Cristina no projeto 'o samba é a minha nobreza', que gravou o disco, mas não pôde participar dos três meses de shows. E para mim foi maravilhoso, porque me deu muita visibilidade e me fez cair nesse circuito da Lapa — explica.

Amo tocar e cantar, apesar de não me arriscar a fazer nenhuma letra por enquanto (risos). Só componho música, inclusive no terceiro cd do Sururu, que acabamos de lançar, e no meu disco solo,  Estava Faltando Você,  estão algumas — diz com alegria.

Nilze tem trabalhado bastante em apresentações solo, com outros músicos e com o Sururu na Roda. Está envolvida no projeto Samba na Universidade, que são shows da velha guarda e nova geração do samba em algumas universidades, na produção de discos de amigos, e ainda tornou-se apresentadora de tv: todas as quartas-feiras, a partir das 20:30hs, apresenta o Cena Musical, pela TV Brasil, um programa que mostra eventos, shows e lançamentos de música.

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