O verdadeiro pagode no coração do Rio

A- A A+
Pin It

O Rio de Janeiro é repleto de rodas de samba. Nos quatro pontos cardeais da cidade o povo se reúne para fazer pagode, uma reunião de sambistas em prol da música popular procedente dos bairros proletários, bem diferente do que é vendido pelas rádios. E, dentre milhares de sambistas fazendo o "couro comer", vem se destacando nos arredores dos arcos da Lapa o Pagode da Arruda, cujo samba de roda atrai interesse de pessoas de todas as idades.

http://www.anovademocracia.com.br/54/23b.jpg

Como em qualquer roda de samba, os jovens se encontravam para tocar em botequins de Vila Isabel — terra de Noel Rosa — e adjacências, sem compromisso. A idéia da montagem de um grupo de samba irrompeu nuns jogos de futebol disputados às sextas e que sempre acabavam em roda de samba. Ficou decidido que assim que começasse os ensaios na quadra da Mangueira, eles levariam os instrumentos musicais e o repertório de sambas antigos para a banca da Zezé, quase em frente a quadra da Estação Primeira.

A banca da Zezé vendia jornal pela manhã e à noite cerveja, caldo, entre outras coisas. A roda começou a ficar mais conhecida pelo fato das pessoas que iam assistir o ensaio da Mangueira se identificarem com aquela reunião descontraída. Porém, alguns perrengues proporcionaram o surgimento do nome atual do grupo. De acordo com um dos percussionistas e porta-voz do conjunto, Gustavo Palmitão, a tia Zezé vendia a cervejinha dela e tirava uma quantia para ajudar nos custos que viabilizassem a roda de samba na sua banca, como equipamentos, gasolina, etc... Só que mesmo assim a banca não apresentava muita estrutura:

— Teve um dia que choveu e o som queimou. Num sábado seguinte ao que começamos a tocar, uma mulher abriu um comércio ambulante em frente a banca e ela botava um som inconveniente. Pedíamos para ela baixar o volume e ela não baixava. Tinha briga de ambulantes que não queriam contribuir com o samba comenta Gustavo.

Gustavo então decidiu ir ao Mercadão de Madureira e comprou vários ramos de arruda, carranca, figa, olho de boi, tudo para espantar o mau olhado. Segundo a crença dele, depois disso as coisas começaram a fluir:

— Parou de chover, o nosso som ficou melhor, o ambulante que outrora nos atrapalhava deixou de incomodar, ficou compreensivo. Com isso, a galera ia chegando e pegando o galhinho daquela arruda em cima da mesa e colocando na orelha. De imediato, um dos frequentadores vociferou: "esse pagode é da arruda". A partir daí, em meados de 2005, o grupo de amigos ganhou o nome de "Pagode da arruda".

O "Pagode da arruda" é composto por Gustavo Palmitão (repique de mão), Fabão (tan-tan), Marcelinho (rebolo), Pedro Hugo (banjo e voz), Daniel Aranha (violão) e Fábio Bubba (percussão). O repertório contempla uma seleção de sambistas que têm entre os seus principais ícones João da Baiana, Donga e Pixinguinha por serem os precursores de uma geração de sambistas. Porém, suas referências musicais transcendem a Candeia, Cartola, Velha Guarda da Portela, Noel Rosa, João Nogueira, entre outros.

Segundo Gustavo, o critério das músicas escolhidas para as rodas de samba é a pesquisa de sambas antigos, independente se o samba tem uma vertente mais política ou alegre e descontraída.

— Nós compilamos composições antigas e olhamos qual a que encaixa mais com o estilo do pagode, fazendo uma releitura dessas composições, como o Noel Rosa, por exemplo e o Cartola, um samba canção, romântico, nós adoramos.

Os sambistas já possuem composições próprias, mas estão sem patrocínio para gravar um disco. O desejo é gravar um cd de músicas autorais dos membros do grupo juntamente com a regravação de algum samba menos conhecido de Noel e Cartola, de preferência uns que não tenham sido gravados. Enquanto isso, o grupo pesquisa em arquivos e com familiares dos compositores alguma composição inédita para adquirir os direitos e agregar ao futuro cd.

Da banca da Zezé o "Pagode da Arruda" começou a receber convites para tocar em outros lugares. A neta de Cartola, residente da Mangueira, os convidou para fazer homenagens no centenário de seu avô. Além disso, um produtor de uma cervejaria promoveu eventos em São Paulo, nos quais apresentaram três shows homenageando Cartola. Atualmente o "Pagode da Arruda" toca no Parada da Lapa todas às quartas (anexo a Fundição Progresso) e todas as sextas no "Bar na Ladeira", na Rua Silva Romero.

A transição da rua para a casa de show no começo foi difícil já que a característica do conjunto é a roda de samba, de chão, de rua. Então, para tocarem em certas casas, a exemplo da Parada da Lapa e Mistura Carioca, foram necessários sucessivos ensaios. Mesmo que o público e o espaço não se assemelhe à uma roda de samba, o grupo mantém a essência da batucada, do fundo de quintal: dois tan tans, repique de mão, pandeiro, etc..

— Quanto mais instrumento de percussão para nós melhor. Lógico que sempre tem as harmonias, um violão de sete cordas, de seis, cavaquinho, banjo, às vezes um sopro — afirma o músico.

O samba nos meios de comunicação de massa, segundo Gustavo, resume-se a Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Beth Carvalho e Arlindo Cruz e mais alguns. Apesar da gama de novos compositores, grupos, cantores, cantoras, não há visibilidade para a maioria.

O porta-voz do grupo faz questão de afirmar que pagode não é um gênero musical. Para ele Pagode é uma reunião de sambistas que se encontram para fazer uma festa, uma farra.

— O gênero é samba. Pagode é o que a gente faz aqui na Lapa. Nos reunimos pra fazer samba. Isso é um pagode. Você ouve esses pagodes comerciais e não consegue transmitir ao povo através dessas músicas a real essência da música brasileira. Então, mediante o nosso trabalho de resgate, tentar mostrar à grande massa que o samba é muito mais do que três letrinhas melódicas e bonitinhas. Nós fazemos questão de sermos populares.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja