Dois gigantes penduram suas violas

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Parte o último Jacó

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Pedro Jacob e seu filho Jacozito

Foi numa manhã seca de sol "pelando" do norte de Minas, durante os acertos finais para dar início a um congresso da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas, na cidade de Janaúba, quando pela primeira vez ouvi os acordes de Ladrão de terra interpretada por Jacó e Jacozinho. Jamais havia ouvido uma música da dupla, sequer ouvido falar seu nome. E a música se repetiu uma, duas, dez vezes, cantada alegremente pelos camponeses, que pareciam cantar sua própria experiência. A letra fala da saga de um camponês que tem suas terras roubadas e expulsa o grileiro e seus capangas à bala.

Um verso ficou gravado em minha memória, e muitas outras vezes eu haveria de ouvi-lo:

Nóis tava de onze a onze na parada nesse dia...
O pobre é carta baxa e os rico são as mania...
Foi uma chuva de bala só capanga que corria...
Foi pela primeira vez, que o dinheiro não valia...
O baruio acabô cedo, mim entregaram foi de medo terras que me pertencia...

Na cerca de minha terra ai ai
Quem mexer ninguém imagina ai ai
Os arame são de bala ai ai
E os mourão de carabina ai ai"

Quanto soube da morte de Pedro Jacob, logo pensei: AND não pode deixar de lhe prestar a devida homenagem. O que fazemos aqui, no entanto, é oferecer aos leitores uma pequena biografia da dupla Jacó e Jacozinho, um apanhado de vários relatos de parentes, fãs e amigos, publicados em jornais e na internet.

Jacó e Jacozinho não formavam uma dupla permanente. Na verdade, eles vieram de uma família de muitos irmãos dos quais vários revezaram-se e substituíram-se ao longo dos anos, renovando e mantendo acesa a chama da música caipira. Estamos falando dos filhos de Gabriel Jacob (1902 - 1979), grande catireiro paranaense, conhecido também como Jacó da Viola, e de Dona Maria Joana de Jesus (1911 - 1982).

A dupla original com o nome "Jacó e Jacozinho" foi composta em 1962 por Benedito Jacob e Amado Jacob, que gravaram os dois primeiros discos e, após a gravação do primeiro disco, a dupla passou a ser formada por Antonio Jacob e Amado Jacob que permaneceram tocando e cantando juntos até 1980, quando do falecimento de Antônio.

De acordo com Pedro Rafael Jacob (o Jacozito), filho de Pedro Jacob, a dupla Jacó e Jacozinho gravou mais de 40 discos, tendo sido 28 de "Jacó e Jacozinho"; dois com o nome de "Amado e Antônio", quando experimentaram cantar músicas irreverentes e piadas; além de 7 CDs da dupla mais recente Jacó e Jacozito, formada por ele e seu pai.  

Jacó e Jacozinho gravaram músicas de diversos compositores como Lourival dos Santos, Moacyr dos Santos, Sulino, Carreirinho, além de suas próprias composições. Em 1981, Antônio Jacob faleceu vítima de problemas cardíacos.

E em 1982, Amado Jacob gravou um último disco com o Pedro Jacob para cumprir o contrato na gravadora onde destaca-se a música Sete Irmãos, um pequeno resumo da vida da dupla e sua família.

Problemas de saúde levaram a dupla a limitar sua agenda de apresentações e viagens, foi quando na década de 1990 surge um novo talento na família: Pedro Rafael Jacob que, com apenas 17 anos, começou a cantar com seu pai. Assim nasceu a dupla "Jacó e Jacozito" com novo fôlego, uma nova geração dos Jacob levava adiante a música caipira de raiz.

A dupla Jacó e Jacozito se apresentou durante 13 anos. Em uma declaração de Pedro Rafael Jacob publicada no site Boa Música Brasileira, "enquanto houver um Jacó, nossa tradição nunca vai morrer". Seu pai faleceu no dia 19 de março último, quando contava 60 anos de idade, em decorrência de problemas cardíacos.

Pensando em Pedro Jacob, me recordo daquele congresso camponês e do refrão da composição de Moacyr dos Santos e Teddy Vieira. Certamente Pedro Rafael pode estar seguro. Enquanto houver camponeses, operários e a gente simples do povo, haverá sempre um radinho de pilha, um congresso camponês, uma roda de viola para se tocar e se ouvir Jacó e Jacozinho. 

Tião do Carro: cantador e violeiro do povo brasileiro

http://www.anovademocracia.com.br/53/20b2.jpgNo dia 28 de fevereiro faleceu, vítima de enfarto, no Hospital da PUC de Campinas — SP o cantador, violeiro e compositor, João Benedito Urbano, o Tião do Carro.

Reproduzimos aqui um trecho da carta de uma prima de Tião do Carro, publicada no blog "Relatos e divagações".

A cultura perde um grande poeta, compositor, violeiro, aliás, na minha opinião o maior violeiro do Brasil, Tião do Carro. Tião do Carro é João Benedito Urbano, meu primo. João era filho do tio Antônio Urbano, irmão de minha mãe Aparecida Urbano, portanto, primo irmão. Eu o conheci de perto, convivi com ele, posso dizer com clareza de fatos que ele era um enorme coração, tinha a bondade por excelência em sua vida, jamais negava ajuda a quem pedia e eu me encantava por suas inúmeras virtudes. Sua poesia era ímpar, ele declamava e chorava quando fazíamos guerras de trovas e poesias; sinto tristeza quando penso que não poderemos mais fazer nossos saraus a dois, sim, porque eu topava os desafios e quando ele chegava em minha casa, nem almoço tinha, só tinha conversa... conversa... conversa... Precisávamos pedir marmitex. Tempo bom! Tião do Carro tinha muita história, tinha conteúdo, era apaixonante "proseá" com ele, era muito crítico em relação aos poetas, discursava durante longo tempo sobre a pobreza ou a riqueza de algumas letras. João, Tião do Carro, era 8 anos mais velho que eu, mas mesmo assim ele participou de boa parte da minha juventude, era muito amoroso e sempre visitava a tia Cida, minha mãezinha querida e nessa época ele já tocava, cantava em bares, clubes, tinha muitos sonhos e conseguiu realizar alguns. A família sempre reunia para assisti-lo na TV Cultura ao lado de Inezita Barroso, Rolando Boldrin, Jackson Antunes e tantos outros artistas. Ele será para sempre o nosso ícone no cenário da Viola Caipira, objeto de adoração dele, as violas sempre ficavam "repousando" de costas no tapete da sala da casa dele em São Paulo. Grande irmão, talento ímpar que só quem conviveu com ele pode dizer com verdades e finalizo este texto contando que o nome Tião do Carro, que era e sempre será sua alcunha, nasceu quando ele comprou seu primeiro carro e ia paquerar a namorada, sua amada em um ponto comercial da cidade, onde ela trabalhava. (...)

Da mana-prima de coração Fátima Fílon.

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